[06] Pesadelos
#MomoBrilhaComoDiamante
Eu disse a Donghyun que tinha muito dever de casa para fazer e que não ia querer comer nada. Havia um jogo de basquete que ele estava empolgado, embora, é claro, eu não fizesse ideia do que existia de especial nisso, então ele não percebeu nada incomum no meu rosto ou na minha voz.
No meu quarto, tranquei a porta. Vasculhei minha mesa até encontrar meus velhos fones de ouvido e os conectei no pequeno CD player. Escolhi um CD que Phill me dera de Natal. Era de uma das bandas preferidas dele, mas havia baixo demais e muitos gritos para o meu gosto. Coloquei o CD no lugar e me deitei na cama. Pus os fones, apertei o play e aumentei o volume até machucar meus ouvidos. Fechei os olhos, mas a luz ainda os invadia, então coloquei um travesseiro na cara, impaciente.
Eu me concentrei com muito cuidado na música, tentando entender a letra, desvendar o padrão complicado da bateria. Na terceira vez que ouvi todo o CD, eu sabia pelo menos toda a letra dos refrões. Fiquei surpresa em descobrir que eu, afinal de contas, gostava da banda, depois de conseguir passar pelo barulho ensurdecedor. Tive que agradecer a Phil novamente.
E deu certo: graças à batida de rachar, foi impossível pensar ─ e era este o propósito do exercício. Ouvi o CD repetidas vezes, até que estava cantando todas as músicas e até que, finalmente, dormi.
Abri os olhos para um lugar familiar. Percebi em algum canto de minha consciência que estava sonhando, reconheci a luz verde da floresta. Eu podia ouvir as ondas quebrando nas pedras em algum lugar por perto. Sabia que, se achasse o mar, poderia ver o sol. Tentava seguir o som, mas então Son Chaeyoung estava ali, dando puxões excitantes no meu cabelo, arrastando-me para a parte mais escura da floresta.
─── Chaeyoung? Qual é o problema? - perguntei. O rosto dela estava assustado enquanto ela me puxava com toda a força e eu resistia. Eu não queria ir para a escuridão.
─── Corre, Dahyun, você tem que correr! - sussurrou ela, apavorada.
─── Por aqui, Dahyun! - reconheci a voz de Jake gritando do meio sombrio das árvores, mas eu não conseguia vê-lo.
─── Por quê? - perguntei, ainda tentando me libertar das mãos de Chaeyoung, desesperada para encontrar o sol.
Mas Chaeyoung soltou minha mão e gritou, tremendo de repente, caindo sobre o chão escuro da floresta. Ela se contorcia no chão enquanto eu olhava com pavor.
─── Chae!? - eu gritei. Mas ela se fora. No lugar dela havia um lobo grande e castanho-dourado de olhos negros. O lobo desviou os olhos de mim, apontando o focinho para a praia, o pelo eriçado nos ombros, emitindo grunhidos baixos por entre as presas à mostra.
─── Corre, Dahyun! - gritou Jake novamente atrás de mim. Mas não me virei. Estava vendo uma luz que vinha da praia em minha direção.
E depois Momo saiu das árvores, a pele brilhando um pouco, os olhos escuros e sedutores. Ergueu uma das mãos e acenou para que eu fosse com ela. O lobo grunhiu aos meus pés.
Dei um passo à frente, para Momo. Ela sorriu e seus dentes eram afiados e pontudos.
─── Confie em mim. - sussurrou ela.
Dei outro passo.
O lobo se atirou no espaço entre mim e a vampira, as presas mirando a jungular dela.
─── Não! - gritei, erguendo-me estabanada na cama.
Devido a meu movimento súbito, os fones puxaram o CD player da mesa de cabeceira e ele caiu no chão de madeira.
Minha luz ainda estava acesa e eu estava sentada toda vestida na cama, ainda de sapatos. Olhei, desorientada, o relógio na cômoda. Eram cinco e meia da manhã.
Gemi, caí de costas e me virei de bruços, tirando as botas aos chutes. Mas estava desconfortável demais para conseguir dormir. Rolei na cama e desabotoei os jeans, arrancando-os desajeitada ao tentar continuar na horizontal. Pude sentir a trança em meu cabelo, uma crista desagradável atrás do meu crânio. Virei-me de lado e tirei o elástico, penteando as mechas rapidamente com os dedos. Puxei o travesseiro para cima dos olhos.
É claro que foi inútil. Meu subconsciente procurava exatamente as imagens que eu tentava evitar com tanto desespero. Teria que encaralá-las agora.
