28

Cathe e Matt

Aldeia dos Goblins, Mundo sombrio.

Cathe se preparava para partir, após o desfecho inesperado da batalha, onde Elshax se mostrou um aliado, a Aldeia dos Goblins poderia ficar onde está, e como estava tudo bem, ela poderia ir embora sem nenhum remorso. Matt que não tinha nada o que preparar, apenas aguardava. Ele iria com ela de volta ao mundo humano, para a cidade de Nova York, onde decidiriam se continuariam juntos, ou fariam suas buscas separados.

Ela precisava voltar para a sua casa e conversar com seu irmão sobre a conspiração, que após o ataque ao parlamento, tinha se confirmado, e eles precisavam encontrar o traidor, ou os traidores, enquanto Matt queria encontrar Lilly e fazer os culpados pelo massacre na lanchonete pagarem pelo que fizeram.

— Eu preciso que façam mais uma coisa  por mim — a anciã disse, entrando pela porta — Estou enviando Borgg, Grigg, Frigg e Gaaki para a colônia da Resistência no mundo humano, e preciso que ao menos os ajude a atravessar a barreira. Se não puderem acompanhá-los até lá eu irei entender, mas não conseguiriam atravessar a barreira sem os seus portais.

— Nós estamos indo para a cidade de Nova Iorque, e temos assuntos urgentes — Cathe disse —, tem certeza de que eles podem encontrar essa colônia sozinhos?

— Eles tem as coordenadas — a velha respondeu — e eu confio bastante na magia de camuflagem de Frigg e Grigg, e Borgg é mais forte do que pensamos. Gaaki tem habilidades com plantas medicinais. Pode acreditar, eles irão se sair bem.

— Tudo certo então — Cathe concordou —, eu os levarei até o outro lado.

— Eu vou ver se os garotos estão prontos — Matt disse, antes de sair da cabana, deixando as duas sozinhas.

— Eu admiro muito o seu controle, Cathe — a Anciã disse, se aproximando da jovem e tomando as mãos dela nas suas —, você não está sob o meu controle emocional, e ainda assim se recusa a fazer a pergunta que ecoa na sua mente.

— Ela foi embora! — Cathe disse, com a voz chorosa, olhando para a anciã com os olhos marejados — Nos abandonou quando mais precisávamos dela. Eu estive pensando nisso e não duvido que ela esteja por trás desse ataque ao parlamento, assim como esteve por trás do ataque que matou meu pai e os outros magos que a seguiram. Se ela não tivesse culpa, não teria fugido. Não teria ficado todo esse tempo sem dar notícias.

— Pois está na hora de te mostrar uma coisa — a Anciã disse, puxando-a pelo braço até perto da lareira, onde ela se sentou em uma poltrona.

Após acender a lenha, a mais velha lançou ervas aromáticas ao fogo, e uma fumaça agradavelmente perfumada tomou a sala. Sem dizerem nada, imagens começaram a se formar no fogo, como aconteceu quando ela viu as memórias de Matt.

Nas imagens, Cathe se viu, ainda criança, sentada no colo da mãe, enquanto chorava e ela lhe confortava, imediatamente se lembrou da mentira que lhe foi contada, sobre a sua mãe ter nascido maga como ela, e ter passado pelas mesmas situações que ela estava passando. A pequena Cathe foi dormir tranquilamente, mas Margareth se levantou com lágrimas nos olhos e seguiu até a sala, onde encontrou com seu pai. Ver os dois vivos lhe trouxe alegria, e imediatamente, ela percebeu que aquilo não eram as suas lembranças, mas sim as da sua mãe.

— Eu não suporto mais mentir para eles Kent — ela ouviu a voz de sua mãe, exatamente como se lembrava, enquanto na imagem, ela se sentava e enterrava o rosto nas mãos —, mas você sabe como as crianças podem ser cruéis na escola, e saberem que eles têm sangue humano seria um prato cheio para as brincadeiras de mal gosto. E isso pode, inclusive, atrapalhar Cody na sucessão da liderança. Eu não sei mais o que fazer.

