[07] Interrogações

#MomoBrilhaComoDiamante

Pela manhã, foi muito difícil debater com a parte de mim que tinha certeza que a noite passada tinha sido um sonho. A lógica não estava do meu lado, nem o bom-senso. Agarrei-me às partes que eu não podia ter imaginado ─ como o cheiro dela. Tinha certeza de que nunca tinha inventado isso sozinha.

Do lado de fora de minha janela, havia neblina e estava escuro, absolutamente perfeito. Ela não tinha motivos para não ir à escola hoje. Coloquei minhas roupas pesadas, lembrando-me de que não tinha casaco. Mais uma prova de que minhas lembranças eram reais.

Quando desci, Donghyun já havia saído novamente ── eu ia me atrasar mais do que tinha percebido. Engoli uma barra de granola em três dentadas, empurrei para dentro com leite bebido direto da caixa, e corri porta afora. Por sorte, a chuva daria um tempo até eu poder encontrar Yunjin.

A neblina era incomum; o ar era quase fumarento. A bruma era gelada onde se grudava a pele exposta de meu rosto e pescoço.

Eu estava louca para entrar no calor de minha picape. Era uma neblina tão densa que eu estava a pouca distância da entrada de veículos antes de perceber o carro; um carro prata. Meu coração disparou, tropeçou e recuperou o batimento no dobro da velocidade.

Não vi de onde ela veio, mas de repente ela estava ali, abrindo a porta para mim.

- Quer uma carona comigo hoje? - perguntou, divertindo-se com minha expressão ao me pegar de surpresa outra vez. Havia incerteza na voz dela. Ela realmente estava me dando alternativas - eu estava livre para recusar, e parte dela esperava por isso. Era uma esperança vã.

- Quero, obrigada. - eu disse, tentando manter a voz calma. Enquanto entrava no carro quente, era um pecado ela ser tão perfeita, tão bonita. percebi uma jaqueta caramelo pendurada no banco do carona. A porta se fechou atrás de mim e, antes que eu pensasse ser possível, ela estava sentado ao meu lado, dando a partida no carro.

- Trouxe o casaco para você. Não quero que adoeça nem nada disso. - Sua voz era cautelosa.

Percebi que ela mesma não estava de casaco, só com um blusão de tricô preto com gola alta e mangas compridas. Novamente, o tecido colava em seu busto. Era um tributo colossal a seu rosto que meus olhos se afastassem daquele corpo.


- Não sou tão frágil assim - eu disse, mas puxei o casaco para o colo, passando os braços pelas mangas compridas, curiosa para ver se o cheiro podia ser tão bom quanto minha lembrança dele. Era melhor ainda.

- Não é? - ela me contradisse numa voz tão baixa que não tive certeza se queria que eu ouvisse.

Seguimos pelas ruas envoltas de névoa, sempre rápido demais, com uma estranha sensação. Minha sensação, pelo menos. Na noite passada, todos os muros ruíram... Quase todos. Não sei se ainda seríamos tão francos hoje. Isso me travou a língua. Esperei que ela falasse. Ela se virou para sorrir com malícia para mim.

- Que foi, hoje não tem vinte perguntas?

- Minhas perguntas a incomodam? - indaguei, aliviada.

- Não tanto quanto suas reações. - Ela parecia estar brincando, mas eu não podia ter certeza.

Franzi o cenho.

- Eu reajo tão mal assim?

- Não, e é esse o problema. Você leva tudo com tanta frieza... Não é natural. Fico me perguntando o que realmente está pensando.

- Sempre digo a você o que estou pensando.

- Você edita. - acusou ela.

- Não muito.

- O bastante para me deixar louca.

- Você não quer ouvir - murmurei, quase sussurrando. Assim que as palavras saíram, me arrependi delas.

A dor em minha voz era muito fraca; só podia esperar que ela não a tivesse percebido.

Ela não respondeu e me perguntei se eu tinha estragado o clima. Seu rosto era ilegível enquanto seguíamos no carro para o estacionamento da escola. Algo me ocorreu, tardiamente.

- Onde está a sua família? - perguntei, muito contente por estar sozinha com ela, mas lembrando que o carro dela em geral estava cheio.