Eu me sentei e minha cabeça girou por um minuto enquanto o sangue fluía para baixo. Vamos começar pelo início, pensei comigo mesma, feliz por poder adiar tudo pro tempo que fosse possível. Peguei minha nécessaire.
O banho não durou tanto quanto eu esperava. Mesmo demorando para secar o cabelo, eu logo havia me livrado das coisas que tinha que fazer no banheiro. Enrolada numa toalha, fui para o meu quarto. Não sabia se Donghyun ainda estava dormindo ou se já tinha saído. Fui olhar pela minha janela e a radiopatrulha não estava lá. Pescaria de novo.
Vesti-me lentamente com meu moletom mais confortável e depois fiz minha cama ─ uma coisa que eu nunca fazia. Não consegui protelar mais. Fui para minha escrivaninha e liguei o velho computador.
Eu odiava usar a internet daqui. Meu modem era tristemente obsoleto, meu provedor gratuito estava abaixo dos padrões; só a discagem levava tanto tempo que decidi preparar uma tigela de cereais enquanto esperava.
Comi devagar, mastigando cada porção com cuidado. Quando terminei, lavei a tigela e a colher, enxuguei-as e as guardei. Meus pés se arrastaram ao subir a escada. Fui primeiro para CD player, pegando-o no chão e colocando-o preciosamente na mesa. Tirei os fones e os guardei na gaveta da cômoda. Depois toquei o mesmo CD, diminuindo o volume a um ruído de fundo.
Com outro suspiro, liguei o computador. Naturalmente, a tela estava cheia de pop-ups. Sentei em minha dura cadeira dobrável e comecei a fechar todas as janelas. Por fim entrei na minha ferramenta de busca preferida. Fechei algumas pop-ups e digitei uma palavra.
Vampiro.
É claro que levou um tempo exasperadamente longo. Quando os resultados apareceram, havia muita coisa para ver ─ tudo, de filmes e programas de tv a rpg, underground metal e empresas de cosméticos góticos.
E então encontrei um site promissor ─ Vampiros de A-Z. Esperei impaciente que carregasse, clicando rapidamente para fechar cada programa que aparecia na tela. Por fim a tela estava concluída ─ um fundo branco simples com texto em preto, de aparência acadêmica. Duas situações me receberam na home page:
“Em todo o vasto mundo das sombras de fantasmas e demônios, não há figura tão terrível, nenhum personagem tão medonho e abominado, e no entanto travestido de tal fascínio temeroso, como o vampiro, que não é nem fantasma nem demônio, mas participa da natureza das sombras e possui qualidades misteriosas e terríveis de ambos. ── Rev. Montague Summers.
Se há neste mundo um relato bem documentado, é dos vampiros. Nada falta ali: relatórios oficiais, atestados de pessoas reputadas, de médicos, de padres, de magistrados; a prova judicial é a mais completa. E com tudo isso, quem há que acredite em vampiros? ── Rousseau.”
O resto do site era uma lista em ordem alfabética de todos os diferentes mitos de vampiros que existem em todo o mundo. O primeiro em que cliquei, o Danag, era um vampiro filipino supostamente responsável pelo cultivo de inhame nas ilhas há muito tempo. Dizia o mito que Danag trabalhou com seres humanos por muitos anos, mas um dia a parceria terminou, quando na mulher cortou o dedo e um Danag chupou sua ferida, desfrutando tanto do sabor que drenou totalmente o sangue de seu corpo.
Li atentamente as descrições, procurando por alguma coisa que parecesse familiar, sem mencionar plausível. Parecia que a maioria dos mitos de vampiros tinha mulheres bonitas como demônios e crianças como vítima; também pareciam conceitos criados para explicar o alto índice de mortalidade de crianças novas e dar aos homens uma desculpa para a infidelidade. Muitas histórias envolviam espíritos incorpóreos e alertas contra enterros inadequados. Não havia muito que se parecesse com os filmes que eu vira, e só alguns, como Estrie hebraico e o Upier polonês, ainda se preocupavam em beber sangue.
Só três entradas realmente prenderam minha atenção; o romeno Varacolaci, um morto-vivo poderoso que podia aparecer como um ser humano bonito de pele clara; o eslovaco Nelapsi, uma criatura tão forte e tão rápida que podia massacrar uma aldeia inteira na primeira hora depois da meia-noite; e outro, chamado Stregoni benefici.
Sobre esse último, só havia uma frase curta.
“Stregoni benefici: vampiro italiano que diz-se estar do lado do bem e é inimigo mortal de todos os vampiros do mal.”
