13
Nath
Colônia da Resistência - Mundo humano
Desesperada, ela olhava as tendas queimarem. Os animais lhe diziam que os inimigos eram muitos e que mais deles estavam vindo.
Eram demônios e as haviam seguido do mundo sombrio até ali. Os guerreiros e as bruxas do acampamento protegiam suas famílias o máximo que podiam, mas, beneficiados pelas sombras da noite sem lua, os demônios eram letais.
Depois de viajarem pelo mundo humano em busca de um lugar seguro para viverem, as bruxas enfim haviam encontrado paz na América do Sul. A diversidade cultural e religiosa do Brasil favorecia a livre expressão de seus costumes e por muito tempo viveram em paz.
O seu papel naquela batalha era abrir um portal e evacuar o acampamento, mas o terror do ataque a deixou paralisada. Outras bruxas haviam feito a parte delas e levado muitas crianças consigo, mas ainda tinham muitas e ela não conseguia reagir.
— Naná — a pequena Isabelle chamou seu nome várias vezes, enquanto chorava e puxava a barra e seu vestido, até que por fim Nath saiu de seu transe e pegando a pequena no colo, a salvou do golpe de um demônio, que saiu das sombras e atacou.
Com a destreza que lhe era características, ela retirou sua faca da bainha e a cravou no peito do inimigo, fazendo-o soltar um grito de dor, e retirado a lâmina aplicou outro golpe rápido, cortando-lhe a garganta e para completar, com os pés o empurrou para longe.
Espantada, ela viu a criatura se levantar, mesmo com a traquéia dilacerada, e vir na sua direção, mas antes que pudesse alcançá-las, algo o atingiu e ele se transformou em uma nuvem de cinzas.
— Vocês estão bem? — uma voz grave e sedutora perguntou e enquanto a nuvem de cinzas se dissipava, um rosto surgia na sua frente.
A expressão feroz em seus olhos, indicavam que era um guerreiro, e seus olhos cor de sangue e sua pele pálida, revelavam que se tratava de um vampiro. Ele segurava uma foice dupla nas mãos. Era uma arma magnífica como jamais havia visto igual e parecia ser incrivelmente eficaz contra demônios.
Ela apenas assentiu com a cabeça e o viu se mover em uma velocidade absurda, enquanto exterminava os demônios um a um, até que não sobrou mais nenhum.
— Somos muito gratos pela ajuda, vampiro — a anciã do acampamento, que era a bruxa mais poderosa e a autoridade máxima ali, disse ao estranho, após o mesmo se acalmar, tendo se certificado de que não sobrou mais nenhum inimigo —, mas não entendo porque está atacando seus aliados demônios e muito menos porque carrega uma arma mágica dos caçadores.
— Mãe, por favor — Nath disse aproximando-se da líder —, ele nos salvou e isso é o que importa. Podem aparecer mais demônios, então vamos levar os feridos para tratamento e depois fazemos as perguntas.
— Nos acompanha, senhor... — a jovem continuou, agora dirigindo-se ao Vampiro.
— Hellbram — ele respondeu, com uma reverência clássica que combinavam com as roupas que usava —, mas pode me chamar de Hel, senhorita. Será um prazer responder as perguntas depois de estarmos seguros.
As imagens se dissiparam e ela acordou. Ter sonhos enigmáticos e que lhe revelavam algo era comum para algumas bruxas, mas essa havia sido uma lembrança perfeita do que tinha acontecido. Havia sido dessa forma que ela conheceu Hel e que ele lhe contou sobre a colônia dos Anjos da Resistência e sobre a sua missão pelo mundo.
Agora o quarto em que acabara de acordar, por suas paredes de pedra, com certeza era a colônia. O seu amado vampiro tinha lhe falado tanto sobre aquele lugar e sobre todos ali, que ela sentia como se conhecesse tudo.
— Que bom que acordou — uma jovem com cabelos azuis disse da porta —, o Hel precisou sair em missão, e pediu para eu cuidar de vc.
