VI
Morto.
Abraço meus joelhos e apoio a cabeça. Minha coluna dói um pouco, no entanto me mantenho na mesma posição. Ele não vai voltar, é o que consigo pensar, nunca mais. Minhas criadas não aparecem já faz algumas horas, acho que elas pensam que preciso de privacidade para lamentar. Meu pai está morto, foi envenenado em meio a ultima noite. Seu corpo está velado na sala dos livramentos enquanto espera sua cripta ser levantada ao lado ao da pertencente a meu avô. Dói, como uma ferida aberta, mas as lagrimas não estão ameaçando escorrer.
Não sei o que sentir.
— Estão nós esperando.
Minha mãe aparece em meio ao quarto, seus trajes negros moldando sua silhueta enquanto a coroa pontiaguda e alta molda seus cabelos soltos em camadas. Agarro os joelhos com mais força, mas sua mão me puxa para cima, as unhas se enterrando em minha pele. Parece pronta para me rasgar em pedaços caso não siga suas ditas ordens.
Alguém poderia me levar um pouco de luz?
Sinto alguém prender um manto pesado sobre meus ombros, meu fino vestido branco ficando escondido sobre o áspero tecido, e meus cabelos são repuxados para uma trança lateral. Minha mãe coloca alguns dedos sobre meu queixo o que me faz mirar suas feições inelegíveis.
— Postura. — Ela apenas mexe os lábios — Não quero minha filha parecendo uma porca prestes a ser sacrificada. — Procurem algo o que fazer. — Ordenou as criadas que ainda terminam de arrumar meus desarrumados fios.
“Sim, minha rainha" é o que murmuram.
— Você não obedeceu minhas ordens. — Ela está com o rosto virando em direção a porta que aos poucos se fecha — Mandei não falar com o príncipe de Neveand, Nevaeh. — Se vira em minha direção — Não pode me culpar se, no momento, meu maior desejo é joga-la em meio aos cachorros famintos que prendemos no canil.
Pisco.
— É melhor ficar inteligente se pretende burlar o que mando, princesa. Os monstros nesta sua cabecinha — Segura meu queixo com força — Podem aparecer para uma visita em meu nome. — Um pequeno sorriso se abre para mostrar seus dentes brancos — Você passou a vida em uma redoma de vidro, protegida, mas agora somos eu e você. Entende? — Silêncio — Uma boa garota... — Ela afirma — Uma princesa perfeita que já aprendeu que é melhor deixar essa linda boquinha fechada... — E uma rainha que deveria aprender a não ser tão má.
Ela saí calmamente e sou obrigada a segui-la. Eu deveria levantar a cabeça, o olhar, porém me mantenho mirando meus sapatos. Os guardas estão em suas posições e pouco se movem quando nós observam. Estamos indo pelo caminho mais longo, passando pelo pátio até chegar a torre. Os corredores estão obscuros e vazios, pois os convidados já se foram faz horas. Mantenho-me a um passo da rainha, arrastando os pés. O dia está cinza, as plantas menos verdes. Se instaura o ar melancólico, bem distante da sensação do banquete e musica e dança. Os degraus continuam os mesmos, mas descemos sem iluminação alguma e nos guiando apenas pelos pontos alaranjados que enxergamos.
Um belo funeral.
Quase no final da escadaria, parados feito estátuas e com as mãos presas a castiçais de prata, os lordes e alguns sacerdotes abrem apenas o espaço necessário para que possamos terminar o percurso. Estão olhando para a frente, para a porta entreaberta, e seus lábios estão apertados em tão fina linha que me assusta como ainda os consigo notar. Minha mãe apenas os ignora. Encostando sua mão esquerda na porta, suas unhas batendo levianamente contra a mesma, ela a abre lentamente.
Mordaças de ouro para um rei banhado pelo ouro.
Meu pai está completamente esticado sobre o que parece ser uma mesa escura, o cheiro que exala é pútrido e sua coloração fora embora deixando apenas a palidez incomum em sua pele. Seu estomago está um pouco inchado e sua pele parece estranha sobre os toques de meu dedo. Algumas moscas estão pousando em meu ombro, entre o espaço de minhas mãos e seu corpo, mas me atento a sua roupa negra com detalhes em dourado e a sua coroa, simples, sobre seus cabelos.
Oh, papai.
— Deplorável. — Minha mãe comenta enquanto chega ao outro lado — O que pode fazer agora, querido?
Tão indefeso e inofensivo, mergulhando em um sono profundo e eterno, que tão pouco me lembra o homem que tomou a vida de Anarobn e outras centenas de pessoas. Tão tranquilo e quieto que em nada me lembra o homem que varias e varias vezes mandou e desmandou em mim, em sua rainha, em todo um reino. Ela tem razão — Penso — O que pode fazer agora que o final da história chegou para você?