— Querida — a voz de seu pai, grave e gentil como sempre foi, penetrou em seus ouvidos, e ela sorriu. Jamais pensou que ouviria aquela voz novamente. Nas imagens, ele se ajoelhou na frente de Margareth e segurou-lhe as mãos com carinho —, eu sempre te disse para contarmos a verdade para eles, porque eu me orgulho por você ser humana e por tudo o que passou para ficarmos juntos, então independente do que decidir, nós ficaremos juntos para superar.

— Obrigada, meu amor — Margareth respondeu, levantando a cabeça e olhando nos olhos do marido —, assim que eu voltar da missão diplomática, eu vou contar para eles.

— Quanto a isso, Meg — ele disse, ainda segurando as mãos dela —, eu irei com você, junto com uma comitiva de magos. Pensei bastante sobre a situação e é realmente uma oportunidade. Precisamos mostrar que podemos aprender a ser diplomáticos.

— Mas e o Conselho dos Élderes? — ela perguntou, levantando-se — eles votaram contra. Eu não quero prejudicar você, Kent, por isso eu decidi ir sozinha.

— Eu sou o Líder dos Magos — ele se levantou e a abraçou —, e confio em sua intuição, então nós iremos lá e vamos trazer essa aliança firmada para mudar o modo como os magos lidam com as criaturas.

O beijo entre eles aqueceu o coração de Cathe. Aquele amor era realmente puro e intenso como ela se lembrava, mas a imagem se mudou, para a comitiva dos magos em marcha até chegarem a um corredor montanhoso, semelhante a um cânion. Do outro lado, criaturas de diversas espécies surgiram e pararam a alguns metros deles.

Kenneth e Margareth se destacaram dos demais magos e caminharam até se encontrarem no centro do espaço entre os grupos com um Muscaliet que usava um kimono de samurai e um jovem vampiro de cabelos longos.

O Muscaliet se apresentou como Kaghan e o Vampiro como Helbram, além de explicar como viviam em harmonia mesmo sendo de espécies diferentes e que queriam apenas viver em paz sem serem caçados pelos magos só por serem criaturas sombrias. Buscavam apenas asilo no mundo humano, longe da guerra.

Para a surpresa de todos, Kenneth disse que sabia que sua esposa estava ajudando eles clandestinamente, desde que o pedido de Kaghan tinha sido recusado pelo conselho dos Élderes, e que queria tornar essa parceria oficial. Essa colônia que Margareth tinha criado, era a prova de que as criaturas sombrias podiam viver juntas e em harmonia, sem prejudicar os humanos.

Um mago foi atingido por uma flecha e os ânimos ficaram exaltados, e mesmo Kaghan dizendo que não foram eles, os outros magos avançaram e precisaram ser contidos por Kenneth, que viu que se tratava de uma emboscada, mas que não eram as criaturas de Kaghan, porém ordenou que todos ficassem alertas.

As criaturas se juntaram a eles, e se prepararam para lutar também.

Do alto das paredes rochosas apareceram vampiros armados com bestas e outras armas mágicas e começaram a atirar sem aviso prévio, matando vários magos e criaturas, até que Kenneth, em uma explosão de poder, lançou um ataque poderoso de fogo e gelo, que atingiu o arqueiros, os dizimando. Das duas extremidades do corredor do cânion onde estavam, surgiram mais vampiros que atacaram implacavelmente, e para a surpresa de Kenneth e de seus magos de confiança, alguns dos seus próprios soldados começaram a atacar os outros, revelando a traição.

A batalha foi cruel, e mesmo derrotando a maioria dos Vampiros e magos traidores, todos aliados foram mortos, ou gravemente feridos, inclusive o líder, Kenneth Storm, Clóvis e Miranda Erick, Irina Blake e Margareth.

