15
A batalha se estendia feroz por vários minutos e Barth já dava os primeiros sinais de cansaço. Nunca tinha demorado tanto em uma batalha e além de si próprio e de Nash, nunca tinha visto outro lobisomem se transformar em Crinos direto da forma hominídea, como aquele sujeito havia feito.
A sua regeneração já parecia bem mais lenta do que o normal e isso provavelmente devia-se ao fato de que ele estava enfrentando um inimigo tão forte quanto ele próprio e que parecia estar muito mais familiarizado com batalhas do que ele.
— Liam, eu já concordei em ir com vocês, então já chega dessa prova de testosterona — Barth ouviu Aynne gritar —, ele não vale essa perda de tempo, e a Lucy já pegou do javali para a viagem. Então vamos embora logo.
— Pelo visto você não impressionou a fada, cara — Liam zombou com uma voz grossa afetada pela transformação — Gostei de lutar com você, mas não somos inimigos, então considere um empate.
O fato de Liam conseguir se conter mesmo transformado o assustava. Ele precisou de muito treinamento e mesmo com a tutela de Nash, era extremamente difícil raciocinar no ápice de sua transformação mais poderosa. Até o ato de organizar palavras para falar se tornava complicado uma vez que o cérebro estava focado nos músculos e na ferocidade, mas aquele cara na sua frente raciocinava como se estivesse em sua forma hominídea e isso o irritava ainda mais, pois o fazia parecer fraco.
— Pois a fada me disse que conhecia pessoas que adorariam me matar por saberem que sou o filho primogênito do Lorde King — Barth disse quando viu que Liam dava-lhe as costas e assumia a forma hominídea novamente —, será que você também conhece pessoas assim, Liam?
— Sabe rapaz — Liam disse pausadamente sem olhar na sua direção —, eu era uma dessas pessoas. Poderia agora mesmo voltar a lutar com você, e arrancar a sua cabeça como o Lorde King fez com meu pai e com meu…
Antes que Liam completasse a frase, Barth sentiu um golpe forte em seu peito que o lançou contra uma grande árvore, partindo-a com o peso do seu corpo. Antes que pudesse se levantar viu a mulher que chegou junto com Liam assumindo a forma glábrica. Em seus olhos vermelhos ela tinha uma ferocidade que ele pode reconhecer bem — era ira, uma ira poderosa e implacável.
O golpe que ele recebeu foi aplicado com ela ainda na forma hominídea, mas foi forte o suficiente para lhe quebrar alguns ossos que agora se reconstruíam, causando-lhe uma forte dor que ele se forçou a não demonstrar.
— Não é nada pessoal rapaz — ela rosnou por entre os dentes com uma voz de pura fúria —, mas será olho por olho e dente por dente. Um primogênito pelo outro!
— Lucy, meu amor — Liam disse, após saltar e se por entre ela e Barth —, matá-lo não trará o Leon de volta. Ele ajudou a Aynne, vamos retribuir o favor e deixá-lo ir dessa vez, tudo bem?
Como se não ouvisse o que ele dizia, ela partiu para o ataque. Liam tentou contê-la, mas em sua forma hominídea ele não foi obstáculo para ela, e com um golpe com o braço, ela o jogou para o lado, fazendo-o cair sob as folhas secas da clareira.
Aproximando-se de Barth, ela iniciou uma sequência de golpes com as garras negras expostas, enquanto ele desviava dos golpes como podia, mas já estava bem desgastado.
Após um descuido, ele viu que ia ser atingido no pescoço e por impulso colocou o braço para bloquear o golpe. As garras afiadas de Lucy rasgaram-lhe a pele como se fosse seda, em um corte profundo que se ele não estivesse na forma crínica, teria seu membro decepado com facilidade.
Antes de assimilar o corte, ele foi atingido também por um chute, que atingiu a lateral do seu corpo, arremessando-o de lado e fazendo-o rolar pelo solo da clareira por alguns metros.
Levantando-se com dificuldade, Barth sentiu o gosto de sangue na boca e deduziu que tinha fraturado algumas costelas e possivelmente perfurado algum órgão. Olhando para seu braço ele se alarmou ao ver que o corte feito pelas garras de Lucy sangrava sem parar e não dava sinal de regeneração.
Olhando para ela tentando ver quando seria o seu próximo movimento, ele viu que ela usava uma espécie de manopla com garras negras em suas mãos e deduziu que era uma arma mágica dos caçadores e por isso afetava a sua regeneração. Precisava de muita cautela, pois, se fosse atingido outras vezes, poderia morrer.
— É prata negra — Lucy disse, ao ver que ele olhava para suas manoplas —, eu acho que você deve ter ouvido falar dela, afinal foi seu pai que a forneceu para os vampiros.
— Chega a ser irônico — ela continuou, enquanto caminhava na sua direção —, a arma que o traidor entregou para o inimigo, será a que matou seu primogênito. Irônico como deve ser.
— Lucy, meu amor — Liam disse, colocando-se novamente entre os dois —, não é isso que você realmente quer.
— Ele matou o nosso filho! — ela gritou com uma voz feroz, porém chorosa, parando a menos de um metro deles.
— Ele sequer tinha nascido, Lucy — Liam ponderou, dando passos cuidadosos na direção dela —, o Leon não tinha culpa de nada, e o desgraçado do King o usou para forçar a rendição do meu pai, mas se fizermos o mesmo que ele fez, por vingança, estaremos nos igualando a ele. Por favor, não faça isso!
Aproximando-se da companheira, Liam a abraçou enquanto ela desfazia a transformação. Pelo visto o argumento dele tinha sido suficiente para fazê-la cair em si e encerrar o ataque e então, chorando, ela o abraçou.