Foi um alívio que nesta pequena entrada existisse, entre centenas de mitos, um que afirmava a existência de vampiros do bem.
Entretanto, no geral, pouco havia que coincidisse com as histórias de Chaeyoung ou minhas próprias observações. Fiz um pequeno catálogo em minha mente enquanto lia e a comparei cuidadosamente com cada mito. Velocidade, força, beleza, pele clara, olhos que mudam de cor; e depois os critérios de Chaeyoung: bebedores de sangue, inimigos dos lobisomens, pele fria e imortais. Havia poucos mitos que combinassem ao menos com um dos fatores.
E depois outro problema, uma questão de que eu me lembrava do pequeno número de filmes de terror que vira e era sustentada pela leitura de hoje ─ os vampiros não podiam sair à luz do dia, o sol queimava até que virassem cinzas. Eles dormiam em caixões o dia todo e só saíam à noite.
Exasperada, puxei a tomada do computador, sem esperar para desligar tudo adequadamente. Em minha irritação, senti um constrangimento dominador. Era tudo tão idiota. Eu estava sentada no meu quarto, pesquisando vampiros. O que havia de errado comigo? Concluí que a maior parte da culpa cabia à cidade de Forks ─ aliás, a toda a encharcada península de Olympic.
Precisava sair de casa, mas não havia aonde eu quisesse ir que não envolvesse uma viagem de três dias. Calcei as botas assim mesmo, sem ter certeza de para onde ir, e desci ao primeiro andar. Vesti a capa de chuva, sem olhar o tempo e disparei porta afora.
Estava nublado, mas ainda não chovia. Ignorei meu carro e parti para o leste a pé, atravessando na diagonal o jardim de Donghyun em direção à floresta que invadia o terreno continuamente. Pouco tempo depois eu havia avançado bastante, a casa e a rua estavam invisíveis e os únicos sons eram o esmagar da terra molhada debaixo de meus pés e o grito súbito dos gaios.
Havia ali uma trilha estreita que levava para o interior da floresta, ou eu não me arriscaria a vagar sozinha desse jeito. Meu senso de orientação era um desastre; eu podia me perder em ambientes pouco salubres. A trilha entrava cada vez mais fundo na floresta, principalmente para o leste, pelo que eu podia perceber. Serpenteava pelos espruces e as cicutas, os teixos e bordos. Só conhecia vagamente os nomes das árvores em volta de mim, e tudo o que eu sabia se devia ao fato de Donghyun apontá-las da janela da viatura na minha infância. Havia muitas que eu não conhecia e outras sobre as quais não podia ter certeza porque estavam cobertas demais de parasitas verdes.
Segui a trilha pelo tempo que a raiva que sentia por mim mesma me impeliu. Quando a raiva começou a amainar, diminuí o passo. Algumas horas de água escorriam do dossel verde acima de mim, mas eu não podia ter certeza se estava começando a chover ou se eram simplesmente gotas que restaram de ontem, presas nas folhas do alto, caindo devagar na terra. Uma árvore recém-caída ─ eu sabia que era recente porque não estava totalmente atapetada com musgo ─ pousava no tronco de uma de suas irmãs, criando um pequeno banco abrigado a uma distância segunda da trilha. Passei por cima das samambaias e me sentei com cuidado, assegurando-me de que meu casaco estivesse entre o assento molhado e minhas roupas onde quer que se tocassem, e encostei a cabeça na árvore viva.
Este era o lugar errado para ir. Eu devia saber disso, mas para onde mais iria? A floresta era de um verde intenso e parecia demais com a cena do sonho da noite passada para que eu tivesse paz de espírito. Agora que não havia mais o som de meus passos ensopados, o silêncio era penetrante. As aves também estavam quietas, a frequência das gotas aumentavam, então devia estar chovendo no alto. Agora que eu estava sentada as samambaias eram mais altas que minha cabeça, e eu sabia que alguém podia andar pela trilha, a um metro de distância, e não me ver.
Aqui, nas árvores, era muito mais fácil acreditar nos absurdos que me constrangiam entre quatro paredes. Nada mudara nesta floresta há milhares de anos e todos os mitos e lendas de cem terras diferentes pareciam muito mais prováveis nesta névoa verde do que em meu quarto claro.
Obriguei a mim mesma a me concentrar nas duas questões mais fundamentais que eu precisava responder, mas o fiz sem muita vontade.
Primeiramente, eu tinha de decidir se era possível que o que Chaeyoung dissera sobre os Cullen fosse verdade.