- Eles usaram o carro da Rose. - Ela deu de ombros ao estacionar ao lado de um conversível vermelho com a capota suspensa. - Chamativo, não é?

- Hmmm, caramba - disse à meia-voz. - Se ela tem isso, por que pega carona com você?

- Como eu disse, é chamativo. Nós tentamos nos misturar.

- E não conseguem. - Eu ri e sacudi a cabeça enquanto saíamos do carro.

Não estava mais atrasada; a direção lunática de Momo me levou à escola com tempo de folga. - Então por que Rose dirigiu hoje se ele é mais visível?

- Não percebeu? Agora estou quebrando todas as regras. - Ela se juntou a mim na frente do carro, ficando bem perto, ao meu lado, ao andarmos para o campus.

Eu queria estreitar essa pequena distância, estender a mão e tocar nela, mas tinha medo de que ela não gostasse.

- Por que vocês têm carros assim, então? - perguntei-me em voz alta. - Se procuram ter privacidade?

- Um prazer - admitiu ela com um sorriso diabólico. - Todos gostamos de correr.

- Imagino - murmurei.

Sob o abrigo da marquise do refeitório, Yunjin esperava, os olhos quase saltando da cara. No braço, Deus a abençoe, estava meu casaco.

- Oi, Yunjin - eu disse quando estávamos a alguns metros de distância. - Obrigada por lembrar. - Ela me passou o casaco sem dizer nada.

- Bom dia, Yunjin - disse Momo educadamente. Não era culpa dela que sua voz fosse tão irresistível. Ou do que seus olhos eram capazes, ela era tão linda, surreal, ela nem parecia real, era um choque saber que ela dava essa atenção especificamente para mim.

- É... oi. - Ela levou os olhos arregalados para mim, tentando organizar os pensamentos confusos.

- Acho que vejo você na trigonometria. - Ela me lançou um olhar sugestivo e eu reprimi um suspiro. Que diabos ia dizer a ela?

- É, a gente se vê lá.

Ela se afastou, parando duas vezes para nos espiar por sobre o ombro.

- O que vai dizer a ela? - murmurou Momo, com aquele maldito sorriso.

- Ei, pensei que você não podia ler minha mente! - sibilei.

- Não posso - disse ela, sobressaltada. Depois a compreensão iluminou seus olhos. - Mas posso ler a dela... Ela vai pegar você de surpresa na sala.

Eu gemi ao tirar o casaco dela e entregá-lo, substituindo-o pelo meu. Ela dobrou o casaco no braço.

- Então, o que vai dizer a ela?

- Que tal uma mãozinha? - pedi. - O que ela quer saber?

Ela sacudiu a cabeça, sorrindo com malícia.

- Isso não é justo.

- Não, você não está partilhando o que sabe... Isso é que não é justo.

Ela deliberou por um momento enquanto andávamos. Paramos do lado de fora da porta da minha primeira aula.

- Ela quer saber se estamos namorando escondido. E ela quer saber como você se sente com relação a mim - disse ela por fim.
- Caramba. O que devo dizer? - Tentei manter minha expressão muito inocente. As pessoas passavam diante de nós a caminho da sala, provavelmente encarando, mas eu mal percebia a presença delas.

- Hmm. - Ela parou para pegar em meu pescoço uma mecha solta de cabelo que estava escapando do rabo de cavalo e a colocou no lugar. Meu coração crepitou de hiperatividade. - Acho que pode dizer sim à primeira pergunta... Se não se importa... É mais fácil do que qualquer outra explicação.

- Não, eu não me importo - eu disse numa voz fraquinha.

- E quanto à outra pergunta de Yunjin... Bom, eu estarei ouvindo para saber eu mesma a resposta.

Um lado de sua boca se repuxou em meu sorriso torto preferido. Não consegui recuperar o fôlego com rapidez suficiente para responder a esta observação. Ela se virou e foi embora.

- A gente se vê no almoço - disse ela sobre o ombro. Três pessoas que passavam pela porta pararam para olhar para mim.

Corri para dentro da sala, corada e irritada. Ela era uma trapaceira e tanto. Agora eu estava ainda mais preocupada com o que ia dizer a Yunjin. Sentei em meu lugar de sempre, batendo a bolsa no chão de tão aborrecida.