Cathe viu quando sua mãe se aproximou com dificuldades de Irina Blake, a oráculo, e tentou usar magia para curá-la, mas Irina disse que era tarde demais, e que precisava lhe contar sua última visão. Então ela disse que todos os outros iriam morrer ali, que ela deveria ajudar as criaturas e que, quando o momento chegasse, a filha dela iria lutar para desmascarar essa traição e por outras coisas que a anciã já havia lhe falado.

Kenneth se aproximou das duas, amparado por Kaghan, enquanto o jovem vampiro Hellbram, lutava habilmente com os últimos inimigos. Com lágrimas nos olhos Margareth viu que o seu amado estava morrendo e que Clóvis e Miranda também não resistiriam. Em sua última ordem, Kenneth pediu que todos fizessem um ritual de transferência, e, sacrificando o que lhes restava de vida, transferiram sua essência mágica para Meg, que conseguiu curar parcialmente as próprias feridas.

Em um último sopro de vida, Kenneth pediu a Meg que partisse com as criaturas, pois quem os emboscou poderia tentar matá-la novamente e poderia matar seus filhos também. Como Irina previu, Cathe teria um protagonismo grande no futuro dos magos e de todas as criaturas, então ela não se opôs, e amparada por Kaghan e Hellbram, deixou o local e os corpos.

As imagens mudaram para Margareth e outras criaturas lutando para salvar Goblins de um ataque de Vampiros e Ogros, e após vencerem a batalha, ajudando os pequeninos a se unirem com Bugbears para protegerem uns aos outros. A jovem então viu sua mãe sentada exatamente na mesma poltrona que ela estava agora, chorando enquanto conversava com a anciã.

— Eu sinto muita falta dos meus filhos — Margareth dizia, entre soluços —, mas eu sei que seria perigoso voltar para casa. Quem tentou nos matar ainda está lá, e não faz nada contra eles, porque acha que venceu a batalha e eu estou morta.

— Como pode ver, querida — a anciã disse, se aproximando enquanto a jovem chorava e via as imagens se dissipando —, Margareth não teve escolha. Eu não vou controlar suas emoções agora, porque sei que você precisa colocar isso para fora de vez, mas precisava te mostrar isso tudo, para você não cometer nenhuma injustiça com ela. Acredite que se para você foi muito difícil viver sem ela, para ela também foi, e sendo que ela que teve que fazer a escolha, ele sofreu ainda mais.

— É para a colônia dela que os jovens estão indo? — Cathe perguntou, enxugando as lágrimas.

— É sim — a velha respondeu com um sorriso gentil —, e se me permite mais um conselho, eu diria para ir até ela. Esse reencontro já foi adiado demais.

— Eu prometo que irei pensar! — Cathe disse, abaixando-se e dando um forte abraço na Hobgoblin, que retribuiu — Obrigado por tudo, Anciã!

— Por nada, querida — a mais velha respondeu ainda envolvida pelo abraço —, você e o Matt têm um longo caminho pela frente, e merecem toda ajuda que puderem ter.

Eles saíram acompanhados da Anciã, de Krugg, e de Trogg e sua esposa até a barreira mágica da aldeia, e após se despedirem, Cathe abriu o portal, por onde todos passaram e após ela passar, o mesmo se fechou, deixando o Mundo sombrio para trás.

Do outro lado, saíram no estado de Nova Iorque, mas não na cidade. Cathe havia seguido as coordenadas que a anciã havia passado para os jovens e tinha saído em uma flotesta, rodeada por uma região montanhosa. Caminhando até o fim da floresta, eles avistaram um grande descampado, e ao fim dele um imponente paredão rochoso, com entradas como se fosse uma mina, ou uma moradia.

A princípio, eles estranharam o fato de não ter movimento algum. Uma colônia de um grupo chamado de Resistência, deveria ser mais bem vigiado, e se Cathe fosse uma deles, já teria os interceptado na floresta, para saber o que estavam fazendo ali.

