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Letti Tiberius

Parlamento dos Magos - Mundo Humano.

O Parlamento dos magos tinha sido atacado mais uma vez, mas agora, além de toda preocupação com os feridos e com a reconstrução, ainda tinha a confusão mental de não saber o motivo do seu irmão estar fazendo aquilo. Cody estava certo em desconfiar de seu tio, mas Klaus não estava sozinho nessa, e além de Phillip, alguns soldados também estavam os ajudando.

Ao que parecia, era uma grande conspiração, mas independente dos motivos deles, nada justificava matar outros magos assim. Agora todos os Élderes estavam mortos, incluindo Mestre Kaius, que era o avô de Cody, e morreu pedindo a ajuda de Phillip.

Letti sempre teve seu irmão como um ídolo, e nunca imaginou ele negando socorro a alguém. Ela se sentia culpada por não ter saído de onde estava e ajudado Mestre Kaius, mas ficou congelada de medo ao ver seu irmão sendo tão frio e cruel.

Agora se via em um dilema cruel, enquanto curava os magos feridos pelas explosões. Seu irmão a tinha orientado a evitar os locais onde as explosões aconteceriam. Ele queria protegê-la do mal que iria causar a outras pessoas, mas o que ele fez não era certo, e ela se perguntava se seu pai estava envolvido na conspiração também.

Phineas Tiberius, era o chefe do setor de cura durante a liderança de Mestre Kaius, e tinha perdido os movimentos das pernas parcialmente, durante uma missão, onde teve de optar por usar sua última reserva de poder para se curar, ou para salvar a vida do jovem e impetuoso Kenneth Storm, filho do então líder.

Com os movimentos limitados e sentindo muitas dores, Phineas passou por momentos de depressão, e quando o mandato de Mestre Kaius acabou, ele não pôde concorrer, e nem indicar Phillip, que tinha apenas três anos de idade, então a disputa pelo posto de líder ficou só entre Kenneth e seu irmão mais velho, Klaus, que não teve chance contra a popularidade e habilidades de seu irmão.

Letti não podia ficar procurando por uma motivação, para os crimes de seu irmão, como ele estava do lado errado, ela precisava pará-lo de alguma forma, mas não sabia como.

— Meu Deus, Letti — Phillip disse, chegando de repente e lhe envolvendo em um abraço —, eu achei que tinha te perdido. Que bom que você está bem!

— Eu fui salva graças à conversa que tivemos mais cedo — ela disse, se esforçando para parecer aliviada por encontrá-lo também —, até parecia que você sabia onde as bombas iriam explodir e me orientou para não ficar lá.

— Eu estava sentindo que algo ruim iria acontecer — ele disse, olhando em seus olhos —, foi uma espécie de intuição.

— O que importa é que eu te escutei — Letii disse, reunindo toda as suas forças para não parecer falsa, já que seu irmão parecia ser profissional em fingir — Precisamos encontrar os Élderes, devem estar muito feridos.

— Infelizmente estão todos mortos — Phillip disse, abaixando a cabeça e fingindo tristeza na voz —, eu tentei salvar mestre Kaius, mas os ferimentos eram irreversíveis. Klaus está evacuando as famílias e mais soldados estão vindo para cá, para nos ajudar a cuidar dos feridos.

Ver o irmão mentir daquela forma, a embrulhou o estômago, e ela cambaleou de leve, sendo amparada por ele

— Você está bem? — ele perguntou, preocupado, segurando o braço dela.

— Estou sim — ela respondeu, sem olha-lo nos olhos —, mas eu acho que estou quase sem energia.

— Eu vou pedir para alguns soldados te levarem para casa — ele disse, a ajudando a se levantar —, eu assumo tudo daqui.

Ela não protestou, precisava sair imediatamente de perto dele, antes que não aguentasse mais fingir e jogasse tudo na cara dele. Dois soldados a escoltaram até fora das barreiras do parlamento, e usando um portal portátil, ela seguiu para casa. A propriedade dos Tiberius, assim como as propriedades das famílias principais, ficavam na zona rural do estado, e cada família tinha familias menores, que cuidavam de suas propriedades, os tendo como lordes.