Minha mente reagiu imediatamente com uma negativa retumbante. Era tolice e morbidez acolher essas ideias ridículas. Mas o quê, então?, perguntei a mim mesma. Não havia explicação racional para eu estar viva neste momento. Relacionei novamente em minha cabeça as coisas que observei: a velocidade e a força impossíveis, a cor dos olhos mudando do castanho-claro e voltando para o preto, a beleza inumana, a pela branca e gélida. E mais ─ coisinhas que entraram na minha cabeça aos poucos ─, eles nunca pareciam comer e havia a elegância perturbadora com que cada um deles se movimentava. E o modo como ela falava às vezes, com uma cadência desconhecida e expressões mais adequadas a um romance da virada do século XX do que a um estudante do século XXI. Ela tinha matado aula naquele dia em que fizemos a tipagem sanguínea. Ela não disse não para a viagem à praia até saber aonde íamos. Ela parecia saber o que todos por perto dela pensavam… a não ser eu. Ela me disseram que era a vilã, perigosa…
Será que os Cullen eram vampiros?
Bom, eles eram alguma coisa. Algo fora da possibilidade de justificativa racional acontecia diante de meus olhos incrédulos. Fossem os frios de Chaeyoung ou minha teoria do super-herói, Momo Cullen não era… humana. Era algo mais.
Então ── talvez. Esta teria que ser minha resposta por enquanto.
E havia a questão mais importante de todas. O que eu ia fazer se fosse verdade?
Se Momo fosse uma vampira ─ eu mal conseguia me obrigar a pensar nas palavras ─, então, o que eu deveria fazer? Definitivamente estava fora de digitação envolver outra pessoa. Eu nem conseguia acreditar em mim mesma; qualquer um me internaria.
Apenas duas opções pareciam práticas. A primeira era aceitar o conselho dela: ser inteligente e evitá-la ao máximo. Cancelar nossos planos, voltar a ignorá-la da melhor maneira que pudesse. Fingir que havia um vidro grosso e impenetrável entre nós em uma aula onde éramos obrigadas a sentar juntas. Dizer a ela para me deixar em paz ─ e falar sério desta vez.
Fui tomada por uma angústia repentina e desesperada ao considerar essa alternativa. Minha mente rejeitou a dor, pulando rapidamente para a opção seguinte.
Eu não podia fazer nada diferente. Afinal, se ela era uma coisa… sinistra, até agora eu não tinha feito nada para me machucar fisicamente. Na verdades eu seria um vestígio da pancada no para-lama do carro de Niki se ela não tivesse agido com tanta rapidez. Tão rápida, argumentei comigo mesma, que podia ter sido por medo reflexo. Mas se foi um reflexo para salvar uma vida, como ela poderia ser mau? Retruquei. Minha cabeça girava sem respostas.
Havia algo de que eu tinha certeza se é que tinha certeza de alguma coisa. A momo sombria de meu sonho da noite passada era um reflexo do medo que senti pelo que Chaeyoung havia dito, e não do propósito de Momo. Mesmo assim, quando gritei de pavor com o ataque do lobisomem, não foi o medo do lobisomem que levou o grito “não” a meus lábios.
Foi o medo de que ela fosse ferida ─ mesmo que ela tivesse me chamado com suas presas afiadas, eu temia por ela.
E eu sabia que havia uma resposta aí. Não sabia se havia uma alternativa.
Eu já mergulhara fundo demais. Agora que eu sabia, se é que sabia nada podia fazer com meu segredo assustador. Porque, ao pensar nela, na voz dela, em seus olhos hipnóticos, na força magnética de sua personalidade, o que eu mais queria era estar com ela agora. Mesmo que… mas eu não podia estar pensando nisso. Não aqui, sozinha na floresta que escurecia. Não enquanto a chuva tornava sombria como um crepúsculo sob as árvores e tamborilava como passos no chão da terra emaranhado. Eu tremi e me levantei rapidamente de meu esconderijo, preocupada de que algum modo a trilha sumisse com a chuva.
Mas estava ali, segura e lúcida, sinuosa no labirinto verde gotejante eu a segui apressada, o capuz puxado para o rosto surpreendendo-me, à medida que quase corria pelas árvores, com o ponto a que cheguei. Comecei a me perguntar se ia conseguir sair dali, ou se seguiria a trilha ainda mais para os confins da floresta. Mas antes que o pânico fosse desmaiado, comecei a vislumbrar alguns espaços abertos pela teia de galhos. Depois pude ouvir um carro passando na rua, e eu estava livre, o gramado de Donghyun estendendo-se na minha frente a casa me chamando, prometendo-me calor e meias secas.
