Parte II

Quando Corina abriu os olhos, percebeu que estava deitada no meio da floresta completamente coberta de lama. O céu estava num tom crepuscular. Não sabia se estava a amanhecer ou anoitecer. O sol nascia no leste. Era o pleno alvorecer do dia.

Imediatamente, ela lembrou do Jaguar, levantou-se e pôs a mão sobre o ventre. Foi tudo verdade. De alguma forma ela sentiu que foi curada daquela enfermidade. Também percebera que não sentia mais aquela tristeza profunda no seu coração.

Tudo o que ela queria era contar para todos que estava curada e que o próprio jaguar, quem tanto caçavam, a havia curado com os seus poderes mágicos, mas refletiu sobre o assunto e decidiu guardar para si mesma.

***

O pai da Corina estava a arar a terra de manhã cedo quando encontrou a sua filha surgir do meio da floresta naquele estado.

Corina teve que inventar uma desculpa explicando a situação para os pais, não foi muito difícil de convencê-los, provavelmente pensaram que a sua filha havia enlouquecido.

Corina tomou um banho, se vestiu e voltou a dormir.

***

Corina acordou com o barulho da porta se fechando. Sem explicação, ela sabia de quem se tratava, como um sexto sentido. Pareceu que a magia do Jaguar a concedeu poderes paranormais.

Alguém abriu a porta lentamente. Era um rapaz moreno, alto, não muito bonito, mas robusto e atraente. Matias era o seu nome, o antigo esposo de Corina.

— Te acordei? — Perguntou o rapaz.

— Claro que sim. — Respondeu Corina, não com arrogância. Ela apenas foi sincera e objetiva.

— Desculpe-me, não foi minha intenção.

— Tudo bem. O que vieste fazer aqui?

— Ver se estás bem. O teu pai pediu-me que viesse visitar-te. Ele contou para todos que te encontrou cirandando pela floresta hoje pela manhã. Isso preocupou-me. O que estavas a fazer? Não sabes tu que existe um animal feroz e carnívoro a solta na floresta?

Corina queria defender o Jaguar, mas não se atreveu. Queria dizer qualquer coisa, mas nada soou da sua boca. Matias se aproximou e sentou-se na cama. Ela sabia que se os seus pais estivessem em casa, ele jamais entraria no quarto dela com tanta intimidade.

— Corina, prometa-me que nunca mais farás uma coisa dessas.

— Por que te importas? Nada mais tens comigo.

Matias se aproximou ainda mais, com um olhar terno e o coração apertado.

— Isto não significa que não me importe contigo.

Corina não podia esconder a atração que sentia por Matias. Ele sabia disso e provocava ainda mais com a sua proximidade.

— Então, está bem. Como podes ver, estou ótima. Agora já podes ir.

Matias se aproximou tanto que os seus narizes quase se tocaram.

— Não antes de tu me beijares. — Ela tentou resistir, mas a paixão falou mais alto.

Começaram com beijos e carícias, e terminaram com uma tarde abrasadora de amor. Corina imaginou que a magia do Jaguar não somente a curou como também trouxe o seu amado de volta.

Alguns tempos se passaram. Corina engravidou. Foi uma alegria para Matias e para os familiares. As irmãs de Corina se envergonharam e nunca mais foram as mesmas com ela. A jovem voltou a morar com o marido e por um momento, se esqueceu da existência do Jaguar.

***

Chegou o nono mês. Corina gritava de dor no seu quarto. Estava prestes a dar à luz.

A criança nasceu. Era um menino, forte e saudável. As suas irmãs se indignaram, todas tiveram filhas, mas desejavam o que somente Corina teve.

Cada semana que se passava, o menino ficava mais forte e mais saudável. Tudo corria bem até que, numa noite solitária, Corina percebeu que a sua criança havia parado de chorar de repente. Ela foi verificar com o coração já desfalecido e viu que o seu menino estava inexplicavelmente morto, sem cor, sem se mexer, sem batimentos cardíacos. Sem vigor.

Ela desesperou-se. Quem poderia a socorrer? Morava muito longe da civilização. O seu marido saiu e não havia voltado. O que aconteceu?

Foi nesse momento de desesperança que Corina lembrou-se do Jaguar. Como ela morava bem perto da floresta, o animal tornou-se a sua única salvação. Ela pegou um lampião, enrolou o seu filho num lençol e levou-o floresta adentro dizendo repetidamente consigo mesma: "tudo vai ficar bem".