— Quando me despacharam para casar com você, para ser seu cavalo premiado, eu já sonhava com este momento. Quando andei em círculos, por horas sem fim, e soube que teria que suportar uma possível cópia sua... Eu já o odiava e você já me odiava. Mas quem está no controle agora? — Ela pouco se preocupa com a minha presença — Você nunca vai morrer completamente enquanto eu ainda estiver viva.
Presencio suas unhas perfurarem o pulso do cadáver.
— O vou guardar em uma caixinha de memórias e, quando e enquanto usar sua coroa, vou me deliciar com este momento... — Ela se abaixa e coloca os lábios sobre o ouvido do cadáver, ciciando tão baixo que não consigo escutar — Meu rei, você deveria ter lembrado que eu não sou de prostituir meu ódio... — Anda em direção a porta — Vou falar com os sacerdotes. Você tem cinco minutos para se despedir se eu querido pai.
Parece ser sua pequena boa ação.
As estátuas de ouro parecem me encarar. Suas formas bem moldadas e delimitas foram sombras nas paredes abençoadas com tochas. Observo a mulher entalhada no ouro, sua espada em completo alinho com a coroa e o corpo do rei. Os pequenos bancos estão afastados o bastante, mas um pedaço de minha roupa consegue esbarrar em um dos mesmos.
Oh, papai.
— Sinto muito — Sussurro — Sinto tanto. — Minha garganta está seca e mil espinhos a parecem perfurar — Sinto-me culpada. Eu sabia, eu senti. — Engulo o nada — E agora estou sozinha, sem nada para me proteger ou amortecer o impacto desta coroa. — Meu rosto está seco, meus olhos não abrigam nenhuma umidade provinda de lágrimas... Oh meu rei, eu não consigo chorar por você.
De soslaio, observo seu rosto.
— Me enxergava? — Percebo um agudo tomar conta do meu tom de voz — Alguma vez percebeu que me deixaria sozinha? — A indiferença está se transformando em fastio e soturnidade — Que nasci solitária em meio a está prisão? — Silêncio — Sua rainha diz que é um tolo. Sua rainha me odeia simplesmente por ter o seu sangue... — As velas estão se esgotando — Não consigo descobrir algum erro nisto.
Silêncio, sempre silêncio.
— Sinto-me culpada, mas não consigo perdoa-lo, meu pai. — Os pés dos sacerdotes fazem barulho em contato com o chão e percebo que meu tempo com ele realmente acabou — Espero que consiga escutar isto em sua morte, assim como eu consegui a escutar chegando.
Percebo que não desejava formar está ultima frase, todavia.
Morto. Morto.
Morto. Morto.
Morto. Morto.
—Imagino que já esteja sabendo da atual novidade — Comento sem animo — Os lordes me querem no trono o mais rápido possível. — Ilirya está sentada a minha frente, suas mãos percorrendo minhas costas com delicadeza. Suas expressões demonstram pena, muita pena, mas seus olhos se acendem como fogo vivo... Um lembrete da Maana.
— A data da sua apresentação iria chegar um dia, você sempre soube. — Suspiro — Nasceu para ser rainha, Nevaeh. Todo este circo é apenas uma prova disto.
Clap. Clap. Clap.
Clap. Clap. Clap.
— É um banho de sangue, Ilirya. — Consigo murmurar — Não enxerga? — Meus cabelos caem sobre os ombros, minha cabeça se apoia sobre os joelhos e meus dedos dos pés se enrolam sobre a seda da cama. Clap, Clap. A dor de cabeça parece esmagar meu cérebro dentro do crânio. — Pensei que minha mãe encontraria um meio para usurpar meu lugar por mais uns bons anos.
— Sei que não é isto o que deseja... — Jogo a cabeça para trás por um segundo, mas rapidamente a volto para Ilirya. Você deveria a estar apoiando, é o que se pode ler em meus olhos — Não deixe que esses seus medos controlem sua cabeça. Você perdeu seu pai, mas não perca a si mesma.
Clap. Clap. Clap.
— Nunca a vi tão desacreditada, asor. Cresceu em meio a um ninho de cobras, mas se recusa a manter o pulso firme agora que precisa controla-las. Sua mãe sabe quais jogos funcionam e espera este comportamento da garota que ela considera fraca. — Ilirya arqueia as sobrancelhas ironicamente — Deana não é tola, sabe disso, ter você no trono, desemparada, é melhor do que ter que suportar todos aqueles lordes em seu ouvido diariamente. Acho que, para ela, é melhor ter uma marionete em mãos do que usar a coroa de fato... No momento.
— Como falou... No momento.
— Mostre a ela que não será assim. Neah, você é forte o suficiente para reter tais planos e governar Gworn. — Clap. — Seu pai desejaria isto.
— Meu pai... — Uma risada sem humor — Meu pai não controla nada mais por aqui!
Morto.
Morto.
Morto.