- Bom dia, Dahyun - disse Jake da carteira ao meu lado. Olhei para cima e vi uma cara estranha e quase resignada. - Como foi em Port Angeles?

- Foi... - Não havia um jeito honesto de contar tudo. - Ótimo - concluí, pouco convincente. - A Yunjin conseguiu um vestido lindo.

- Ela disse alguma coisa sobre a noite de segunda? - perguntou ele, os olhos brilhando. Eu sorri com o rumo que a conversa tomava.

- Disse que se divertiu muito - garanti a ele.

- Se divertiu, é? - disse ele, ansioso.

- Com certeza.

O Sr. Mason chamou a atenção da turma, pedindo-nos para entregar nossos trabalhos.

As aulas de inglês e depois educação cívica passaram indistintas, enquanto eu me preocupava em como explicar as coisas a Yunjin e me afligia se Momo realmente estaria ouvindo o que eu dissesse por meio dos pensamentos de Yun.

Como esse talentozinho dela podia ser inconveniente - quando não estava salvando minha vida.

A neblina quase tinha se dissolvido no final do segundo tempo, mas o dia ainda estava escuro, com nuvens baixas e opressivas. Eu sorri para o céu.

Momo tinha razão, é claro. Quando entrei na aula de trigonometria, Yunjin estava sentada na fila de trás, quase quicando na cadeira de tão agitada.

Com relutância, fui me sentar ao lado dela, tentando me convencer de que seria melhor acabar com tudo assim que fosse possível.

- Me conta tudo! - exigiu ela antes que eu me sentasse.

- O que quer saber? - tentei escapar.

- O que aconteceu ontem à noite?

- Eu e ela fomos jantar e depois ela me levou em casa.

Ela me encarou, com sua expressão rija de ceticismo.

- Como chegou em casa tão rápido?

- Ela dirige como uma louca. Foi apavorante. - Esperei que ela tivesse ouvido isso.

- Foi tipo um encontro, disse a ela para encontrar você lá?

Não precisei pensar nisso.

- Não... Eu fiquei muito surpresa em vê-la lá.

Os lábios dela se contraíram de decepção com a sinceridade transparente em minha voz.
- Mas ela pegou você para vir à escola hoje? - sondou ela.

- Foi... Isso também foi uma surpresa. Ela percebeu que eu não estava com o casaco ontem à noite - expliquei.

- E vocês vão sair de novo?

- Ela se ofereceu para me levar a Seattle no sábado porque acha que minha picape não aguenta... Isso conta?

- Conta. - Ela assentiu.

- Bom, então, sim.

- Ca-ram-ba. - Ela exagerou as três sílabas da palavra. - Momo Cullen...

- Eu sei - concordei. "Caramba" era pouco.

- Peraí! - As mãos dela voaram para cima, as palmas viradas para mim como se estivesse parando o trânsito. - Ela beijou você?

- Não ! - murmurei. - Não foi nada disso.

Ela pareceu decepcionada. Eu certamente também estava.

- Acha que no sábado...? - Ela ergueu as sobrancelhas.

- Duvido muito, ela parece... não gostar de mulheres. - A insatisfação em minha voz foi mal disfarçada.

- Por Deus! - Ela passou a mão no cabelo - Está óbvio que ela sente algo por ti. Merda, Dahyun, ela te deu um apelidinho, te levou para jantar e passa o intervalo com você. Ela nunca fez isso com ninguém a não ser com a família dela.

- Sobre o que vocês conversaram? - Ela pressionou para ter mais informações aos cochichos. A aula tinha começado, mas o Sr. Varner não prestava atenção e não éramos as únicas que ainda conversavam.

- Sei lá, Yunjin, um monte de coisas - cochichei também. - Falamos um pouco do trabalho de inglês. - Um pouquinho de nada. Acho que ela mencionou isso de passagem.

- Por favor, Dahyun - implorou ela. - Me dê alguns detalhes.

- Bom... Tudo bem, tenho um. Devia ter visto a garçonete paquerando ela... Foi um exagero. Mas ela não deu nenhuma atenção a ela. - Ele que faça o que puder disso.

- É um bom sinal - assentiu ela. - Ela era bonita?

- Muito... E devia ter uns 19 ou 20 anos.

