[02] Livro aberto

#MomoBrilhaComoDiamante

O dia seguinte foi o melhor... e pior.

Foi melhor porque ainda não estava chovendo, mas as nuvens eram densas e opacas. Era mais fácil porque eu sabia o que esperar do meu dia. Jake veio se sentar comigo na aula de inglês e me acompanhou até a aula seguinte, com Jeongin clube de xadrez encarando-o o tempo todo; isso foi lisonjeiro. As pessoas não costumavam olhar tanto para mim como eles fizeram ontem. No almoço, fiquei com um grande grupo que incluía Jake, Yunjin e várias outras pessoas cujos nomes e rostos agora eu me lembrava. Comecei a sentir que estava boiando na água, e não me afogando nela.

Foi pior porque eu estava cansada; ainda não conseguia dormir com o vento ecoando pela casa. Foi pior porque o Sr. Varner chamou meu nome na aula de trigonometria quando não levantei minha mão, e acabei dando a resposta errada. Foi lamentável porque tive que jogar volei e, na única vez que não me abaixei para escapar da bola, atingi minha colega de equipe na cabeça. E foi pior porque Momo Cullen não foi à escola.

Durante toda a manhã tive medo do almoço; temendo os olhares estranhos dela. Parte de mim queria confrontá-la e exigir que me dissesse qual era o problema. Enquanto estava deitada insone na cama, cheguei a imaginar o que diria. Mas eu me conhecia bem demais para pensar que realmente teria coragem de fazer isso. Eu fazia o Leão Covarde de ‘O mágico de Oz’ parecer um exterminador do futuro.

Mas enquanto entrei no refeitório com Yunjin — tentando evitar que meus olhos vasculhassem o lugar à procura dela e fracassando completamente — vi que seus quatro irmãos estavam sentados juntos à mesma mesa, e ela não estava lá.

Jake nos interceptou e nos conduziu até a mesa dele. Yunjin parecia inflada pela atenção e as amigas dela rapidamente se juntaram a nós. Mas ao tentar ouvir sua conversa tranquila, fiquei terrivelmente aflita, esperando nervosa pelo momento em que ela chegaria. Esperava que ela simplesmente me ignorasse, e provasse que minhas suspeitas eram falsas.

Ela não apareceu e, à medida que o tempo passava, eu ficava cada vez mais tensa.

Fui para a aula de biologia mais confiante quando, lá pelo final do almoço, ela ainda não tinha aparecido. Jake, que estava falando das qualidades de um golden retriever, andou fielmente ao meu lado até a sala. Prendi a respiração na porta, mas Momo Cullen também não estava lá. Soltei o ar e fui para o meu lugar. Jake me seguiu, falando da futura viagem que faria à praia. Ele se demorou na minha carteira até que o sinal tocou. Depois sorriu para mim de um jeito tristonho e foi se sentar ao lado de uma menina cheia de pulseiras com um permanente mal feito. Eu teria que fazer alguma coisa a respeito de Jake, e não seria fácil. Em uma cidade dessas, onde todo mundo morava perto de todo mundo, era fundamental ter diplomacia. Nunca tive muito tato; não tinha prática em lidar com meninos abertamente amistosos.

Fiquei aliviada por ter a carteira só para mim, por Momo estar ausente. Disse isso a mim mesma repetidamente. Mas não estar ali. Era ridículo e egoísta pensar que eu podia afetar tanto uma pessoa. Era impossível. E, no entanto, eu não conseguia deixar de me preocupar com a ideia de que isso fosse verdade.

Quando o dia de aula enfim terminou e o rubor pelo incidente no vôlei desaparecia do meu rosto, vesti rapidamente meus jeans e o suéter azul-marinho. Saí correndo do vestiário das meninas, satisfeita por descobrir que tinha conseguido escapar de meu amigo cachorrinho por algum tempo. Andei rapidamente para o estacionamento. Agora estava abarrotado de alunos indo embora. Fui para minha picape e vasculhei minha bolsa para ter certeza de que tinha o que precisava.

Na noite passada, descobri que Donghyun não sabe cozinhar
grande coisa além de ovos fritos e bacon. Então pedi para cuidar da cozinha enquanto estivesse ali. Ele estava bastante interessado em passar adiante as chaves do salão de banquete. Também descobri que ele não tinha comida em casa. Então fiz minha lista de compras, peguei o dinheiro no pote do armário rotulado de ‘’Dinheiro da comida’’ e estava a caminho do Thriftway.