Muitos soldados estavam sendo velados no parlamento, e vários portais estavam se abrindo, evacuando as famílias, as levando de volta para casa, e o clima era de tensão e medo. Letti pediu que se acalmassem e os orientou a procurarem os médicos da propriedade para os primeiros socorros, e assim que ela recuperasse um pouco da sua magia, ela iria pessoalmente cuidar de um por um.

Indo pra casa, ela sentiu uma presença estranha, e mesmo estando fraca, ela foi até o estande de treinamento, se armou com uma besta, e seguiu para os fundos. Do outro lado, viu uma movimentação estranha. Dois soldados com roupas pretas e capacetes tecnológicos faziam uma espécie de guarda na porta e ela, instintivamente, se escondeu em um vão, embaixo da varanda, observando a movimentação pelo vão de alguma ripas de madeira.

— Muito bem, Lord Tiberius — ela ouviu uma voz feminina dizer, e após a porta se abrir ela viu uma figura esbelta que usava um longo e justo vestido, e sapatos de salto, que faziam um barulho alto ao andar —, você e seu filho fizeram a escolha certa. Ao que parece, nos temos o parlamento, e em breve os magos seguirão as nossas ordens.

— Tudo o que eu fiz, foi pelo meu filho, Beatrice — Phineas disse, saindo para a varanda em sua cadeira motorizada, logo depois da mulher —, então espero que Thayron cumpra com a palavra.

— Lorde Thayron sempre cumpre com sua palavra, Phineas — ela disse, se aproximando dele, e sentando em seu colo, passou a mão de leve em seu rosto — inclusive a necromancia dele pode consertar as suas pernas, basta você pedir.

— Vamos atentar só para o acordo que nós já temos, feiticeira — Letti viu seu pai dizer, enquanto a mulher se levantava —, eu jamais me sujaria com a magia impura de vocês.

— Como quiser, querido — ela respondeu, e após isso soltou uma gargalhada maldosa —, mas não pense que após tanta traição, poderá sair limpo. Fiquem atentos para os próximos passos. Lord Thayron em breve se revelará, e todas as raças irão se curvar à ele.

Se aproximando dos soldados, ela abriu um portal negro que os engoliu, desaparecendo em seguida.

Saindo de debaixo da varanda, Letti deu a volta e entrou pela porta da frente, se preparando para fingir também para o seu pai. Ela se sentia perdida e rodeada por traidores, mas não podia transparecer.

— Filha? — Phineas disse, se aproximando dela — Eu fiquei sabendo dos novos ataques ao parlamento. Fiquei preocupado com você e com seu irmão. Como ele está?

— Feliz como você, com a traição bem sucedida! — ela pensou em dizer, enquanto tomava água, mas após engolir o líquido e respirar fundo, disse apenas: — Ele está bem, pai, me mandou vir descansar e vai cuidar da coisas por lá.

— Nesse momento eu queria ter a força das minhas pernas, para ajudar vocês — ele disse, fingindo indignação.

— Tá tudo bem pai — ela disse, forçando o sorriso —, o senhor já fez muito por nós, agora é a nossa vez!

— Eu vou para o meu quarto recarregar — ela disse, dando um beijo na testa dele, e caminhou até o seu quarto, onde se deitou em sua cama e chorou, até que entrou em transe para recarregar.

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Cathe

Floresta do Pôr do Sol - Montanhas Catskill

Mundo humano

A jovem Sue Storm atacava implacavelmente com seus raios, e Cathe apenas se defendia. Os outros jovens olhavam a batalha sem saber como proceder. Entrar na batalha com Sue enlouquecida daquela forma, seria perigoso até para seus aliados.

Cathe se defendia bem com seus dispositivos, mas não podia deixar os raios tocarem nela, pois sem um calçado isolante, a eletricidade atravessaria o corpo dela até o solo, em um choque que poderia ser até fatal. Ao mesmo tempo, precisava encurtar a distância se quisesse contra-atacar, e ao que parecia, teria que reagir, mesmo sem saber porque estava sendo atacada.

— Sue, se acalme — a filha de Roger Spats gritou para a amiga —, e nos deixe te ajudar.