- Melhor ainda. Ela deve gostar de você.

- Eu acho que Talvez, mas é difícil saber. Ela é sempre tão enigmática. - Lancei essa para persuadi-la, suspirando.

- Não sei como você tem coragem de ficar sozinha com ela - cochichou ela.

- Por quê? - Eu estava chocada, mas ela não entendeu minha reação.

- Ela é tão... intimidadora, bonita... perfeita, o olhar marcante. Eu não saberia o que dizer a ela. - Ela fez uma careta, provavelmente se lembrando desta manhã ou de ontem à noite, quando ela lançou toda a força dominadora de seus olhos.

- Tenho uns problemas de incoerência quando estou perto dela - admiti.

- Ah, sim. Ela é mesmo incrivelmente bonita. - Yunjin deu de ombros como se isso desculpasse qualquer defeito. O que, de acordo com as regras dela, desculpava mesmo.

- Há muito mais nela do que isso.

- É mesmo? Tipo o quê?

Eu queria deixar essa passar. Quase tanto quanto esperava que ela estivesse brincando quando disse que ia ouvir.

- Não posso explicar muito bem... Mas ela é ainda mais inacreditável por trás daquele rosto. - A vampira que queria ser boa, que corria para salvar a vida das pessoas para que não fosse um monstro... Fiquei olhando a frente da sala.

- Será possível? - ela riu.

Eu a ignorei, tentando dar a impressão de que prestava atenção ao Sr. Varner.

- Então gosta dela, né? - Ela não ia desistir.

- Gosto - disse eu rispidamente.

- Quer dizer, você realmente gosta dela? - insistiu ela.

- Gosto - eu disse de novo, corando. Esperava que esse detalhe não fosse registrado nos pensamentos dela.

Ela não se contentaria com uma resposta tão curta.

- O quanto você gosta dela?

- Demais - cochichei. - Mais do que ela gosta de mim. Mas não vejo como evitar isso. - Eu suspirei, com um rubor se misturando ao outro.

Depois, felizmente, o Sr. Varner fez uma pergunta a Yunjin.

Ela não teve chance de recomeçar o assunto durante a aula e, assim que o sinal tocou, dei um jeito de escapar.

- Na aula de inglês, o Jake me perguntou se você disse alguma coisa sobre a noite de segunda - contei a ela.

- Tá brincando! O que você disse? - ela arfou, completamente desviada.

- Disse a ele que você falou que se divertiu muito... Ele pareceu satisfeito.

- Me conta exatamente o que ele disse, e sua resposta exata!

Passamos o resto da caminhada dissecando as estruturas frasais e a maior parte da aula de espanhol em uma descrição minuciosa das expressões faciais de Jake.
Eu não teria me importado de estender o assunto por tanto tempo se não estivesse preocupada que a conversa voltasse para mim.

E então tocou o sinal do almoço. Enquanto eu pulava de minha cadeira, jogando os livros de qualquer jeito na bolsa, minha expressão exaltada deve ter dado a dica a Yunjin.

- Não vai se sentar com a gente hoje, não é? - adivinhou ela.

- Acho que não. - Não podia ter certeza se ela ia desaparecer daquele jeito inconveniente de novo.

Mas do lado de fora da nossa sala de espanhol, encostada na parede - parecendo mais uma deusa grega do que qualquer um teria direito - Momo esperava por mim. Yunjin deu uma olhada, revirou os olhos e partiu.

- A gente se vê, Dahyun. - A voz dela estava cheia de subentendidos. Eu talvez tivesse que desligar a campainha do telefone.

- Oi. - A voz dela era divertida e irritada ao mesmo tempo. Ela esteve ouvindo, isso era evidente.

- Oi.

Não consegui pensar em mais nada para dizer e ela não falou - esperando pela oportunidade, eu imaginei -, então foi uma caminhada silenciosa até o refeitório.

Andar com Momo durante o movimentado horário de almoço foi quase como meu primeiro dia aqui; todo mundo olhava.

Ela foi na frente indicando o lugar na fila, ainda sem dizer nada, mas seus olhos se viravam para meu rosto a cada poucos segundos, sua expressão especulativa.

Parecia que a irritação estava cedendo espaço para a diversão como emoção predominante no rosto dela. Remexi nervosa no zíper de meu casaco.

