[08.5] Complicações
#MomoBrilhaComoDiamante
─── Conte-me. - exigiu ela por fim, depois que não conseguiu me convencer, e não conseguiu só porque eu mantinha os olhos seguramente longe de seu rosto.
─── É a cor dos seus olhos hoje. - suspirei, rendendo-me, fitando minhas mas enquanto revirava uma mecha do cabelo. ─── Acho que se você me fizesse essa pergunta há duas semanas, eu diria ônix. - Dei mais informações do que o necessário em minha sinceridade relutante e fiquei preocupada em provocar a raiva estranha que ardia sempre que eu escorregava e revelava com demasiada clareza como era obsessiva.
Mas a pausa dela foi muito curta.
─── Que tipo de flores prefere? - disparou ela.
Suspirei de alívio e continuei com a psicanálise.
A aula de biologia foi complicada novamente. Momo continuou com seu interrogatório até que o Sr. Banner entrou na sala entrou na sala, arrastando de novo um rack audiovisual. Enquanto o professor se aproximava do interruptor de luz, percebi que Momo deslizava a cadeira um pouco para longe de mim, ela estava com uma cara tristonha. Isso não ajudou. Assim que a sala ficou escura, houve as mesmas faíscas elétricas, o mesmo desejo impaciente de estender a mão pelo curto espaço e tocar a pele fria, como ontem. Além disso, o desejo de pular em cima dela não havia sumido também.
Inclinei-me sobre a mesa, pousando o queixo de braços cruzados, meus dedos escondidos agarrando a beira da mesa enquanto eu lutava para ignorar o desejo irracional que me perturbava. Não olhei para ela, com medo de que, se ela estivesse olhando para mim, fosse muito mais difícil manter o autocontrole. Sinceramente tentei ver o filme, mas no final da aula não fazia ideia do que vira. Suspirei de alívio novamente quando o Sr. Banner acendeu a luz, enfim olhando para Momo; ela me fitava, o lábio inferior entre os dentes e os olhos ambivalentes.
Ela se levantou em silêncio e ficou parada ali, esperando por mim. Fomos para o ginásio em silêncio, como ontem. E, como ontem, ela ficou meu rosto sem dizer nada ─ desta vez com as costas da mão fria, de minha têmpora até o queixo, passando pela minha boca, antes de se virar e se afastar.
A aula de educação física passou rapidamente enquanto eu assistia o show de badminton solitário de Jake. Ele não falou comigo hoje, em resposta a minha expressão vazia ou porque ainda estava irritado com nossa confusão de ontem. Em algum lugar, em um canto da minha mente, eu me senti mal por isso. Mas não consegui me concentrar nele.
Corri para me trocar depois da aula, apreensiva, sabendo que, quanto mais rápido andasse, mais cedo estaria com Momo. A pressão me deixou mais desajeitada do que de costume, mas por fim passei pela porta, sentindo o mesmo alívio quando a vi parada ali, um sorriso largo se espalhado automaticamente pelo meu rosto. Ela reagiu com um sorriso antes de se atirar a outro interrogatório.
Mas agora suas perguntas eram diferentes, não eram de resposta fácil. Ela queria saber do que eu sentia falta em minha cidade, insistindo nas descrições de qualquer coisa que não conhecesse. Ficamos sentadas em frente à casa de Donghyun por horas, à medida que o céu escurecia e a chuva descia em volta de nós num dilúvio repentino.
Tentei descrever coisas impossíveis, como o cheio de creosoto ── amargo, meio resinoso, mas ainda agradável ──, o som alto e agudo das cigarras em julho, a esterilidade das árvores, o tamanho do céu, estendendo-se azul-esbranquiçado de um canto a outro do horizonte, sem ser interrompido pelas montanhas baixas cobertas de rocha vulcânica roxa. A coisa mais difícil de explicar era por que aquilo era tão bonito para mim ─ justificar a beleza que não estava ligada à vegetação esparsa e espinhosa que sempre parecia meio morta, uma beleza que tinha mais a ver com o formato exposto da terra, com as bacias rasas de vales entre as colinas escarpadas, e modo como resistiam ao sol. Eu me vi usando as mãos ao tentar descrever isso para ela.
Suas perguntas em uma voz baixa me mantiveram falando livremente, esquecendo-me, na luz baixa da tempestade, de ficar constrangida por monopolizar a conversa. Por fim, quando tinha terminado de detalhar meu quarto abarrotado em casa, ela parou, em vez de responder com outra pergunta.
─── Terminou? - perguntei com alívio.
─── Nem cheguei perto… mas seu pai vai chegar logo.