— Parecem marcas de batalha — Grigg disse, pulando do ombro de Borgg ao ver uma marca enegrecida na grama próxima das árvores —, como tivessem queimado o chão com a luz do sol passando através de um monóculo.

— Se parece com nossa arma de pulso ultra-violeta que usamos contra vampiros — Cathe disse, examinando as marcas —, mas não temos um canhão assim. Quem fez essa marca tem uma tecnologia melhor que a dos magos.

— Se houve uma batalha, eles podem ter sido levados, ou mortos — Matt disse — isso explicaria porque não estão aqui, perguntando quem nós somos.

— Temos mais marcas dessas aqui, e pegadas bem marcadas, que podem sugerir que partiram para o ataque. — Cathe disse, e pegando um de seus dispositivos, o apontou sobre a pegada e o ativou. O aparelho emitiu luzes azius, que escanearam os sinais de aura sombria e começou a seguir pegadas com a mesma aura, subindo o leve morro que o descampado descrevia em direção ao paredão rochoso.

— O nosso vampiro parou aqui — ela continuou, narrando o que estava deduzindo das pegadas com ajuda do aparelho — e temos pelo menos dez pares de pegadas rodeando algo.

No centro do círculo de pegadas semelhantes, havia uma pegada bem maior e aparentemente bem mais pesada, um lobisomem na forma crínica talvez, ou um animal maior, como um urso, mas dado a natureza do ataque, a primeira opção parecia ser mais plausível.

— Isso na grama parece ser sangue — Gaaki disse, observando a substância já seca nas folhas.

— Vamos ver se é do grandão — a maga disse, pegando o dispositivo, que escaneou o sangue.

— Bingo! — ela comemorou olhando a imagem no monitor do dispositivo — aqui diz que esse sangue é de um Bargheist, e isso explica porque eles tem armas tão avançadas. Os Bargheist são criaturas extremamente inteligentes e criativas.

— Puta que pariu! — Matt exclamou, olhando as imagens — Você quer dizer que esse cachorrão bombado aí ainda é um gênio?

— Exatamente — Cathe respondeu rindo da expressão de espanto do jovem —, e são bem fortes também.

— As marcas de sangue vêm até aqui — Gaaki gritou de um lugar alguns metros à frente.

— Parece que ele assumiu a forma hominídea, veio mancando — Cathe disse, analisando as marcas enquanto chegava onde a jovem Bugbear estava —, e foi tratado aqui, o que me diz que eles venceram a batalha, vamos ver se estão lá dentro.

Apressando o passo, eles passaram pelo que parecia ser a entrada principal, chegando a um corredor iluminado com sensor de presença. Seguindo pelo corredor, saíram em uma espécie de salão com várias entradas em sua parede, mas não havia ninguém lá. Na parede principal uma frase escrita em letras grandes chamou a atenção de Carne:

"Tudo nessa vida tem dois lados, alguns são opostos e outros iguais, mas se procurar no lado certo das coisas e pessoas, as chances de encontrar o que procura são muito grandes."

— Ela esteve aqui! — Cathe disse com convicção, assim que leu as palavras naquela parede — Ela sempre usava essa frase.

— Eles deixaram o local recentemente — continuou ela, olhando objetos que foram deixados espalhados pelo espaço — talvez porque o esconderijo foi encontrado.

— Eu sinto muito, Cathe — Matt disse, se aproximando —, eu sei que você queria encontrá-la aqui.

— Está tudo bem — ela disse calmamente —, eles só foram para outro lugar. Talvez dê para encontrar. Vamos sair daqui, quem os atacou pode atacar novamente, e estaremos no lugar errado na hora errada, mas precisaremos acampar em algum lugar. Aqui no mundo humano, o sol vai se pôr em menos de uma hora.

— Podemos acender uma fogueira, assar uns marshmallows e contar histórias — Matt disse, em tom de brincadeira, olhando para ela com um sorriso, enquanto saíam da caverna e seguiam para a floresta.

