4 - on melancholy hill
[Alerta de gatilho: ansiedade; pânico; automutilação]
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Bem, você não pode ter o que quer
Mas você pode ter a mim
Então vamos ver o mar
Porque você é meu remédio
Quando você está perto de mim
Gorillaz – On Melancholy Hill
– △ –
Lis sentiu sua cabeça doer quando abriu os olhos e se sentou na cama tentando descobrir onde estava. Tinham pôsteres geek e alguns desenhos colados pelas paredes e uma cortina verde cobria a janela ao lado, impedindo a luz da manhã de entrar. Ela conhecia aqueles desenhos, a cortina, a escrivaninha de madeira cheia de papéis, lápis e alguns livros, já tinha estado ali quando...
Merda, pensou quando se deu conta de a quem pertencia aquele quarto.
Olhou para o lado e xingou ao ver Henri dormindo ao seu lado na pequena cama de solteiro que rangeu quando Lis se levantou, reparando que não estava mais usando o vestido que usara na noite anterior, mas sim uma camiseta preta e uma calça de moletom grandes demais que claramente pertenciam ao garoto.
Não se lembrava como nem quando saíra da festa na casa de Kate e muito menos como os dois haviam chegado ali vivos, mas se lembrava sobre o que acontecera exatamente antes disso e se odiou por um momento.
Caçou suas coisas pelo cômodo enquanto pensava em uma maneira de sair dali sem que Dona Emy a visse – a senhorinha era quase uma segunda avó para ela, e a última coisa que Lis queria era ser vista toda descabelada, com a maquiagem borrada e cheirando a vodka barata e cigarros.
– Então você vai fazer o papel do homem que seduz a mocinha durante a festa e vai embora na manhã seguinte sem ao menos dizer tchau? – Ouviu Henri dizer atrás de si e pulou de susto em seu lugar, praguejando.
– Que merda Henri, caralho, você tem noção do que aconteceu aqui? Eu tô muito puta e muito chateada comigo mesma e acho que não quero ter uma conversa agora – confessou com a voz firme e sentiu Henri parar atrás de si, segurando sua mão.
– Lis, você... Caramba, você... Por favor, eu tô preocupado então não comece a agir assim agora – Henri retrucou e ela revirou os olhos.
– Preocupado com o quê, exatamente?
– Você se lembra sobre o que aconteceu ontem, né? Eu... Eu não fiz nada que você não quisesse, né? – Ele perguntou e Lis deixou escapar uma risada nervosa.
– Sim, eu me lembro de tudo e... – Ela parou e engoliu em seco. – E não, não foi nada que eu não quisesse, você não abusou de mim nem nada se é com isso que tá preocupado, eu ainda estava bem o suficiente para saber o que estava fazendo e é por isso que tô me odiando tanto agora.
– O-o quê...
– Confuso, né? – Lis disse e começou a tirar as roupas de Henri para vestir as suas próprias, fazendo o garoto corar e desviar o olhar ao vê-la quase que totalmente despida na sua frente, aquilo era tortura. – E eu tenho certeza que o Matt vai ficar ainda mais confuso que você.
– Matt?
A garota balançou a cabeça e respirou fundo, implorando para alguma força sobrenatural para que nem ela e nem Henri surtassem com aquela conversa.
– É, eu... Eu tenho um namorado – ela disse e sentiu seu peito pesar e um bolo se formar em sua garganta pela sensação de culpa que agora a invadia por completo, era como se dizer aquilo em voz alta tornasse a situação real de vez. – Ou pelo menos eu tinha, eu acho.
– Como assim?
– Como assim?! Henri, você simplesmente me abandonou aqui por dois anos, não esperava que eu passasse esse tempo todo sem conseguir te superar e me privando de tentar ser feliz com outra pessoa, né? Mesmo porque até ontem eu estava coberta pela certeza de que nunca mais eu ia te ver.
– E-eu... - Uma lágrima escorreu pela bochecha de Henri e Lis travou, alguma coisa não estava certa, ela só havia visto Henri chorar uma única vez no dia em que beberam na praça pela primeira vez e ele falara sobre sua família.
– O que foi? – Ela perguntou com a voz fraca e baixa e pousou a mão sobre o rosto de Henri com carinho.