— De que lado está? — Não consigo morder a língua a tempo de evitar a pergunta — Sua relação pessoal com a rainha não à impede de falar tais coisas?
— Sabe qual a razão da minha presença em sua corte, majestade? — A lareira aquece um pouco demasiado, fagulhas de fogo voando para fora e pousando chão do quarto e perto dos móveis — Minha espécie é extremamente pequena neste mundo. Para cada Maana existe cerca de cem pessoas normais. Uma tremenda desproporção. — O clima, apesar da lareira quente, é gélido a ponto de resfriar. Os pelos de meu corpo estão arrepiados por conta do frio, mas mesmo assim insisto e continuar com o vestido fino. — Entretanto quando me sugeriram este trabalho pensei... Tentar acabar com um pouco do ódio que existe entre esse reino e as maanas... Deuses! — Ela parece se recordar aos poucos — Eu era jovem para nossos parâmetros, ainda sou, mas rapidamente percebi que a vida aqui era completamente diferente do que o esperado.
Um tênue silêncio.
— Minha presença foi requisitada por seu avô para manter um acordo com as maanas, afinal acreditamos nós mesmos deuses, como ele mesmo costumava dizer. — Clap. Clap. Clap. — Nunca esperei ter qualquer relação com alguém nesta corte. Me olham de forma repugnante aqui, no entanto, com todas as controvérsias, sua mãe foi a única que enxerguei algo diferente. Algo diferente nos olhos. Me atraiu, fisicamente e emocionalmente, mas nunca me fez esquecer meu dever com a coroa e somente com a coroa.
As pessoas são leais a sua coroa, foi o que Zauro me falou, são leais ao que ela significa.
— Então está aqui pelo mesmo estímulo que todos os outros, Ilirya.
Sinto o desgosto em minha voz.
— Asor, estou tentando ajuda-la. — Continua — Você é um presente para Gworn. Todos os outros reis, aqueles pintados em historias e com imagens erguidas nas criptas, não governaram como deveriam. O destino não permite. — Trovões ecoam no horizonte — Aguente firme, seja melhor do que todos estes que existiram antes de você. É a sua chance.
— Fui criada para governar como eles.
Clap, Clap, Clap.
— Uma coisa que aprendi com a sua mãe é que uma rainha não tenta ser igual aos homens que usaram ou usam uma coroa... — A chuva caí com força, relâmpagos iluminando e gotas de água molhando um pouco o quarto — Ela tenta ser melhor e mais poderosa do que todos eles.
Esfrego o rosto com força.
— Tenho dois dias ainda — Mas o que são dois dias? — Você vai estar na apresentação? — Nada — Posso ordenar que a deixem assistir. Até os sacerdotes podem... — Ela me interrompe.
— Não se preocupe, Neah. Não se preocupe. — Balanço a cabeça — Zauro ainda não deixou o castelo... — Comenta — Considera indelicado o fazer ainda em época de luto.
— Ele tinha alguma coisa nas mãos aquela noite, Ilirya. Juro que tinha. Eu deveria falar, deveria sim, mas e se for algo criado por minha mente... Não quero cometer os mesmos crimes que ele!
Clap. Clap. Clap.
Cale a boca! — Uma voz ordena em meu subconsciente — Cale a boca!
Clap. Clap. Clap.
— De que crimes estaríamos falando, Neah? — Seguro a cabeça entre as mãos, meus olhos se fecham com força e minha testa franze por conta da dor. As marteladas aumentam, e a cada segundo tudo dentro de mim parece explodir. Cale-se, diz uma voz, Cale-se garota estúpida! — Você está pálida, Asor. E sua temperatura está baixa demais. — Um segundo é o que ela leva para prosseguir — Querida, olhe para mim.
Faço o que ela me pede.
Sua expressão se torna assustada, sua boca está meio aberta e percebo que seus lábios estão secos. Tudo parece uma confusão dentro de minha cabeça, pouco consigo assimilar por cima do barulho interno. Clap. Parece que alguém está martelando o ferro. Clap. A claridade do fogo incômoda, machuca-me. Clap. Rapidamente ela coloca-se de pé. Está balbuciando algo, na língua ainda mais antiga do que qualquer uma que conheço. As palavras são confusas, mas causam uma revolta em meu estomago.
Vou vomitar.
— Pare! — Consigo dizer — Pare já! — Tampo os ouvidos com as mãos — Ym In Chuirmay fios Arendt Pour In. — “Eu mandei você parar".
Em meio a fumaça e nevoa que envolve meus pensamentos enquanto suas palavras continuam a ecoar pelo quarto, prendo meu olhar no espelho por detrás de seu ombro, notando que todo o meu globo ocular se perdeu em meio a um mar negro transbordante que já desce por toda as minhas bochechas e se transformam em veias escuras acima de minhas sobrancelhas.
Clap. Clap. Clap.
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