Disparei meu motor ensurdecedor, ignorando as cabeças que se viravam na minha direção, e dei a ré cuidadosamente para um lugar na fila de carros que espiavam para sair do estacionamento. Enquanto aguardava,
tentando fingir que o estrondo de furar os tímpanos vinha de outro carro, vi os dois Cullen e os gêmeos Hale entrando no carro deles. Era o Volvo novinho. É claro. Eu ainda não tinha percebido as roupas que usavam — fiquei hipnotizada demais com o rosto deles. Agora que eu olhava, ficou óbvio que todos se vestiam excepcionalmente bem; com simplicidade, mas com roupas que sugeriam sutilmente boas marcas. Com sua beleza extraordinária, o estilo com que se portavam, eles podiam vestir uns trapos rasgados e ainda assim se dar bem. Parecia um exagero que fossem bonitos e também tivessem dinheiro. Mas, pelo que eu saiba, na maior parte do tempo a vida era assim. E não parecia que isso lhes trouxesse aceitação de beleza.

Eles olharam para minha picape barulhenta enquanto passei, como todo mundo fez. Continuei olhando para frente e fiquei aliviada quando finalmente saí da área da escola.

O Thriftway não ficava longe, só a algumas ruas ao sul, junto à rodovia. Era bom estar dentro do supermercado. Parecia normal. Sempre fiz as compras de casa, e me entreguei com prazer à rotina do mercado. A loja era bem grande por dentro, e não consegui ouvir bater da chuva no telhado para me lembrar de onde estava.

Quando cheguei em casa, guardei todos os mantimentos, colocando-os onde houvesse espaço. Esperava que Donghyun não se importasse. Embrulhei as batatas em papel de alumínio e pus no forno para assar, coloquei uns bifes para marinar e os equilibrei em cima de uma caixa de ovos na geladeira.

Quando terminei com isso, levei minha mochila de livros para cima. Antes de começar o dever de casa, vesti um moletom seco, prendi o cabelo molhado num rabo de cavalo e verifiquei meu e-mail pela primeira vez. Tinha três mensagens.

”Dahyun”, escreveu minha mãe…

“Escreva-me assim que puder. Conte como foi sua noite. Está chovendo? Já estou com saudades. Estou quase terminando as malas para a Flórida, mas não consigo encontrar minha blusa rosa. Sabe onde eu a coloquei? Phil manda lembranças. Mamãe.”

Eu suspirei e passei à mensagem seguinte. Foi enviada oito horas depois da primeira.

“Dahyun” escreveu ela.

“Porque não me respondeu ainda? O que está esperando? Mamãe.”

A última era desta amanhã.

“Kim Dahyun.
Se hoje eu não tiver notícias suas até às cinco e meia da tarde de hoje vou ligar para o Donghyun.”

Olhei o relógio. Ainda tinha uma hora, mas minha mãe era famosa pela precipitação.

“Mãe, calma.
Estou escrevendo agora. Não faça nenhuma bobagem. Dahyun.”

Mandei essa e recomecei.

“Mãe,
Está tudo ótimo. É claro que está chovendo. Eu estava esperando ter algo para escrever. A escola não é ruim, só meio repetitiva. Conheci umas pessoas legais que almoçam comigo.

Sua blusa está na lavanderia — você deveria ter pego na sexta-feira.

Donghyun comprou uma picape para mim. Dá para acreditar? Eu adorei. É velha, mas bem forte, o que é bom, sabe como é, pra mim.

Também estou com saudades. Vou escrever novamente logo, mas não fico verificando meus emails a cada cinco minutos. Relaxe, respire fundo. Eu te amo.

Dahyun.”

[...]

Eu tinha decidido ler “o morro dos ventos uivantes”— o romance que estávamos estudando no curso de inglês — só por prazer, e era o que eu estava fazendo quando Donghyun chegou em casa. Eu tinha perdido a hora, e corri para baixo para tirar as batatas e colocar os bifes para grelhar.

─── Dahyun? - chamou meu pai quando me ouviu na escada.

Quem mais seria? pensei comigo mesma.

─── Oi, pai, bem-vindo.

─── Obrigado. - ele pendurou o cinturão da arma e tirou as botas enquanto eu estava atarefada na cozinha.

Pelo que eu saiba, ele nunca disparou a arma no trabalho. Mas a mantinha preparada. Quando eu era criança e vinha aqui, ele sempre retirava as balas assim que passava pela porta. Acho que agora me considerava velha o bastante para não atirar em mim mesma por acidente, nem deprimida o bastante para atirar em mim mesma de propósito.

─── O que temos para o jantar? - perguntou ele cheio de cautela. Minha mãe era uma cozinheira com muita imaginação e as experiências dela nem sempre eram comestíveis. Fiquei surpresa, e triste, que ele parecesse se lembrar de um fato tão remoto.