– Foi exatamente isso o que eu fiz – ele admitiu com certo pesar e Lis quase engasgou com a própria saliva, aquela situação toda não parava de piorar. – Eu passei esses dois anos ignorando toda e qualquer garota ao meu redor porque só conseguia pensar em você, porque diferente de você eu sabia que eu ia voltar, e te deixei sofrendo aqui para vir do nada e ainda fazer você trair seu namorado... Meu Deus, eu nem consigo dizer isso assim e nem sei o que dói mais, o fato de que você tinha um namorado ou o fato de que você não vai ter mais por culpa minha.
– Caramba, isso é... É muita informação, Jesus... Você era virgem? – Ela sussurrou com descrença mais para si do que para Henri, franzindo as sobrancelhas, mas logo se recompôs. – Desculpa, esse não é o ponto, enfim, você não tem culpa, ninguém... Eu ia dizer que ninguém tem culpa mas a verdade é que eu tenho sim. É, que merda, eu tenho que ir pra casa.
– Eu não vou deixar você sair assim – Henri disse, segurando a mão de Lis como que para impedir que ela fugisse a qualquer momento. – Eu sei muito bem que se você sair daqui como está vai chegar em casa e vai surtar e vai se machucar.
– Não fale como se me conhecesse agora, as pessoas mudam, ainda mais em dois anos – ela respondeu puxando sua mão de volta, queria muito arrancar os próprios cabelos naquele momento mas isso só daria ainda mais razão à Henri, e era a coisa que ela menos queria no momento.
– Até quando você vai ficar jogando isso na minha cara? – O garoto perguntou sentindo suas mãos suarem e tremerem e seu peito doer conforme ele tentava a todo custo segurar o choro.
– Até eu resolver essa merda e superar isso.
– É... Você tem razão, as pessoas mudam muito em dois anos, porque você é totalmente diferente da Lis que eu conhecia.
– E você queria o que? Que eu ainda fosse aquela menina patética que chora por tudo, mal consegue cuidar de si mesma e abaixa a cabeça pra qualquer merda que façam? E mesmo que eu fosse, você me magoou o bastante pra ser impossível eu aceitar isso quieta - ela retrucou segurando-se para não gritar, os braços cruzados sobre o peito nu.
– Você sabe que nunca te vi dessa forma, ninguém nunca te viu assim a não ser você mesma. Em apenas três meses quando aquela merda toda aconteceu você se mostrou ser muito mais forte e inteligente do que eu já fui a vida inteira.
– Nem fodendo – ela murmurou e rapidamente se enfiou pelo vestido brilhante de festa, ajeitando as alças sobre os ombros. – Olha, me desculpa, eu tô muito irritada agora Henri, se eu ficar aqui você já sabe o resto.
– Sei?
– É, eu vou ficar ainda mais puta da vida, vou começar a gritar, xingar e te tratar mal sem você nem ter culpa de nada porque se tem uma coisa que realmente não mudou em mim é o fato de que eu sou surtada e péssima em controlar a minha raiva.
– Outra coisa que não mudou é que não me importo com isso e farei o que for possível pra te acalmar. Vamos conversar com calma sobre isso, sóbrios de preferência, porque pelo visto tem muita coisa que ainda não sabemos e não entendemos sobre o outro desses dois anos – Henri insistiu e Lis bufou, batendo repetidamente os dedos sobre o próprio braço num tique nervoso.
– Você não vai me deixar em paz enquanto eu não concordar com isso, né? – Disse abaixando o rosto e encarando os próprios pés descalços, teimosia sempre fora o pior e o mais irritante defeito de Henri.
– É, você ainda me conhece tão bem.
– Ok, então... Eu não quero ir pra casa.
– O quê?! – Henri guinchou em indignação. – Você estava brigando comigo por isso há só alguns segundos atrás!
– É Henri, eu não sou idiota, sei que o estava fazendo – Lis respondeu irritada, revirando os olhos e se sentando na cama novamente. – Eu só... Eu ainda tô me sentindo muito merda com tudo o que aconteceu e pensei que ficar perto de você agora seria a pior decisão a se tomar porque... Porque eu gosto de você, que inferno, eu não tô feliz com isso.
– Mas...?
