15 - the less i know the better
Oh, meu amor, você não consegue se ver ao meu lado?
Não é de se admirar, já que você está nos braços dele toda noite
Oh, meu amor, você não consegue ver que eu só penso em você?
Não acho que a gente consiga convencer seu amante a mudar de ideia
Então, adeus
[...]
Eu estava bem sem você
Até eu ver seu rosto, agora não consigo esquecer
Cedendo a todas as besteiras dele
É isso que você quer? Isso é quem você é?
Tame Impala – The Less I Know The Better
– △ –
Lis estava esparramada sobre seu colchão duro de solteiro, com as pernas e braços abertos enquanto assistia a nova temporada de Attack on Titan em seu celular e tentava esquecer o calor incessante e irritante que a fazia se sentir como um frango assando no forno. Já havia jogado todos os lençóis no chão, aberto as janelas e vestido o mínimo de roupa possível mas nada disso parecia resolver o problema, e a franja recém feita sobre sua testa a pinicava e fazia seu rosto suar ainda mais, mais uma vez jogando na cara que aquilo tinha sido uma péssima ideia.
Viu algo pequenino e redondo voar pela sua janela para dentro do quarto e quicar no chão algumas vezes, mas diante da escuridão da madrugada não conseguiu identificar o que era, apenas se sentiu gelada pela primeira vez no dia e seu coração começou a martelar forte, fazendo-a rezar fortemente em silêncio, implorando para que aquilo não fosse um inseto ou qualquer outro tipo de animal estranho.
Pausou o vídeo e tirou os fones, acendendo a lanterna do aparelho em sua mão afim de iluminar o chão no meio tempo em que fazia seu caminho até o interruptor. Mais uma coisinha igual àquela voou novamente pela janela e dessa vez caiu bem aos seus pés, fazendo-a pular para trás com o susto e em seguida franzir as sobrancelhas em confusão ao ver que se tratava de uma pedra, mas quem estaria atirando pedras assim aleatoriamente numa janela em plena três da manhã?
Ela se apressou em vestir uma camiseta velha e, ainda receosa, se apoiou sobre o parapeito e observou a rua. Quando viu a figura que se mantinha parada em pé sobre a calçada não sabia se xingava de ódio ou se sentia alívio por não se tratar de nenhum bandido, tarado ou espírito demoníaco, na verdade era só um garoto que Lis não esperava ver de novo tão cedo – e nem queria também.
– Caralho Henri, tá ficando maluco? Olha a hora! Cacete, você quase me matou do coração – xingou baixinho mas Henri não esboçou qualquer reação. – O que tava querendo jogando pedra pra dentro do meu quarto assim?
– Era pra... Pra jogar no vidro, mas você deixou aberto.
– Sim porque tá um calor dos infernos, e que merda é essa de jogar pedrinha na janela pra chamar os outros agora? A gente tá preso num clichê adolescente e eu não tô sabendo?
– Meio que isso – ele respondeu e Lis ficou ainda mais confusa sem entender nem um por cento daquela situação.
– Henri você tá bêbado? – Questionou e o garoto deu de ombros, provocando um revirar de olhos de Lis. Era só o que faltava.
– Eu preciso que você desça aqui pra gente conversar – disse e Lis negou instantaneamente.
– Nem que você me pague cem reais em barras de ouro. Olha a hora que é, eu já tô indo dormir e além de tudo eu deixei bem claro que não queria mais olhar na sua cara tão cedo. Se você encheu o cú de cachaça e não tá sabendo lidar com isso agora o problema é seu – retrucou sem ao menos pensar, porque no fundo ela sabia que não era do feitio de Henri fazer algo do tipo por mais que ele estivesse no fundo do poço, então se obrigou a respirar fundo antes de perguntar. – Isso é sério?
Henri assentiu e ela bufou, fechando a janela e vestindo um short de pijama só para não sair na rua de calcinha, não estava nem um pouco inclinada a se arrumar toda no meio de uma madrugada exaustiva de verão somente para ouvir seja lá qual fosse o drama que Henri tinha para dizer.
Caçou as chaves e desceu as escadas com rapidez, abrindo a porta da frente e dando de cara com Henri já sentado nos degraus da entrada.