— Eu só vou descansar após vingar o meu pai e todos os magos que essa desgraçada matou — Sue gritou, parando de atacar, porém continuando com sua magia ativa.

— Nos deixe ajudar — Mandy pediu, arriscando dar um passo à frente.

Cathe viu vários espelhos surgirem ao seu redor, como se estivesse em uma casa de espelhos, atração comum em circos, onde espelhos são colocados até no teto. Ela estava agora em uma espécie de cúpula rodeada de espelhos, e reconheceu a habilidade de Mandy Erick, que conjurou aquela magia sem esboçar a reação, a pegando de surpresa.

— Consegue me colocar lá dentro, Mandy — ela pode escutar a voz de Vick Spats, e imediatamente a jovem surgiu em um dos espelhos, de frente para Cathe.

— Não dá para fugir dessa cúpula, Cathelyn — a jovem no espelho disse, agora diretamente para ela —, se entregue, e eu prometo te levar a julgamento, mantendo seus direitos de defesa.

— Não parece ser o que a filha de Lord Michaels, pretende — Cathe respondeu, não me atacando daquele jeito —, a propósito, o que aconteceu com ele? Tem a ver com a invasão do Parlamento?

— Então você não nega que sabe sobre a invasão do Parlamento? — Vick perguntou, ainda calma.

— É, eu ouvi falar sobre — Cathe disse, mas eu tenho assuntos a tratar antes de ir para lá.

— Ou você sabe, porque foi você quem organizou tudo, e forneceu as armas para os Vampiros, antes de fugir! — a menina disse, agora com um tom mais ríspido — Talvez as criaturas que você trouxe do mundo sombrio tenham informações para nos dar, antes de as matarmos por estarem no mundo humano.

— Eles também não têm nada a ver com isso! — Cathe disse, nervosa pela ameaça — Deixem eles em paz!

— Então você lutaria contra outros magos, para defender criaturas sombrias? — Vick respondeu — Foi por isso que nos traiu, como a sua mãe fez quinze anos atrás?

— Não ouse falar da minha mãe! — Cathe explodiu, assumindo a forma de batalha, onde seus cabelos ficam completamente brancos. Ela nunca havia mostrado essa transformação para nenhum dos magos, e nem Cody sabia que ela podia dominar magia natural.

Sacando duas adagas longas, ela projetou as chamas de sua magia em suas lâminas, e com as chamas incandescentes, ela cortou os espelhos como se fossem de papel. Seus olhos azuis faiscavam com suas chamas vermelhas.

— Eu não sei qual é a de vocês, crianças, mas se querem lutar, eu darei luta a vocês então! — ela disse, guardando as adagas.

Sue se preparou para mais uma rajada elétrica, mas foi pega de surpresa por Cathe, que partiu para um ataque direto, agora com uma velocidade bem maior. Antes que pudesse atingir a jovem com um potente soco, ela esbarrou em algo duro e resistente, forçando-a a se afastar novamente.

De longe, ela viu que Ray Erick, que até agora estava parado, tinha se colocado na frente do ataque, cobrindo seu corpo com rochas, para resistir ao ataque flamejante dela.

Vick Spats, que estava surpresa com a sua transformação, deu um passo à frente e, concentrando-se, fez surgir sombras densas ao seu redor, e em poucos segundos, as sombras cobriam todos os jovens, escondendo-os. Instantes depois, os ataques recomeçaram, ora descargas elétricas, ora estilhaços de vidro e ora pedras de diversos tamanhos, e ela se esquivava com maestria, até que sentiu como se seus movimentos estivesse ficando difíceis, até ficar completamente imóvel, e ver que as sombras ao seu redor estavam segurando seu corpo.

Das sombras a sua frente, ao invés de um ataque remoto, surgiu Ray, se aproximando lentamente e parando à sua frente.

— Eu geralmente não bato em mulheres, mas me pediram para te nocautear — ele disse, meio sem jeito, e desferiu um golpe com o punho.

Cathe apenas fechou os olhos esperando o golpe, mas ele não veio. Abrindo os olhos ela viu que Matt estava segurando o punho esquerdo de Ray, que golpeou também com o punho direito, tendo novamente o golpe impedido, agora pela outra mão de Matt.

