II
Tento manter a calma.
É uma tarefa tão simples, mas tão intrincada dentro desta sala fechada. Cada espaço está ocupado, cada respiração fica presa no ar. O rei está sentado ao meu lado, sua roupa fina e elegante em contraste com o aspecto rústico do salão de reuniões. Não olhe. A rainha também está presente, mas sua presença transforma a sala em um ambiente gélido, vulgar, pesado e cruel. Ela monitora as propostas enviadas para o rei e ignora as opiniões que não a interessam. Considero alguma papelada, assino os rodapés e espero.
Isto me perturba.
Não querem saber o que penso, nem mesmo quando se trata do imposto de Rwonen. Insistem em aumentar a taxa, diminuir a idade máxima para início de pagamento, aumentar a idade mínima para a prestação de contas.
Sou insignificante.
O ambiente é escuro, sem janelas, e com pouca iluminação. Mapas e tapeçarias e anotações decoram. Tudo tão primitivo a luz de velas, um mundo tão cru e perverso. Os livros se estendem pela enorme mesa sofisticada, suas palavras inelegíveis que se desdobram no antigo idioma.
Sentem-se tão antigas quanto eu? Tão deslocadas quanto eu?
Novamente, manejo meu olhar para as feições do rei: Os roxos habitam as bolsas abaixo de seus olhos enquanto seu nariz torto e seus cabelos bem cortados são suas melhores características. A juventude ainda habita sua pele, em seus modos e até mesmo sua forma de falar. Foi treinado até os ossos, manipulado e criado para os próprios fins. Moldado para ser um rei, o dono de uma coroa de um reinado e uma era. Mas no entanto ainda não é ele quem segura a espada em meu pescoço.
Não.
Ele nasceu com o direito ao trono assim como eu ou como meu avô e meu bisavô. Não roubamos isto. Não decidimos isto. Não a desejamos, não como leigos imaginam que um rei por direito deseja uma coroa: Não precisamos dela, pois somos o objeto. Uma joia é apenas um símbolo com um valor para mim e um completamente diferente para ela.
Minha mãe. A rainha. A víbora em pele de mulher.
Mas quem pode culpa-la?
— Zauro representa não apenas a elite Neveand, mas todo aquele povo. Seus tios escolheram um caminho sem volta, esqueceram do legado que precisamos lutar para manter. — O rei argumenta, seus dedos batucando algo — Neveand tem colônias em Gworn, pouco populosas por conta das diferenças climáticas — Um sorriso irônico — Mas que nos é vital para manter saudável de nossos estoques de ouro ou abastecimento. Manter uma linha amigável é o único caminho isento de uma batalha interna.
— Bancaremos a ursa mãe? — Corlan, um dos mais altos estrategistas, perguntou — Isto não é bom, definitivamente.
— Ym I trud in mosth Hranwn noms in a War, Corlan — “Eu sinto que é menos conflituoso a guerra, Corlan” — Confliwn I Inmy. — “Confie em mim”.
Ele suspira.
— A situação em bico flamejante é péssima, Majestade. Nossos dias em neutralidade estão contados e não treinamos ou recrutamos soldados suficientes para competir com dois séculos de ódio entre Neveand e Vassieh. Somos fortes sim, mas arriscar não deveria ser uma questão.
— E como vê nossa situação, Corlan?
A rainha pergunta calmamente, claramente.
— Em meu julgamento, Gworn, conquistará mais enfrentando do que assistindo nossos territórios sendo invadidos cada vez mais através de pedaços pequenos perdidos por falta de resistência. Perdemos mais migalhas a cada dia. E não falo em Vassieh ou Neveand. A guerra interna está já aqui e você sabe, já admitiu, que poderíamos facilmente aumentar o numero do recrutamento obrigatório a estas baratas. — Ela inclina a cabeça para o lado — Imagine realocar o exército de verdade para um ataque surpresa enquanto os vermes assumem as linhas de frente? Já estaríamos a espera das baixas e teríamos, após, mais recrutas para um novo agrupamento.
Ela aperta dos lábios em uma linha fina.
— Mas ainda é claro que meu rei prefere manter a solução menos confusa.
— Muito bem dito, Deana. — O rei arruma a postura, esticando as costas, e observa os mapas a sua frente — Zauro é novo, não completamente corrompido, uma aliança pode nos gerar bons frutos. Nos afastar da guerra é, como sempre foi, vital. Gworn não deve queimar.