— Obrigada! — Nath respondeu com um sorriso, sentando na cama — Você deve ser a Eileen, ele falou muito sobre vocês.
— Eu preparei um banho e lhe trouxe roupas limpas — Eileen disse sorrindo, após acenar com a cabeça confirmando —, depois eu quero saber tudo o que aquele sanguessuga disse, enquanto comemos algo.
— Pode deixar — Nath respondeu sorrindo também, enquanto se levantava e se preparava para o banho após a outra jovem sair do quarto.
A Banheira de pedra era confortável de uma forma quase sobrenatural. Era de se espantar que ela havia sido feita por humanos naquela caverna transformada em moradia. Um encanamento contrastava com toda a visão rústica do local e a água quente não parecia ter sido aquecida em uma fogueira.
Toda aquela tecnologia implementada ali, certamente era obra de Peter, o jovem Bargheist que Hel chamava carinhosamente de "pulguento". Os Bargheists são intelectualmente brilhantes por natureza, mas Peter parecia se destacar ainda mais.
Ela estava fascinada com o fato de serem raças tão diferentes, e ainda assim conseguirem conviver pacificamente e queria saber mais sobre todos eles.
Após o banho, ela vestiu as roupas que Eileen tinha lhe trazido, e saindo pela porta, a encontrou nos corredores, esperando que saísse, para juntas irem até o refeitório, onde a demônio havia preparado alguns sanduíches.
— Peço desculpas antecipadamente pelos sanduíches — Eileen disse, colocando a bandeja em cima da mesa —, não sabia o que lhe servir e o nosso cozinheiro é o Cam, mas ele andou aprontando das suas e está preso.
— Tenho certeza de que seus sanduíches estão ótimos! — disse Nath, simpaticamente, pegando um sanduíche — Cam é um doppelganger, não é? O que ele fez?
— Sim — Eileen respondeu, servindo-se também —, ele ajudou uma amiga que estava esperando julgamento a fugir, mas não se assuste com isso.
— Tem muitas coisas acontecendo por aqui no momento — continuou a demônio, após morder o sanduíche —, então porque não me fala sobre você. Vocês podem criar portais como os magos?
— Na verdade, somos nós que criamos portais como as Bruxas! — uma voz feminina disse, antes que ela pudesse responder e, virando-se, ela viu uma mulher de cabelos castanhos e olhos azuis se aproximando delas. Pelo que ela disse ao entrar, Nath deduziu que se tratava da Mãe, a caçadora que fundou os Anjos da Resistência.
— É-é u-uma grande honra conhecê-la, senhora — gaguejou Nath, levantando-se e fazendo uma reverência, nitidamente emocionada por encontrá-la —, o Hel me disse o quanto era linda e sua presença imponente, mas eu não imaginava o quanto!
— Ora, o nosso vampiro é um grande cavalheiro, e você pode relaxar, pequena — a mais velha disse, sorrindo —, a honra é nossa de tê-la aqui. Eu sinto muita força mágica em você e com tudo o que está acontecendo, iremos precisar de toda ajuda possível.
— Os magos é que usam poderes parecidos com os nossos então? — Eileen perguntou, com referência ao que a líder tinha dito sobre os portais.
— Essa é uma história que remete às nossas origens — respondeu a mais velha, juntando-se à elas na mesa —, não sei se a nossa convidada iria querer ouvir.
— Pode nos contar, por favor? — Nath pediu sem conter a excitação. Seus olhos brilhavam de admiração, não só pela beleza da senhora sentada à sua frente, mas também por toda sabedoria e poder que ela carregava — Será um prazer ouvir!
— Muito bem então, vamos começar do início — a Mãe começou, após pegar e morder um sanduíche — o criador de tudo, que os humanos chamam de Deus e nós chamaremos aqui de Universo ou Força Universal, no início tinha uma conexão muito forte com sua criação. Os humanos eram de longe as criaturas que ele mais amava, porém o livre arbítrio que deu a eles, fez com que desenvolvessem atitudes vis e a maldade imperou no mundo humano.