─── Bife com batata. - Respondi, e ele pareceu aliviado.

Ele deu a impressão de que se sentia estranho, parado ali na cozinha sem fazer nada; arrastou-se para ver tv na sala enquanto eu trabalhava. Nós dois ficávamos mais à vontade desse jeito. Fiz uma salada enquanto os bifes grelhavam e pus a mesa.

Eu o chamei quando o jantar estava pronto e ele gostou do cheiro ao passar pela porta.

─── Que cheiro bom, Dahyun.

─── Obrigada.

Comemos sem dizer nada por alguns minutos. Não foi desagradável. Nenhum de nós se incomodava com o silêncio. De certa forma, éramos bem adequados para morar juntos.

─── E então, como foi na escola? Fez algum amigo? - perguntou ele aí se servir pela segunda vez.

─── Bom, tive algumas aulas com uma menina chamada Yunjin. Sentei para almoçar com os amigos dela. E tem um garoto, Jake, que é muito simpático. Todo mundo parece bem legal. - infelizmente, com uma notável exceção.

─── Deve ser Jaeyun Newton. Garoto bom… uma boa família. O pai é dono da loja de produtos esportivos perto do centro. Ele ganha um bom dinheiro com todos os mochileiros que vêm aqui.

─── Conhece a família Cullen? - perguntei, hesitante.

─── A família do Dr. Cullen? Claro. O Dr. Cullen é um grande homem.

─── Eles… os filhos… são meio diferentes. Não parecem se adaptar muito bem na escola.

Donghyun se surpreendeu ao aparentar raiva.

─── As pessoas desta cidade - murmurou ele ─── O Dr. Cullen é um cirurgião brilhante que provavelmente poderia trabalhar em qualquer hospital do mundo, ganhando dez vezes o salário que ganha aqui - continuou ele, falando mais alto. ─── Temos sorte de tê-lo por aqui… sorte pela esposa dele aceitar morar numa cidade pequena. Ele é um trunfo para a comunidade, e todos os filhos são bem-comportados e educados. Tive minhas dúvidas quando se mudaram para cá, com todos aqueles adolescentes adotivos. Pensei que podíamos ter algum problema com eles. Não posso dizer o mesmo dos filhos de algumas pessoas que moram nesta cidade há gerações. E eles são unidos, como deve ser uma família… só porque são novos aqui, as pessoas ficam falando.

Foi o discurso mais longo que já ouvi de Donghyun. Ele deveria se aborrecer muito com o que as pessoas diziam.

Recuei um pouco.

─── Eles parecem legais para mim. Só percebi que saí muitos reservados. Todos são muito bonitos. - acrescentei, tentando ser mais elogiosa.

─── Deveria ver o médico. - disse Donghyun, rindo. ─── Ainda bem que é bem casado. Muitas enfermeiras do hospital têm dificuldade para se concentrar no trabalho quando ele está por perto.

Terminamos de comer em silêncio. Ele tirou a mesa enquanto eu começava a lavar os pratos. Ele voltou à tv, e eu, depois de terminar com os pratos — lavados à mão, e não na máquina —, subi sem nenhuma vontade de fazer o dever de matemática. Podia sentir um costume se formando.

Enfim aquela noite foi silenciosa. Dormi rapidamente, exausta.

O resto da semana foi calmo. Eu me acostumei com a rotina de minhas aulas. Na sexta-feira, conseguia reconhecer, se não pelo nome, quase todos os alunos da escola. Na educação física, as meninas da minha turma aprenderam a não me passar a bola e a sair rapidamente da minha frente se o outro time tentava se aproveitar da minha fraqueza. Eu saía de seu caminho feliz.

Momo Cullen não voltou à escola.

Todo dia eu observava ansiosa até os demais Cullen entrarem no refeitório sem ela. Depois eu pude relaxar e participar da conversa do almoço. Centrava-se principalmente numa viagem para Lá Push Ocean Park dali a duas semanas, que Jake estava organizando. Fui convidada e tive que concordar em ir, mais por educação do que por desejo. As praias devem ser quentes e secas.

Na sexta-feira eu estava perfeitamente à vontade entrando na minha aula de biologia; sem me preocupar mais se Momo estava ali ou não. Pelo que sabia, ela tinha saído da escola. Tentei não pensar nela, mas não conseguia reprimir completamente a preocupação de que eu fosse responsável por sua ausência contínua, embora isso fosse ridículo.