Corina não sabia onde se encontrava a caverna do Jaguar. Ninguém sabia. Ela nem imaginou como a encontrou da primeira vez, mas confiou no seu instinto.

Deu certo. Ela encontrou a caverna. Por incrível que parecia, o grande Jaguar estava lá dentro, imóvel, como se a esperasse.

— Olá, corajosa e bela jovem. Há quanto tempo? — Disse o Jaguar.

Corina se prostrou diante do animal com seu filho embalado no lençol, e começou a prantear.

— Ah! Grande Sovaĝa, venho aqui mais uma vez implorar-te pela tua ajuda, prometerei que será pela última. Não me deixes sair sem a minha virtude. Aqui está sobre as minhas mãos o fruto do meu ventre qual curaste e agora, recém-nascido, veio a óbito sem explicação. Eu te imploro, traga meu filho de volta à vida. Sei que tens poder.

— Lembra-te, jovem Corina, que há algum tempo tu aceitaste um benefício da minha parte em troca de algo da tua?

— Lembro-me... 

— Mentes! Sabes muito bem que te esqueceste de mim, e trataste tua inexplicável cura como um milagre do destino.

Essas palavras fizeram Corina chorar de uma forma que não chorava há muito tempo.

— Perdoe-me, Sovaĝa, minha constante alegria me cegou e agora a profunda tristeza invade meu ser. Não tenho mais a quem recorrer.

— Hum! Lembra-te da condição que te ofereci antes de curar-te da tua enfermidade?

— Não, senhor... — Ela hesitou na resposta.

— Mentes outra vez. Claro que tu te lembras. Eu disse que para te curar, tu terias que dar-me algo em troca. Agora sabes por onde te cobrei.

De fato, Corina sabia. Ela sabia que o jaguar queria uma vida, mas a de um primogênito era preciosa demais. Ela imaginou que no futuro sua própria vida fosse cobrada. Não conseguiu mais falar, somente prantear pela morte do filho.

— Sei o que estás a pensar. Quando te curei, impregnou-se em ti uma parte de mim. Não faz sentido eu curar-te para depois matar-te, mas... 

Esse "mas" fez a esperança se iluminar no coração da jovem inconsolada.

— Também não faz sentido eu levar a vida do fruto da tua cura. — Continuou o Jaguar.

O semblante da jovem se iluminou.

— És corajosa, bela Corina, mas não és muito esperta. A vida há de ensinar-te muito.

O Grande Jaguar afastou-se para a direita, revelando a cabeça decapitada de Matias. Corina voltou a se entristecer. Não a mesma tristeza de quando perdeu o filho, mas pelo fato de ele ter sido um bom homem e companheiro, em sua concepção, fora tudo sua culpa.

— Não chores por ele, bela jovem, e nem te culpes, ele era vaidoso. Quando me viu pegar um dos seus bois, veio ele procurar-me com uma arma de fogo, pensou que poderia matar-me e exibir-se às pessoas, o quão corajoso era. Morreu de medo, antes mesmo de eu o despedaçar. Alegra-te, comigo a tua dívida foi quitada.

Assim que ele terminou de falar, o filho de Corina voltou a chorar como uma criança normal. Mesmo vendo que o seu marido estava morto, ela não conseguiu conter a alegria.

— Muito obrigada! Senhor Sovaĝa, serei eternamente grata. — Disse Corina. — E não te preocupes, o segredo da tua existência estará guardado comigo até ao findar dos meus dias.

Corina saiu da caverna com seu filho e foi viver a sua vida em paz, longe da floresta. Ela aprendeu a nunca mais pensar na morte como solução para a dor, e nem fazer tratos sem antes saber dos seus princípios. Virou uma mulher inteligente e admirada por entre a sociedade em que vivia.

Enfim, ela conheceu um padeiro, gentil e amoroso, com quem se casou e teve mais um menino.

Contava para todos a sua história de como conheceu um Grande Jaguar mágico que a curou de uma enfermidade que a impedia de ter filhos. Seu nome era Sovaĝa.

— É do ser humano mentir. — Disse o Jaguar consigo mesmo, rindo, sozinho, em sua caverna.

Fim.

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