6

Matt

Cidade de Nova York — Mundo Humano

Dois dias atrás

— Não está se esquecendo de nada, Matthew? — a garota lhe disse de trás do balcão, após entregar-lhe um copo com café-com-leite e um pacote de papel quase cheio, um pouco engordurado e com um cheiro delicioso e instigante — Você me deve alguns desenhos!

— Você sabe que eles não são de graça, não sabe, Lilly? — Matt perguntou, após tomar um gole da sua bebida.

— E você acha que os meus pastéis são? — ela perguntou, fechando o semblante e cruzando os braços ofendida.

— Lógico que não, sua besta! — ele disse, rindo da carranca que ela fez — Você sabia que fica linda quando tá nervosa.

— Não adianta me adular, Matt — ela respondeu, fazendo um biquinho —, quero meus desenhos!

— Oownn! — ele fez um som, zombando do drama dela — Eu não resisto a esse biquinho!

Colocando o copo e o pacote em cima do balcão, ele pegou um envelope que havia deixado no chão, de modo que ela não pudesse ver, e o ergueu para entregá-la deixando-a surpresa.

Ela retirou do envelope seis lâminas de papel cartão de aproximadamente quarenta centímetros quadrados, e se admirou quando viu os desenhos perfeitos, feitos apenas em luz e sombra, sem cores.

— Meu Deus, Matt, eles são incríveis! — ela gritou, chamando a atenção de alguns clientes que tomavam seu café da manhã na lanchonete — Quando você os fez?

— Ontem à noite antes de dormir, — ele respondeu pegando um pastel no saco de papel em cima do balcão e dando uma mordida — que delícia, é a nova receita da Karen?

— Para o seu governo, fui eu quem os fiz — ela respondeu orgulhosa —, mas, quanto aos desenhos, você os fez em seu quarto?

— Sim — ele disse com a boca cheia, enquanto mastigava o pastel delicioso — eu fiquei observando vocês e os clientes durante o dia, e desenhei à noite.

— Sua memória fotográfica é realmente incrível, Matt! — Karen disse, se aproximando e observando os desenhos junto com Lilly, que também olhava completamente admirada — Esses detalhes são precisos, parecem fotografias.

— Ficarão lindos nas molduras, mãe! — Lilly disse empolgada — toma conta do caixa pra mim, por favor, que eu vou pegar as molduras lá em cima!

— Quanto eu te devo pelos desenhos, Matt? — Karen perguntou, abrindo a gaveta das notas — Você tem que valorizar esse dom.

— Você sabe que eu nunca cobraria nada de vocês, não é mesmo, dona Karen — ele disse sorrindo com ternura —, se alguém deve algo aqui, sou eu.

— Você sempre teve o maior dos corações, filho — ela respondeu, caminhando até o outro lado do balcão para dar-lhe um abraço apertado —, você fica fazendo desenhos sem cobrar ou cobrando preços simbólicos, não acha que está na hora de montar um ateliê e cobrar um preço justo por sua arte

— Eu sinto que as ruas são o meu lugar — ele respondeu baixando a cabeça —, mas eu vou pensar nesse conselho.

— Vai nada — uma voz masculina disse, vindo das escadas —, você nunca pensa!

— Bom dia para você também, Eustácio! — o Jovem disse, fazendo uma piada ao compará-lo com um personagem reclamão de um desenho, arrancando uma risada de Karen.

— Ah é, Karen, você apoia ele ficar me dando apelidos? — o homem perguntou a ela.

— Ah Hugh, é porquê parece — ela respondeu, rindo ainda mais do bico que ele fez, e abraçando-o em seguida para adular, disse: — mas você é o meu Eustácio!

Matt adorava ver o modo como Karen e Hugh se amavam. A vinte anos atrás, eles o haviam encontrado abandonado enquanto ainda era um recém nascido, em uma caixa na porta de sua lanchonete, e cuidaram dele desde então. Lilly nasceu quatro anos depois e sempre viu nele um irmão mais velho, mas Matt nunca se encaixou de verdade. Na escola sempre foi problemático com seus surtos emocionais, e certa vez quase matou um outro aluno, por ter implicado com seus desenhos, e por chamá-lo de anormal.