– Mas se eu for pra casa minha mãe vai me encher de perguntas, Eliel vai me perturbar e... Talvez Matt apareça por lá querendo conversar e eu não vou saber lidar com tudo isso – ela disse com a voz embargada e sentiu seus olhos umedecerem, mordendo o lábio inferior na tentativa de não chorar de novo feito uma emotiva chata. – Então acho que lidar com você vai ser um pouco menos pior.
– É, talvez, afinal você sabe que se surtar e chorar comigo eu só vou te abraçar e te acalmar enquanto deixo você xingar Deus e o mundo para extravasar sua raiva - Henri disse enquanto se sentava ao lado da garota, passando o braço pelos seus ombros para abraçá-la e deixando com que ela apoiasse o rosto em seu peito.
Lis sorriu mesmo com a tristeza e ansiedade que tentavam tomar sua mente por completo, deixando com que uma sensação estranha e reconfortante de nostalgia invadisse seu coração. Ela não sabia se era felizmente ou infelizmente, mas sentira muita falta de momentos como aquele – tinha sentido muita falta de Henri no geral.
– Acho que afinal de contas, mesmo depois de tudo, você ainda é o melhor amigo que eu poderia ter.
Alguns segundos de silêncio se seguiram até Henri se remexer um pouco e levantar.
– Então... Se realmente vai ficar aqui eu acho que poderia tomar um banho, colocar umas roupas mais confortáveis que um vestido de baile cheio de glitter e... e eu faço alguma coisa para você comer – ele disse parecendo meio nervoso e Lis soltou uma risadinha.
Mas, na verdade, ela sentiu novamente uma pequena vontade de chorar. Ela tinha acabado de gritar com ele e jogar na cara sobre o quanto ele era culpado por boa parte da merda que ela havia passado nos últimos anos e ainda assim Henri ao menos hesitava em cuidar dela e tratá-la bem.
– Tudo bem, pode ser – foi tudo o que Lis respondeu, dando de ombros sem querer deixar transparecer o que estava sentindo.
– △ –
Lis entrou no quarto enrolada em uma toalha verde, os braços ainda meio molhados e os cabelos curtos pingando sobre seus ombros. Por que diabos 90% das coisas de Henri tinham que ser verdes? Ela odiava verde, exceto quando olhava nos olhos do garoto e a única coisa na qual conseguia pensar era que amava aquelas íris e que, por muitas vezes e em muitas situações, aquele olhar que a salvara.
– Bom, eu... Eu também vou tomar um banho então – Henri disse assim que Lis parou no pé da cama e a menina apenas assentiu.
Ele observou por um momento o pescoço e os ombros nus de Lis e sentiu seu coração acelerar, lembrando-se da sensação dos seus lábios correndo pela pele quente da garota enquanto seus dedos eram responsáveis por abaixar as alças de seu vestido. Engoliu em seco conforme suas bochechas esquentaram e se apressou em entregar à ela uma camiseta amarela com uma estampa estranha de palhaço e uma calça xadrez – ambas que com certeza eram o dobro do tamanho real de Lis.
– Se não gostar ou sei lá pode vasculhar no guarda-roupas por alguma outra coisa – Henri disse e Lis assentiu mais uma vez.
– Vou ficar bem, pode ir lá – ela sorriu e ele retribuiu o gesto, saindo logo em seguida e a deixando sozinha.
O sorriso de Lis sumiu no mesmo instante e ela respirou fundo, tirando a toalha de seu corpo e usando-a para secar os cabelos. Queria pensar em uma solução para resolver todo aquele problema que agora mais parecia uma bola de neve, juntando-se à outros problemas menores que a faziam ficar enorme.
Não queria dar atenção àquele tipo de devaneio, mas Lis se conhecia bem, bem o suficiente para saber que aquilo ia dar errado – ou certo, dependia muito do ponto de vista com o qual encarava as coisas. De qualquer forma, ela sabia que perdia o controle sobre seus sentimentos e ações quando estava com Henri.
Pelo menos desta vez é só o Henri, nada de espíritos assassinos ou irmãos desaparecidos, pensou e logo em seguida riu um pouco de si mesma internamente.
"Só" o Henri. Como se aquilo fosse pouca coisa, ela sabia muito bem o quanto o garoto era capaz de mexer com ela.
Deu um tapa na própria testa, tentando focar em outra coisa e decidida a não deixar aqueles pensamentos a perturbarem ainda mais – coisa que foi por água abaixo assim que ela vestiu as roupas que Henri deixara para ela e sentiu o cheiro do perfume impregnado no tecido.
