20

Matt

Aldeia dos Goblins - Mundo sombrio


Matt abriu os olhos e viu que a banheira onde estava, não tinha água, mas sim um sangue viscoso e espesso. Com um salto ele se levantou e saiu da banheira. Sentia o ar carregado e o cheiro de fumaça vindo de fora. Mesmo sem se vestir, ele foi até uma das janelas, e ao abri-la, avistou a aldeia dos goblins completamente destruída, com corpos de goblins e bugbears estraçalhados e espalhados pelo caminho.

Em um piscar de olhos, estava na praça central de sua cidade no mundo humano, onde ele desenhava distraído, até ver que havia desenhado uma cena onde pessoas eram empaladas em estacas, no meio da praça, e ao olhar para o varal de exposição, viu que seus desenhos só retratavam mortes brutais, então, levantando os olhos viu todo o caos que servia de modelo para os seus desenhos - pessoas eram torturadas, esfoladas e desmembradas por criaturas infernais e aquelas barbáries aconteciam por todo horizonte, de onde ele estava, até onde os seus olhos podiam ver.

Agora com um vislumbre de todo local, viu que o lugar onde estava sentado, era uma espécie de trono e que ele reinava sobre todas aquelas criaturas horrendas e cruéis, que aparentemente faziam aquelas maldades como oferendas a ele. Ele era o soberano daquele inferno, e uma parte dele gostava daquilo.

- Olhem só, o artista urbano - A voz de Snake ecoou no vazio, e olhando aos pés de seu trono, ele viu o líder da gangue , cercado por seus comparsas. Os corpos de todos eles estavam costurados como se fossem um quebra-cabeças mal montado e grotesco -, quem diria que você seria pior do que nós!

As gargalhadas deles eram altas e estridentes, e o incomodaram a ponto dele tapar os ouvidos e fechar os olhos, até que elas foram sumindo. Ao abri-los novamente, estava na lanchonete entregando os desenhos para Lilly, que ao olhar para as lâminas de papel, ficou aterrorizada.

- O que você fez Matt? - ela disse, soltando os no balcão e se afastando - porque você os matou?

Olhando para as ilustrações, ele se viu, primeiro lançando Hugh contra as mesas e cadeiras, e depois mordendo o pescoço de Karen, antes de arremessá-la na mesma direção.

- Não, eu não os matei - ele disse, com os olhos marejados olhando para as mãos que estavam sujas de sangue -, eu jamais faria isso!

- Mas e quanto a nós! - as vozes dos jovens da gangue gritaram, e olhando ao redor, se viu naquele beco, agora em terceira pessoa, estraçalhando um por um, sem dar-lhes chance alguma de defesa.

Terminando o massacre, a monstruosidade, que era uma versão demoníaca de si mesmo, se aproximou. Ainda era o reflexo que ele via no espelho, mas tinha a pele acinzentada e olhos profundamente negros.

- Você é um monstro, Matt - a sua versão macabra disse, olhando dentro de seus olhos -, e o quanto antes aceitar isso, será melhor para todos que te rodeiam.

- Para que suprimir a sua verdadeira natureza? - uma voz mais grave e gutural disse, vindo de uma outra figura monstruosa que ele sabia que era outra versão de si mesmo. Essa era um grande lobo que tinha um corpo semelhante ao de um homem, só que coberto de pelos grossos - Nós somos você, e somos muito mais poderosos que esse saco de ossos que é a sua forma humana.

- Nós somos um combo perfeito, Matt - mais uma voz e mais uma criatura apareceu, dessa vez era basicamente ele, usando um sobretudo, com o cabelo mais longo e pele mais pálida. Ao olhar em sua direção, essa outra versão de si mostrou grandes caninos e íris profundamente vermelhas - demônio, lobisomem e vampiro, iremos comandar todas as criaturas, e matar quem ficar no nosso caminho.

- Então eu não sou apenas um monstro - ele disse para as suas versões -, sou uma aberração que sequer tem uma raça específica?