Sua voz é ácida, acusadora, um teste. Qualquer um que não pense como ele é o inimigo, o caso a ser tratado. Meu pai puxa alguns livros para seu colo, as mãos virando apressadamente as paginas amareladas e desgastadas. Está evitando o inevitável: A guerra. O teatro de Gworn nunca ter estado na mesma está caindo, sendo destruído a medida que nos enrolamos cada vez mais. Estivemos na mesma desde o início, no entanto nos mantemos na sombra, financiamos e a instalamos como uma dura e fel realidade. Poderíamos a ter impedido, mas não. E agora, aqui estamos, decidindo quem seríamos: A presa ou o caçador?
— O príncipe Zauro é novo, mas manipulável? Não sei dizer... O mapa está se partindo com suas decisões de ir pessoalmente ao fronte. Se ele cair, Vassieh vence. Se Zauro se manter, Neveand vence... — A rainha encara Corlan — Mas um reino vencedor de uma guerra que devastou não apenas uma geração, mas toda uma historia e estrutura de um povo é mais fácil de se derrotar, não é?!
— Uma ideia tênue.
— Todas são. Neveand ou Vassieh, não me importa quem vai ganhar, mas me importa a quem iremos jurar lealdade durante está época. No final apenas um lado pode ganhar, meu marido.
— Sua visão é enorme, querida, mas prefiro que deixe seus desejos e aspirações para uma de suas vadias. Principalmente, para aquela que pertence ao povo que você chamou de barata.
— Deixe Ilirya fora disto.
Ele pigarreia, mas parece satisfeito.
— Quando você a mandar sair das sombras em que ela se esconde dentro desta sala... — Então ela está aqui — Espero que ela a tenha satisfeito noite passada. Sua aparência é a de uma mulher cansada, querida.
— Deixe Ilirya FORA disto. — Repete.
— Então... — Respire, Neah. Ordeno. — Obedeça minhas ordens.
Silêncio.
Minha mãe mantém os lábios em uma fina linha com a expressão mais dura do que segundos antes. É um teste. Uma prova para mostrar sua lealdade e obediência ao rei... Nada de reverência, nada pomposo, apenas uma simples ordem e a decisão de segui-la ou não. Um jogo bem montado de xadrez. Que peças mexer primeiro, quem vai cair primeiro: O rei ou a rainha? Me pergunto se as pessoas que arranjaram o casamento de meus pais imaginaram o que ele se tornaria.
Silêncio.
O sorriso do rei é pequeno, mas satisfatório. Sabe que venceu esta briga.
— Devo presumir que ainda não foram informados sobre a carta do rei de Vassieh. Foram? — Vários “Não” ecoam pela sala — Um mensageiro a trouxe durante a madrugada, mas ele não sobreviveu as horas seguintes. — Como assim? — Ao que me foi informado. O rei de Vassieh, Wonkran, o mandou até aqui com a ordem de entregar suas palavras e tirar a própria vida depois disso.
Ele não hesita ao dizer tais palavras.
— Não fico surpreso com tal decisão. Ele, definitivamente, não confia em nada além do que existe em suas terras. Um mensageiro a mais ou um a menos: Que diferença faz para Vassieh? — Imóvel, completamente imóvel. Não existe nem mesmo um vento acolhedor dentro do ambiente e, graças a lareira de pedras escuras e brasões de ferro entalhados, a sensação é de estar em meio a um início de incêndio. — Tomei as palavras como uma afronta, mas devo dizer que estou curioso para saber o que o levou a manda-las para mim.
— Pode nos dizer um pouco mais sobre a carta, meu rei?! — Iren, um senhor de idade um pouco mais avançada que a de meu pai, pede cautelosamente. Seu olhar não se dirige ao homem de maior poder e sim a rainha ameaçadora que envolve os dedos nos braços de sua cadeira. — Palavra por palavra, linha por linha.
Um suspiro.
Minha cabeça se move para o lado e meus cabelos rebeldes tentam escapar do penteado. O movimento é delicado, claro. Seria tomado como uma falta de educação se não o fosse. Uma princesa não deve agir de forma impensada ou brusca. Uma princesa não deve suspirar ou mostrar qualquer anseio diante de sua corte ou de qualquer plateia. Postura ereta, cabeça erguida, mas olhos baixos e mãos comportadas. As regras, de básica etiqueta, dançam e cantam em meu subconsciente. As sigo, mas escuto o barulho de um criado se aproximando. Ele segura uma bandeja de prata bela e pesada, e em cima da mesma repousa uma carta selada com o símbolo de Vassieh: Uma águia de fogo.
A letra, aparentemente, é perfeita. Nenhum borrão de tinta e nenhum erro de gramática. Os cantos do papel são, tipicamente, um pouco queimados enquanto o resto da folha, me arrisco dizer, tem uma coloração alaranjada e antiga. Uma técnica e assinatura daquele reino.