O jovem mago cobriu a própria cabeça com rochas, e golpeou novamente, agora com uma cabeçada, porém, Matt havia se transformado, e uma espécie de coroa óssea brotou ao redor de sua testa. Sem poder cancelar o ataque, Ray acertou a testa de Matt, e pareceu levar a pior, pois cambaleou dois passos para trás, e foi atingido por um golpe que o arremessou até próximo das suas amigas.

O surgimento repentino de Matt, fez com que Vick perdesse a concentração, e as sombras se dissiparam. Ray Erick, o tanque delas havia sido derrubado, e eles não faziam ideia de quem ou o que era o rapaz que acabara de chegar.

— Você está bem? — Matt perguntou, amparando-a assim que ela se libertou das sombras. A voz dele estava mais grave e tinha mais de um tom diferente.

— Estou sim, obrigada! — ela respondeu, com um sorriso — E gostei da coroa de príncipe do inferno.

— Nem sei como isso veio parar aqui, mas até que é útil — ele respondeu, e os dois riram.

— O que você é? — Vick Spats perguntou, assustada — Um demônio?

— Talvez seja — ele respondeu dando de ombros —, mas eu odeio rótulos. Demônio, vampiros, lobisomem, mago ou humano, são só denominações, devíamos nos preocupar com o que está dentro, com a essência do indivíduo. Na verdade, são vocês que estão agindo como demônios aqui.

— Ele tem um ponto — Mandy disse, fazendo os outros a olharem — Nós chegamos como loucos atacando. A Cathelyn nem entendeu nada.

— Se ela está do lado das criaturas, ela está contra nós! — Sue disse, ativando novamente a sua magia —, eles não pensaram antes de nos atacar, então porque deveríamos pensar antes de atacá-los?

— Independente de que monstro esse cara for, ela não devia ter trazido criaturas para o mundo humano — Vicky disse ativando seu poder também —, e isso já faz dela uma criminosa!

— Por mim tá de boa — Ray disse. Em sua testa a marca do golpe que recebeu estava destacada, levando a mão até ela, ele conferiu que não estava sangrando —, com crime ou não, agora eu quero lutar contra esse cara.

Com exceção de Mandy Erick, os jovens partiram para o ataque, e Cathe e Matt atacaram também, mas antes de se chocarem, uma poderosa explosão aconteceu no centro do campo de batalha, fazendo eles se protegerem. Uma grande parte do local ficou congelada, e no centro da grande pista de gelo, todos puderam ver Cody, com uma armadura de gelo protegendo seu corpo. Uma aura azul clara e brilhante cobria seu corpo e faiscavam em seus olhos.

Sem dizer nada, Cody olhou na direção de Matt, e estendendo a mão lançou contra ele uma rajada congelante, que o arremessou contra uma árvore e o prendeu, em uma espécie de caixa de gelo, deixando apenas sua cabeça de fora.

— Você, irá aguardar até eu decidir o que farei contigo — Cody disse, com a postura firme, olhando para Matt.

— E vocês quatro — ele disse, olhando para os jovens — ficarão exatamente onde estão enquanto eu converso com a minha irmã.

— Você viu que ela se aliou ao inimigo, Cody — Sue Michaels gritou para ele —, ela é claramente culpada! Você não pode absolvê-la só por ser a sua irmã.

— E quem falou em absolvição? — ele respondeu, olhando-a com ar sério — Se depois do que ela me disser, eu achar que ela é culpada, eu mesmo a matarei!

— Cody, eu… — Cathe começou a dizer, mas ele fez um movimento com a mão, interrompendo-a.

— Escute primeiro, Cathe — ele disse, enquanto uma cúpula de gelo se formava ao redor deles, envolvendo-os e isolando-os dos demais —, Nós fomos alvo de uma conspiração bem tramada, e a sua irresponsabilidade serviu para eles como um argumento para te colocar como a autora dos ataques. Eu estou aliviado que você esteja bem, mas você foi sozinha ao mundo sombrio, e trouxe criaturas com você. O que você pensa que está fazendo?

— Você fala de irresponsabilidade, mas não consegue enxergar que o poder dos magos os corrompeu — ela respondeu —, e a nossa arrogância permitiu que essa conspiração venha sendo tramada a mais de quinze anos.