Ela foi até o balcão e encheu uma bandeja de comida.

- O que está fazendo? - contestei. - Não está pegando tudo isso para mim, não é?

Ela sacudiu a cabeça, avançando um passo para pagar pela comida.

- Metade é para mim, é claro.

Ergui uma sobrancelha.

Ela seguiu na frente para o mesmo lugar em que nos sentamos antes. Do outro lado da mesa comprida, um grupo de veteranos nos olhava surpreso enquanto nos sentávamos um de frente para o outro.

Momo parecia distraída.

- Pegue o que quiser - disse ela, empurrando a bandeja para mim.

- Estou curiosa - eu disse enquanto pegava uma maçã, virando-a nas mãos -, o que você faria se alguém o desafiasse a comer comida?

- Você é sempre curiosa. - Fez uma careta, sacudindo a cabeça.

Ela olhou para mim, sustentando meu olhar enquanto levantava a fatia de pizza da bandeja, e deliberadamente mordeu um pedaço, mastigou rapidamente e engoliu. Eu observei, de olhos arregalados.

- Se alguém desafiasse você a comer terra, você poderia, não é? - perguntou ela com condescendência.

Franzi o nariz.

- Eu comi uma vez... num desafio - admiti. - Não foi tão ruim.

Ela riu.

- Eu não devia me surpreender. - Algo por sobre meu ombro parecia atrair a atenção dela.

- Huh Yunjin está analisando tudo o que eu faço... Ela vai cair em cima de você depois. - Ela empurrou o resto da pizza para mim.

A menção a Yunjin devolveu uma pontada de irritação a suas feições.

Baixei a maçã e dei uma dentada na pizza, desviando os olhos, sabendo que ela estava prestes a começar.

- Então a garçonete era bonita, hum? - perguntou ela casualmente.

- Você não percebeu mesmo?

- Não. Não estava prestando atenção. Tinha muita coisa em mente, mas você percebeu que ela era.

- Oh, mas isso não conta, eu não estava olhando para ela igual.. ela olhava para você.

- Eu sei, mas ela estava me irritando, muito.

- Coitada. - Agora eu podia ser generosa.

- Teve uma coisa que você disse a Yunjin que... bom, me incomodou. - Ela se recusava a se distrair. Sua voz era rouca e ela olhava de soslaio com olhos perturbados.

- Não me surpreende que tenha ouvido alguma coisa de que não gostou. Você sabe o que dizem sobre ouvir a conversa dos outros - lembrei a ela

- Eu avisei que estaria ouvindo.

- E eu avisei que você não ia querer saber tudo o que eu estava pensando.

- Avisou mesmo - concordou ela, mas sua voz ainda era áspera. - Mas você não está exatamente correta. Quero saber o que está pensando... Tudo. É só que preferia... que você não ficasse pensando certas coisas.

Dei um olhar zangado.

- É uma honraria e tanto.

- Mas não é o que interessa no momento.

Ela estava com as mãos brancas e grandes cruzadas sob o queixo; eu me inclinei para a frente, a mão direita envolvendo meu pescoço. Tive que lembrar a mim mesma que estávamos em um refeitório lotado, com provavelmente muitos olhares curiosos em nós.

Era fácil demais ficarmos presos em nossa própria bolha particular e tensa.

- Acredita sinceramente que gosta mais de mim do que eu de você? - murmurou ela, aproximando-se mais ao falar, com os olhos castanhos-escuros penetrantes.

Tentei me lembrar de como soltar o ar. Tive que desviar os olhos para recuperar a respiração.

- Está fazendo aquilo de novo - murmurei.

Os olhos dela se arregalaram de surpresa.

- O quê?

- Me deixando tonta - admiti, tentando me concentrar ao voltar a olhar para ela.

- Ah. - Ela franziu o cenho.

- Não é culpa sua - suspirei. - Você não consegue evitar.

- Vai responder à pergunta?

Olhei para baixo.

- Sim.

- Sim, você vai responder, ou sim, você realmente pensa isso? - Ela estava irritada de novo.

- Sim, eu realmente penso isso. - Mantive os olhos baixos na mesa, acompanhando o padrão dos veios falsos de madeira estampados no laminado. O silêncio se arrastava.