— “Meu caro, por algum acaso do destino e das graças de Nyla, chegou-me a informação, rara, de que sua corte (Tão incontestável) planeja e prefere acreditar em falsas mascaras de um lobo do inverno. Logo tu, dono de uma inteligência favorecida por todos ao teus estudos de diplomacia, esquece de tudo o que estes anos de guerra nos trouxeram” — Ele levanta uma sobrancelha — “Abriga um jovem malevolente e sem caráter a altura de tal realeza. Um rapaz de fama em bico flamejante, fama em seu reino e em sua corte. O que esperas de vossa presença?” — Meu pai lê calmamente, suas expressões controladamente rígidas. Do outro lado, me olhando atentamente, minha mãe pisca de forma assustadora e contínua. Suas unhas decoradas a ferro raspando os braços do assento.
Uma rápida brisa balança seus cabelos.
As velas se esgotam, minuto por minuto, palavra por palavra, mas ainda estão iluminando o suficiente para mostrar alguns detalhes das tapeçarias atrás da rainha. São historias, lendas, e mentiras contadas de geração para geração. Por qual motivo apenas os vencedores podem contar a história? Por qual razão todos os outros lados sempre, e indubitavelmente, são descartados?
— “Mas sou generoso, talvez até demais para alguém em minha posição (Em nossa posição)! Temo que, se não a partilhar, a situação se torne mais repugnante do que nos parece, não concorda? (Espero ansiosamente sua resposta para esta pergunta, meu bom rei) De tal forma, ofereço-lhe minha proposta:” — Contorço desconfortavelmente em minha cadeira — “Me ofereça a mão de sua filha, da jovem que tem o seu sangue correndo nas veias e da garota de belo rosto e olhos cor de rosa.”
O nojo, repugnante pejo e aversão, é o que corre em minha circulação. Minha mão está a mostra, a prêmio, e ela implora para ser quebrada e distorcida para fora. Quero engasgar, me mover, dar qualquer sinal que ainda respiro... Mas nada. Tudo o que consigo pensar é em como mais um velho se assenta em seu trono, me assistindo andar em direção a minha prisão enquanto pensa com qual roupa bonitinha irei combinar com a mobília. Ele provavelmente já pensa em me mandar calar a boca, manter a cabeça baixa, implorar por um minuto de paz ao mesmo tempo que me agarra e me leva para sua cama. Uma princesa. Uma rainha. Um animal premiado conquistado por conta do ódio.
Tantos minutos continuam correndo e linhas e linhas são desperdiçadas para me diminuir ao mesmo tempo que me embeleza. Nesta carta, nesta proposta, sou um sonho, uma solução para dois povos e uma condenação para outro.
As paredes sufocam, me quebram.
— “Me deixe (Com todo o meu ser) cuidar de sua filha e do fardo que carrega (Atsa a Cae. Atsa Cae), por que sei (Oh como sei!), sem nunca duvidar, o quanto é complicado manter uma jovem em seu devido lugar. Inym Scueah. E sei, sem nunca duvidar, o quanto é atribulado e complexo lidar com um povo em rebelião ao mesmo tempo em que lidamos com uma guerra herdada por nossos antepassados.” — Fardo, meu povo virou um fardo. — “Sei que isto é muito para você. Meu pedido talvez vá além do preço. Mas pense na realidade em que vivemos, por tudo o que lutamos... Uma criança não deve se aliar a outra criança e um rei não deve abdicar de arriscar por seu povo por conta do querer de um filho, uma rainha, um conselho ou baixas pessoas! Gworn (E Vassieh!) é maior do que qualquer ser (Ou desejo) que perambula por suas terras! ”
— Um dos pedidos de casamento mais amorosos que já tive a honra de presenciar... — Ironiza a rainha — E quanta prepotência para apenas um homem de roupas finas! Que desagradável! Que colocação mais desagradável!
— Qual, querida?!
Ele quase bufa uma risada.
— A parte em que ele trata nossa filha como um animal de pasto ou quando ele deixa claro que até você é menos importante que meu reino?! — Sei que é uma provocação, uma valsa venenosa que meus pais adoram dançar, mas não deixo de perguntar... Algo interrompe meus pensamentos, um olhar severo e congelado que cai sobre mim.
As sombras parecem engolir as chamas produzidas pelas velas quando a voz fina e melódica da rainha se expande.
