21
Krugg
Aldeia dos Goblins - Mundo sombrio
Horas antes
- Com todo respeito, anciã - Krugg, disse, aproximando-se junto com seu fiel companheiro bugbear, enquanto ela seguia na direção da cabana onde a jovem estava -, mas, como chefes da segurança, Trogg e eu achamos perigoso demais manter esses estranhos aqui. Eles podem chamar a atenção de demônios e vampiros. Os Ogros que atacaram Borgg e Grigg, provavelmente estavam atrás dos dois!
- Eu sei que em seu coração existem boas intenções, Krugg - a anciã disse, sem olhar para ele, ou parar de andar -, e sei o quanto se preocupa com o nosso povo, mas às vezes devemos olhar para o todo antes de olhar para a parte. A importância desses dois para a história, é muito maior do que nós podemos imaginar, e eu sei que você tomará a decisão que precisa ser tomada para que as coisas aconteçam como devem acontecer.
As palavras da anciã ecoaram na mente do pequeno Goblin, que ao lado do seu companheiro bugbear, Krugg, havia lutado inúmeras batalhas para proteger a aldeia. Eles tinham perdido muitos companheiros nas batalhas, e agora, depois de tantos anos de paz, onde eles construíram suas famílias, esses estranhos aparecem para trazer caos.
Qual seria a decisão que ele tomaria? Do que a anciã estava falando quando lhe disse aquelas palavras?
Krugg sabia que não poderia ficar ali parado esperando as coisas acontecerem, precisava fazer algo, e o primeiro passo, era desarmar a caçadora, ele sabia que os caçadores precisavam dos objetos para canalizar a magia.
- Trogg, nós precisamos agir! - ele disse, pulando no ombro do bugbear - Sua filha Gaaki está cuidando dos forasteiros, e precisamos que ela pegue os instrumentos da caçadora enquanto ela está desacordada.
- Considere feito, Krugg - o grandalhão respondeu, começando a caminhar -, mas o que faremos depois disso?
- Precisamos sair da aldeia e sondar porquê os Ogros querem os dois - Krugg respondeu -, isso pode fazer a anciã mudar de ideia.
Após conversar com Gaaki, os dois seguiram para fora da proteção da aldeia. Krugg há muito tempo não usava seu cajado para magia, e era bem limitado nesse quesito, mas era habilidoso com armas e também um ótimo restreador. Sua parceria perfeita com Trogg, havia rendido a eles o posto de chefes da segurança, pois eram implacáveis em batalha. Se o inimigo estivesse à distância, as flechas de Krugg os alcançava, e caso se aproximassem, o machado, a maça, ou até os punhos de Trogg davam conta do recado.
Procurando pela floresta, eles encontraram o local onde aconteceu a batalha contra os Ogros. Nos destroços da parede destruída de uma pequena cabana próxima do paredão rochoso, eles encontraram sangue de Ogro, dando a entender que um deles havia sido arremessado ali, provavelmente por Borgg.
- Aquele garoto será um grande guerreiro - Krugg disse para Trogg, enquanto vasculhavam o local -, com o treinamento certo, talvez fique até mais forte que você, amigo.
- Borgg é de jovem - Trogg respondeu, caminhando pelo terreno procurando mais vestígios - ainda não é hora de pensar em lutas.
- Olhe só isso, Krugg - Torgg disse, ao ver uma porção de sangue, seguida de algumas gotas que faziam uma espécie de trilha -, Se sem treinamento, Borgg já causa esse estrago nos Ogros, então será um grande pesadelo para eles no futuro.
- É por esse futuro que temos que agir e tirar os forasteiros de lá, amigo - Krugg disse, enquanto observava a trilha de sangue - Vamos ver para onde esse sangue nos leva. Ogros não rastreiam poderes, então deve ter demônios junto com eles. Talvez seja alguma base demoníaca, e se for, é questão de tempo até encontrarem a aldeia.
- O que Krugg pretende fazer se for? - o Bugbear perguntou, após começarem a seguir o rastro de sangue do Ogro.
- Eu não sei Trogg - o pequeno repondeu -, eu realmente não sei.