Desta vez, por teimosia, eu me recusei a ser a primeira a rompê-lo, lutando com todas as minhas forças contra a tentação de olhar a expressão dela.

Por fim ela falou, a voz suave de veludo.
- Está errada, para suas duas dúvidas. - Olhei para ela e vi que seus olhos eram gentis.

- Não pode saber disso, em relação a gostar de mim . - discordei num sussurro. Sacudi a cabeça em dúvida, mas meu coração afundou com as palavras dela e eu queria muito acreditar nelas.

Sustentei o olhar dela, lutando para pensar com clareza, apesar da cara de Momo buscando uma maneira de explicar.


Enquanto procurava pelas palavras, pude ver que ela ficava impaciente; frustrado com meu silêncio, ela começava a fechar a cara. Tirei a mão do pescoço e ergui um dedo.

- Me deixe pensar - insisti. Sua expressão clareou, agora que ela estava satisfeita que eu pretendesse responder. Deixei minha mão cair na mesa, movendo a mão esquerda para que as palmas se juntassem.

Olhei minhas mãos, girando os dedos, enquanto finalmente eu falava.

- Bom, além do óbvio, às vezes... - hesitei. - Não posso ter certeza... eu não sei ler a mente de ninguém... mas às vezes parece que você está tentando dizer adeus quando diz outra coisa. - Era o melhor que eu podia fazer para exprimir a sensação de angústia provocada em mim pelas palavras dele de vez em quando.

- Perceptiva - sussurrou ela. E lá estava a angústia de novo, vindo à tona com a confirmação dela de meu medo. - Mas é exatamente por isso que está errada - ela começou a explicar, mas seus olhos se estreitaram. - O que quer dizer com "o óbvio"?

- Bom, olhe para mim - eu disse, desnecessariamente, pois ela já me encarava. - Sou absolutamente comum... Bom, a não ser pelas coisas ruins, como todas as experiências de quase morte e por ser tão desastrada, o que me torna praticamente incapaz. E olhe para você. - Acenei para ela e toda a sua perfeição desconcertante.

Por um momento sua testa se crispou de irritação, depois suavizou-se enquanto seus olhos assumiam uma expressão maliciosa.

- Você não se vê com muita clareza, sabia? Vou admitir que você é terrível com as coisas ruins - ela riu sombriamente -, mas você não sabia o que todo garoto desta escola estava pensando no seu primeiro dia aqui, eu fiquei igual Rose "Quem diabos seria mais bonita que eu?" mas cá estou eu, todos eles tinham razão afinal.
Eu pisquei, atônita.

- Não acredito... - murmurei para mim mesma.

- Confie em mim só desta vez... Você é o contrário do comum.

Meu constrangimento foi muito mais forte do que meu prazer com o olhar que ela me deu ao dizer isso. Rapidamente lembrei-o de meu argumento original.

- Mas não estou dizendo adeus - assinalei.

- Não entende? Isso prova que estou certa. Eu é que gosto mais, porque se eu puder fazer isso - ela sacudiu a cabeça, parecendo lutar com a ideia -, se partir é a coisa certa a fazer, então vou me magoar por continuar magoando você, para manter você segura.

Olhei para ela.

- E não acha que eu faria o mesmo?

- Você nunca precisou tomar essa decisão. - Seu humor imprevisível mudou de novo, abruptamente; um sorriso arrasador e maligno rearrumou suas feições. - É claro que manter você segura está começando a parecer uma ocupação de tempo integral que requer minha presença constante.

- Ninguém tentou me assassinar hoje - lembrei a ela, grata pelo tema mais leve. Não queria que ela falasse novamente em despedidas. Se fosse preciso, acho que eu podia me colocar em perigo de propósito só para que ela estivesse perto... Bani este pensamento antes que seus olhos rápidos o lessem em meu rosto. Esta ideia definitivamente me traria problemas.

- Ainda. - acrescentou ela.

- Ainda - concordei; eu teria discutido, mas agora queria que ela esperasse por desastres.

- Tenho outra pergunta para você. - Seu rosto ainda estava despreocupado.

- Manda.

- Você realmente precisa ir a Seattle neste sábado, ou essa era só uma desculpa para dizer não a todos os seus admiradores?