Meu primeiro fim de semana em Forks foi tranquilo. Donghyun, desabituado a ficar na casa normalmente vazia, trabalhou na maior parte do fim de semana. Eu limpei a casa, adiantei o dever e escrevi à minha mãe um e-mail mais falsamente animado. Fui à biblioteca no sábado, mas era tão mal abastecida que não me deu ao trabalho de fazer um cartão de inscrição; eu teria que marcar logo uma data para ir a Olympia ou Seattle e encontrar uma boa livraria. Imaginei inutilmente qual seria o consumo de combustível da picape. E estremeci ao pensar nisso.

A chuva continuou branda pelo fim de semana, tranquila, então eu pude dormir bem.

As pessoas me cumprimentaram no estacionamento na segunda-feira de manhã. Eu não sabia o nome de todos, mas retribuí os acenos e sorri para todos. Estava mais frio nesta manhã, mas felizmente não chovia. Na aula de inglês, Jake assumiu seu lugar de costume ao meu lado. Teve um teste relâmpago sobre “O morro dos ventos uivantes”. Era simples, muito fácil.

No todo, eu estava me sentindo muito mais à vontade do que pensava que estaria nessa altura. Mais à vontade do que esperava me sentir um dia.

Quando saímos da sala de aula, o ar estava cheio de pontinhos brancos rodopiando. Eu podia ver as pessoas gritando animadas umas com as outras. O vento mordia meu rosto, meu nariz.

─── Puxa - disse Jake. ─── Está nevando.

Olhei para os pequenos tufos de algodão que se acumulavam pelas calçadas e giravam erraticamente por meu rosto.

─── Eca! - Neve. Lá se foi meu dia bom.

─── Não gosta de neve?

─── Não. Significa que está frio demais para chover. - é óbvio. ─── Além disso, pensei que deveria cair flocos… sabe como é, cada um é único e essas coisas. Isso aqui só parece ponta de cotonete.

─── Nunca viu a neve cair? - perguntou ele, incrédulo.

─── Claro que vi... - dei uma pausa ─── Na tv.

Jake riu. E aí uma bola grande e macia de neve gotejante bateu na cabeça dele. Nós dois nos viramos para ver se onde veio. Eu tinha minhas desconfianças de Jeongin, que estava se afastando, de costas para nós — na direção errada para a primeira aula dele. Ao que parecia, Jake teve a mesma ideia. Ele se curvou e começou a formar um morro de papa branca.

─── A gente se vê no almoço, está bem? - continuei andando enquanto falava. ─── Quando as pessoas começam a atirar coisas molhadas nas outras, eu entro.

Ele só assentiu, os olhos em Jeongin, que se distanciava.

Por toda a manhã, todos bateram papo animadamente sobre a neve; ao que parecia, era a primeira vez que nevava no ano novo. Fiquei de boca fechada. É claro que era mais seco do que quando chovia ─ até a neve derreter nas meias da gente.

Segui em estado de alerta para o refeitório com Yunjin depois da aula de espanhol. Voavam bolas empapadas por todo lado. Mantive uma pasta na mão, pronta para usá-la como escudo, se necessário. Yunjin me achou hilária, mas alguma coisa na minha expressão impediu que ela me lançasse uma bola de neve.

Jake nos encontrou quando passávamos pela porta, rindo, com gelo desmanchando seu cabelo espetado. Ele e Yunjin conversaram animadamente sobre a guerra de neve enquanto entrávamos na fila para comprar comida. Olhei a mesa do canto, mais por hábito. E depois geleia. Havia cinco pessoas à mesa.

Yunjin puxou meu braço.

─── Ei! Dahyun? O que você quer?

Baixei a cabeça; minhas orelhas estavam quentes. Eu não tinha motivo para me sentir constrangida, lembrei a mim mesma. Não tinha feito nada de errado.

─── O que há com a Dahyun? - Jake perguntou a Yunjin.

─── Nada - respondi. ─── Só vou querer refrigerante hoje. - emparelhei com o último da fila.

─── Não está com fome? - perguntou Yunjin.

─── Na verdade, estou meio enjoada - eu disse, meus olhos ainda no chão.

Esperei que eles pegassem a comida e os seguidores até a mesa, meus olhos nos pés.

Bebi meu refrigerante lentamente, o estômago agitado. Por duas vezes eu Jake perguntou, com uma preocupação desnecessária, como eu estava me sentindo. Disse a ele que não era nada, mas fiquei me perguntando se eu devia fingir a escapulir para a enfermaria pela próxima hora.

Ridículo. Eu não precisava fugir.

Decidi me permitir dar uma olhada na mesa da família Cullen. Se ela estivesse olhando para mim, eu mataria a aula de biologia, como a covarde que era.