A menina inspirou profundamente mais uma vez antes de se sentar logo ao lado, percebendo rapidamente o cheiro de cigarro e bebida barata impregnado em Henri – ele definitivamente tinha bebido, e não tinha sido pouco.
– O que foi? – Perguntou e negou quando ele lhe ofereceu seu cigarro recém aceso.
– É melhor aceitar – aconselhou e Lis começou a ficar preocupada, pelo visto algo realmente sério havia acontecido.
– O que aconteceu? Eu tô começando a pirar e não tô nem brincando Henri, é bom ter um ótimo motivo pra você estar todo esquisito e ter vindo na minha casa em plena duas da manhã mesmo depois de eu deixar claro que queria um tempo sozinha.
– Eu e o Matt ficamos. Várias vezes.
Lis ficou em silêncio por um segundo, raciocinando se era aquilo mesmo o que tinha escutado, e em seguida riu, deu uma gargalhada razoavelmente alta e histérica porque de maneira alguma aquilo poderia ser verdade.
– Adorei a piada. Mas é sério, o que aconteceu? – Perguntou e quando a única resposta de Henri foi abaixar os olhos para o chão e se manter quieto ela se viu obrigada a aceitar o cigarro e dar uma tragada longa enquanto negava repetidamente com a cabeça. – Não, nem fodendo, eu me recuso.
– Lis, eu não queria...
– Não queria o quê, porra? Você tá ficando doido? – Gritou sentindo o rosto queimar, suas mãos tremiam e coçavam como se implorassem para que ela socasse algo. – Quando vocês começaram com essa palhaçada? Pelo amor de Deus! Nossa vai se foder Henri, caralho, você só pode estar de brincadeira com a minha cara!
– Naquele dia depois da festa da Hanna...
– Puta que me pariu! Eu apagada depois de tanto beber por causa de vocês e olha o que vocês me aprontam! Vai tomar no cú Henri, ou você já tomou o suficiente? Que inferno!
– Eu entendo que você esteja muito brava agora, não tiro sua razão, mas por favor para de gritar, você vai acabar acordando todo mundo – Henri pediu sem ter qualquer noção do quanto Lis realmente estava irritada no momento.
– Parar de gritar? Eu ficaria preocupada se fosse você, porque eu não vou só gritar, eu vou matar vocês dois! – Ela deu um soco no braço de Henri e se levantou, cambaleando enquanto tirava o chinelo de um dos pés para atirá-lo contra o garoto que desviou. – Foi pra isso que fizeram todo aquele drama? Foi pra isso que aquele vagabundo cínico filho de uma égua veio chorar quando eu disse que queria terminar? Eu não consigo nem acreditar numa coisa dessas!
– Lis me desculpa, a gente não...
– Te desculpar é o caralho! – Lis grunhiu e deu um pontapé na parede numa tentativa falha de dispersar parte do ódio que sentia no momento. – Três vezes Henri, você acabou com a minha vida três vezes e duas delas foi se metendo no meu relacionamento em pouco mais que uma semana! Uma semana! – Ela voltou a gritar, porém era perceptível que sua voz antes estridente e carregada de raiva agora se tornara falha e embargada, seus olhos úmidos anunciando que em breve ela cairia em mais uma crise inconsolável de choro. – Sinceramente, eu não sei onde estava com a cabeça quando fiquei feliz por saber que você tinha voltado.
Respirou fundo e voltou a se sentar, secando o rosto no dorso de suas mãos quentes. Não sabia ao certo o motivo para o choro porque os sentimentos que a assolavam internamente agora eram só um misto esquisito de coisas ruins que a sufocavam sem que ela pudesse distinguir o que eram, a não ser a decepção, esta se encontrava bem grande e chamativa em meio ao restante, porque havia sido traída em dobro pelas duas pessoas que mais amava – e odiava admitir mas também por quem menos esperava.
Mesmo depois de tudo, Henri ainda era uma das pessoas em quem ela mais confiava, ficando atrás apenas de sua mãe e seu irmão, e ela definitivamente não esperava algo assim vindo dele, o que tornava tudo ainda pior, mais inesperado e duplamente doloroso.