- Nós somos a perfeição da natureza, Matt - as três versões disseram ao mesmo tempo, enquanto se uniam e formavam um só corpo. Era um espelho e seu reflexo estava lá, nu, exatamente como estava ao sair da banheira -, nos chamarão de muitas coisas, por serem seres insignificantes e fracos, mas quem não se curvar, irá morrer.

- E o que devemos fazer então? - ele perguntou para seu reflexo - apenas começar a tomar o poder na base da força, matando quem se opor?

- Toda conquista requer sacrifícios, Matt - o reflexo respondeu -, mas no fim você terá tudo.

- Pois eu tenho uma ideia melhor - Matt disse - se monstros como eu existem, e eu sou tão poderoso, posso também usar meu poder para combatê-los.

- Porque lutar pelos fracos? - seu reflexo gritou, agora perdendo a paciência com sua insistência - Humanos são seres fracos e mesquinhos!

- Não os humanos que me acolheram sem sequer perguntar quem eu era - ele disse por fim, lembrando-se de Karen e Hugh - eles me encontraram indefeso, e me deram um lar, proteção, carinho e amor. Agora estão mortos por minha causa e ser o monstro que vocês dizem que eu sou, não seria uma boa maneira de honrá-los. Eu não quero ser como vocês, eu quero ser como eles!

- Muito bem Matt - A voz da anciã surgiu agora na sua mente, enquanto o espelho sumia, junto com o seu reflexo, e ele se viu novamente na banheira morna. Levantando-se, ele saiu da banheira e foi até a janela, onde viu que estava tudo normal na aldeia. Na sua cabeça, todas as memórias que tinha bloqueado, estavam vivas, além de saber de algumas coisas a mais sobre seu passado e sobre o que ele realmente era. Estava tudo claro e ele queria chorar por seus pais adotivos, mas alguma força controlava suas emoções.

- Peço desculpas pelo modo como lhe mostrei suas memórias bloqueadas, meu jovem - a voz da anciã, agora vinda de dentro da sala onde estava, o fez se virar por impulso, para ver que a criatura idosa estava ali realmente e que junto com ela, estava a jovem que chamavam de caçadora -, mas eu precisava conhecer melhor a sua essência.

Por um instante ele apenas ficou parado, olhando a jovem, que agora tinha cabelos castanhos, sendo que, quando a viu das outras vezes, eles estavam brancos, e que estava ainda mais linda do que antes. A pele branca do rosto dela estava levemente corada, como se ela estivesse envergonhada, e o movimento dos olhos dela o fez se lembrar que estava completamente nu. Em um movimento rápido, ele puxou o pano da cortina para se cobrir, mas como não mediu a força, arrancou junto toda a estrutura.

- Peço desculpas por estar sem roupas - ele disse, agora coberto pela cortina -, mas eu estava tomando banho, e não esperava vocês chegarem.

- Ah não se preocupe comigo, meu jovem - a velha disse, fazendo a jovem olhar na direção dela -, eu não estou aqui de verdade, essa é apenas uma projeção. Inclusive, eu vou deixar vocês mais à vontade. Vocês precisam conversar.

- Como assim "projeção"? - a jovem perguntou, mas antes de responder, a imagem da idosa de desfez, deixando-a sozinha com o rapaz.

- Pelo visto, você não é uma projeção, né? - Matt perguntou, ainda enrolado na cortina - O que ela quis dizer com "precisam conversar"?

- Eu também não sei - ela respondeu, olhando na direção dele com um olhar triste -, mas eu vi tudo o que aconteceu e sinto muito por tê-lo prendido naquela cabana e por ter pensado em te matar.

- Na verdade, você me salvou - ele respondeu. Ele sentiu vontade de ir até ela e lhe dar um abraço, mas lembrou-se que estava nu atrás da cortina, e apenas sorriu -, então obrigado por isso, e, se puder se virar um pouco, eu gostaria de me vestir antes de conversarmos o que precisamos conversar.