Era quase meio-dia quando voltei para dentro. Fui para o segundo andar e me troquei, jeans e numa camiseta, uma vez que ia ficar em casa. Não precisei de muito esforço para me concentrar na tarefa do dia, um trabalho sobre Macbetb que devia entregar na quarta. Comecei a escrever um rascunho satisfeita, mais serena do que me sentia desde… bom, desde a tarde de quinta-feira, para ser franca.
Mas este sempre foi o meu jeito. Tomar decisões era a parte dolorosa de mim, a parte que me angustiava. Mas depois que a decisão era tomadas eu simplesmente a seguia ─ em geral com o alívio por ter decidido o que fazer. Às vezes o alívio era tingido de desespero, como minha resolução de vir para Forks. Mas ainda era melhor do que lutar com as alternativas.
Era ridiculamente fácil conviver com essa decisão. Perigosamente fácil.
E assim o dia foi tranquilo e produtivo ─ terminei o trabalho antes das oito. Donghyun chegou em casa com um bom resultado da pescaria e tomei nota mentalmente para comprar um livro de receitas de peixe quando estivesse em Seattle na semana seguinte. Os arrepios que surgiram em minha espinha sempre que pensava nesta viagem não eram diferentes daqueles que senti antes de dar o passeio com Son Chaeyoung. Deviam ser diferentes, pensei. E devia estar com medo ─ sabia que devia, mas não conseguia sentir esse tipo de medo.
Naquela noite, dormi um sono sem sonhos, exausta por ter começado o dia tão cedo depois de dormir tão mal na noite anterior. Acordei, pela segunda vez desde que cheguei a Forks, com a luz amarela de um dia de sol. Pulei para a janela, atordoada ao ver que quase não havia uma nuvem no céu e que aqueles que havia eram só floquinhos felpudos e brancos que não podiam trazer chuva nenhuma. Abri a janela ─ surpresa quando ela se movem em silêncio, sem agarrar, pois não a abria há quem sabe quantos anos ─ e respirei o ar relativamente seco. Estava quase quente e praticamente não ventava. Meu sangue se eletrizou nas veias.
Donghyun estava terminando o café da manhã quando eu desci e ele percebeu meu estado de espírito de imediato.
─── Está um lindo dia. - comentou.
─── É. - concordei com um sorriso.
Ele também sorriu, os olhos castanhos enrugando-se nos cantos. Quando Donghyun sorria, era mais fácil entender por que ele e minha mãe tinham decidido se casar tão rapidamente. A maior parte do romantismo da juventude dele naquela época desaparecera antes que eu o conhecesse, à medida que seu cabelo castanho e liso ─ a mesma cor, se não a mesma textura, do meu ─ tinha encolhido, aos poucos revelando cada vez mais a pele brilhante da testa. Mas quando ele sorria, eu podia ver um pouco do homem que fugira com Jiwoo quando ela era só dois anos mais velha do que eu agora.
Tomei o café da manhã animada, vendo a poeira se agitar na luz do sol que jorrava pela janela dos fundos. Donghyun gritou um até logo e ouvi a radiopatrulha sair da casa. Hesitei a caminho da porta, a mão na capa de chuva. Seria uma provocação com o destino deixá-la em casa. Com um suspiro, dobrei-a em meu braço e saí para a luz mais brilhante que eu via em meses.
Depois de muito esforço, consegui que as duas janelas da picape ficassem quase completamente abertas. Fui uma das primeiras a chegar na escola; nem mesmo olhei o relógio, na pressa que tive e sair. Estacionei e segui para os bancos de piquenique quase sem uso no lado sul do refeitório. Os bancos ainda estavam meio molhados, então eu sentei em cima da capa de chuva, feliz por encontrar utilidade para ela. Meu dever de casa estava pronto ─ o produto de uma vida social pachorrenta ─, mas havia alguns problemas com trigonometria que eu não tinha certeza se estavam certos. Abri o livro com vontade, mas na metade da revisão do primeiro problema fiquei devaneando, vendo o sol brincar nas árvores de casca vermelha. Rabisquei desatenta nas margens de meu dever de casa. Depois de alguns minutos, de repente percebi que tinha desenhado como pares de olhos escuros me encarando da página. Passei a borracha neles.
─── Dahyun! - ouvi alguém gritar, e parecia Jake. Olhei em volta e percebi que a escola tinha se povoado enquanto eu estava sentada ali, distraída. Todos estavam de camisetas, alguns até de shorts, mas a temperatura não podia ser de mais de quinze graus. Jake vinha na minha direção de shorts cáqui e uma camiseta de rúgbi rasgadas, acenando.