Sua adolescência foi marcada por visitas a reformatórios e sessões com psicólogos, mas aos dezessete anos decidiu virar artista itinerante nas ruas da cidade, e fazer pintura urbana também, o que de alguma forma conteve seus surtos e desde então, não deu mais dores de cabeça para sua família. Hugh tinha por diversas vezes lhe oferecido um ateliê para que ele pudesse expôr e vender seus desenhos de forma mais profissional, mas Matt sempre recusou.

— Minha nossa, eu preciso ir — o jovem disse, pegando a mochila, os pastéis e o café —, hoje tem umas comemorações na praça central, vai estar lotado de turistas!

— Lembre-se da festa que terá aqui na lanchonete hoje — Hugh disse enquanto ele saía —, Vamos precisar de ajuda a partir das dezessete horas!

— Eu vou estar aqui, pai!  — ele gritou antes de sair pela porta e sumir.

Ele seguiu pela rua principal em direção ao centro, onde passou por alguns de seus desenhos, em forma de grafite nos muros da cidade, cortesia dos comerciantes que sempre o chamavam para cobrir as pichações que as gangues deixavam, com a sua arte.

Chegando ao centro da cidade, ele avistou a catedral e a praça lotadas de turistas, e encontrando algum ponto estratégico montou o seu espaço de trabalho, improvisando um varal para expor alguns desenhos, que logo chamaram a atenção por sua perfeição de detalhes.

O dia se passou com muitas vendas de desenhos prontos e muitos desenhos feitos na hora, de pessoas e paisagens, e era nítido para ele, que a idéia de Karen e Hugh de montar um ateliê era excelente, e estava inclinado a aceitar a proposta desde que pudesse pagar a eles depois pelo investimento.

Pensar neles o fez se lembrar da festa na lanchonete e, olhando no relógio, viu que faltavam quinze minutos para as dezessete horas, então decidiu juntar as suas coisas e ir para lá ajudar nos preparativos. Ele se sentia em dívida com eles por ter dado tanta dor de cabeça na adolescência, e agora aproveitava cada tempo que tinha para se fazer presente e ajudar.

Decidiu fazer um caminho mais curto para voltar, mas logo se arrependeu ao ver umas figuras no beco assim que virou a esquina, mas era tarde demais para voltar, então apenas seguiu em frente, torcendo para que não percebessem a sua presença.

— Olha só se não é o grande artista urbano — uma das figuras lhe dirigiu a palavra, com toda ironia que se pode ter, fazendo-o revirar os olhos e parar —, eu queria mesmo conversar com você!

— Olha Snake, eu só estou de passagem e não quero confusão — Matt disse virando-se e encarando o outro jovem, que se aproximava. No beco também estavam mais sete jovens mais ou menos de sua idade, alguns tinham correntes e lâminas nas mãos e alguns provavelmente estariam portando armas de fogo também.

Billy Snake era o líder de uma das gangues que disputavam o território no bairro, e se achava dono daquela região. Tanto que chegava a cobrar uma espécie de imposto aos comerciantes. Ele e Matt bem como alguns daqueles jovens da gangue estudaram juntos, e o fato de Matt se recusar a fazer parte da gangue era motivo de perseguição a ele.

— Eu vi que você foi contratado pelos comerciantes para cobrir as nossas pichações com sua arte — Snake disse se aproximando —, então quer dizer que você lucra com as nossas ações, e eu acho que nós deveríamos receber algum crédito nisso.

— Cara, eu realmente preciso ir ajudar meus pais —, Matt disse na defensiva —, podemos discutir isso uma outra hora?

— Vejamos o que temos aqui! — Snake disse, puxando bruscamente a mochila que estava em seu ombro e começou a revirá-la, deixando-o sem reação, já que os outros jovens os cercavam.

— Cara, me entrega isso... — ele começou a dizer, dando um passo na direção do outro, mas foi interrompido por um golpe forte na boca do estômago desferido por outro jovem que estava ali, o que o fez curvar-se momentaneamente sem ar.

— Ou o quê? — O agressor gritou, intimidador — Você vai desenhar na gente?