— Eu não sei o que é isso que você falou aí — Frigg disse —, mas eu trouxe minhas bolinhas de queijo especiais.

— São as preferidas do Grigg — Borgg disse, fazendo a goblin olhar para o irmão com surpresa.

— Você deve estar confundindo, grandão — Grigg desconversou meio sem graça —, eu jamais diria isso!

— Como não? — o Bugbear disse como se estivesse visualizando a cena —, Borgg se lembra de Grigg dizendo "as bolinhas de queijo que a Frigg faz são as minhas preferidas", mas não deixe ela saber!

Eles caminharam pela floresta rindo das discussões entre os irmãos goblins, procurando um local para acamparem e após se afastarem da montanha, buscando uma trilha lateral para evitar a que parecia ser a principal, pararam próximos a uma clareira.

— Matt, aquela clareira ali fora da estrada parece ser boa para acampar — Cathe disse —, eu vou procurar alguma lenha e talvez um coelho para assarmos, e já volto.

Enquanto caminhava usando um dispositivo dimensional para estocar a lenha, Cathe ouviu um barulho de galho se quebrando na floresta, que já estava bem escura, agora que o sol já se escondia atrás das montanhas, e se escondendo, viu um coelho que procurava comida por ali. Instintivamente, ela pegou uma das bestas e atirou, acertando em cheio o animal.

Caminhando até o bicho, para coletar o espólio da caçada, ela sentiu uma presença, e sentiu que tudo ao seu redor escurecia, então se pôs em estado de alerta, até que várias flechas de poder vieram em sua direção, fazendo-a usar toda a sua elasticidade e destreza para desviar e se esconder atrás de uma árvore.

Instintivamente ela entrou em um portal, no instante em que um raio atingiu a árvore que era seu abrigo, partindo-a ao meio e fazendo-a pegar fogo.

Saindo do portal alguns metros à frente, ela pode ver quatro figuras iluminadas pelo fogo da árvore, e imediatamente as reconheceu, e mesmo sem saber porque a estavam atacando, sabia reconhecer as expressões de completa ira em seus olhares, e sabia que não iriam parar de atacá-la.

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Cody

Parlamento dos Magos - Mundo Humano.

Codi chegou ao parlamento, onde as honras aos mortos estavam preparadas. Nos rituais fúnebres dos magos, os mortos eram colocados em altares, e após músicas, poesias ou discursos de parentes e amigos, alguém escolhido pela família, atirava uma flecha mágica, que desfazia o corpo em faíscas brilhantes que subiam aos céus, retornando a essência mágica do ser para a natureza. Como haviam muitos mortos, a cerimônia seria no pátio principal do parlamento, onde a maior batalha ocorreu.

Os corpos estavam sobre altares individuais, espalhados pelo pátio. Familiares e amigos dos soldados passavam pelos altares de seus entes queridos para se despedirem. No centro dois altares se destacavam, e eram de Roger Spats e John Michaels. Suas esposas e filhos mais jovens estavam próximos às esquifes, mas Cody não viu as jovens Vick e Sue, filhas mais velhas deles e que os estavam representando no conselho.

Dos jovens que lutaram juntos na batalha do parlamento, apenas Letti Tiberius estava presente à cerimônia, e Cody achou aquilo estranho. Klaus passava de altar em altar fazendo seu teatro político e os Élderes estavam em altares erguidos, aguardando para autorizarem as flechas de libertação, como eram chamadas.

— Com licença, senhorita Tiberius — Cody disse, se aproximando da morena, que observava a cerimônia com olhos marejados —, eu não tive tempo de agradecer e dar os parabéns pelo seu trabalho com as barreiras.

— Muito obrigada, senhor líder — ela disse com um sorriso tímido, ainda olhando para o pátio —, eu fiz o que pude, mas queria ter feito mais.

— Me chame apenas de Cody, por favor — ele disse, fazendo-a olhar em seus olhos para ver o pesar que havia neles —, enquanto eu não encontrar a minha irmã e provar que ela não foi a responsável por isso, eu não sou mais o líder.