─── Oi, Jake. - respondi, acenando também, incapaz de ser indiferente numa manhã dessas.
Ele veio se sentar ao meu lado, o cabelo meticulosamente arrepiado brilhando dourado na luz do sol, o sorriso se espalhando pelo rosto. Estava tão contente em me ver, que não consegui deixar de ficar satisfeita.
─── Eu não havia notado… seu cabelo é meio castanho… talvez até ruivo. - comentou ele, perguntando entre os dedos numa mecha que tremulava na brisa leve.
─── Só no sol.
Fiquei pouco à vontade enquanto ele colocava a mechas atrás da minha orelha.
─── Um ótimo dia, né?
─── Do jeito que eu gosto. - concordei.
─── O que você fez ontem? - o tom da voz dele era um pouco possessivo.
─── Trabalhei no dever sobre Macbetb, principalmente. - não acrescentei o que tinha concluído; não precisava parecer presunçosa.
Ele bateu a mão na testa.
─── Ah, é… É para quinta, não é?
─── Para quarta, eu acho.
─── Quarta? - ele franziu o cenho. ─── Isso não é bom.. o que está escrevendo no seu?
─── Se o tratamento de Shakespeare das personagens femininas é misógino.
Ela me olhou como se eu tivesse acabado de falar em latim capenga.
─── Acho que vou ter que trabalhar nisso hoje à noite. - disse ele, murcho. ─── Eu ia convidar você para sair.
─── Ah. - fui apanhada de guarda baixa. Por que eu não podia ter uma conversa agradável com Jake sem que ficasse estranho?
─── Bom, a gente podia sair para jantar ou algo assim… e eu podia fazer o trabalho depois. - ele sorriu para mim, cheio de esperança.
É, talvez eu seja lésbica mesmo.
─── Jake… - eu odiava deixar alguém numa saia justa. ─── Não acho que seria uma boa ideia.
─── Por quê? - perguntou, os olhos na defensiva. Meus pensamentos vacilaram para Momo, perguntando-me se era o que Jake também estava pensando.
─── É que eu acho… e, se um dia contar a alguém o que vou dizer agora, eu mato você com todo o prazer - ameacei. ───, mas acho que isso ia magoar Yunjin.
Ele ficou confuso, obviamente sem ter pensado neste sentido.
─── Yunjin?
─── Francamente, Jake, você é cego?
─── Ah - ele expirou, claramente confuso. Tirei proveito disso para conseguir fugir.
─── Está na hora da aula e não posso me atrasar de novo. - peguei meus livros e os enfiei na bolsa.
Andamos em silêncio para o prédio três e ele tinha uma expressão desligada. Eu esperava que os pensamentos em que estivesse imerso o levassem na direção correta.
Quando vi Yunjin na aula de trigonometria, ela estava borbulhando de entusiasmo. Ela, Yuna e Yeji iam a Port Angeles à noite para comprar roupas para o baile, e ela queria que eu fosse também, embora eu não precisasse de roupa nenhuma. Fiquei indecisa. Seria legal sair da cidade com alguma amidas, mas Hwang Yeji estaria lá. E quem sabia o que eu podia estar fazendo à noite… mas era definitivamente o caminho errado para deixar que minha mente vagasse. É claro que eu estava feliz com a luz do sol. Mas isso não era totalmente responsável pelo estado de espírito eufórico que eu sentia, nem chegava perto.
Então respondi-lhe com um talvez, dizendo-lhe que eu teria que falar com Donghyun primeiro.
Ela só fala no baile a caminho da aula de espanhol, continuando como se não tivesse interrompido quando a aula finalmente terminou e nós fomos almoçar. Eu estava perdida demais em meu frenesi de expectativa para perder a maior parte do que ela dizia. Fiquei dolorosamente ansiosa para não só ela, mas todos os Cullen ── para compará-los com as novas suspeitas que infestavam minha mente. Assim que passei pela soleira da porta do refeitório senti a primeira e verdadeira pontada de medo descer por minha espinha e acomodar-se em meu estômago. Será que eles conseguiram saber o que eu estava pensando? E depois de uma sensação diferentemente sacudiu ── será que Momo estaria esperando para sentar comigo de novo?
Eu espero que sim.
Como era minha rotina, olhei primeiro a mesa dos Cullen. Um terror de pânico atingiu meu estômago quando percebi que estava vazia. Com uma esperança que encolhia, meus olhos varreram o resto do refeitório, querendo encontrá-la sozinha, aguardando por mim. Estava lotado ─ a aula de espanhol nos atrasara ─, mas não havia sinal de Momo nem e ninguém da família dela. A desolação e sensação de abandono me tomou com uma força incapacitante.