Era exatamente o mesmo perfume que ele usava dois anos atrás e o mesmo que estava usando na noite anterior. Uma merda, merda do caralho, pensou enquanto estendia a toalha sobre uma cadeira e se deitou na cama, abraçando o travesseiro enquanto rezava para Deus pedindo para não pirar – o que seria meio difícil visto que suas mãos já suavam e ela mal conseguia respirar.
Por mais que tivesse sido errado, por mais que aquilo fosse machucar os sentimentos de Matt de uma forma que ela mal conseguia imaginar, tinha gostado de estar com Henri de novo, e não conseguia parar de desejar internamente que aquilo se repetisse.
Cerrou os olhos e grunhiu. Por que tudo precisava ser sempre tão difícil? Ela poderia simplesmente ser normal, Henri poderia simplesmente não tê-la deixado como deixou, e Matt... Ele ao menos gostaria de Lis se as coisas tivessem tomado um rumo diferente e menos complicado.
O pior de tudo era que, independente de qualquer outra coisa, Lis se importava com ele. Matt poderia talvez não ser o amor de sua vida, mas era com certeza uma das melhores pessoas que havia conhecido. Ele cuidara dela em uma das piores fases de sua vida, tinha se esforçado para deixá-la melhor e fazê-la esquecer a decepção e dor causadas pela pessoa por quem agora Lis iria deixá-lo.
Matt ficaria mal, muito mal sem dúvida alguma, e isso deixava a própria Lis mal. Se sentia uma filha da puta ingrata, e não conseguia parar de xingar seu coração por seu tão burro.
Ainda mais que Henri também não era uma pessoa ruim, por mais que ele a tivesse machucado muito, ela sabia que ele tinha seus motivos – sabia melhor do que ninguém o quanto família podia causar um inferno interno que poderia facilmente nos deixar meio irracionais, fazendo um monte de besteira por não saber como lidar com aquela merda toda.
Ainda estava machucada na verdade, e parte de si odiava Henri por tudo, mas não conseguia realmente culpá-lo por aquilo, da mesma forma que Henri nunca a culpara por cada de um seus surtos.
Fechou os olhos e pensou em gatos, livros, Kingdom Hearts e chocolate quente, somente coisas boas que a deixavam feliz e levariam sua mente para longe de toda aquela porcaria caótica. Aparentemente deu muito certo, se acalmou tanto que estava no início de um sono leve quando sentiu Henri acariciar seus cabelos.
– Foi mal – ela disse bocejando e se sentando enquanto Henri sorria para ela, esperando a garota despertar de vez. – Acho que ainda não recuperei toda a energia que foi gasta ontem.
– É, realmente gastamos um monte de energia – Henri zombou e Lis pensou em repreendê-lo por fazer piada com aquilo, mas nem mesmo ela conseguiu segurar uma risadinha. – Pode dormir se quiser mas eu fiz miojo, você sabe que minhas habilidades culinárias não são lá essas coisas.
– Tudo bem, você é um doce – ela disse sorrindo e Henri pegou uma tigela de porcelana de onde ainda saía uma onda de vapor quente e a entregou para Lis juntamente de um garfo. – Desculpa ter gritado com você mais cedo, eu não queria realmente ter agido daquela forma, eu só...
– Eu sei, muita coisa pra processar, eu sinto o mesmo, é só que nós lidamos com as coisas de formas diferentes.
– É, eu geralmente não lido com as coisas, essa já é uma diferença bem gritante – ela disse enrolando o macarrão instantâneo no garfo e o assoprando um pouco antes de colocar na boca.
– Me desculpa também, não só por ontem, mas por tudo o que aconteceu desde o natal de 2015.
– Por quê? – Lis perguntou abaixando a tigela e encarando Henri fixamente com seus olhos castanhos inchados, o garoto apenas permaneceu em silêncio, sem entender muito bem do que se tratava a pergunta. – Você disse que precisávamos conversar e eu concordei, então por quê? Por que você foi embora do nada sem nem se despedir de mim? Porque em um dia você estava lá e de repente não estava mais e a única pessoa que pôde me explicar algo foi sua avó, e nem mesmo ela entendia direito o que tinha acontecido.
Henri respirou fundo, sabia que uma hora ou outra Lis faria aquela pergunta.
