16 - 4ever
Algumas coisas apenas não são tão simples
Você me ligou perguntando por que eu mudei
Ou porque eu não pareço a mesma
Por que as coisas são tão diferentes agora?
Isso nunca vai mudar?
Eu vou me sentir assim para sempre?
Você vai estar por perto para eu contar?
Clairo – 4ever
– △ –
Kate fez mais uma anotação na agenda em sua mão quando Hanna mencionou uma possível lista de convidados, mas ainda sem a certeza se algo assim seria mesmo necessário pois era formal demais na opinião de ambas.
As três haviam se reunido finalmente com o propósito de organizarem juntas a festa de aniversário de Hanna, porém já havia meia hora que somente a própria aniversariante se preocupava com o assunto principal juntamente de Kate, pois Lis não tinha desgrudado do celular por um segundo sequer desde que chegara na casa da amiga – e tanto Hanna quanto Kate sabiam que algo estava errado. Lis costumava sempre se arrumar quando saía de casa, independente de para onde estava indo, mas agora vestia apenas uma camiseta desbotada de anime, shorts de pijama e tênis pretos, diferente de seu já habitual all star laranja, e os fios desalinhados e embaraçados de seu cabelo cobriam seu rosto cansado com olheiras mais fundas e escuras que o de costume, sem qualquer maquiagem ou mesmo o bom e velho batom coral que usava sempre.
– Lis? – Kate chamou parando o que estava fazendo e voltando sua atenção à garota junto de Hanna que mantinha uma expressão ligeiramente preocupada.
– Oi? – Ela respondeu sem tirar os olhos da tela e, com um suspiro irritado, Kate puxou o aparelho de sua mão, fazendo-a finalmente e obrigatoriamente despertar para a realidade. – Ai! O que foi?
– Você mal disse uma única palavra desde que chegou aqui, continua vidrada nesse telefone se afundando em seja lá que merda você tá se afundando dessa vez, mas não dá pra continuar assim – Kate brigou e, curiosa para saber o que tanto prendia Lis àquele celular, deu uma rápida espiada na tela antes da dona pegá-lo de volta de maneira brusca. – Que é isso?!
– Não é nada, mas que merda – Lis reclamou irritada e tentou ignorar os olhares fixos das duas sobre ela.
– O que foi isso? – Hanna indagou ainda mais confusa do que Kate, que revirou os olhos e contou:
– Ela estava stalkeando o Matt no Twitter.
– Kate! Caralho!
– Ué, não éramos melhores amigas? Não devia existir segredos entre a gente – a garota de cabelos azuis respondeu parecendo mais magoada do que brava por Lis estar escondendo algo, porque ela definitivamente estava.
– Meu deus Kate, também não precisa disso tudo – Hanna a repreendeu e entrelaçou sua mão com a de Lis numa tentativa de acalmá-la, porque agora ela estava claramente a beira de uma crise de choro. – Ei, tá tudo bem, sei que se não contou alguma coisa pra gente é porque tem um bom motivo.
– Obrigada – Lis disse e respirou fundo para continuar. – E me desculpa por não ter falado direito com vocês hoje, sei o quanto essa festa é importante pra você Hanna, mas... Eu acho que ainda não consigo falar sobre isso, eu só descobri umas coisas essa semana que têm me machucado muito e não tô sabendo lidar com isso, tá me matando por dentro.
– Você conversou com ele? – Kate perguntou se referindo à Matt e Lis negou.
– Conversei com o Henri e é muita coisa pra processar, por isso ainda não contei nada pra vocês, tem sido difícil contar até pra mim mesma, não entra na minha cabeça – foi tudo o que disse e, mais do que de repente, foi envolvida num abraço sufocante pelas outras duas.
– Tudo bem, desculpa ter surtado, eu só não gosto de te ver assim, distante e guardando toda essa merda só pra você, deixa a gente te ajudar – Kate pediu, a voz abafada pelos cabelos volumosos de Lis.