Mantive a cabeça baixa e espiei de canto de olho. Nenhum deles olhava na minha direção. Ergui um pouco a cabeça.

Eles estavam rindo. Momo, Changkyun e Wonho estavam com os cabelos totalmente encharcados de neve derretendo. Mina e Rose se curvam, tentando se afastar, enquanto Wonho sacudia o cabelo molhado para elas. Estavam curtindo o dia de neve, como todos os outros ─ só que pareciam estar numa cena de filme, mais do que o resto de nós.

Além dos risos e das brincadeiras, havia algo diferente e eu não conseguia perceber o que era. Examinei Momo com mais cuidado. A pele estava menos pálida, concluí ─ corada da guerra de neve, talvez ─, os círculos eram torno dos olhos, bem menos perceptíveis. Mas havia alguma coisa. Eu refleti, encarando, tentando isolar a mudança.

─── Dahyun, o que você está olhando? - intrometeu-se Yunjin, os olhos seguindo meu olhar.

Naquele exato momento, os olhos dela lampejaram e encontraram os meus. Mas eu tinha certeza de que, no instante em que nossos olhos se encontraram, ela não parecia rude nem antipática como na última vez que a vi. Só parecia curiosa novamente, e de certa forma insatisfeita.

─── Momo Cullen está olhando para você. - Yunjin riu na minha orelha.

─── Ela não parece estar com raiva, parece? - não pude deixar de perguntar.

─── Não - disse ela, meio confusa com a minha pergunta. ─── Deveria estar?

─── Acho que ela não gosta de mim - confidenciei. Ainda me sentia nauseada. Baixei a cabeça no braço.

─── Os Cullen não gostam de ninguém… bom, eles não percebem a presença de ninguém para não gostar. Mas ela ainda está olhando para você.

─── Pare de olhar para ela. - Sibilei.

Ela deu uma risadinha, mas desviou os olhos. Levantei a cabeça o bastante para ter certeza de que ela fizera isso, pensando em usar de violência se ela resistisse.

Jake nos interrompeu ─ estava planejando uma épica batalha de neve no estacionamento depois da aula e queria que fôssemos também. Yunjin concordou com entusiasmo. Pelo modo como Yunjin olhou para Jake, havia poucas dúvidas de que ela concordaria com qualquer coisa que ele sugerisse. Eu me mantive calada. Teria que me esconder no ginásio até que o estacionamento estivesse vazio.

Pelo resto da hora de almoço, mantive muito cuidadosamente os olhos em minha própria mesa. Decidi cumprir o trato que fizera comigo mesma. Como ela não parecia ter raiva, eu iria para aula de biologia. Meu estômago deu pulos de medo com a ideia de sentar ao lado dela de novo.

Eu na verdade não queria ir para a aula com Jake,como sempre fazia ─ ele parecia ser um alvo popular dos atiradores de bola de neve ─, mas quando chegamos à porta, todo mundo do meu pai gemeu em uníssono. Estava chovendo, e a água lavava todos os vestígios de neve em faixas claras e geladas pelo canto do meio-fio. Puxei o capuz para cima, secretamente satisfeita. Eu estava livre para ir direto pra casa depois da educação física.

Jake desafiou um rosário de queixas no caminho para o prédio quatro.

Depois de entrar na sala de aula, vi com alívio que minha carteira ainda estava vazia. O Sr. Banner andava pela sala, distribuindo um microscópio e uma caixa de lâminas para cada carteira. A aula só começaria alguns minutos depois e a sala zumbia com as conversas. Mantive os olhos afastados da porta, rabiscando preguiçosamente na capa do meu caderno.

Ouvi com muita clareza quando a cadeira ao lado da minha se mexeu, mas meus olhos continuaram cuidadosamente focalizados no que eu desenhava.

─── Oi - disse uma voz baixa e musical.

Olhei para cima, atordoado por ela estar falando comigo. Estava sentada a maior distância de mim que a carteira permitia, mas sua cadeira voltava-se para mim. O cabelo gotejava, despenteada ─ mesmo assim, ela parecia ter acabado de gravar um comercial de creme de cabelo. Seu rosto deslumbrante era simpático, franco, um leve sorriso nos lábios impecáveis. Mas os olhos eram cautelosos.

─── Meu nome é Momo Cullen. - continuou ela. ─── Não tive a oportunidade de me apresentar na semana passada. Você deve ser Dahyun.

Minha mente girava de tanta confusão. Será que eu tinha inventado tudo aquilo? Ela agora estava sendo perfeitamente educada. Eu precisava falar; ela estava esperando. Mas não conseguia pensar em nada de convencional para dizer.