— Do que você está falando? — Cody perguntou.

— Estou falando da morte do papai — Cathe disse, se aproximando dele —, eles foram traídos, mas não pelas criaturas que foram encontrar. Foram traídos por magos, que estavam aliados a vampiros e demônios.

— Pense bem, Cody — ela continuou, vendo que ele estava processando aquilo — A paz com as criaturas que querem paz, não é vantajosa para os que querem a guerra. As criaturas que só querem viver em paz, aliadas aos magos seriam o fim dos senhores da guerra.

— Você está louca — ele disse, segurando-a pelos ombros e a chacoalhando, como se quisesse fazê-la acordar —, você viu que esses ideais foram a ruína da mamãe. Porque quer desenterrar isso agora.

— Porque ela estava certa! — Cathe gritou, fazendo-o parar — E ainda está. A mamãe está viva, Cody, e é a ela que eu vim procurar aqui nessa floresta.

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Barth

Nova sede da colônia da Resistência

Montanha Wittenberg - Nova York

Mundo Humano.

Ele abriu os olhos e ainda estava naquele quarto. Tinha perdido a noção dos dias, sempre acordava e tentava se levantar, mas as dores em sua costas ainda eram fortes demais e seus músculos lombares não tinham força para suportá-las. Cam sempre aparecia e lhe dava água, segundo o Doppelganger, a mãe o estava mantendo hidratado e nutrido enquanto dormia, usando magia de cura.

Desta vez, Cam não estava lá, e ao tentar se levantar para pegar água, ele não sentiu dor alguma. Estando de pé, ele percebeu que usava roupas leves e, mais uma vez, se perguntou quem estaria trocando suas roupas e lhe dando banho esse tempo todo. Provavelmente, quem estava fazendo isso era o seu enfermeiro Doppelganger, mas por algum motivo, ele queria pensar que era Aynne quem cuidava dele.

Não fazia ideia de porque estava pensando nela daquele jeito, mas a Sìthiche não saia de sua cabeça desde que a encontrou pela primeira vez. Talvez fosse o jeito selvagem e indomável dela que o encantou, ou talvez fosse simplesmente pelo fato de ela ser incrivelmente linda. Pensar nela, o fez querer procurá-la, e então decidiu sair do quarto e explorar.

Ao sair do quarto, viu que não seria uma tarefa fácil andar por ali. Ele não conhecia nada do local, parecia ser uma espécie de mina por suas paredes rochosas, mas a iluminação era moderna, o que lhe dizia que eles tinham um perito em tecnologia ali. Na vila dos lobisomens, eles não usavam tecnologias muito avançadas, as casas tinham no máximo luz elétrica, e em algumas nem isso, mas era por opção. De alguma forma preferiam viver de forma mais natural.

Não encontrou ninguém por onde passou, nem nos corredores e nem nas salas. O local parecia estar vazio, e ele temeu ter sido deixado ali, queria ter conhecido melhor aquelas criaturas. Pensou em voltar para o seu quarto, pegar as suas coisas e retomar a missão que seu mestre lhe deu, mas sentia que algo o impelia a continuar andando, e ele decidiu seguir.

Após passar por uma porta, ele se viu do lado de fora, e precisou proteger os olhos da luz natural do sol até se acostumar com ela. Aos poucos foi vendo onde estava, era um local elevado, talvez uma cadeia de montanhas rodeadas por árvores e outros tipos de vegetação.

— A vista é linda, não é? — uma voz familiar disse, assim que ele se aproximou da beira de uma rocha que parecia um deck em um penhasco.

Olhando na direção da voz, ele confirmou que era o seu mestre, o General Sigmund Nash, e sem pensar duas vezes, se apressou e o envolveu em um abraço.

— É ótimo vê-lo, Mestre — o jovem disse, enquanto abraçava o mais velho —, mas o que o traz aqui, e como me encontrou?

— Eu estou em projeção astral, Barth, e você também! — Nash disse, sem rodeios, pegando-o de surpresa — Foi bem difícil encontrar o seu espírito, mas depois do que aconteceu na vila, a nossa conexão se fortaleceu.