Todos começaram a rir, e Matt mesmo sem ar e tentando se recuperar do golpes escutou as palavras de zombaria, bem como o barulho de seus materiais sendo jogados no chão, e sentiu seu sangue ferver e seu coração se acelerar de modo que não conseguiu conter seu ímpeto de atacar.

Ele se jogou em uma investida cega contra Snake, mas antes que pudesse atingí-lo, um taco pesado atingiu-lhe a testa com um som metálico, fazendo-o perder o equilíbrio e cair de costas no chão imundo do beco. Todos explodiram em risadas e zombarias, e colocando a mão na testa, ele sentiu o sangue quente pulsando e escorrendo do que parecia ser um corte bem profundo.

Por algum motivo ele não sentia dor, estava grogue da pancada e o sangue escorria por cima do olho à medida que tentava se levantar, prejudicando sua visão, e com muito custo ele se pôs de pé, mas se viu no meio dos jovens que faziam uma espécie de roda, cercando-o completamente.

— Cadê o dinheiro dos desenhos que vendeu hoje na praça, Matt — Snake perguntou após revirar toda a mochila, jogando tudo que havia nela no chão —, aqui só tem merda!

— Vá se foder, seu filho da puta covarde! — Matt respondeu sem se preocupar com os capangas que o cercavam.

— Mostrem pra ele quem é que vai se foder! — Snake ordenou, e eles começaram um ataque brutal ao jovem que não tinha como se defender de tantos agressores ao mesmo tempo, e durante alguns minutos que pareceram horas, ele foi duramente espancado pelos capangas que usavam correntes, tacos de baseball e soqueiras. Parando a surra apenas quando ele caiu completamente machucado com as costas apoiadas no muro.

Com os olhos bem inchados e provavelmente algumas costelas quebradas, ele ainda se manteve acordado, e viu Snake pegando um maço de notas em seu bolso e num impulso ele segurou o braço dele com força, mas recebeu um golpe que partiu o seu antebraço, fazendo-o perder a firmeza e soltá-lo. Talvez ele estivesse em choque, porque não sentia dor, mas mantinha o olhar firme em Snake e o que sobrou de sua expressão deformada era pura obstinação.

— Olha só o que temos aqui — Snake disse abaixando-se e pegando um de seus desenhos — é a doce Lilly! Eu a vi outro dia e ela está uma delícia!

— Deixa ela em paz seu desgraçado — ele gritou sem se mexer, e mal mantendo os olhos abertos.

— Esse dinheiro aqui não paga o que nos deve — Snake continuou —, talvez devamos fazer uma visitinha á lanchonete mais tarde!

Matt sentiu seu coração acelerar, a ponto dele ser capaz de escutá-lo. Não era a melhor hora para uma crise de ansiedade, não ali naquela situação. Não aceitaria que eles ferissem sua família, e o modo como aquele bastardo falou de sua irmã o deixou com vontade de arrancar seu coração. Ele queria matar a todos ali, e sentiu a temperatura de seu corpo aumentar e talvez estivesse alucinando, mas podia ver uma fumaça saindo de seu corpo quente em contraste com o clima frio. Ouvia as batidas aceleradas de seu coração, e outras batidas também, várias ao mesmo tempo e em ritmos diferentes. Sentia seu corpo vibrar como quando atacou o garoto no colégio e quase o matou, mas dessa vez era mais intenso, chegava como uma pressão em seu crânio e maxilar. Seus músculos latejavam como quando malhava por horas seguidas, e as pontas dos dedos começaram a coçar a ponto de ele querer arranhar a calçada até arrancá-los de vez.

— Que tal irmos comer um pastelzinho rapazes? — Snake continuava a tripudiar, agora colocando o desenho na altura do seu membro, e se movimentando como se estivesse fazendo sexo com ele — E a tia Karen, também não é de se jogar fora!

Ao ouvir essa últimas palavras, Matt sentiu como se as veias de seu cérebro fossem explodir, e a pressão de alguma forma começou a cegá-lo, pois enquanto ele fantasiava em pensamento várias formas de matar aqueles desgraçados, tudo foi se apagando até que não viu mais nada.


— Matt, é você quem está aí? — a voz de Lilly o fez despertar, e ao abrir os olhos viu que estava em seu quarto. Sentou-se na cama meio confuso, e só quando se levantou, que percebeu que estava completamente nu — Estamos precisando de você lá em baixo!

