Um dia

UM DIA

Observou o modo como ela respirava lentamente. Esticava os braços pela cama e encolhia as pernas, enquanto intercalava respirações profundas com leves suspiros. Acariciou o rosto dela, com pesar. As coisas já não eram como antes, mas nunca deixariam de ser o que foram.
Antes de tomar uma decisão decisiva pelos dois, ele decidiu encontrar um motivo. Tentou fazer a água passar pela garganta enquanto procurava razões para aquilo tudo. O que aconteceu para que culminasse naquele momento? Sozinho, no escuro, olhando a rua deserta pela janela da sala e tentando entender o que, de fato, acontece com casais perfeitos que, de repente, perdem essa denominação.
O fim do amor? Não acreditava nisso. Acreditava em amores que não eram amores, mas jamais em amores que deixam de ser amores. O sentimento permanece para sempre, mesmo quando acreditam que acabou. Quando é amor, é amor e ponto. Por mais que esse pensamento fosse doloroso.
Porque amor é um bom motivo para ficar, é o que dizem.
Talvez tenham se perdido em seus caminhos pessoais. Ela com seus projetos e ele com as suas viagens. A saudade era forte, mas quando se reencontravam sempre havia algo diferente. Uma nova mania que ele não entendia, um novo vício que ela não aprovava. Silêncios. As palavras foram parando de sair a cada retorno, até que se encontrassem no mesmo cômodo com o sentimento de que estavam sozinhos.
Solidão era um bom motivo para ir embora, mas não era isso. Diferenças por vezes acabavam estragando tudo, mas também não era isso.
Talvez apenas... Não fosse para ser. Não era para ser eterno, não era para ser um mar de rosas, não era para ser eles dois. Um amigo disse que a ele que amor desperdiçado dói. Mas foi desperdício? Os passeios, os filmes, as mãos dadas, as risadas, o apoio no ombro um do outro, a compreensão, felicidade, companheirismo, cumplicidade, alegria, amor. Não foi desperdício. Foram momentos vividos e aproveitados muito bem.
Apenas não era para ser. Mas talvez fosse, um dia.
Levantou e pegou suas coisas em silêncio. Não queria acordá-la para viverem uma nova discussão de ilusões e mentiras sobre eles mesmos. Deixou um bilhete na cabeceira, como sabia que ela gostava. Uma pequena margarida o acompanhava. A observou dormir por mais alguns segundos, antes de depositar um beijo em sua testa e deixar tudo para trás. Nunca era o melhor a se fazer, mas era necessário. E o necessário nunca era de todo bom.
Talvez um dia deixasse de ser necessário, e voltasse apenas a ser.

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