• Vinte e dois •

É incrível como ano após ano, permaneço impactada com o poder transformador do clima. Dentro de dois meses, junto aos concidadãos de Águas Douradas, assisto a chuva contínua do outono ser substituída lentamente pelo precipitar de pequenos flocos de neve, que se acumulam em toda a extensão do solo. Agora, na despedida de novembro, uma névoa espessa domina a atmosfera da cidade, e o inverno cumprimenta os moradores com a promessa de que grande parte das noites serão vivenciadas diante da lareira.

Com o fim do semestre e o aumento das atribuições no estágio, as últimas nove semanas foram uma montanha-russa de emoções, diferente da presença do Henrique, que se tornou uma constante nos meus dias. Sua alegria, gentileza e fé converteram-se em excelentes companheiras e com espontaneidade, estabelecemos uma amizade profunda. Era como se nos conhecêssemos de uma vida inteira. Na Fruto do Espírito, a temática discutida nos encontros de jovens e círculos de oração, era apenas uma: então é verdade que a filha mais velha do pastor finalmente está namorando? E embora eu tenha negado veementemente essa prerrogativa, ninguém me deu ouvidos. A minha igreja não possui jornal, mas caso existisse um, sem dúvidas, eu seria a manchete principal. Todos estavam extremamente chocados.

Eu deveria me ofender, porém, não sou capaz de julgá-los. O relacionamento romântico nunca esteve entre as minhas prioridades e, definitivamente, estou cinte de que não é um dos meus pontos fortes... pelo contrário. Não, essa resolução não se limita a um mero capricho da minha parte. Esteja certo de que faço essa afirmação embasada em fatos e provas.

Quando eu estava na sétima série, Vincent Clark, aluno do mesmo ano, resolveu me presentear com um girassol e declarar que eu brilhava como o sol. Lindo, certo? Errado. Para a minha completa infelicidade, eu fui acometida por um mal súbito e sem rodeios fingi que era alérgica a flores, virei para o lado oposto e o abandonei, perplexo, diante de alunos abismados. Sim, provavelmente eu deveria ter recebido o presente, agradecido e depois conversado confidencialmente sobre os seus sentimentos. No entanto, isso sequer cruzou os meus pensamentos. Não, eu não sou cruel ou egoísta. Não, eu não acho que foi vergonha ou timidez. É difícil admitir, porém, o mal que me consumia era muito mais intenso e dominante do que os citados.

Aos meus dezesseis anos, Nobu Akira se declarou para mim. Eu o rejeitei... fim. Sim, eu tenho convicção de que o erro não reside na negativa. Uma moça não deve ser obrigada a retribuir as inclinações de um rapaz, porque ele se diz apaixonado. Devemos colocar diante do Pai, para que Ele nos revele se este é o caminho correto. Entretanto, não foi o que fiz. Eu simplesmente fugi. Tranquei a porta sem ao menos abri-la. E embora o meu forte laço com o Nobu tenha sido supostamente rompido após a sua discussão misteriosa com o Art, para ser franca, a minha única intenção era a possibilidade de afastar os seus desejos românticos, sendo a briga o motivo perfeito. Sim, eu sei, um traço de personalidade possivelmente patológico.

Durante toda a minha existência, eu evitei a palavra romance como uma doença contagiosa grave. E quando o Arthur surgiu diante da minha porta, há quase dez anos, aparentava ser o amigo ideal. Por quê? Bom, a despeito de ele ser gentil, divertido, generoso, leal, era, sobretudo, um inveterado conquistador. A sua ausência de fé e crenças cristãs impediam que eu me apaixonasse, enquanto o excesso delas em mim tornava-me pouco atraente a ele. Pelo menos era o que eu pensava. A verdade dolorosa é que parte do motivo que me levou ao Art foi o desejo inexplicável de me resguardar de possíveis sentimentos românticos e, infelizmente, tenho pago um alto preço por essa escolha. Eu construí um muro de proteção ao redor do meu coração e a palavra amor tornou-se um risco em minha mente.

Eu não questiono a minha decisão com o Art, porém, admito que ele foi o único pretendente que eu rejeitei por uma motivação justa. Todos os demais, incluindo o Nobu e aqueles que vieram antes ou depois, foram baseados em razões aleatórias e insuficientes. A Bíblia diz em Apocalipse 3:7, que Deus abre e fecha portas. Bom, no quesito namoro, se Ele fecha, tudo certo, mas se Ele abre, eu empurro, forço e tranco de qualquer maneira. Eu usei o Pai como justificativa, quando na verdade não orei pedindo a Sua orientação. Tracei o meu próprio caminho, sem me importar com o Seu propósito para mim. Obstinada, permiti que o amável Criador de tudo o que existe, trabalhasse em todas as áreas da minha vida, exceto essa. E dispus um aviso de proibido entrar até mesmo para Ele. A pergunta é: Por quê?

Honestamente, não foi proposital ou consciente. Eu não havia compreendido realmente até conversar com a Let antes do meu primeiro encontro com o Henrique. Entretanto, durante a sua fala, o som do mundo de certa forma foi abafado e eu pude ouvir a voz do Eterno. Havia um sentimento terrível arraigado em mim, capaz de me paralisar e de me deter. Seu nome? Medo. No entanto, do quê? Eu cresci cercada por um casal realizado no casamento, então o que eu poderia temer? Exatamente isso. E se eu não encontrasse a tão sonhada felicidade? E se eu amasse alguém que não me correspondesse? E se o meu par ideal cansasse de mim? E se me abandonasse? Se me magoasse, me decepcionasse, ou pior, e se ele me traísse? A verdade, única e incontestável, é que eu tenho medo de sofrer... por amor.