Eles seguiram os rastros de sangue, que estavam em pedras, plantas e troncos pelo caminho, até que chegaram à uma espécie de posto avançado, com grandes ogros de guarda nos muros que cercavam o assentamento.
- Você fica aqui e se esconde, Trogg - Krugg disse, enquanto calculava a melhor maneira de entrar -, vou usar minha magia de camuflagem para entrar. Caso eu demore, volte para a aldeia e avise a anciã sobre o perigo de manter os forasteiros lá.
- Tome cuidado, amigo - Trogg disse, estendendo o grande punho para que o pequeno punho do goblin o tocasse em cumprimento.
Sem dizer mais nada, Krugg se esgueirou pelas moitas, beneficiado pelo seu tamanho e se posicionou próximo dos portões. O descampado entre a mata e os portões era grande e não oferecia nenhum esconderijo, o que fez com que ele parasse por um tempo para recalcular a estratégia.
Um Ogro mais jovem, caminhava em direção aos portões, pastoreando alguns patos selvagens, e passaria próximo à moita onde ele se escondia, então, sem prensar duas vezes, Krugg materializou seu cajado e conjurou a magia de camuflagem, assumindo aos olhos dos outros, a aparência de um pato. Correndo, ele se juntou ao bando das aves e, deixando-se levar, passou pelos portões sem deixar suspeitas.
Dentro do assentamento, ele viu algumas tendas e, passando por um grande pátio, viu um Ogro acorrentado à um tronco que estava fincado no centro, bem em frente à maior tenda do local. Era o ogro que estava ferido, e provavelmente, estava sendo punido por falhar e por fugir da batalha.
Três figuras saíram das tendas, e Krugg os reconheceu como sendo três dos sete filhos de Lacroth, o rei demônio que decidiu adormecer após vencer a guerra junto com os vampiros. Lacroth tinha dominado a sua própria raça antes de propor a aliança aos vampiros, e tomado os filhos de seus rivais demônios para serem seus filhos e generais. Os Sete filhos de Lacroth, estavam espalhados pelo mundo sombrio, administrando tudo o que ele havia conquistado, mas era sabido que eles tinham seus próprios planos também.
Ali estavam Igrete, a bela princesa das sombras, cuja aparência frágil escondia suas habilidades de luta e sua ferocidade; Haygor, que tinha a parte de cima do corpo humanoide e a de baixo, de um cavalo, e era um arqueiro tão habilidoso, que diziam que suas flechas demoníaca dificilmente erravam o alvo; e o grande Elshax, que parecia ser ainda maior do que as histórias falavam. Ele tinha a cabeça de um touro com grandes chifres e grandes presas de javali, despontando de sua boca. Para completar a sua aparência imponente, Elshax carregava dois grandes machados de batalha em suportes em suas costas.
- Agora pode falar, desertor - Igrete disse, aproximando-se do ogro acorrentado -, o que o fez fugir tão covardemente?
- Tinha uma caçadora lá - o Ogro brespondeu com sua voz gutural embargada de dor -, e nós fomos pegos de surpresa. Tinha um jovem com ela, mas não deu pra saber que criatura ele era. Ele estava amarrado em uma cama, por correntes mágicas.
- A ordem era simples, Urek - Haygor gritou -, nós demos as coordenadas e vocês só teriam que trazer para nós o ser que estava emanando o poder que detectamos, mas vocês deixaram a caçadora levar ele.
- Me deixem ir novamente, com mais ogros - Urek implorou -, a princesa disse que ele não atravessou a barreira, e se ele está no mundo sombrio, nós podemos encontrá-lo.
- Não há segunda chance para covardes! - Elshax disse, enquanto levava as mãos aos cabos dos machados e em um movimento rápido, golpeou com ambos, cortando o ar em forma de xis, e junto com o ar, partiu também, em vários pedaços, o corpo de Urek e o tronco onde ele estava preso - Escutem aqui seus Ogros inúteis, nós iremos vasculhar cada pedaço dessa floresta. A caçadora precisa recarregar, então ela e o híbrido não podem ter ido muito longe. Vamos caçar e matar toda criatura que estiver dando abrigo à eles, mas o híbrido tem que estar vivo.