Caminhei sem firmeza atrás de Yunjin, sem me dar ao trabalho de fingir que ainda a ouvia.
Estávamos atrasados o bastante para que todos já estivessem em nossa mesa. Evitei a cadeira vazia ao lado de Jake e fui para outra perto de Shin Yuna. Percebi vagamente que Jake afastou a cadeira educadamente para Yunjin e que a cara dela se iluminou com isso.
Yuna fez algumas perguntas em voz baixa sobre o trabalho de Macbetb, que respondi com a maior naturalidade possível enquanto caía numa espiral de infelicidade. Ela também me convidou para ir com elas esta noite e então eu concordei, prendendo-me a qualquer coisa que pudesse me distrair.
Percebi que me agarrava ao último fiapo de esperança quando entrei na aula de biologia, vi o lugar dela vazio e senti uma nova onda e decepção.
O resto do dia se passou lenta e melancolicamente. Na educação física, tivemos uma aula sobre as regras do badminton, a tortura seguinte que preparavam para mim. Mas pelo menos isso significava que eu ia ficar sentada ouvindo, em vez de tropeçar pela quadra. A melhor parte foi que o treinador não terminou, então eu teria outro dia de folga amanhã. Pouco importava que no dia seguinte me armariam com uma raquete antes de me libertar pelo resto da aula.
Fiquei feliz por sair do campus, assim eu estaria livre para fazer meus beicinhos e me lamentar antes de sair à noite com Yunjin e companhia. Mas logo depois de entrar pela porta da casa de Donghyun, Yunjin ligou para cancelar nossos planos. Tentei ficar feliz com o fato de Jake tê-la convidado para jantar ─ eu estava mesmo aliviada por ele finalmente ter entendido ─, mas meu entusiasmo parecia falso aos meus próprios ouvidos. Ela reprogramou nossa viagem de compras para amanhã à noite.
Isso me deixou com poucas distrações. Temperei o peixe para o jantar, fiz uma salada e preparei um pão que sobrara da noite anterior, então não havia nada a fazer ali. Passei uma meia hora concentrada no dever de casa, mas depois também o terminei. Chequei meu e-mail, lendo as mensagens de minha mãe, que ficaram mais mal-humoradas à medida que se acumulavam.
Eu suspirei e digitei uma resposta rápida.
“Mãe,
Desculpe, eu estive fora. Fui à praia com alguns amigos. E preciso escrever um trabalho.”
Minhas desculpas eram muito patéticas, então desisti delas.
“Hoje fez sol ─ eu sei, estou chocada também ─ então vou ficar lá fora e me encharcar do máximo de vitamina D que eu puder. Eu te amo.
Dahyun.”
Decidi matar uma hora com leituras não relacionadas à escola. Eu tinha uma coleção de livros que vieram comigo para Forks, e o volume mais esfrangalhado era uma compilação das obras de Jane Austen. Escolhi este e fui para o quintal, pegando uma mata verde e puída no armário do alto da escada ao descer.
No quintal pequeno e quadrado de Donghyun, dobrei a manta no meio e a coloquei nas sombras das árvores no gramado espesso, sempre meio úmido, independente de o quanto o sol brilhasse. Deitei de bruços, cruzando os tornozelos no ar, folheando os diferentes romances do livros tentando decidir qual deles ocuparia mais a minha mente. Só para me lembrar, depois que comecei o capítulo três, que a heroína do romance se chamava Momo. Irritada, passei para outro livro, mas a heroína se chamava Momo também. Será que não havia nenhum outro nome disponível no século XVIII? Fechei o livro ruidosamente, irritada, e rolei de costas. Puxei as mangas o mais alto que pude e fechei os olhos. Só ia pensar no calor em minha pele, disse a mim mesma severamente. A brisa ainda era leve, mas soprava alguns fios do meu cabelo no rosto e isso me fez cócegas. Puxei todo o cabelo para trás, deixando que caísse em leque na manta embaixo de mim, e me concentrei novamente no calor que tocava minhas pálpebras, as maçãs do rosto, meu nariz, os lábios, os antebraços, o pescoço, penetração por minha blusa leve…
Quando dei por mim, percebi o som da viatura de Donghyun virando no piso da entrada de carros. Sentei-me surpresa, notando que a luz se fora, atrás das árvores, e eu tinha dormido. Olhei em volta, desnorteada, com a sensação repentina que não estava só. Parecia ter alguém me olhando ─ porém meu pai estava estacionando o carro.