— Então me chame de Letti, como os meus amigos fazem — ela disse, sorrindo com mais confiança dessa vez —, e quanto à sua irmã, nós estudamos juntas e acredito que ela seja inocente também.

— Obrigado pelo apoio, Letti — ele deu um leve sorriso, envergonhado pela proximidade com a jovem que olhava fixamente em seus olhos —, é importante ver que nem todos me olham como o líder que foi traído pela irmã.

— A propósito, eu não vi os outros jovens que lutaram junto com você, e nem a senhorita Anna Blake — ele comentou, desviando o olhar para o pátio.

— Eu também estranhei isso — ela disse fazendo o mesmo —, mas eu sei que eles são bem unidos. Por ser alguns anos mais velha que eles, eu acompanhei alguns dos treinamentos deles. Com exceção da Anna, que é mais reservada, eles fazem tudo juntos. Talvez estejam confortando-se separadamente.

— É, pode ser — ele disse, observando Klaus abraçando a viúva Spats. — Me diz uma coisa, Letti, o que você acha do meu tio?

— Um idiota bajulador e oportunista — ela respondeu sem sequer pensar —, que venderia a própria família por poder.

— Você não tem medo de falar do tio do Líder assim? — ele perguntou rindo da resposta sincera dela.

— Hoje você não é o Líder, Cody — ela respondeu, olhando para ele com um olhar desafiador.

— Tem razão — ele respondeu, se divertindo —, inclusive, eu concordo com você. É de embrulhar o estômago essa atuação dele.

— Eu adorei a nossa conversa, Letti — Cody continuou, após uma breve pausa —, sinto como se fosse a primeira conversa sincera que tive na vida, com alguém que não fosse a minha irmã.

— Pois podemos fazer isso mais vezes, oras — Letti disse, com um sorriso —, é só me procurar quando quiser conversar.

— Pois será a primeira coisa que eu farei quando voltar com a Cathe e provar a inocência dela — ele disse, beijando-lhe as costas da mão, cordialmente —, peço licença para me retirar, Letti, está na hora de partir nessa missão.

— Torço para que volte logo e com êxito, Cody — ela respondeu, levemente corada pelo gesto do rapaz —, estarei aqui quando voltar.

No momento em que Mestre Kaius fazia o discurso final antes de ordenar as flechas de libertação, ele se dirigiu para a saída dos fundos do parlamento. Não queria que o vissem sair, e o momento de desfecho do funeral era perfeito para isso. Passando por um dos corredores, viu Anna Blake, sozinha em um dos bancos da praça do líder e, instintivamente, se aproximou.

— Aconteceu algo, senhorita Blake? — ele perguntou, se aproximando.

— Me perdoa — ela disse, chorosa, enterrando o rosto nas mãos —, eu não devia ter contado a eles, era para ter falado com o senhor primeiro. Mas eles estavam perto de mim quando tive a visão, e me pressionaram.

— Está tudo bem — Cody disse, ajoelhando-se e pegando as mãos dela, para que ela o olhasse —, pode me contar agora.

— Eu vi a Cathelyn voltando do mundo Sombrio por um Portal — Anna respondeu, olhando para ele com os olhos marejados —, ela estava acompanhada de criaturas sombrias na Floresta do por do Sol, perto das montanhas Catskill.

— Quem te pressionou, e porquê? — ele perguntou, preocupado.

— A Sue Michaels — ela respondeu —, ela falou sobre vingar o pai, e a Vick Spats e os gêmeos Erick foram com ela. Me perdoe, senhor, eu não devia ter falado nada para eles!

— Não se preocupe, pequena — ele disse, a abraçando carinhosamente —, eu irei atrás deles e vou trazê-los de volta, todos eles!

Após alguns segundos, ele desfez o abraço e, sem pensar mais, saiu do alcance das barreiras do parlamento, e usando um dispositivo, abriu um portal que se fechou assim que ele saltou para dentro.

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