Fiz uma careta com a lembrança.

- Sabe de uma coisa, ainda não perdoei você pela história do Niki - alertei-a. - É por sua culpa que ele se iludiu em pensar que vou ao baile dos alunos com ele.

- Ah, ele teria encontrado uma oportunidade de convidar você sem mim... Eu só queria ver a sua cara - ela riu. Eu teria ficado mais irritada se o riso dela não fosse tão fascinante. - Se eu a convidasse, você teria rejeitado a mim? - perguntou ela, ainda rindo consigo mesma.

- Provavelmente não - admiti. - Mas eu teria cancelado depois... Fingindo doença ou um tornozelo torcido.

Ela ficou confusa.

- Por que faria isso?

- Pelo visto, você nunca me viu na educação física, mas achava que iria entender.

- Está se referindo ao fato de que você não consegue andar numa superfície plana e estável sem encontrar alguma coisa em que tropeçar?

- É óbvio!

- Isso não seria um problema. - Ela era muito confiante. - Tudo depende de quem conduz. - Ela podia ver que eu estava prestes a protestar e me interrompeu. - Mas você não me disse... Está decidida a ir a Seattle ou não se importa se fizermos uma coisa diferente?

Como a parte do "nós" ainda estava ali, não me importei com mais nada.

- Estou aberta a alternativas - cedi. - Mas tenho um favor a pedir.

Ela me olhou cautelosa, como sempre acontecia quando eu fazia uma pergunta pela metade.

- O que é?

- Posso dirigir?

Ela franziu a testa.

- E por quê?

- Bom, principalmente porque quando eu disse a Donghyun que ia a Seattle, ele me perguntou especificamente se eu ia sozinha e, na hora, eu ia mesmo. Se ele me perguntasse novamente, eu provavelmente não ia mentir, mas não acho que ele vá perguntar de novo, e deixar minha picape em casa só levantaria o assunto sem nenhuma necessidade. E, além disso, porque você dirige de um jeito que me dá medo.

Ela revirou os olhos.

- De todas as coisas sobre mim que podem assustá-la, você se preocupa com meu jeito de dirigir. - Ela sacudiu a cabeça de desgosto, mas depois seus olhos estavam sérios de novo. - Não quer contar a seu pai que vai passar o dia comigo? - Havia alguma coisa por trás da pergunta dela que eu não entendi.

- Com Donghyun é melhor não pecar pelo excesso. - Eu sabia muito bem disso. - Aonde vamos, aliás?

- O tempo estará bom, então vou ficar longe dos olhares públicos... E você pode ficar comigo, se quiser. - Novamente, ela estava deixando a decisão nas minhas mãos.

- E vai me mostrar o que quis dizer sobre o sol? - perguntei, animada com a ideia de revelar outro de seus aspectos desconhecidos.

- Vou. - Ela sorriu e depois parou. - Mas se não quiser ficar... só comigo, ainda prefiro que não vá a Seattle sozinha. Eu tremo só de pensar nos problemas que você pode arranjar numa cidade daquele tamanho.

- Phoenix é três vezes maior do que Seattle... só em termos de população. Em tamanho...

- Mas ao que parece - ela me interrompeu - sua hora não ia chegar em Phoenix. Então é melhor ficar perto de mim. - Seus olhos assumiram aquele ardor injusto de novo.

Eu não podia argumentar, nem com os olhos nem com a motivação, e de qualquer modo era uma questão discutível.

- Por acaso, eu não me preocupo de ficar sozinha com você.

- Eu sei - ela suspirou, meditando. - Mas devia contar ao Donghyun.

- Por que diabos eu faria isso?

Seus olhos ficaram de repente ameaçadores.

- Para me dar um pequeno incentivo para trazê-la de volta.

Engoli em seco. Mas, depois de pensar um momento, eu tive certeza.

- Acho que vou correr o risco.

Ela suspirou com raiva e desviou os olhos.

- Vamos falar de outra coisa - sugeri.

- Do que você quer falar? - perguntou ela. Ainda estava irritada.

Olhei em volta de nós, certificando-me de que estávamos fora do alcance de ouvidos alheios. Ao passar os olhos pelo salão, captei o olhar da irmã dela, Mina, me encarando.