- Ah, sim, claro! - ela disse, agora sorrindo, ainda envergonhada e se virou.

Saindo de trás da cortina, ele se vestiu e se aproximou dela. De cara, já sentiu o perfume de seus cabelos, e agora, com os sentidos mais apurados, aquele aroma quase o enfeitiçou. Nas suas lembranças da primeira vez que a viu, já havia se encantado por ela, e mesmo não tendo a mesma presença imponente agora, ela ainda era incrível. Não era momento para se apaixonar, mas se sentia irresistivelmente atraído por ela.

- Pronto, pode olhar! - ele disse, fazendo-a se assustar com a proximidade.

De perto ele parecia ainda mais alto e forte. Apenas alguns centímetros os separava e por um momento eles sequer respiraram, olhando-se nos olhos.

- Vamos dar uma volta pela aldeia, enquanto conversamos - ela disse, recuperando o fôlego.

- Vamos sim - ele respondeu, abrindo a porta e acenando para que ela saísse.

Andaram pela aldeia por um instante, apenas observando os pequenos goblins e bugbears, que brincavam despreocupados, enquanto os mais velhos faziam pequenas tarefas do cotidiano. Parecia uma aldeia comum, e como nas comunidades humanas, aquelas criaturas queriam apenas seguir com suas vidas e não estavam fazendo mal para ninguém.

- Eu ainda não sei o seu nome, e nem você o meu, né? - o jovem quebrou o silêncio, sem parar de andar - Meu nome é Matt.

- Meu nome é Cathe - ela respondeu, parando e olhando para ele -, a anciã me contou a sua história. Eu sinto muito pelos seus pais adotivos, e pela sua mãe biológica.

- Então meu pai é um lobisdemônio? - ele perguntou, olhando para ela com uma expressão engraçada, como se não pudesse sequer acreditar no que ele próprio estava dizendo - Eu não sei como não estou surtando com isso.

- A anciã desbloqueou suas lembranças, mas controla as nossas emoções - Cathe respondeu, sorrindo ao ouvir o nome que ele deu ao ser híbrido de lobisomem e demônio -, eu teria acordado quebrando tudo depois que desmaiei e me trouxeram para cá, se não estivesse sob a influência do poder psíquico dela. Ela me disse que a minha mãe está viva, depois de quinze anos que foi dada como morta, e eu estou aqui de boa conversando com você, então a magia dela é realmente forte.

- Vocês são caçadores dessas criaturas? - Matt perguntou, no momento em que crianças passavam por eles, correndo e brincando - Eles parecem ser tão inofensivos.

- Parece sim - ela respondeu, sentando-se em um tronco que estava caído por ali -, mas existem muitos tipos de criaturas. O mundo onde estamos é paralelo ao nosso e as criaturas sombrias são a personificação da maldade da raça humana, e tendo poderes que os humanos não têm, decidiram que poderiam tomar o mundo humano à força. Nós, magos, fomos criados para proteger a barreira entre esses mundos, mas com o tempo passamos a caçá-los ao invés de apenas combater.

- Eu não consigo ver mal neles - Matt disse, sentando-se também e olhando para o nada -, tipo, eu sou perigoso até involuntariamente. Já feri pessoas em momentos de descontrole, e talvez seria melhor para todos, se você tivesse me matado junto com aqueles vampiros, mas eles só querem viver suas vidas.

- Eu vi o que estava na sua mente, Matt - ela disse, colocando a mão em seu ombro em sinal de cumplicidade -, não havia maldade ali. Acredite em mim, eu sei diferenciar maldade de instinto. Infelizmente, eu já fiz muita coisa da qual eu não me orgulho, pensando que estava fazendo a coisa certa, porque me ensinaram assim, mas hoje eu consigo ver que nem toda criatura sombria é ruim.

- Você acha que uma aberração como eu, sendo híbrido de três raças, pode ser do bem? - ele perguntou, olhando-a nos olhos.