— Sou eu sim, Lilly — ele respondeu —, vou tomar um banho e já desço!

Olhando para um relógio na parede de seu quarto, viu que eram dezessete e trinta, e não fazia idéia de como chegara até ali. Uma breve lembrança de ter encontrado Snake e seus capangas no beco e de ter levado uma surra ecoavam na sua mente, mas olhando no espelho do banheiro ele viu seu rosto em perfeito estado, o que seria impossível se a surra tivesse acontecido.

Enquanto a água fria caia em seu corpo, ele tentou pensar no que teria acontecido. Ele já teve esses apagões antes, quando era mais jovem, mas geralmente aconteciam enquanto ele dormia. Algumas vezes já adormeceu em seu quarto e acordou nu em algum outro lugar da casa, ou até na rua. Os médicos o diagnosticaram como sonâmbulo, mas dessa vez ele estava acordando e voltando para casa, além de ter lembranças agora nítidas de ter sido interceptado pela gangue no beco.

— Devo estar ficando louco de vez! — ele pensou enquanto enxugava os cabelos e saia do banheiro.

Abrindo o guarda-roupa, ele se assustou com algo que viu, e caiu sentado na cama. A sua mochila e seus materiais de desenho estavam espalhados sobre as suas roupas passadas e dobradas, e o desenho que ele fez de Lilly e que carregava sempre consigo, estava amassado e o maço de notas que recebeu pelos desenhos na praça, estava salpicado de um vermelho ainda meio úmido, que só de olhar ele já sabia que era sangue.

Enterrando o rosto nas mãos, ele tentou se livrar da sua confusão mental e seu coração começou a acelerar, então ele ignorou tudo e vestindo a primeira roupa que ele viu na frente, saiu do quarto às pressas e desceu para a lanchonete.

— Ah Matt, eu não vi você chegar — Hugh gritou de cima de uma escada portátil no centro do salão da lanchonete, assim que ele apareceu —, preciso de uma mãozinha aqui, você é mais alto.

— Eu precisava de um banho, então subi direto — Matt mentiu, caminhando em direção á ele —, pode deixar que eu termino aqui.

— Minhas costas agradecem — Hugh disse sorrindo, enquanto descia da escada —, vou adiantar outra coisa.

O trabalho na decoração durou pouco mais de uma hora e o distraiu um pouco, de modo que ele deixou de pensar no que aconteceu e preferiu não comentar com ninguém. Não queria preocupar sua família com aquilo.

— Mãe, pai, Matt, venham ver isso! — Lilly gritou da cozinha, e chegando lá eles a encontraram com olhar fixo em um aparelho de televisão que transmitia o noticiário.

A repórter falava sobre um crime bárbaro, onde oito jovens foram brutalmente assassinados. Eles foram encontrados em uma caçamba de lixo completamente dilacerados, de modo que só poderiam definir quem eram os donos dos membros arrancados, através de DNA. Acreditavam ser uma briga de gangues, mas a cena que o homem que encontrou os corpos descrevia, fazia parecer difícil aquilo ter sido feito por pessoas normais.

— Esses jovens de gangues ficavam sempre aqui — um senhor de meia idade, gordo e com alguns fios brancos, falava com a repórter —, eu tinha recolhido o lixo e precisava descartar, mas quando eu ia entrar no beco, vi eles batendo em um rapaz. Aí eu voltei e esperei. Quase uma hora depois, os barulhos cessaram e eu vim jogar o lixo e ver se precisava chamar a emergência ou coisa assim, mas tinha sangue por todos os lados, e quando abri a caçamba, eu vi os corpos, e pensei: Meu Deus, quem faz uma coisa dessas! Aí liguei para a polícia.

— Esse é o senhor O'Donnell da loja de chás! — Lilly disse, assustada — E esse beco é a duas quadras daqui.

— Malditas gangues — Hugh disse com raiva, jogando o pano que segurava no chão —, estão matando os nossos jovens!

— Meu Deus Matt, você poderia ter passado por ali! — Karen disse, abraçando-o com força — Eu sinto pelas mães desses jovens! Não sei o que faria se fosse você!