Vendo a cena, escutando aquelas palavras e o choro de Lucy, Barth finalmente entendeu a situação. Seu pai, o traidor dos lobisomens, havia usado o filho deles e ainda assim o matou. Mesmo tendo ouvido as histórias de como os lobisomens viraram vassalos dos vampiros e das traições e jogadas que Lorde King comandou, ele não sabia o quão baixo ele havia ido para se tornar o alfa supremo. Aynne tinha razão, ele pensou, enquanto assumia a forma hominídea também, constatando que não podia sair por aí falando que era filho de Lord King.
— Eu sinto muito — ele gritou, já na forma hominídea, sentindo-se fraco e se encostando em uma árvore. O corte em seu braço não havia se fechado e sangrava bastante —, eu não sabia disso! Aliás, pelo visto, eu não sei de nada. Eu vou tomar o título de alfa dele e vou fazê-lo pagar por tudo o que fez.
— Você vai morrer, rapaz — Liam disse, ainda abraçando Lucy, que se acalmava aos poucos —, a menos que se livre desse ímpeto revolucionário. Para ficar mais forte, antes você precisa ficar mais inteligente.
— Aynne — Lucy disse para a Sìthiche que observou tudo sem conseguir sair do lugar. Mesmo preocupada com Barth, ela não ousaria se colocar entre eles em uma batalha —, tem uma bolsa aí atrás desta árvore! É melhor aplicar o anti-prata no garoto, ou ele vai sangrar até morrer!
Com a visão embaçada, Barth viu Aynne pegar algo dentro da bolsa e ir apressadamente na sua direção. De uma pequena caixa de metal, ela retirou uma seringa com um líquido vermelho e injetou na altura do seu coração.
— Eu nunca mais faço pouco caso do que você me disser — ele disse com a voz fraca, tentando um sorriso —, mas eu não sabia do filho deles.
— Agora está tudo bem — ela respondeu, ainda com o semblante preocupado —, você pode se considerar um cara de sorte por ela ter parado.
— Por ser filho do meu pai eu não mereço piedade — ele disse, já sentindo o antídoto correndo em suas veias e a dor de seus ossos se reconstruindo —, mas para o Lord King é fácil colocar alguém no meu lugar. Eu preciso tomar o título dele e libertar os lobisomens, mas essa surra que eu tomei aqui me diz que eu sou fraco demais para isso.
— Você é mais forte do que parece, Barth — Aynne disse, passando a mão de leve em seu rosto —, mas precisava dessa lição de humildade e como parece que a assimilou bem, é ponto para você.
— Alguém está se aproximando — Liam alertou, pegando um tipo de aparelho em sua cintura, e levantando-se junto com Lucy, enquanto Aynne ajudava Barth a se levantar também —, Na verdade são pelo menos cinco e são habilidosos em aproximação furtiva, pois, sem o sensor que deixamos nas árvores pelo caminho meus sentidos não iriam percebê-los.
— Será que os vampiros nos seguiram? — Aynne perguntou, olhando para Barth.
— Não são Vampiros — afirmou Lucy, olhando para o aparelho que emitia um brilho avermelhado —, a assinatura hormonal me diz que são licantras.
— Odeio essas merdas tecnológicas! — Uma voz aguda e melodiosa disse, enquanto uma silhueta feminina saía das sombras, seguida de outras três. Todas tinham o corpo todo coberto por um tecido preto e usavam máscaras —, sempre estragam a surpresa.
— É melhor seguirem o caminho de vocês — Liam disse para a figura misteriosa —, pois já estávamos seguindo o nosso também!
— Vocês fizeram metade do trabalho para nós — A mulher que parecia ser a líder disse —, e em agradecimento, vamos deixá-los ir. Só deixem o filhote de Alfa e um pouco desse javali e podem ir.
— Olha moça — Barth disse, ainda apoiado em Aynne —, eu não apoio os feitos do Lord King e pretendo tomar o posto de Alfa e unir novamente os lobisomens contra os vampiros. Então eu não sou inimigo de vocês.
— Elas não são de clãs rebeldes, garoto — Lucy disse com convicção —, eu conheço a todos.
— Vocês foram enviadas por Lord King? — Aynne perguntou, deixando Barth encostado em uma árvore e se voltando para as mulheres encapuzadas — Vocês não parecem estar preocupadas com o fato de ele estar ferido, então presumo que não vieram para levá-lo de volta.
— E você por acaso é uma vadia dele? — outra mulher encapuzada disse com um ar de superioridade — Seja quem for, é melhor seguir seu caminho, se não quiser que sobre para você.
— Olha só, as outras falam também — Aynne respondeu com ironia, retribuindo a provocação —, pensei que eram só cadelinhas seguindo a adestradora.
— Sabe de uma coisa, nós não matamos mulheres — a mulher misteriosa disse calmamente, ainda sem esboçar movimento algum, assim como todas as outras que estavam completamente imóveis —, mas abrirei uma exceção para você.
Imediatamente, três setas saíram das sombras, pegando Aynne e Barth de surpresa. Era impossível terem lançado o ataque sem sequer mover os braços, mas lembrando-se de que Liam havia dito que eram pelo menos cinco indivíduos se aproximando, Barth olhou com mais foco e viu mais uma figura, oculta pelas sombras das árvores, de onde fez os disparos.
Sem ter como desviar das setas ou se defender delas, Barth teve tempo e energia apenas para assumir a forma glábrica e abraçar Aynne, servindo como escudo e recebendo as três lâminas, que cravaram fundo em suas costas peludas, fazendo o soltar um grito bestial de dor e cair pesadamente sobre a Sìthiche que não conseguiu segurá-lo e então tudo virou uma completa escuridão.
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