─── Como você sabe meu nome? - gaguejei. Ela deu um sorriso suave e encantador como resposta.

─── Ah, acho que todo mundo sabe seu nome. A cidade toda estava esperando você chegar.

Dei um sorriso duro. Eu sabia que era algo desse tipo.

─── Não - insisti, feito uma idiota. ─── Quero dizer, por que me chamou só de Dahyun? - ela pareceu confusa.

─── Prefere Kim Dahyun?

─── Não, eu gosto de só Dahyun - eu disse. ─── Mas acho que Donghyun… quer dizer, meu pai… deve me chamar de Kim Dahyun nas minhas costas… é como todo mundo aqui parece me conhecer - tentei explicar, sentindo-me uma completa idiota.

─── Ah. - ela deixou passar essa. Eu desviei os olhos, sem graça.

Felizmente, o Sr. Banner começou a aula naquele momento. Tentei me concentrar enquanto ele explicava a prática de laboratório que íamos fazer hoje. As lâminas na caixa estavam fora de ordem. Trabalhando como parceiras, teríamos que separar as lâminas de células de ponta de raiz de cebola nas fases de mitose que representavam e rotulá-las corretamente. Não devíamos usar os livros. Em vinte minutos, ele voltaria para ver o que tínhamos conseguido.

─── Podem começar. - ordenou ele.

─── Quer começar primeiro, parceira? - perguntou Momo. Olhei para ela e a vi dando um sorriso torto tão bonito que só pude ficar olhando com uma cara idiota. ─── Ou eu posso começar, se preferir. -o sorriso sumiu; ela obviamente se perguntava se eu era mentalmente competente.

─── Não - eu disse, corando. ─── Eu começo.

Eu estava me exibindo, só um pouco. Já tinha feito essa experiência e sabia o que procurar. Deveria ser fácil. Coloquei a primeira lâmina no lugar sob o microscópio e ajustei-o rapidamente para a objetiva de 40x. Estudei a lâmina por alguns instantes. Minha avaliação foi confiante.

─── Prófase.

─── Importa-se se eu olhar? - perguntou ela enquanto eu começava a retirar a lâmina. Sua mão pegou a minha, para me deter, quando fez a pergunta. Seus dedos eram frios como gelo, como se ela os tivesse enfiado numa bola de neve antes da aula. Mas não foi por isso que eu puxei a mão rapidamente. Quando ela me tocou, minha mão foi atingida como se uma corrente elétrica tivesse passado entre nós.

─── Desculpe - murmurou ela, recuando a mão de imediato. Mas continuou a pegar o microscópio. Eu a observei, ainda meio tonta, enquanto ela examinava a lâmina por um tempo ainda mais curto do que eu fizera.

─── Prófase - concordou, escrevendo numa letra elegante no primeiro espaço de nossa folha de respostas. Ela trocou rapidamente a primeira lâmina pela segunda, depois a observou com curiosidade. ─── Anáfase - murmurou, escrevendo enquanto falava.

Meu tom foi indiferente.

─── Posso? - Ela deu um sorriso malicioso e empurrou o microscópio para mim.

Olhei ansiosamente pelo ocular, só para ficar decepcionada. Mas que droga, ela tinha razão.

─── Lâmina de três? - estendi a mão sem olhar para ela.

Ela me passou a lâmina; parecia que estava tendo o cuidado de não tocar a minha pele de novo. Dei a olhada mais fugaz que pude.

─── Intérfase. - passei-lhe o microscópio antes que ela pudesse pedir. Ela deu uma espiada rápida e depois escreveu. Eu teria escrito enquanto ela olhava, mas a letra clara e elegante dela me intimidava. Não queria estragar a página com meu garrancho malfeito.

Nós terminamos antes que qualquer um chegasse perto disso. Eu podia ver Jake e o parceiro dele comparando sem parar duas lâminas, e outro grupo tinha livro aberto sob a carteira.

Assim, não me restava nada a fazer a não ser tentar não olhar para ela… sem sucesso. Olhei para cima. E ela estava me encarando, com aquela mesma expressão inexplicável de frustração nos olhos. De repente identifiquei aquela diferença sutil em seu rosto.

─── Você usa lentes de contato? - soltei sem pensar.

Ela parecia confusa com a minha pergunta.

─── Não.

─── Ah… - murmurei. ─── Pensei ver alguma coisa diferente em seus olhos. - ela deu de ombros e desviou o rosto.