– Vai soar idiota mas... Não é que eu não quis me despedir de você, eu só não consegui na verdade, se eu tivesse feito uma despedida adequada eu teria me sentido mil vezes mais culpado por ir porque veja bem, você tinha acabado de passar por toda aquela coisa e eu era seu melhor amigo, devia ter ficado do seu lado e não ter te deixado como fiz.
– Tem razão, soou bem idiota – Lis respondeu erguendo as sobrancelhas grossas e voltando a comer.
– Olha, não era a minha intenção Lis, não isso na verdade, eu iria para lá de qualquer forma, mas eu não ia ficar sumido por dois anos – Henri disse tirando seus óculos e escondendo o rosto entre as mãos por um momento enquanto tomava fôlego para falar aquilo sem pirar. – Só que as coisas desandaram, o Erick piorou e teve que... Ele voltou para a clínica, e acho que dá pra imaginar que eu e meus pais não ficamos muito felizes com isso.
Agora Lis é quem se sentia culpada por ter brigado e gritado com Henri. Ela sabia que ele tinha os motivos dele para ter feito o que fez, mas aquilo era demais.
Deixou a tigela sobre a cômoda e apertou as unhas contra as palmas das mãos, de repente já não sentia mais fome nem sono, somente remorso e tristeza por Henri.
Sem levantar os olhos do chão, deslizou sua mão pela cama até encontrar a do garoto, fria e rígida, claramente demonstrando como ele se sentia no momento, então apenas a puxou suavemente e entrelaçou seus dedos com os dele numa tentativa de confortá-lo.
– Eu sinto muito, eu não fazia ideia, eu achei que... – ela engoliu em seco e comprimiu os lábios antes de terminar com um murmúrio. – Achei que ele estava melhor. Da última vez que nos falamos... Eu sou uma idiota, desculpe, tenho essa merda de às vezes esquecer que o universo não gira ao meu redor.
– Tá tudo bem.
Não estava tudo bem.
De repente se viu de volta na cena que o atormentara durante todo aquele tempo, parado no quarto na frente de Erick que, como tantas outras vezes, não sabia distinguir o que era real ou não, completamente fora de si.
O silêncio era tão perturbador quanto o olhar vazio do menino e as gotas espessas de um tom escarlate intenso que pingavam de seus braços e tingiam o chão, e ainda assim Henri não conseguira reagir, não conseguira falar, não conseguira fazer nada que pudesse tirar seu irmão daquela situação.
Voltou a esconder o rosto entre as mãos quando já não conseguia mais segurar o choro, soluçando alto enquanto Lis o abraçou na tentativa de acalmá-lo, acariciando seus cabelos escuros e beijando delicadamente o topo de sua cabeça.
– Tudo bem, não faz mal chorar um pouco de vez em quando, e eu tô aqui com você agora, vai ficar tudo bem – a garota sussurrou enquanto tudo o que Henri fazia era chorar. – Eu sei como é doloroso, sinto uma parte de mim se quebrar toda vez que o Eliel tem as crises dele, mas nós damos nosso melhor, Henri. Sei que você fez e sempre vai fazer o possível para ajudar seu irmão, e pode ter certeza que ele também sabe disso, ele só...
– Como é? Sabe, passar por isso.
– Henri, e-eu... – Lis parou, estática, sem saber como responder aquilo. – Eu e o Erick somos diferentes, passamos por problemas e estamos em condições diferentes, não acho que posso responder isso por ele. Mas todas as vezes que tive minhas crises pesadas, por mais que eu não conseguisse pensar com clareza, eu sempre entendi que aquilo não era culpa da minha mãe, nem do meu irmão e nem de ninguém, eu só estava doente e isso era tudo.
– É difícil não me sentir culpado, é como se eu nunca desse o melhor de mim por ele, como se nada nunca fosse o suficiente, e ele ficasse me esperando pra salvá-lo disso e eu nunca conseguisse fazer nada.
– Eu sei que é difícil ouvir isso, mas tem certas coisas que não cabe à você. Seu irmão está doente, assim como eu estava e como o Eliel está agora, e a única coisa que podemos fazer é apoiar, demonstrar que nos importamos e... Deixar os médicos e remédios fazerem o trabalho deles.
Lis se afastou e levantou o rosto de Henri, encarando seus olhos verdes marejados e avermelhados pelo choro. Secou suas bochechas molhadas por lágrimas e respirou fundo.