Então era isso que aquele jovem era - um híbrido, mas porque ele seria importante para os demônios? Independente da resposta, todos na sua aldeia corriam perigo, e era responsabilidade dele protegê-los, então deveria agir rápido.
- Esperem um pouco - Krugg se manifestou, pegando todos de surpresa, tendo todas as armas voltadas na sua direção -, eu sei onde a caçadora e o híbrido estão, e posso levá-los até eles.
- Abaixem as armas rapazes - a princesa das sombras disse, caminhando até perto dele -, vamos ouvir o que o pequenino têm a dizer.
- Porquê você se arrisca vindo sozinho até uma aldeia Orc, pequenino? - ela perguntou, abaixando-se como se conversasse com uma criança.
- Meu nome é Krugg, e sou chefe da segurança da minha aldeia - o Goblin disse, controlando o pavor que sentia estando indefeso no meio daqueles monstros -, os dois forasteiros foram levados para lá e estão sob os cuidados do meu povo, mas eu posso entregá-los à vocês.
- E o que você ganharia com isso? - Haygor perguntou.
- A única coisa que eu peço em troca é que não machuquem o meu povo - Krugg respondeu -, eles foram levados para lá, mas não são hóspedes, apenas fomos solidários.
- Mas podemos simplesmente matar você e invadir a aldeia - Haygor disse, pegando seu arco e apontando sua flecha para ele -, porque deveríamos barganhar com um covarde como você?
- Você está errado irmão! - Elshax tomou a palavra - Se tem algo que esse Goblin não é, é covarde. Ele está sozinho e desarmado no meio de Ogros famintos, além de falar conosco com a cabeça erguida. Talvez ele seja tolo, mas não covarde.
- Podem me chamar do que quiserem, e podem até me matar - Krugg disse -, mas irão demorar dias para encontrar a minha aldeia que é encobrida por magia. Nesse tempo, a caçadora irá recarregar e fugir por um portal, junto com seu precioso híbrido. Ou podem fazer esse acordo comigo, e eu levo vocês até a aldeia e entrego os dois e depois eu e o meu povo sumimos outra vez.
- Eu gosto dele! - Elshax disse, após soltar uma gargalhada sinistra e empolgada.
- Negócio fechado, Krugg - Igrete disse, lançando para ele um sorriso - Vamos preparar a escolta, e você vai conosco.
Do lado de fora do assentamento, de um lugar elevado, Trogg viu quando seu companheiro se revelou aos demônios e, imediatamente, entendeu o que ele estava fazendo. Ele não podia ficar parado ali, sabia que não podia confiar nos Ogros e muito menos nos demônios. Entendia os motivos de Krugg ter feito aquilo, mas precisava voltar para a aldeia e avisar a anciã. Concordava que os forasteiros eram perigosos, mas levar aqueles monstros até a aldeia, era mais.
Se apressando pela floresta, o Bugbear chegou até o pântano, mas sem Krugg, não poderia entrar, afinal, os bugbears não podiam usar magia. Depois de um tempo pensando, ele se lembrou da capacidade telepática da anciã, e fechando os olhos, começou a enviar as mensagens por pensamento, torcendo para que chegassem até a chefe da aldeia.
- Vocês fazem ideia do que fizeram? - a voz da anciã surgiu, mas não em sua mente, e abrindo os olhos, ele a viu ali já sua frente. Trogg sabia que era uma projeção, mas estava grato por ela ter ouvido seus pensamentos - Agora eles virão para cá, e todos vamos morrer.
- Não se os entregarmos aos demônios! - o Bugbear disse, ajoelhando-se. Nem ele próprio acreditava naquilo, mas queria pensar que a atitude de seu companheiro havia sido correta.
- Krugg foi tolo, e você o acompanha - a anciã disse, ainda calmamente -, a lealdade de vocês é louvável, mas dois tolos não fazem um esperto, e nem dois erros fazem um acerto. Há muito tempo eu venho cuidando de vocês, mas sabia que chegaria o dia em que a minha voz não seria ouvida, e que esse seria o nosso fim.
- Agora eu vejo que erramos, anciã - Trogg disse em tom choroso e levou a cabeça até o chão -, mas peço que deixe-me entrar, para ao menos tentar lutar.