- Eu acho que sim - Cathe respondeu, com um sorriso, enquanto tirava uma mecha de cabelo do rosto dele -, e posso te ajudar com isso. Eu vou lutar para mudar o modo de agir dos Magos, só preciso conversar com o meu irmão e mostrá-lo o quanto nossos métodos estão ultrapassados.

- Eu agradeço, e gostaria de te ajudar com isso também - Matt disse, desviando o olhar -, mas eu preciso saber se a minha irmã ainda está viva, e matar os monstros que mataram meus pais. Ao que parece, foram os mesmos que mataram a minha mãe biológica, e eu vou acabar com todos eles.

- Eu não posso te dizer para não buscar vingança - a jovem disse, pegando a mão dele entre as dela -, até porque eu também buscaria, porém, é arriscado procurá-los sozinho, porque eles queriam te usar, e assim você estará indo direto para as garras deles.

- Eu não tenho outra escolha, Cathe - ele disse, voltando a olhá-la, agora com os olhos marejados, dando sinal de que a magia de controle emocional não estava tendo total efeito nele -, se a Lilly estiver viva, ela é tudo o que me resta, e se não estiver, eu já não tenho mais nada a perder. Preciso ir até lá para lutar e, se tiver sorte, morrer no processo. Se eu sou tão perigoso quanto pensam que sou, então não posso continuar existindo.

- Pois eu não quero que você vá - ela disse, sorrindo -, pelo menos, não sozinho.

- E essa história da sua mãe? - Matt perguntou, lembrando que ela havia mencionado isso anteriormente na conversa - Ela estar viva deve ser uma boa notícia, né?

- Na verdade é estranho, sabe - Cathe disse, calmamente -, depois que ela morreu, eu descobri que ela mentiu para mim sobre algumas coisas, mas mesmo assim eu senti, e ainda sinto muita falta dela. O problema é que se ela está viva, então ela me abandonou todo esse tempo, e porque apareceria agora? Porque pediu que a Anciã me desse esse recado?

- Talvez ela tenha sido forçada a isso - ele disse, olhando pra ela -, e talvez tenha feito isso para proteger você e o seu irmão.

- É, pode ser - ela concordou -, além do mais, a anciã me mostrou o que aconteceu na lanchonete, e tinha um mago lá. Está acontecendo uma conspiração e essa conspiração pode estar sendo criada desde a emboscada que matou meus pais.

- O careca dos portais! - Matt disse, visivelmente nervoso por se lembrar do homem que parecia estar no comando do ataque e que colocou a coleira em seu pescoço - Aquele filho da puta levou a Lilly!

- Venha comigo, Matt - ela disse, Levantando-se e estendendo a mão para ele -, vou te deixar em um lugar seguro enquanto descubro quem é esse mago, e para onde levaram a Lilly. Depois nós a salvamos e você me ajuda a criar um novo método de ação para os magos, vivendo em paz com as criaturas boas. O que acha?

- Eu... - Matt começou a dizer, segurando a mão que ela ofereceu, mas foi interrompido por uma grande explosão, vinda da entrada da aldeia.

- A barreira está sendo atacada - a anciã disse em suas mentes -, eles estão atrás de vocês.

- Nós iremos lutar - Cathe disse, decidida -, eu só preciso das minhas armas que estão na cabana.

- Não há tempo! - a velha disse em tô de urgência, ainda telepaticamente - Borgg e Grigg os mostrarão a saída para a floresta, seu portal não funcionará aqui dentro. Encontre a sua mãe, Cathe, ela saberá o que vocês dois precisam fazer.

- Mas e quanto à vocês? - Matt perguntou.

- Nós já cumprimos o nosso papel - a anciã respondeu, parecendo ofegante por tentar manter a conversa telepática e a barreira ativa.

Antes que pudesse protestar mais, Borgg e Grigg chegaram e uma explosão mais alta os fez se apressarem em segui-los, e mesmo querendo ficar e lutar, seguiram a orientação da anciã.

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