— Está tudo bem, mãe — ele respondeu, retribuindo o abraço —, eu estou bem.

Mas ele não estava bem. Se lembrava de ter estado naquele beco, e de ter levado uma surra dos capangas de Snake, e os seus materiais revirados e o dinheiro sujo de sangue comprovam isso.

— Vão precisar de mais alguma ajuda minha? — ele perguntou, sentindo o estômago revirar com a situação — Eu gostaria de deitar um pouco.

— Pode ir filho — Karen respondeu —, os convidados começaram a chegar, nós damos conta agora.

Ele começou a subir as escadas, mas suas pernas falharam já nos primeiros degraus e ele precisou se sentar um pouco. Não fazia ideia do que aconteceu naquele beco, e era impossível que ele fosse o responsável por aquilo, mas suas lembranças, o desenho da Lilly que o Snake pegou e o maço de notas sujo de sangue eram fortes indícios.

— Merda, merda, merda, o que você fez Matt? — ele perguntou para si mesmo, encostando a cabeça na parede — Você fudeu com tudo, seu idiota!

Ele nunca quis acreditar, mas o que aconteceu na escola já tinha lhe mostrado que ele não era normal. Ele tinha quatorze anos, e era novato em uma escola de ensino médio, quanto um valentão quase três anos mais velho que ele, resolveu implicar com seus desenhos. O nome do garoto nunca saiu de sua cabeça: Josh Austin, um riquinho de merda, que implicava com todo mundo.

No intervalo, Matt sempre se isolava para lanchar e desenhar, mas um dia Josh tinha sorteado ele como a "cobaia" da vez, e foi com outros dois valentões incomodá-lo. Josh pegou seu desenho e começou rabiscá-lo, zombando de sua arte, e quando ele tentou pegar de volta os outros garotos o empurraram, e a última coisa de que se lembrava era do garoto lhe chamando de anormal, e depois de ter o que os médicos chamaram de crise de ansiedade, aquele apagão veio e quando voltou a si, Josh estava inconsciente e completamente machucado, com os membros retorcidos e quebrados com fraturas expostas. E os outros garotos fugiram, e disseram que ele começou a bater neles do nada, e mesmo com Josh implorando para parar, ele não parou.

Ele havia feito outra vez, e agora foi pior. Sete jovens brutalmente assassinados, e ele realmente era um anormal, uma besta sem controle. Não podia ficar à solta por aí, pois sua própria família podia ser vítima de seus surtos psicóticos.

— Eu procuro um jovem chamado Matt — uma voz vindo do salão da lanchonete o tirou dos pensamentos, e instintivamente ele entrou por uma porta próxima da escada, e saiu no estoque da lanchonete, que além da porta por onde entrou, tinha outra porta que dava para o salão, por onde os carregadores passavam com as mercadorias —  me disseram que ele mora aqui.

— E quem são vocês? — Ouviu Hugh perguntar, e olhando pelo vidro da porta, viu que o desconhecido tinha cabelos longos e negros, trajando roupas pretas em couro. Outros três homens estavam imediatamente atrás dele, usando roupas parecidas como se fosse um uniforme. E mais atrás, próximo à porta dupla de entrada, um outro homem aguardava. Este era careca, usava uma barba cerrada, e usava um sobretudo negro longo, e tinha um ar de superioridade que fazia parecer que era o chefe dos demais.

— Independente de quem sejam — Hugh continuou depois da falta de resposta —, eu vou pedir que saiam. Estamos tendo uma festa, e vocês estão assustando nossos clientes. Se forem da polícia, voltem com um mandato depois, se não forem, nem voltem.

Matt viu o homem que estava próximo de Hugh olhar para trás na direção do homem na porta, e o mesmo fez um sinal com os braços e saiu. Sem dar nenhum aviso o desconhecido golpeou Hugh com uma força absurda, que o arremessou contra umas cadeiras, fazendo o cair desacordado. Karen correu desesperada na direção do marido, enquanto Lilly olhava em choque do balcão o momento em que os clientes começaram a correr em direção à porta que estava trancada, e os outros homens começaram a atacá-los brutalmente. Matt estava assustado e seu coração começava a acelerar como em suas crises, e como se estivesse congelado, não conseguiu sair do lugar e ficou assistindo os clientes sendo mortos um por um enquanto o homem que atacou Hugh estava se aproximando de Karen.