– A gente se preocupa com você meu amor, quando estiver pronta para conversar e quiser falar sobre isso vamos estar aqui, sabe disso – Hanna completou e a menor assentiu, sentindo seus olhos arderem conforme as lágrimas passaram a inundá-los e ela riu.
– Se toda vez forem me fazer chorar assim eu não volto nunca mais – disse com a voz embargada e Kate lhe deu um soco no braço quando se afastou.
– Ninguém tem culpa que você é chorona e bunda mole – ela brincou voltando a se sentar no tapete cor-de-rosa de Hanna e pegando o bloquinho onde faziam as anotações. – E então, vamos lá?
– Já decidiram quem vão chamar? – Lis perguntou secando o rosto ainda úmido no dorso de sua mão.
– É então, estávamos falando sobre isso agora, eu não queria chamar muita gente, sempre vira bagunça e apesar de eu amar uma bagunça não quero quebrar a confiança dos meus pais em relação a me deixar dar festas assim sozinha – Hanna explicou pensativa e as amigas concordaram. – Pensei em chamar só o pessoal que tá sempre com a gente. Marin, Travis, Sara...
– E já sei que você vai chamar o Matt, tá tudo bem, sei que vocês são amigos e blá blá blá, não vou bancar a infantil e ficar contra isso – Lis disse e Kate revirou os olhos.
– A gente te conhece sua besta, sabemos que você não ia reclamar de algo assim – respondeu e Hanna apenas confirmou.
– Mas e você, Kate? – A morena questionou franzindo as sobrancelhas.
– Eu o quê?
– Você não falou com os seus pais ainda, não é?
– Ai Kate que merda! Pensei que já tivesse resolvido isso – Lis xingou irritada e a garota de cabelos azuis lhe estendeu o dedo médio.
– Calem a boca, eu... Eu falei com a Karen – contou bufando em seguida. – E ela vai me levar de carro. E ficar pra festa.
– Meu deus Katherine, isso é... – Hanna explodiu tanto de animação quanto de pânico, mas foi interrompida pela amiga logo em seguida.
– Isso não significa que eu tô deixando você dar em cima da minha irmã ou sair agarrando ela escondido no banheiro, pelo amor, vamos ter senso.
– E-eu não quis dizer isso, só fiquei feliz porque você vai poder ir – a mais alta gaguejou e engoliu em seco, forçando um sorriso tranquilo. – De qualquer forma, antes que eu acabe sendo assassinada, eu falei com a Sara e ela disse que consegue o chá.
– Chá? – Lis indagou confusa e Hanna assentiu.
– É, o chá. Baseado. Maconha.
– Meu Jesus, a cada dia que passa inventam ainda mais gírias estranhas pra isso, mas acho que não vou poder fumar de qualquer jeito.
– O que aconteceu? – Kate perguntou e Lis encolheu os ombros, o olhar baixo.
– Eu andei tendo umas crises feias então tive que aumentar a dose do remédio e se não quiser ir parar no hospital é bom cortar drogas e álcool do cardápio.
– Ai Lis, caramba, eu não fazia ideia de que você estava tão mal assim – Hanna disse voltando a segurar a mão da amiga.
– É, nem eu, pelo menos não até voltar ao psiquiatra ontem, mas por favor não fiquem perguntando muito nem me tratando como se tivessem dó de mim, eu só... Bom, acho que só ser a amiga doida já tá de bom tamanho pra mim por enquanto, ficar tocando no assunto já é um pouco demais – pediu e as duas concordaram, sabiam o quanto deveria ser difícil para Lis conviver com os transtornos que tinha, e mais difícil ainda ter que ouvir depois de anos lutando para ficar bem que seu quadro havia piorado mais uma vez.
– Então, querem fazer um brigadeiro pra ir comendo enquanto continuamos a organizar tudo isso? – Hanna propôs e Kate foi a primeira se levantar animada a fim de quebrar o clima pesado.
– Sim, por favor.
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