— Como assim, mestre? — Barth perguntou, confuso — Como eu estou em projeção astral? Eu senti sede e, por isso, me levantei. Abri a porta normalmente como sempre faço e sinto o calor do sol e o vento tocando a minha pele.

— Na verdade, você pensa que sente tudo isso — o Mestre disse, calmamente —, mas não passam de memórias, que aliada à sua visão te fazem pensar que está sentindo.

— Imagino que não esteja vendo todas essas criaturas trabalhando por aqui — Nash continuou —,  Isso acontece porque o seu espírito não está acostumado com o mundo espiritual.

— O senhor disse que aconteceu algo na vila? — Barth perguntou, após assimilar a situação.

— Sim — o mestre respondeu —, mas por hora eu preciso que se fortaleça. A maga que cuidou de você é poderosa. Ela conteve a magia negra, e graças a essa intervenção, eu pude extinguir os resquícios que ficaram enraizados em seu espírito. Ela permitiu que eu conversasse com você, mas pediu que eu viesse pessoalmente, então estou a caminho e iremos procurar o meu filho juntos.

— Mas e quanto a ordem do meu pai, para que o senhor o matasse? — Barth perguntou, intrigado com o que poderia ter mudado.

— Tudo será respondido no seu devido tempo, Barth — Nash disse, calmamente —, agora você precisa acordar. Aproveite esse tempo para dizer o que sente para a garota.

— Não sei do que o senhor está falando — o jovem desconversou, meio desconcertado.

— Até o seu espírito está pensando nela, jovem — o mais velho disse após dar uma gargalhada —, não minta para si mesmo!

Antes que pudesse protestar, o general desapareceu, e Barth sentiu seu espírito sendo puxado de volta para o seu corpo. Abrindo os olhos ele viu o sorriso de Aynne, que parecia feliz ao vê-lo despertar.

— Será que dessa vez você continuará acordado? — ela perguntou, segurando a mão dele —, disseram que você acordou várias vezes, mas adormeceu novamente do nada.

— Das outras vezes não tinha esse sorriso maravilhoso para me receber — ele disse, olhando-a nos olhos —, talvez eu precisasse de você cuidando de mim para eu acordar.

— E se sua for o Cam transformado em Aynne? — ela perguntou, fazendo uma expressão engraçada.

— Sem chance — ele respondeu rindo —, eu aprendi a reconhecer o cheiro dele e não é como o seu.

— É mesmo? — ela disse, cruzando os braços — E qual é o meu cheiro?

— Cheiro de flores do campo, e me remete à liberdade — ele respondeu sem pensar, ainda olhando pra ela —, poderia deitar na relva do campo e sentir o seu cheiro o dia todo.

— Precisamos encontrar um campo com relva então — ela disse, soltando os braços e segurando na mão dele, enquanto o olhava nos olhos.

— Shippo demais os dois! — Cam disse, entrando na sala e interrompendo o clima —, mas a Mãe quer vê-lo, e pediu que fosse até ela assim que acordasse e se sentisse bem.

— Pois eu acho que ainda não estou cem por cento — Barth disse, fingindo estar fraco.

— Parecia estar ótimo querendo rolar na relva com a fadinha — Cam disse, deixando os dois constrangidos —, e eu escutei a conversa sim, e acho os dois um casal fofíssimo, mas agora, a Mãe está aguardando.

— Você me acompanha até a relva, digo até a sala dela? — ele perguntou, sem parar de olhar pra ela.

— Nada disso! — Cam disse — A fadinha tem compromisso com as plantas lá na estufa. Eu levo você.

— O Cam está certo , Barth — ela disse, sorrindo —, nós teremos muito tempo para rolar, digo conversar.

— Vamos logo, antes que isso fique mais constrangedor — o doppelganger disse, puxando Barth pelo braço —, vocês estão parecendo uma sitcom mexicana dos anos setenta.

Os dois seguiram até a sala onde só Barth entrou. Lá dentro, a Mãe o aguardava junto com um muscaliet de aparência séria, e com Liam, todos estavam sentados e após apontarem para uma poltrona vazia, ele se sentou também.

— Que bom que está melhor Bartholomeu — a mãe disse, assim que ele se sentou —, a intervenção espiritual de seu mestre, mais cedo, foi essencial. 