Entretanto, Deus sendo infinito em bondade e misericórdia, colocou o Henry em meu caminho. E com ele aprendi que não são apenas os relacionamentos românticos que carregam o potencial de nos magoar. Eu já havia sofrido por amor sem nem ao menos perceber. A dor de perder o Arthur foi uma das piores que já enfrentei, no entanto, eu escolhi deixá-lo por amor às minhas crenças, aos meus princípios... e à Deus. E embora sinta uma saudade imensurável e irremediável do meu melhor amigo, não posso dizer que me arrependo. Sendo assim, consciente de que o Senhor aproximou o Henrique com um propósito claro, decidi permitir que ele tomasse um lugar real na minha vida. Porém, admito que nos últimos dias ele conquistou espaço em um território novo e inóspito: o meu coração.

Constantemente, a minha irmã questiona se estou apaixonada e continuamente respondo com a verdade: eu não sei. Minha mente ainda está em processo de adaptação. Toda essa ideia é uma grande novidade para mim. Certo, é justo que diante do seu sorriso, eu perco um pouco a capacidade de respirar. Okay, o brilho dos seus olhos me faz suspirar. Mas se isso é suficiente para declarar: "Oi mundo, eu estou apaixonada", realmente não posso afirmar com certeza. Agora admito que é divertido. A espera, o encontro, a adrenalina do momento, o misto de emoções. Aos vinte e três anos, ele pode ser o meu primeiro amor... ou não. E esse é o problema.

Porque no fim, somente entre nós, tenho um receio profundo e secreto de o estar usando para fechar um ferimento ainda em cicatrização. Se eu não quero ser magoada, definitivamente, não posso ser agente de sofrimento para alguém. Não quero pensar que ele é um escape de possíveis inclinações por outro. Ainda não fui capaz de nomear os meus sentimentos pelo Henrique, imagine pelo Arthur, que é um quadro infinitamente mais complexo? Porém, eu me pergunto: se o seu nome ainda provoca uma vibração no meu corpo e arrepios na minha pele, o que exatamente isso significa?

Pela primeira vez em minha vida, tenho me permitido sentir e ponderar. Os meus sentimentos são como uma salada de frutas caótica. Todos os dias, em direção ao alvo, tenho limpado o meu organismo do mal tóxico que é o medo com os direcionamentos da Palavra do Rei. A curtos, porém firmes passos, tenho me afastado do espírito de medo e me aproximado do de equilíbrio, poder e amor. No entanto, estar deitada em casa, às 20:00h de um sábado, não é a melhor estratégia para uma mente tão ativa. Decido me oferecer para buscar documentos importantes no orfanato.

O Orfanato Terra de Amor foi um projeto criado pelos meus pais, ligado a Fruto do Espírito. Sentiu o trocadilho? De acordo com eles, o nome foi baseado em 1 Coríntios 13:13: Agora, permanecem esses três: a fé, a esperança e o amor, mas o maior destes é o amor. No entanto, quem é o fruto do espírito descrito em Gálatas 05:22? Pois é. Então, intencional ou não, tem trocadilho e ponto.

O Orfanato é simplesmente a menina dos olhos da minha mãe. Embora tenhamos um diretor bastante competente, ela é a administradora principal e cuida de todos os detalhes. Atendemos oitenta crianças até os doze anos. Porém, o maior sonho dos mais pais atualmente é elaborar um projeto para ampliar o local e adicionar novos programas, para que abarquemos adolescentes até os dezessete anos. Eis o problema: o tal projeto custa um verdadeira fortuna. E eu nem mencionei a construção ainda. Entretanto, estamos confiantes de que Deus fará o impossível se tornar realidade. Afinal, milagres podem ser extraordinários para nós, mas são absolutamente comuns para Ele.

Após abraçar as crianças e guardar os documentos, retorno para casa. Com os pensamentos agitados, decidi abandonar o uso do carro e caminhar sob o céu estrelado e pacífico. O vento cortante do inverno declara que o meu plano brilhantemente arquitetado possui uma falha. No entanto, o ar gélido que preenche os meus pulmões e a minha mente a cada respiração, acalmando a minha alma, me torna convicta de que está foi a melhor decisão. Abraço o meu corpo, serena, até que uma voz feminina me acorda do torpor.

– Você não... Espera... – Sua voz é fraca e um tanto confusa. Ela parece... bêbada, talvez?

– Calma, gracinha. Nós estamos apenas brincando. Não está achando divertido?

– Não... me solta...

Minha mente alcança a compreensão do quadro e corro em direção ao som da discussão. Definitivamente, não é o mais inteligente, porém, não me importo. Provavelmente, deveria apenas chamar a polícia, ou buscar ajuda, entretanto, nem sequer penso nisso. Aquele tom... Eu o reconheceria em qualquer ponto do universo e por mais arriscado que fosse, não iria recuar. Com os passos rápidos, entro em um beco escuro. Dois rapazes, altos e fortes, pressionam uma moça contra a parede, no exterior de uma boate. Eu não penso duas vezes.

– Ei, vocês dois – eles se viram.

Um brilho malicioso perpassa o olhar de ambos e de modo atroz abrem sorrisos cruéis. Aparentam se deliciar com a situação. Eu havia completado a festa. Meu coração acelera e meu organismo me alerta do perigo eminente. Em segundos, a minha mente arquiteta incontáveis planos de fuga, no entanto, silencio todos os mecanismos de autoproteção e permaneço parada. Exibo um semblante duro e carrego a minha voz com aspereza e firmeza.

– Se afastem da Elise, agora!

Pronto, agora deu erro grande... Socorrooo!!

Se está gostando dessa estória, que tal deixar uma estrelinha tão brilhante quanto você?!

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