• Quarenta e três •
O despertador inicia o seu irritante trabalho habitual, e abro os olhos... por um milagre. Honestamente, nem Moises precisou de tamanha fé para abrir o Mar Vermelho. Não, eu não diria que o problema reside no despertar. Afinal, acordar implica necessariamente em dormir, concorda? Algo que, infelizmente, não tive o prazer de realizar essa noite. Portanto, eu diria que é mais um torpor do que propriamente uma preguiça.
Não que eu seja livre desse mal. Preguiça, no caso. Considero até que sou frequentemente acometida por ela. De acordo com a minha avó, com um fundo notadamente patológico, diga-se de passagem. Temos uma relação bem próxima. Eu e a minha avó, no caso. Ela é uma mulher maravilhosa. Aliás, sobre o que falávamos mesmo?
Encaro o relógio sobre a mesa de cabeceira: 03:30h da manhã. Okay, divagar mais do que justificado. Durante a madrugada, poucos seres são plenamente funcionais: os vampiros, os zumbis, os médicos. Como podem constatar, todos da mesma classe.
Ergo o meu corpo mortificado da cama, e passo à tentativa frústula de domar o meu cabelo. Ao contrário de mim, ele está bastante ativo. Parece que disputou uma batalha árdua contra si mesmo... e perdeu. "Desgrenhado" e "insano" são duas palavras aplicáveis ao contexto, já que o dicionário não dispõe de nada mais agressivo. Por que eu, Pai?
Prendo tudo o que consigo abarcar com os dedos em uma trança, puxo alguns fios e disfarço o clássico efeito frontal "fui abraçada pelo super choque" com uma bandana colorida. Se não pode ser assentado, será no mínimo estiloso. Visto uma roupa básica e calço tênis. Considerando o meu destino, estou perfeitamente adequada à ocasião. Pego o casaco, a caixa de veludo, a bolsa e as chaves, e desço as escadas mais silenciosa do que ladrão em cofre de banco.
Passo pela porta e sinto o clima frio preencher os meus pulmões, enquanto o som do vento esbraveja cortante. O inverno se aproxima a passos lentos, mas o seu espírito já se encontra entre nós.
Okay, comentário nada assustador em meio a uma madrugada gelada e ruidosa? Confere. Aperto o casaco ao meu redor e corro para dentro do carro, ao lembrar de cada filme de terror que não assisti, porém a descrição alheia apresentou o mesmo efeito estarrecedor. Envio a mensagem prometida, ativo a localização, giro a ignição e recebo a resposta do motor.
Céus, não há mais volta. Não há mais tempo. Não me resta nada, exceto os quarenta minutos que me separam da minha fatídica missão. Assim, à medida que as luzes do farol iluminam a estrada silenciosa, minha mente revive trechos do diálogo da tarde anterior.
"Essa é uma péssima ideia."
Declarou com os braços cruzados, surpreendendo um total de: ninguém.
"Henry, você sabe que eu não iria se não fosse importante."
Sim, ele possuía absoluta ciência de que meu argumento era válido, apenas não lhe agradava admitir tal fato.
"Nesse caso, irei acompanhá-la."
Arriscou pela milésima vez, prolongando o impasse labiríntico que eu lutava arduamente para extinguir, e vencer, claro.
"Por favor, namorado, a sua presença vai roubar todo o sentido do meu passeio noturno."
Infelizmente, o meu esforço em adicionar um toque doce e melodioso à investida persuasiva, foi vão. É óbvio que nenhum charme da minha parte seria capaz de encobrir o horário da minha pequena e arriscada aventura, mas esperava ao menos deter o poder de amortecer o choque. Bom, nada feito.
Como esperado, Henrique não ficou minimante satisfeito em me imaginar perambulado sozinha pela madrugada, especialmente considerando o trajeto em questão. E sua expressão intensamente descontente não aparentava interesse em ocultar essa verdade óbvia.
"Prometo que mandarei mensagens relatando cada movimento meu, desde o instante em que abrir os olhos."
Mais uma negativa.
"Você pode acompanhar o caminho em tempo real."
Propus, esperançosa. O que recebi? Silêncio total.
"Vamos, Henry, você não confia em mim?"
"Sim, Catarina. Em você, eu confio."
É fato que ele carregou a última sentença com tamanha ênfase, que até ao observador mais disperso, seria impossível ignorar o que gritava as entrelinhas. A despeito do trajeto, que já não ajudava, havia algo mais. Ele confiava em mim, apenas não depositava o mesmo sentimento no...