— Ele me disse o mesmo da sua cura — Barth disse sorrindo. A Mãe era linda, e a sua presença imponente, parecia que toda magia existente flertava com ela e a rodeava —, aliás, eu devo a minha vida à vocês.

— Nem parece o moleque arrogante que eu surrei lá na floresta — Liam disse, sorrindo —, é bom ver você de pé para te bater novamente.

— Só reconheço a surra que eu levei da Lucy — o jovem respondeu, rindo também —, ela bate mais forte que você!

— Bartholomeu King — o muscaliet disse, calmamente, levantando-se e se aproximando dele —, Meu nome é Kaghan, e eu conheci outro Alfa, quase tão jovem como você, e que queria se aliar aos muscaliets contra Vampiros e demônios, mas que ao receber uma proposta do inimigo, nos traiu e a maioria da minha espécie morreu por isso. O que faz de você diferente dele, sendo que até o mesmo sobrenome vocês tem?

— Lendário mestre Kaghan — Barth surpreendeu à todos, ao se ajoelhar aos pés do muscaliet, em reverência —, meu mestre me ensinou sobre as histórias que aconteceram antes de eu nascer, e segundo ele, se os lobisomens tivessem seguido a honra dos muscaliets, ao invés da covardia do meu pai, nós poderíamos ter vencido a guerra.

— Por favor, se levante, jovem Alfa — o mestre disse —, você já mostrou a sua humildade, mas talvez seja hora de altivez. Os lobisomens já se curvaram demais, não acha?

— Também penso assim, mestre — o jovem disse, levantando-se —, mas porquê me chama de jovem Alfa?

— Já se olhou no espelho hoje, Barth? —  a Mãe perguntou, e fez surgir diante dele um espelho.

Se olhando no espelho, Barth viu que em seu olho esquerdo a sua íris estava de cor laranja, como a do seu pai, mas Lord King tinha as íris de dois olhos assim. Imediatamente, ele se deu conta do que havia acontecido.

— Como aconteceu? — ele perguntou, ainda se olhando no espelho — Quem o matou?

— Sua irmã, Eve! — Liam respondeu — As alcateias rebeldes me disseram que receberam refugiados da alcatéia de Lord King. Segundo os foragidos, Eve planejou um casamento, mas matou todos os machos, incluindo o noivo dela e o Alfa, durante o banquete de comemoração. Pelo que disseram, ela usou magia negra para forçar o seu pai a dar a ela a espada do alfa. Ela se intitula agora a primeira fêmea a ser a Suprema Alfa.

— Então foi ela quem enviou as licantras com as setas embebidas em magia negra para me matar — ele disse, abaixando a cabeça, pensativo.

— Tudo indica que sim — Liam respondeu, se aproximando dele e colocando as mãos em seus ombros —, mas felizmente elas falharam, e você agora é o Alfa Rebelde, e tem um grande exército esperando por você.

— Como posso ser alfa ainda, se ela recebeu a espada do Alfa das mãos do meu pai? — Barth perguntou, parecendo não estar muito animado com a situação.

— Ao usar magia negra para burlar uma lei natural, ela encontrou resistência — a mãe explicou —, e por você ainda estar vivo, a lei natural encontrou uma brecha para confrontar a magia negra, dividindo o legado hereditário de Lord King, enquanto os dois ou os seus descendentes viverem.

— Então para ter o poder completo, ela precisará me matar — Barth perguntou.

— E vice-versa — Mestre Kaghan disse —, agora você tem a chance de consertar os erros de seu pai, e devolver aos lobisomens a honra que perderam ao se curvar para os vampiros.

— É só você dar a ordem, Barth — Liam disse empolgado — Nossos números podem entrar lá e trazer a cabeça da Alfa para você.

— Não, meu amigo — Barth disse, com um sorriso —, Eu irei assumir o posto de Alfa dos rebeldes apenas, e se eu for voltar naquela vila, será para propor a ela uma aliança. Eu irei lutar com vocês pela liberdade das criaturas sombrias.

— Sendo assim, Bartholomeu — A mãe disse com um sorriso radiante —, seja bem vindo à Resistência!

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