- Entre, filho - ela disse, e um caminho surgiu sob o pântano, mostrando a aldeia -, abrace a sua família e prepare os guerreiros, mas abandone as esperanças. Hoje pode ser o dia de nossa morte, mas nós iremos proteger os dois, pois a missão deles é muito maior que a nossa existência. Se você entende isso agora, então aprendeu a lição.
- Sim, senhora! - Trogg se apressou e seguiu até a sua casa, sua esposa o recebeu e, de cara, já viu em sua expressão que a situação não era boa. Sua filha, Gaaki, não estava, e possivelmente estaria com sua amiga, Frigg, por aí.
Sem ter tempo para procurá-la, ele apenas desejou que ela levasse as armas até a caçadora e partiu até os soldados que sob comando da anciã, já o esperavam no pátio, armados e preparados, mas antes que pudesse dizer-lhes qualquer coisa, explosões ecoaram nos céus da aldeia, vindas da entrada. A barreira os protegia, mas não duraria muito tempo sob ataque de demônios, e quando as explosões cessaram, ele entendeu que tinham conseguido passar.
- Abaixem as armas, amigos - Krugg disse, aparecendo do alto de um monte, seguido pelos demônios filhos de Lacroth, Haygor e Igrete, que lideravam um grupo de Ogros -, eles só querem os forasteiros. Trogg, lidere um grupo e os traga para cá.
- Não farei isso, parceiro - Trogg disse, com os olhos tristes, mas convictos -, pela primeira vez, eu não farei o que você pede.
- Não faça isso, Trogg - Krugg disse, com o semblante preocupado. Agora, praticamente toda a aldeia estava ali, observando aquela cena -, olhe ao redor, nós somos responsáveis pela segurança deles. Pense em sua filha, irmão, não faça nada estúpido.
- Eu estou pensando nela, Krugg - o Bugbear disse, pegando a sua maça de batalha -, e no mundo onde eu quero que ela viva.
- Espere - Krugg gritou, quando Haygor sacou seu arco e armou o ataque, mas não conseguiu evitar que a flecha fosse lançada. O alvo não era Trogg, e sim um ponto logo atrás dele.
Trogg olhou para trás, e o que viu o fez largar a sua arma, que caiu no chão pesadamente - A flecha tinha atingido em cheio a barriga de sua filha Gaaki, que observava a conversa. Sem pensar em nada, ele correu de encontro a ela, que estava caída com a cabeça recostada no colo da mãe, com lágrimas nos olhos.
- Me perdoa, pai - ela disse com dificuldades, como se o ferimento não estivesse deixando ela respirar - eu entreguei as armas para Frigg e pedi que ela levasse para a caçadora. Eu não o obedeci, mas parecia o certo a se fazer.
- Está tudo bem, querida - ele disse, com lágrimas nos olhos -, estou orgulhoso de você, por ter feito a coisa certa, mesmo que eu tenha lhe mandado fazer errado. Você provou que é capaz de tomar decisões importantes sozinha. Agora apenas descanse, e saiba que eu amo vocês duas. Sou muito feliz por ter essa família.
- A próxima flecha será para matar! - Haygor disse - Mais alguém quer ser herói?
- Uma atitude corajosa, para uma vida honrosa - Trogg gritou, Levantando-se e, caminhando de volta para perto dos soldados, pegou novamente a sua maça de batalha -, vida ou morte na batalha...
- Uma rima que nunca falha! - Krugg completou, e retirando uma faca de uma bainha escondida em sua bota, saltou e, em um movimento que pegou os ogros de surpresa, fez um corte profundo no pescoço de dois deles, fazendo-os caírem agonizando, enquanto ele corria para os seus amigos.
Os bugbears partiram para o ataque, enquanto os goblins atiravam com suas flechas. Alguns ogros foram abatidos no processo, e outros atacaram, enquanto Haygor e Igrete recuavam. Na base do morro e entrada da aldeia, mais ogros aguardavam. Os demônios não esperavam pela batalha, então precisaram se reagrupar.
Goblins e bugbears tinham vencido a primeira batalha, mas sabiam que na próxima não teriam o fator surpresa, e com certeza iriam ser massacrados.
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