Na verdade, eu tinha certeza que havia algo diferente. Lembrava-me nitidamente da cor preta dos olhos dela na última vez em que ela olhou para mim ── a cor se destacava contra o fundo de sua pele clara e o cabelo castanho.  Hoje, os olhos dela eram de uma cor completamente diferente: um ocre estranho, mais escuro que caramelo, mas com o mesmo tom castanho-claro. Eu não entendia como podia ser assim, a não ser que, por algum motivo, ela estivesse mentindo sobre as lentes de contato. Ou talvez Forks estivesse me deixando louca, no sentido literal do termo.

Olhei para baixo. As mãos dela estavam fechadas com força de novo.

O Sr. Banner veio à nossa mesa, para ver por que não estávamos trabalhando. Olhou por sobre nossos ombros e viu o trabalho concluído, e depois olhou mais intensamente para verificar as respostas.

─── Então, Momo, não acha que Kim Dahyun devia ter a chance de usar o microscópio? - perguntou o Sr. banner.

─── Dahyun - corrigiu Momo automaticamente. ─── Na verdade, ela identificou três das cinco lâminas.

O Sr. Banner olhava para mim; sua expressão era cética.

─── Já fez essa experiência de laboratório antes? - perguntou ele.

─── Não com raiz de cebola. - sorri timidamente.

─── Blástula de linguado?

─── Foi. - ele assentiu com minha resposta.

─── Você estava em algum curso avançado em Phoenix?

─── Estava.

─── Bem - disse ele depois de um momento. ─── Acho que é bom que as duas sejam parceiras de laboratório. - Ele murmurou coisas ao se afastar. Depois que saiu, comecei a rabiscar de novo o meu caderno.

─── Que chato aquela neve, não é? - perguntou Momo. Tive a sensação de que ela estava se obrigando a bater um papinho comigo. A paranóia me dominou de novo. Era como se ela tivesse ouvido minha conversa com Yunjin no almoço e tentasse provar que eu estava errada.

─── Na verdade não. - respondi com sinceridade, em vez de fingir ser normal como todos os outros. Eu ainda tentava me livrar da sensação idiota de desconfiança e nai conseguia me concentrar.

─── Você não gosta de frio. - não era uma pergunta.

─── Nem da umidade.

─── Forks deve ser um lugar difícil para você morar. - refletiu ela.

─── Nem faz ideia - murmurei melancolicamente.

Ela pareceu fascinada com o que eu disse, por algum motivo que eu não conseguia entender. Seu rosto era uma distração tal que tentei não olhar para ela mais do que a cortesia exigia.

─── Então por que veio pra cá?

Ninguém tinha me perguntado isso ─ não da forma direita como ela fez, exigente.

─── É… complicado.

─── Acho que posso aguentar. - pressionou ela.

Fiquei muda por um longo momento, e depois cometi o erro de encontrar o olhar dela. Seus olhos castanhos escuros me confundiam e respondi sem pensar.

─── Minha mãe se casou de novo. - eu disse.

─── Isso não parece tão complexo - discordou ela, mas de repente ficou simpática. ─── Quando foi que aconteceu?

─── Em setembro. - minha voz parecia triste, até para mim.

─── E você não gosta dele - supôs Momo, o tom de voz ainda gentil.

─── Não, o Phil é legal. Novo demais, talvez, mas é bem legal.

─── Porque não ficou com eles?

Eu não conseguia entender o interesse dela, mas Momo continuava a me ficar com os olhos penetrantes, como se a história insípida de minha vida fosse algo de importância crucial.

─── Phil viaja muito. Ganha a vida jogando bola. - dei um meio sorriso.

─── Eu conheço? - perguntou ela, sorrindo em resposta.

─── Provavelmente não. Ele não joga bem. É da segunda divisão. Ele se muda muito.

─── E sua mãe mandou você pra cá para poder viajar com ele. - ela disse isso como uma suposição de novo, e não como uma pergunta.

Meu queixo se levantou um pouquinho.

─── Não, ela não me mandou para cá. Eu quis vir.

As sobrancelhas dela se uniram.

─── Não entendo - admitiu ela, e parecia desnecessariamente frustrada com esse fato.

Suspirei. Por que estava explicando isso? Ela continuava a me encarar com já curiosidade evidente.

─── Ela ficou comigo no começo, mas sentia falta dele. Isso a deixava infeliz… então cheguei a conclusão de que estava na hora de passar algum tempo de verdade com Donghyun. - minha voz estava mal-humorada quando terminei.

─── Mas agora é você que está infeliz. - assinalou ela.

─── E? - eu a desafiei.

─── Isso não parece justo. - ela deu de ombros, mas seus olhos ainda eram intensos.

Eu ri sem nenhum humor.

─── Ninguém te contou ainda? A vida não é justa.