─── Donghyun? - perguntei, mas eu podia ouvir a porta do carro batendo na frente de casa.
Fiquei de pé num pulo, tensa sem nenhum motivo, pegando a manta agora molhada e meu livro. Corri para dentro a fim de colocar o óleo para esquentar no fogão, percebendo que o jantar sairia atrasado. Donghyun estava pendurando o cinto da arma e tirando as botas quando eu entrei.
─── Desculpe, pai, o jantar ainda não está pronto… eu dormi lá fora. - reprimi um bocejo.
─── Não se preocupe com isso. - disse ele. ─── Eu queria pegar o placar do jogo, de qualquer forma.
Para ter alguma coisa para fazer, vi TV com Donghyun depois do jantar. Não havia nada a que eu quisesse assistir, mas ele sabia que eu não gostava de basquete, então colocou numa sitcom estúpida de que nenhum de nós gostou. Mas ele parecia feliz por fazermos alguma coisa juntos. E foi bom, apesar da minha depressão, fazê-lo feliz.
─── Pai - eu disse durante um intervalo. ─── Yunjin e Yuna vão procurar vestidos para o baile amanhã à noite em Port Angeles, e elas queriam que eu ajudasse a escolher… se importa se eu for com elas?
─── Huh Yunjin? - perguntou ele.
─── E Shin Yuna. - suspirei ao lhe dar os detalhes.
Ele ficou confuso.
─── Mas você não vai ao baile, não é?
─── Não, pai, mas vou ajudar umas meninas a encontrar vestidos… sabe como é, para fazer uma crítica construtiva. - eu não teria que explicar isso a uma mulher.
─── Bom, tudo bem. - ele pareceu perceber que essas coisas de mulherzinha estavam além de sua compreensão. ─── Mas no dia seguinte tem aula.
─── Vamos sair logo depois da escola, então podemos voltar cedo. Não vai ter problemas com o jantar, não é?
─── Tofu, eu me alimentava sozinho há dezessete anos antes de você vir para cá. - ele me lembrou.
─── Não sei como sobreviveu. - murmurei, depois acrescentei com mais clareza. ─── Vou deixar algumas coisas para um sanduíche frio na geladeira, está bem? Na prateleira de cima.
[...]
A manhã foi ensolarada de novo. Acordei com uma esperança renovada que tentei reprimir com rigor. Me vesti para o clima mais quente com uma blusa azul-escura com decote em V ─ uma coisa que eu vestia no auge do inverno em Phoenix.
Eu tinha planejado minha chegada à escola de modo que mal tivesse tempo para entrar na sala. Com o coração aos pulos, contornei o estacionamento cheio, procurando por uma vaga, ao mesmo tempo que também procurava pelo Volvo prata que claramente não estava ali. Infelizmente. Eu estacionei na última fila e corri para a aula de inglês, chegando sem fôlego, mas controlada, antes que o sinal tocasse.b
Foi igual ontem ── eu simplesmente não conseguia evitar que as sementes da esperança brotassem na minha mente, para depois vê-las sendo esmagadas sem dó enquanto eu procurava em vão pelo refeitório e me sentava no lugar vazio na carteira de biologia.
Eu estava sentindo falta dela.
O esquema de Port Angeles mudou de novo esta noite e ficou mais interessante pelo fato de que Yeji tinha outros compromissos. Fiquei ansiosa para sair da cidade, para que pudesse parar de olhar por sobre o ombro, na esperança de vê-la aparecer do nada, como ela sempre fazia. Jurei a mim mesma que estaria de bom humor à noite e não estragaria a diversão de Yuna e Yunjin na caça ao vestido perfeito. Talvez eu pudesse comprar algumas roupas também. Recusei-me a pensar que podia fazer compras sozinha em Seattle neste fim de semana, sem ter mais interesse no que foi combinado antes. Certamente ela não cancelaria sem me avisar.
Depois da aula, Yunjin me acompanhou até em casa com seu velho Mercury branco para que eu pudesse deixar meus livros e a picape. Escovei o cabelo rapidamente quando estava lá dentro, sentindo uma leve empolgação ao pensar em sair de Forks. Deixei um bilhete para Donghyun na mesa, explicando de novo onde estava o jantar tirei a carteira surrada da bolsa da escola, coloquei numa bolsa que eu raras vezes usava e corri para encontrar Yunjin. Em seguida fomos à casa de Yuna e ela estava nos esperando. Minha empolgação aumentava exponencialmente à medida que saímos dos limites da cidade.
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