Pegando Karen pelos cabelos, ele a arrastou até próximo do balcão, enquanto Lilly ainda estava em choque e apenas chorava. Matt queria agir, mas o medo e outros sentimentos o mantinham estático naquele cômodo.

— Me diga onde está o jovem chamado Matt, ou eu mato ela —, ele disse para a Jovem, segurando os cabelos de Karen como se fosse arrancá-los.

— Não diga nada a ele, Filha — Karen gritou, corajosamente —, esse desgraçado vai nos matar de todo jeito.

— Você é esperta mulher, e corajosa! — ele disse, e para o espanto de Matt, exibiu caninos enormes em sua boca, e mordeu o pescoço dela com violência, sem ao menos lhe dar chance de reação e a jogou próxima de onde o corpo de Hugh estava.

Vendo a cena, Matt explodiu em ira, e instintivamente golpeou a porta que foi lançada do outro lado do salão e atingiu um dos agressores com tamanha violência, que partiu o corpo dele em pedaços, e foi parar cravada na parede. Sentindo seu sangue ferver e seus músculos pulsando como se estivessem se expandindo, ele saltou para fora da dispensa e viu a carnificina que aqueles monstros haviam feito.

Focando no monstro que tinha atacado seus pais e estava se aproximando de Lilly, ele se lançou em um ataque feroz, mas precisou se conter quando o inimigo agarrou a jovem e a usou como escudo, apontando garras terrivelmente afiadas para o pescoço dela.

Matt mal conseguia se conter em sua ira, e em sua mente só via o homem que feriu seus pais, mas a jovem em perigo fazia com que sua consciência entrasse em conflito. Queria matá-lo, mas ao mesmo tempo não teria como fazê-lo sem ferí-la.

Sentindo uma presença ao seu lado, ele viu seu corpo inteiro amolecer ao mesmo tempo que sentiu algo sendo preso ao seu pescoço, e caiu de joelhos sem reação. Olhando para o lado, viu que o homem careca de sobretudo tinha surgido do nada, e colocado uma espécie de coleira em seu pescoço, que de alguma forma o impedia de agir.

— Bela bagunça fizeram aqui, hein? — o careca disse ao homem que segurava Lilly — Levem ele daqui que eu vou limpar essa merda toda!

— E a garota? — o outro perguntou, referindo-se à Lilly — Posso ficar com ela?

— Deixe-a, eu tenho planos para ela! _ O careca respondeu — e saia logo daqui!

Matt sentiu seu corpo sendo puxado com violência, e foi forçado a andar. Virando-se ele viu uma espécie de portal de luz, como se fosse um corte no ar, bem no centro do salão da lanchonete. Um dos inimigos pulou nessa luz e desapareceu, seguido de outro. O homem que segurava Lilly, a soltou e o empurrou para o portal, se jogando logo atrás.

Em instantes ele caiu em outra parte da cidade, e viu outros três homens usando aquele mesmo uniforme negro. Em sua cabeça agora ele só pensava em um jeito de fugir, mas contra seis ele não teria chances a menos que conseguisse usar aquele poder que usou na lanchonete.

Lembrou-se do momento em que o poder sumiu, e deduziu que a coleira que aquele careca de sobretudo colocou nele é que os tinha suprimido.

— Preciso retirar essa coleira, e voltar para salvar Lilly! — Ele pensou tentando ver em qual parte da cidade ele estava, para saber qual caminho mais curto de volta para a lanchonete. Segurando o objeto em volta do seu pescoço com as duas mãos, começou a forçá-lo em direções opostas como se quisesse partí-lo ao meio, mas o objeto parecia resistente demais.

— Não adianta, rapaz — O homem de cabelos longos, que havia atacado Hugh e Karen disse, olhando para ele —, essa coleira é um item mágico feito especialmente para aberrações como você, não tem como tirá-la!

— Eu vou tirar isso! — Matt respondeu com olhar obstinado —, e vou matar você!