─── Donghyun! - de repente me lembrei da existência dele e suspirei. Olhei o céu escuro da chuva, mas não revelava nada. ─── Que horas são? - perguntei a mim mesma em voz alta ao olhar o relógio. Fiquei surpresa ao ver a hora; Donghyun estaria vindo para casa agora.
─── É a hora do crepúsculo. - murmurou Momo, olhando o horizonte a oeste, obscurecido pelas nuvens. Sua voz era pensativa, como se sua mente estivesse em um lugar distante. Olhei para ela enquanto ela fitava sem ver pelo para-brisa.
Eu ainda a estava encarando quando seus olhos de repente se voltaram para os meus.
─── É a hora do dia mais segura para nós. - disse ela, respondendo à pergunta em meus olhos. ─── A hora mais fácil. Mas também a mais triste, de certa forma… o fim de outro dia, a volta da noite. A escuridão é tão previsível, não acha? - ela sorriu tristonha.
─── Gosto da noite. Sem o escuro, nunca veríamos as estrelas. - franzi a testa. ─── Não que a gente veja muitas por aqui.
Ela riu e o clima ficou mais leve de repente.
─── Donghyun chegará daqui a alguns minutos. Então, a não ser que queira dizer a ele que vai comigo no sábado… - ela ergueu uma sobrancelha.
─── Ah, não, obrigada. - peguei meus livros, percebendo que estava dura de ficar sentada por tanto tempo. ─── Então amanhã é a minha vez?
─── Claro que não! - sua expressão era de um falso ultraje. ─── Não lhe disse que não tinha acabado, meu bem?
─── O que mais pode haver?
─── Vai descobrir amanhã. - Ela estendeu o braço para abrir a porta para mim e sua proximidade súbita provocou um frenesi de palpitações em meu coração.
Mas a mão dela congelou a maçaneta.
─── Nada bom. - murmurou ela.
─── Que foi? - Fiquei surpresa ao ver que seu queixo estava trincado, os olhos perturbados.
Ela olhou para mim por um breve segundo.
─── Outra complicação. - disse ela mal-humorada.
Ela abriu a porta num movimento rápido e depois se afastou de mim, quase encolhida.
O lampejo de faróis através da chuva atraiu minha atenção à medida que um carro escuro encostada no meio-fio a pouca distância, de frente para nós.
─── Donghyun está chegando. - alertou ela, encarando o outro veículo pelo aguaceiro.
Saltei para fora rapidamente, apesar de minha confusão e curiosidade. A chuva era mais alta ao bater em meu casaco.
Tentei distinguir as formas no banco da frente do outro carro, mas estava escuro demais. Pude ver Momo iluminada pelo brilho dos faróis do novo carro; ainda olhava à frente, seu olhar preso em alguma coisa ou alguém que eu não podia ver. Sua expressão era uma mistura estranha de frustração e desafio.
Depois ela acelerou o motor e os pneus cantaram no asfalto molhado. O volvo ficou fora de vista em segundos.
─── Ei, Dahyun! - gritou uma voz conhecida e rouca do lado do motorista no carro preto.
─── Chaeyoung? - perguntei, semicerrando os olhos com a chuva. Neste exato momento a radiopatrulha de Donghyun virou a esquina, os faróis iluminando os ocupantes do carro diante de mim.
Chaeyoung já estava saindo, o sorriso largo visível apesar da escuridão. Suas covinhas fofas ficaram à mostra. No banco do carona havia um homem muito mais velho, um sujeito atarracado com um rosto memorável ─ um rosto que transbordava, as bochechas descansando nos ombros, com rugas que percorriam a pele curtida como uma velha jaqueta de couro. E os olhos surpreendentemente familiares, olhos pretos que pareciam ao mesmo tempo jovens e antigos demais para a cara larga em que se acomodavam. O pai de Chaeyoung, Choi Siwon.
Eu o reconheci de imediato, embora, nos mais de cinco anos em que não o via, tivesse esquecido seu nome quando Donghyun falou dele em meu primeiro dia aqui. Ele me encarava, analisando meu rosto, então eu sorri, insegura. Seus olhos estavam arregalados, de choque ou medo, as narinas infladas. Meu sorriso esmaeceu.
Outra complicação, dissera Momo.
Siwon ainda me fitava com olhos intensos e angustiados. Eu gemi por dentro. Será que Siwon reconhecera Momo com tanta facilidade? Ele realmente poderia acreditar nas lendas impossíveis que a filha ridicularizava?
A resposta estava clara nos olhos de Siwon. Sim. Sim, ele acreditava.
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