Os outros olhavam para Momo. Virei a cara rapidamente, de volta a ela, e fiz a primeira pergunta que me veio à mente.

- Por que foi àquele lugar nas Great Rocks no fim de semana passado... para caçar? Donghyun disse que não era um bom lugar para caminhadas, por causa dos ursos.

Ela me encarou como se eu tivesse deixado escapar alguma coisa muito óbvia.

- Ursos? - arfei e ela sorriu com malícia. - Sabe de uma coisa, não é temporada de ursos - acrescentei austera, para esconder meu espanto.

- Se ler com cuidado, a lei só diz respeito a caça com armas - ela me informou.

Ela olhou para minha cara com prazer enquanto a ficha caía.

- Ursos? - repeti com dificuldade.

- Os pardos são os preferidos de Wonho. - Sua voz ainda era descuidada, mas os olhos analisavam minha reação.

Tentei me recompor.

- Hmmm - eu disse, dando outra dentada na pizza como desculpa para olhar para baixo. Mastiguei devagar e depois tomei um longo gole de Coca sem olhar para ela. - E aí - eu disse depois de um momento, encontrando por fim seu olhar, agora ansioso. - Qual é o seu preferido?

Ela ergueu uma sobrancelha e os cantos de sua boca se viraram para baixo em desaprovação.

- O leão da montanha.

- Ah - eu disse num tom educadamente desinteressado, procurando por meu refrigerante novamente.

- É claro que - disse ela, e seu tom espelhava o meu - precisamos ter o cuidado de não causar impacto ambiental com uma caçada imprudente. Tentamos nos concentrar em áreas com uma superpopulação de predadores... na maior extensão que precisarmos. Sempre há muitos cervos e veados por aqui, e eles vão servir, mas que diversão há nisso? - Ela sorriu, me provocando.

- Que diversão? - murmurei com outra dentada na pizza.

- Não há nada mais divertido do que um urso pardo irritado - concordei, assentindo.

Ela riu baixinho, sacudindo a cabeça.

- Me diga o que realmente está pensando, por favor.

- Estou tentando imaginar... mas não consigo - admiti. - Como vocês caçam um urso sem armas?

- Ah, nós temos armas. - Ela faiscou os dentes brilhantes em um sorriso breve e ameaçador. Lutei para não tremer antes que isso pudesse me expor. - Mas não do tipo que consideram quando redigem as leis de caça. Se já viu um ataque de urso pela televisão, deve poder visualizar Wonho caçando.

Não consegui impedir o tremor seguinte que reverberou por minha coluna.

Espiei pelo refeitório para Wonho, grata por ele não estar olhando na minha direção. As faixas largas de músculos que envolviam seus braços e o torso agora eram ainda mais ameaçadoras.

Momo acompanhou meu olhar e riu. Eu olhei para ela, enervada.

- Você também é como um urso? - perguntei em voz baixa.

- Mais como o leão, ou é o que me dizem - disse ela levemente. - Talvez nossas preferências sejam indicativas.

Tentei sorrir.

- Talvez - repeti. Mas minha mente estava cheia de imagens contraditórias que eu não conseguia fundir. - É uma coisa que eu poderia ver?

- Claro que não! - Seu rosto ficou ainda mais branco do que o de costume e seus olhos de repente estavam furiosos. Eu me recostei, atordoada e, embora nunca admitisse isso a ela, assustada com sua reação. Ela também recostou, cruzando os braços.

- É assustador demais para mim? - perguntei quando consegui controlar minha voz de novo.

- Se fosse assim, eu levaria você esta noite - disse ela, a voz cortante. - Você precisa de uma dose saudável de medo. Nada pode ser mais benéfico para você.

- Então por quê? - pressionei, tentando ignorar sua expressão irritada.

Ela me olhou por um longo minuto.

- Depois - disse ele por fim. Ela ficou de pé em um movimento leve. - Vamos nos atrasar.
Olhei em volta, sobressaltada ao ver que ela tinha razão e o refeitório estava quase vazio. Quando eu estava com ela, o tempo e o lugar eram uma coisa tão desordenada e indistinta que eu perdia completamente a percepção dos dois. Pulei de pé, pegando minha bolsa do encosto da cadeira.

- Depois, então - concordei. Eu não ia me esquecer.





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