— Nossa filha é, consideravelmente, uma imprestável mimada e fraca. — Sua língua estala e enxergo o perigo em seus olhos. Ai está sua opinião mais sincera a meu respeito... Ela corta profundamente, mas detesto admitir tal verdade — Se agora nós é útil, então, ela deveria agradecer por isto. Vassieh tem soldados, uma tática, riquezas. O que Nevaeh tem a nos oferecer? Quero dizer, além de ser um peso em meio a uma futura batalha?!
Minhas mãos se agarram com força aos braços do assento e sinto minhas unhas perfurando os mesmos e destruindo e arranhando um pouco daquela belo e antigo móvel.
— Essa garota não sabe lutar, não sabe o que é um campo de batalha e o que esperar de bico flamejante... — Quero parar de escuta-la. Quero lhe arrancar os cabelos fio a fio. — Não é inteligente o suficiente para planejar, para nós ajudar com informações ou com os conflitos com nosso povo. Você a mimou demais, meu rei! Nevaeh... É nada.
— Ainda temos um acordo com o príncipe de Neveand, querida. Não posso simplesmente dispensa-lo por uma proposta... Interessante, mas não confiável ou firmada.
Ela solta um risinho.
— Então não faça isso, meu rei. — A rainha observa o mapa — Quando olho para nosso mundo, devastado, tudo o que vejo é um jogo de xadrez muito bem delineado. Bico flamejante já é uma realidade e mortes e mais mortes nele acontecem. Quando olho para o sul... Neveand se mostra um reino interessante, rico de várias formas, para uma provável aliança. — Suas unhas estão desenham um traço sobre o papel, seus rios e caminhos abertos, nossas florestas fazendo divisa com o início do inverno eterno — Quando olho para o leste... Vassieh tem uma força incrível para esta guerra além de ter um governante velho o suficiente para nós dar um acesso fácil a seu trono... Dois caminhos atraentes, não acha?!
A rainha pisca uma vez, duas.
— Deixe Zauro interessado. Não o afaste e não negue suas propostas, mas também não as aceite. Mostre para o principezinho como fazemos as coisas por aqui. Converse sobre o clima, festas, culturas e depois entre nos fatores de guerra: Porcentagens, soldados, abastecimentos, perdas... — Todos os homens presentes ficam em silêncio — E ao mesmo tempo... Faça o mesmo com o rei de Vassieh. E, claro, ao final, não os revele nada de importante. Não é isso que já estamos fazendo com Zauro?! Por que não expandir essa gentileza para outro homem segurando uma coroa?!
Prendo um suspiro, mas desvio o olhar para um lado escuro por conta da pouca iluminação ali. Tem algo de diferente nele e, enquanto escuto alguém falar, observo com atenção uma silhueta que se forma. Você me vê. Você me vê. Você me vê porque somos iguais. Mais alguns dados de guerra são soltos por minha mãe: Nosso numero de soldados já em bico flamejante — Cerca de cinco mil — e em como esse numero é pequeno em comparação ao que poderíamos montar se a lei de recrutamento obrigatório, principalmente para os mouros registrados, e em como cerca de três mil soldados de Neveand e quatro mil de Vassieh tinham sido mortos ou torturados no ultimo trimestre.
Olho novamente para o canto, a tapeçaria agora mais iluminada do que a alguns instantes. Lá está: Nyla. Aquela lenda permanente, aquela história permanente. A criadora do reino. A líder que lutou pela formação de Gworn, mas com um final tão trágico e tão sem explicação.
Weas Mosrhs — Nós sentimos.
— Com todo respeito, mas as vezes devemos esquecer antigos aprendizados para poder sair como vencedor, meu Rei. — A voz da rainha pode se assemelhar a uma antiga e sedutora melodia — A força bruta não é o suficiente. Na verdade, é enganar ou ser enganado. Perceba que homens de pouca inteligência não sabem encarecer suas próprias necessidades.— Seus olhos azuis estão tão cálidos e gélidos que parecem demonstrar o quão disposta ela está para comprovar suas palavras — Eles desconhecem que ameaças, quando não providas de perspicácia, são como um movimento sem direção ou um ataque em meio ao escuro.
Ela é a primeira a se colocar de pé.
— Estamos vivendo em meio a um jogo de sobrevivência, meus caros. Não existe escapatória e rendição não é uma opção. — Quando ela dá um passo a frente, com a intenção de colocar as mãos abertas sobre a mesa, seu vestido exibe uma enorme amostra de pele — É um jogo selvagem entre a presa e o caçador e não estou disposta a perder minha coroa.
Quando seus olhos se levantam em minha direção a única coisa que consigo ver é o quanto essas palavras demonstram como ela pretende terminar essa historia:
A coroa em sua cabeça, uma adaga em meu coração.
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