Todos eles riram da audácia do jovem, e seguiram andando. Eles pareciam preocupados em se manter escondidos de algo, como se fossem perseguidos, e enquanto o de cabelos longos andava à sua frente, os outros flanqueavam e vigiavam espalhados pelo perímetro.

Ele precisava agir e então decidiu correr para trás, onde trombou com um dos soldados, acertando-lhe o peito com o ombro, fazendo-o desequilibrar-se e cair abrindo-lhe passagem, mas imediatamente um outro veio em cobertura numa velocidade impressionante e o acertou, lançando-o contra o muro.

Antes que pudesse se recuperar, o homem que ele havia derrubado, começou a atacá-lo brutalmente com chutes, e ele se encolheu em defesa recebendo todos os golpes.

— Já chega, Clark — o homem que parecia ser o líder ordenou —, temos que levá-lo antes que um deles apareça.

— Você tem sorte que o Slade está no comando — Clark disse interrompendo o ataque —, se eu fosse o líder, você seria levado desacordado.

Matt sentiu seu coração acelerando, e colocando a mão na coleira viu que os ataque que sofreu tinha danificado a mesma, forçando um pouco, conseguiu trincá-la. Concentrando-se com lembranças de sua família ele sentiu seus músculos pulsarem, e sentiu uma dor no ossos como se eles estivessem se reorganizando em seu interior, ou crescendo. Olhou para suas mãos e unhas e as viu estranhamente grandes, e seus braços também pareciam crescer.

— Você não passa de um pau mandado não é, Clark? — Matt disse para o soldado, que agora o acompanhava de perto — Por um acaso Slade é o seu macho?

— Cale a boca, seu verme! — Clark disse, visivelmente irritado com a provocação — Ou eu vou ter que quebrar alguns de seus ossos.

— Vai nada — Matt continuou —, você não passa de um cachorrinho que só pega quando o dono manda!

— Seu filho da puta! — Clarke gritou e partiu para o ataque, mas foi surpreendido por Matt, que já havia iniciado uma transformação, e com as mãos arrancado a coleira. Antes que pudesse ser atingido, o jovem se esquivou e com um golpe de mãos acertou a cabeça de Clark, que caiu de cara do asfalto. Imediatamente, Matt usou os pés para golpeá-lo com tanta força que seu crânio se partiu como se fosse uma melancia, e seu corpo se desfez em cinzas.

— Ele está se transformando — Slade gritou, indo na sua direção —, Segurem ele!

Atendendo à ordem, todos se apressaram em sua direção e seguraram braços e pernas, sendo que mesmo tendo quatro homens o segurando, ele ainda estava prestes a se soltar até que Slade o alcançou, e abrindo uma boca com grandes caninos, os cravou em seu pescoço, próximo da sua jugular, sendo seguido pelos demais que morderam pernas e braços, fazendo-o gritar de dor e ir voltando ao normal aos pouco.

Um golpe surpresa decepou as cabeças dos dois monstros que estavam mordendo seus braços. E os corpos viraram cinzas imediatamente, enquanto os outros soltaram ele, e assumiram uma postura defensiva. Ele caiu de joelhos no asfalto, e viu uma figura como se fosse um vulto de tão veloz e com mais um golpe outra duas cabeças voaram, sem terem a mínima chance de defesa.

Mesmo com todos os ferimentos que tinha, Matt se mantinha alerta e vidrado na batalha, o que o permitiu ver quando ela aterrissou suavemente à frente de Slade. Ela tinha longos cabelos brancos como a neve, usava uma armadura e tinha uma espada curta em cada mão. Era a mulher mais linda que Matt já viu na vida, e parecia uma princesa guerreira de um jogo de RPG.

Slade tentou fugir, mas com o uso de uma espécie de portal, ela apareceu na sua frente, e com um golpe das duas espadas, decepou a cabeça e seu corpo também se transformou em cinzas.

— Eu terei que te matar também garoto — ela disse, aparecendo na sua frente, a menos de um metro dele —, eu não sei por que quis se tornar um vampiro, mas para você tudo acaba aqui

— Eu não quis nada! — ele disse sentindo que ia desmaiar, e enquanto ela preparava para desferir o golpe fatal, mas antes de ser atingido, sua força vacilou e ele sentiu seu corpo cair e tudo escurecer ao redor.

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