─── Acho que já ouvi isso em algum lugar. - concordou ela secamente.

─── E então é isso. - insisti, perguntando-me porque ela ainda me encarava daquele jeito.

Ela passou a me olhar como quem me avaliava.

─── Está fazendo um belo papel - disse ela devagar. ─── Mas aposto que está sofrendo mais do que deixa transparecer.

Dei um sorriso duro para ela, resistindo ao impulso de dar a língua como uma menina de 5 anos, e desviei os olhos.

─── Estou errada?

Tentei ignorá-la.

─── Acho que não - murmurou ela, presunçosa.

─── Porque isso interessa você? - perguntei, irritada. Mantive os olhos longe dela, observando o professor fazer sua ronda.

─── Boa pergunta. - murmurou ela, tão baixinho que me perguntei se estava falando consigo mesma. Mas depois de alguns segundos em silêncio, concluí que era a única resposta que teria.

Eu suspirei, fechando a cara para o quadro-negro.

─── Estou irritando você? - perguntou ela. Parecia cismada.

Olhei sem pensar… e disse a verdade novamente.

─── Não exatamente. Estou mais irritada é comigo mesma. É fácil ler minha expressão… minha mãe sempre me chama de livro aberto. - franzi a testa.

─── Pelo contrário, acho você muito difícil de ler. - apesar de tudo que eu falei e tudo o que ela adivinhou, Momo parecia sincera ao dizer isso.

─── Então você deve ser uma boa leitora. - respondi.

─── Em geral sou. -  ela deu um sorriso largo, mostrando dentes perfeitos e ultrabrancos.

O Sr. Banner então chamou a turma e eu me virei aliviada para ouvir. Nem acreditava que tinha acabado de explicar minha triste vida a essa garota esquisita e linda que podia ou não me desprezar. Ela parecia aberta em nossa conversa, mas agora eu podia ver, pelo canto do olho, que ela estava se afastando de mim de novo, as mãos agarradas na beira da mesa com uma tensão evidente.

Tentei parecer atenta enquanto o Sr. Banner ilustrava, com transparência do projetor, o que eu vira sem nenhuma dificuldade ao microscópio. Mas meus pensamentos eram incontroláveis.

Quando o sinal finalmente tocou, Momo correu da  sala de maneira tão rápida e elegante quanto na segunda-feira anterior. E, como naquela segunda, fique olhando para ela, atônita.

Jake pulou rapidamente para meu lado e pegou meus livros. Eu o imaginei com um rabo abanando.

─── Foi horrível - resmungou ele. ─── Todas elas pareciam exatamente as mesmas. Você tem sorte por ter a Cullen como parceira.

─── Não tive nenhum problema com elas. - eu disse, magoada com o que ele supunha de mim. E me arrependi imediatamente da reprimida. ─── Mas já fiz essa experiência de laboratório. - acrescentei antes que ele pudesse se magoar.

─── A Cullen pareceu bem simpática hoje. - comentou ele enquanto vestíamos as capas de chuva. Jake não parecia satisfeito com isso.

Tentei aparentar indiferença  

─── Nem imagino o que aconteceu com ela na semana passada.

Eu não conseguia me concentrar na tagarelice de Jake enquanto íamos para o ginásio, e a aula de educação física também não conseguiu prender minha atenção. Jake hoje era do meu time. Ele cobriu minhas posições como um cavaleiro, além das dele mesmo, então minha desatenção só foi interrompida quando era minha vez de sacar. Meu time se abaixava cautelosamente sempre que eu dava o saque.

A chuva era apenas uma névoa quando fui para o estacionamento, mas eu estava mais feliz ao entrar na cabine seca do carro. Coloquei o aquecedor para funcionar, pela primeira vez sem me importar com o rugido enlouquecedor do motor. Abri o casaco, baixei o capuz e adorei o cabelo molhado para que o aquecedor pudesse secá-lo a caminho de casa.

Olhei em volta para me certificar de que podia sair. Foi aí que percebi a figura imóvel e branca. Momo Cullen estava encostada na porta da frente do Volvo,na três carros de mim, e olhava intensamente na minha direção. desviei os olhos rapidamente e engatei a ré, quase batendo num Toyota Corolla enferrujado na minha pressa. Para sorte do Toyota, pisei no freio a tempo. Era o tipo de carro que minha picape transformaria em sucata. Respirei fundo, ainda olhando para o outro lado, e cautelosamente dei  ré de novo, com maior sucesso. Fiquei olhando para a frente ao passar pelo Volvo mas, pela visão periférica, eu podia jurar que ela estava sorrindo.






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