– Eu sei que fui uma filha da puta com vocês, sei que nada do que fiz desde que você voltou foi certo mas eu realmente não consigo achar um motivo pra isso, e o pior ainda é a forma como esconderam isso de mim e continuaram agindo como se nada estivesse acontecendo, como se eu ainda fosse uma louca surtada e a única errada nessa história. Eu me preocupei e me culpei o tempo inteiro pelo o que aconteceu, estive mal todo esse tempo que me afastei porque não conseguia parar de pensar no quanto tinha machucado vocês, e enquanto isso vocês estavam lá trocando beijos e sabe-se lá Deus o que mais – confessou e quis se afastar quando Henri se sentou ao seu lado e a abraçou, mas não o fez, e não porque queria estar próxima a ele, longe disso na verdade, mas sim porque não conseguia mais esboçar qualquer reação, era como se nada se encaixasse na sua cabeça e ela sabia que precisaria de mais um longo tempo sozinha deitada em silêncio no escuro para entender que não estava delirando e aquilo havia de fato acontecido. – Quem foi?
– O que?
– Quem começou com essa merda?
– Matt – Henri respondeu depois de um tempo e Lis riu, e não por achar a situação verdadeiramente engraçada, era mais como uma risada de nervoso, daquelas quando não se sabe mais o que sentir então você ri porque seu psicológico está prestes a entrar num curto-circuito confuso e perigoso.
– Eu já deveria ter imaginado, afinal quem nessa porcaria de cidade aquele galinha ainda não beijou? Olha, sinceramente...
– Mas ele não tem toda a culpa, eu também deixei e... gostei.
– Tá Henri, que ótimo, você gosta de homens e eu super te apoio e tudo, mas porra, o meu namorado? Eu nem consigo decidir quem é o mais absurdo nessa história!
– Ex-namorado.
– Ah vai se foder, independente disso, um pouco de noção já é o suficiente para saber que isso não é coisa que se faça, pelo amor de Deus – retrucou indignada, e queria fazer mais perguntas mas se conteve, primeiro porque não sabia mais quanto daquilo ainda conseguiria aguentar no momento, e segundo porque tinha ciência de que Henri era a pessoa errada a interrogar, ainda mais estando bêbado do jeito que estava.
Lis amara Matt durante todo o tempo em que estiveram juntos e, não muito felizmente, ainda amava, mas o conhecia bem o suficiente para saber que aquele rostinho angelical não condizia em nada com sua personalidade e se tinha alguém que era culpado por aquela ideia e série de acontecimentos imbecis, esse alguém era Matt – porque ela também conhecia Henri bem o suficiente para saber o quanto ele era um bobão "inocente" que jamais tomaria a iniciativa com ninguém.
– Olha, eu tô mesmo muito irritada e chateada agora, mas agradeço por pelo menos você ainda ter tido o mínimo de decência de vir aqui e me contar sobre esse circo do caralho. Enfim, vai pra casa Henri, amanhã a gente conversa melhor quando eu estiver mais calma e você sóbrio de preferência – pediu e o garoto assentiu, lhe dando um beijo na bochecha antes de dar as costas e sair como se só tivessem acabado de ter mais uma conversa perfeitamente normal.
Lis ainda demorou um pouco antes de entrar em casa, observando o chão e respirando enquanto tentava processar tudo aquilo. Ela sabia que não podia culpá-los totalmente porque havia feito praticamente a mesma coisa e Matt não havia surtado nem um pouco como ela mesma fizera há somente alguns minutos, e era isso o que não entrava direito em sua cabeça.
Henri tinha sido uma parte importante de sua vida e obviamente ela teria dificuldades para superar o que sentira por ele no passado, mas Matt mal o conhecia, não conseguia encontrar algo que pudesse explicar o porquê dele ter feito algo assim, não era possível que Henri fosse tão bonito e irresistível àquele ponto. Matt deveria ter ficado magoado e com raiva, e não ter ficado com o garoto assim como se fosse a coisa mais comum a se fazer logo depois de ter sido traído justamente com a pessoa em questão.
Ela esfregou os olhos e finalmente se levantou, trancando a porta e voltando para o quarto na intenção de dormir mesmo sabendo que não conseguiria.
Só mais um dia normal.
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