O aroma único de Mar Azul invade às minhas narinas, sem qualquer sutileza ou aviso prévio. O município mais próximo de Águas Douradas me recebe de braços abertos, a despeito da luz tênue e pálida da lua. Não me surpreende. Somos cidades irmãs, geradas quase simultaneamente por apaixonados pelo movimento das águas. E embora eles possuam apenas metade da nossa população, são bem mais eficientes em extrair vantagens da sua nobre localização.
Estaciono de frente para o muro de pedras e observo ao redor. O movimento de pessoas circulantes ainda é bastante reduzido... Tal como deve ser. Caso contrário, ele não estaria aqui. Meu coração falha duas batidas. Aperto o colar de pérola e quatro pétalas ao redor do meu pescoço.
Deus, por favor, me dê coragem, amor e equilíbrio. O Senhor me trouxe até aqui, estou pronta para ouvir a Sua voz.
Desço do carro, levemente trêmula. Porém, três passos curtos são o suficiente para me devolver aos momentos felizes da minha infância. Sorrio. De uma forma delicada e paciente, lentamente esse lugar abriu caminho pela minha alma e construiu um memorial de boas lembranças só seu.
Aparentemente, a doce recordação é o combustível que me faltava. Luto contra os sentimentos que me aprisionam por anos, e deposito passadas firmes contra o chão de pedra. Escuto sua voz. Me deixo guiar por ela, e percebo a areia branca se acumular nas solas dos meus sapatos. Finalmente, enxergo sua silhueta há poucos metros de distância. De costas para mim, conversa com um idoso de cabelos alvos e sedosos.
– Por favor, meu Atum Bluefin, Sr. Hiroshi.
E embora seu tom seja claro e audível, não recebe nada além de um silêncio sepulcral como resposta. O mercador dos peixes mais caros e nobres da região, permanece parado e mudo como uma estátua.
– Kuromaguro onegaishimasu, Hiroshi-san – o comprador repete, agora em japonês.
E... nada. A visão do sábio senhor se ajusta de modo a transpassar o cliente, e fixar-se no elemento sobressalente e inesperado por trás dele.
– Akachan! – declara o idoso, com um toque misto de surpresa e alegria.
– Bebê? Mas eu não quero um peixe bebê, Sr. Hiroshi. – O homem corre as mãos contra os cabelos negros, claramente frustrado com a falha da comunicação. – Acho que o meu pai está certo. Preciso realmente praticar o meu japonês.
– Akachan – o negociante repete enfático, porém ergue o braço, apontando o dedo em minha direção.
O jovem se volta para trás, e assisto cada traço do seu rosto ser transfigurado em uma expressão de mais puro choque. Caminho até eles.
– Kon'nichiwa Hiroshi-san – cumprimento o nobre senhor com uma reverência oriental, e me volto para o jovem absolutamente perplexo ao meu lado. – Como vai, Nobu?
A brisa leve e salgada, proveniente do mar, acaricia o meu rosto. Fecho os olhos e permito que o seu movimento fluido bagunce os fios soltos do meu cabelo. Há dez anos, esse lugar certamente estaria entre os primeiros na minha lista de favoritos. Durante as férias, já era um programa certo e mais do que aguardado, acompanhar o Sr. Akira à pequena cidade pesqueira de Mar Azul, junto ao Nobu.
"Se você deseja servir alta gastronomia, deve sempre começar pela excelência da matéria-prima, Cat-chan", afirmava o pai do meu amigo, com a sua placidez habitual.
É fato que ele acreditava de forma tão veemente nessa prerrogativa, que comprava cada pescado e marisco pessoalmente, e na própria fonte. Todas as segundas-feiras de madrugada, encontrava-se com o Sr. Hiroshi. Por anos, enquanto o mundo dormia, era o primeiro cliente a obter as verdadeiras joias dos mares, para garantir que não faltasse perfeição aos pratos da Fuji Sushi House. Foi uma longa estrada, até o momento em que o seu único filho assumiu essa nobre missão.
Sinto dedos roçarem suavemente contra a minha pele e abro os olhos. Nobu deposita, pacientemente, mechas indisciplinadas atrás da minha orelha direita. Arrasto a minha mente de volta ao presente.
– Como chegou aqui? – Questiona com a atenção ainda focada nos meus fios indomáveis.