– Vai ficar tudo bem, seus pais estão lá e... É melhor você tomar um tempo, tentar parar de carregar o mundo inteiro nas costas, por favor. Isso cansa e machuca muito, e você não precisa parar de cuidar de si mesmo para cuidar das pessoas que ama.
Henri assentiu e fungou, sorrindo fracamente para Lis. Acariciou as mãos da menina que ainda permaneciam em seu rosto e a puxou para um abraço, inspirando o cheiro que shampoo de camomila que ainda exalava de seu cabelo úmido.
– Às vezes é difícil lembrar que nem tudo é responsabilidade minha. Obrigado.
– Você já fez muito mais por mim – ela respondeu e seu coração acelerou quando sentiu a mão de Henri pousar delicadamente em sua nuca.
O garoto parou para encará-la por um momento. Os olhos tímidos de Lis fugiram dos seus e seu rosto pardo ganhou um tom rosado. Ela mordiscou o lábio inferior, quase sentindo que não conseguia respirar quando Henri a olhava daquela forma.
– É engraçado, eu sempre achei você bonita demais pra mim, aquele primeiro dia na praça... Eu ainda não sabia que sentia o mesmo por você porque... Bem, porque tínhamos acabado de nos conhecer e também porque a situação toda parecia muito absurda – ele riu e Lis franziu as sobrancelhas, aquilo só podia ser brincadeira. – Eu era só um nerd quatro-olhos, com a cara cheia de espinhas e falando um monte de besteiras só pra tentar ser engraçado, e você...
– Outra nerd descabelada de um metro e meio de altura, cheia de olheiras e falando um monte de besteiras só pra tentar impressionar o garoto por quem era apaixonada – ela completou com um sorriso sem graça e Henri negou.
– Meu Deus, não – ele retrucou rindo novamente. – É inacreditável que você se visse dessa forma, porque tudo o que eu via em você era uma menina corajosa e determinada, muito animada por sinal... Ainda lembro de como os seus olhos brilhavam quando falava sobre as coisas de que gostava, quando confiou em mim para me contar sobre a casa e sobre seus próprios problemas pessoais, e de como sorriu aliviada quando soube que não estava mais sozinha... Foi uma das coisas mais bonitas que já vi.
Lis não sabia como reagir e muito menos o que dizer, mas aquilo havia acertado seu coração em cheio, porque era a primeira vez que alguém a elogiava daquela forma, ninguém nunca a conhecera tão bem a ponto de poder dizer e entender tudo aquilo.
– E eu achei que quando eu voltasse você iria me odiar, que não iria nem atender a porta, mas você... Você só me abraçou e deu aquele sorriso de novo, e desta vez fui eu que me senti aliviado porque eu soube que também não estou sozinho. Você é linda, Lis, você... – Henri foi interrompido quando os lábios de Lis tocaram os seus.
Lis o empurrou contra a cama e deitou sobre o garoto, beijando-o enquanto se concentrava em não chorar – não de tristeza como quisera anteriormente, mas por amor. Céus, ela realmente o amava, e era tanto que parecia que seu coração queimava, ela sentia que poderia explodir.
– Você é lindo, Henri – ela disse sorrindo, sua testa apoiada sobre a dele. – Eu nunca tive coragem para dizer isso mesmo depois de ter me declarado porque eu sou uma idiota, mas eu sou uma idiota apaixonada por você. Sou apaixonada pelo seu sorriso, pelos seus olhos, por como você fica uma graça de óculos e camisas xadrez idiotas e até mesmo pela forma que você conta piadas sem graça só para tentar ser engraçado.
Henri pareceu confuso por um momento, mas enfim sorriu e beijou Lis uma última vez antes de abraçá-la fortemente, o rosto da menina apoiado sobre seu peito, onde seu coração martelava com rapidez como se tivesse acabado de tomar um choque.
– Eu me sinto uma filha da puta por pensar isso Henri, mas eu quero que se foda essa merda toda, eu quero ficar com você, não consigo mais mentir para mim mesma.
– Você está comigo, e eu não vou deixar mais nada mudar isso.
– Então não vai embora de novo, por favor – pediu e Henri deu um beijo carinhoso no dorso de sua mão.
– Eu não vou, eu prometo.
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