Sentados sobre o muro de pedra na entrada da cidade, é impossível não ser dominada pela sensação de um passado já desbotado pelo tempo.
– Dirigindo – respondo, mesmo ciente de que não é essa a informação que ele deseja.
Céus, não podemos pular essa parte?
– O Henrique veio com você?
Pois bem, ao que tudo indica, não podemos.
Decido não mencionar que o Henry lutou sem sucesso por essa posição. Sendo assim, me limito a gesticular uma negativa e retornar ao silêncio, permitindo que ele conclua o raciocínio sozinho. É como dizem os nossos amigos advogados: não sou obrigada a produzir provas contra mim mesma.
Nobu procura ao redor rapidamente, olha dentro do meu carro, e quando não encontra ninguém, para o que está fazendo, se levanta e procura mais uma vez. Por fim, ele se volta para mim.
– Cat, não me diga que você foi imprudente o bastante para vir até aqui sozinha?
– Está bem. Então, eu não digo – brinco.
Ele não acha a menor graça.
– Catarina Benedetto, como pôde ser tão desajuizada? Perambular sozinha pela estrada no meio da madrugada? Custo a acreditar que o seu pai permitiu tamanho disparate – solta, exasperado.
Digamos que ele não poderia estar mais correto. Talvez, apenas talvez, eu tenha "acidentalmente" esquecido de mencionar essa ideia aos meus queridos genitores, antes de eles viajarem para visitar uma família há quatro horas de Águas Douradas, ao final do culto.
Nobu facilmente lê o óbvio estampado na minha testa. Ele abre a boca, incrédulo.
– Você não contou aos seus pais?
– Em minha defesa, não havia dificuldades. Eu já realizei esse mesmo trajeto um milhão de vezes.
– Há quase dez anos e sempre acompanhada. Você sabe que horas são?
– E isso importa? Eu já estou aqui, e sem faltar parte alguma, como pode atestar. Céus, não precisa de tanto drama.
– Drama? – Seu tom alerta de que provavelmente ultrapassei alguns centímetros, ou metros, do limite. – Você tem alguma ideia de tudo de terrível que poderia ter lhe ocorrido simplesmente por andar sozinha em uma estrada escura, ainda que não lhe arrancassem uma única parte?
Ele está irritado. E convenhamos, coberto de razão.
– Sinto muito – declaro de modo sincero, torcendo que seja o suficiente para acalmar o seu coração.
Nobu expira lentamente, retomando o controle. A bem da verdade, ele é muito prático para ser dado a arroubos e emoções intensas. A preocupação realmente mexeu com o seu cérebro coreano.
Após alguns minutos, ele senta ao meu lado.
– Eu só espero que tenha um excelente motivo para ter se arriscado dessa maneira.
Ajusto a minha posição sobre o grosso muro, de modo a ficar sentada de frente para ele.
– Eu precisava falar com você.
– Não podia ter ido até a minha casa? Me procurado na igreja ou no restaurante?
– Não – respondo firme. – Tinha que ser aqui.
Diante do meu tom, ele suaviza a postura. Eu posso até ser dramática, mas quando sou decidida, há, no mínimo, uma razão forte por trás disso.
Ele pondera por um segundo, e quando torna a falar a sua voz é baixa e instável.
– Eu já sei que ele voltou.
– O que?
– O Arthur. Eu sei que agora ele é membro da Fruto do Espírito e que, para a minha completa satisfação, planeja integrar o mesmo ministério que...
– Eu não vim até aqui para falar sobre o Art.
Nobu me encara, surpreso. Pobre homem, está absolutamente perdido. Sorrio.
Okay, não um sorriso amplo e aberto, claro, mas um daqueles meio discretos que experimentamos em situações controversas. Hoje é a terceira vez consecutiva, que os homens que me cercam ficam no mais completo breu. Geralmente, eles me interpretam com certa facilidade, mas há dois dias fujo do previsível e os deixo um tanto desnorteados.
Para ser franca, não posso afirmar que desgosto da sensação. A manhã já será difícil o bastante. Seria bom começar ganhando uma, concorda?
E não é que vovó tinha razão: Quem é vivo sempre aparece!!
Pois bem, Nobu marca o seu retorno às páginas desse livro e quem quiser que se segure para os próximos capítulos da história desses dois... Alerta aos cardíacos: VEM BABADO FORTE POR AÍ!!!
Aiai...
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