— Perto de perder o controle, usando as trevas que havia separado da luz na qual criou todas as coisas, o Universo criou uma válvula de escape, ao transformá-la em um espaço para onde escoava toda energia negativa que a maldade humana gerava, dando origem assim ao Mundo Sombrio. Essa energia era tão poderosa que começou a criar seres espontaneamente, e começaram a surgir então diversas raças de criaturas sombrias de acordo com a natureza da maldade que os humanos cometiam.
— Cansado de tentar educar os humanos e de remediar seus erros, o Universo decidiu não intervir mais no Mundo Humano, mas não podia deixá-los vulneráveis aos monstros que estavam se multiplicando no mundo sombrio e que assim que tomaram ciência da existência do outro mundo, começaram a invadir e aterrorizar as pessoas do outro lado, então em seu último ato de amor, criou uma raça à partir dos humanos, para serem guardiões da barreira e impedir que isso acontecesse.
— Os Magos, como passaram a ser chamados, eram humanos que podiam canalizar energia mágica elemental e com a ajuda de runas e instrumentos mágicos, eles conseguiam utilizar poderes e habilidades inerentes às Criaturas Sombrias, assim fariam frente à cada uma delas, porém o corpo ainda era humano e não suportaria usar tantos poderes por muito tempo, então precisariam recarregar as energias de tempos em tempos.
— Com o tempo, os Magos foram se tornando uma raça pura, desprendendo-se da natureza humana e com isso se tornando ainda mais poderosos e aprendendo a utilizar tão bem as habilidades, que pareciam ser originalmente deles, quando na verdade eram apenas copiadas. Alguns magos, começaram a nascer com magia natural, mas a grande maioria só consegue usar magia através de runas e armas projetadas para canalizá-la.
— Essa origem humana dos magos explica como uma humana como eu conseguiu se tornar uma Maga com treinamento e estudos, além de alguns pactos mágicos.
— Eu estava com saudade de suas histórias — Eileen disse, indo até a Mãe e dando-lhe um abraço —, não temos tido muito tempo para isso mais.
—Todas as coisas tem o seu tempo, pequena — a Mãe disse sorrindo —, há o tempo de lutar e o tempo de contar histórias, mas algumas histórias são necessárias para se vencer batalhas. Nós aprendemos isso com o tempo.
— Juro que escutei como se fosse a minha mãe falando isso! — Nath disse e todas riram, mas a descontração foi interrompida por Pete que entrou na sala às pressas.
— Desculpe atrapalhar o momento de vocês — o jovem Bargheist disse, após pegar algum fôlego —, mas os meus alarmes emitiram um alerta de um exército vampiro vindo nesta direção.
— O mestre Kaghan e os outros foram atrás de Aynne — Eileen disse —, então estamos com poucas defesas.
— Eu preparei as defesas no paredão rochoso e entrei em contato com eles! — Pete exclamou — Estão voltando, mas pode ser que não consigam chegar a tempo!
— Estávamos esperando a senhora acordar para contar o que aconteceu, Mãe — a jovem demônio disse, envergonhada pra não ter dito nada ainda —, mas estava nos contando aquela história e...
— Não se preocupe, querida — a maga a interrompeu —, eu tive um vislumbre de tudo enquanto meditava, ao que parece a vinda da Nath potencializou a minha habilidade de oráculo.
— Nós não iremos lutar enquanto eles não voltarem — ela continuou, levantando-se e tomando a postura da líder que é —, à princípio precisamos do Vyk e de um amplificador de poder. Vamos usar a ilusão dele e as defesas de Peter para atrasar o avanço dos vampiros. Nath e Eileen vão para os alojamentos para manter todos juntos, de modo que apenas um portal seja suficiente para levá-los para um lugar seguro, libertem Cam para que ele possa ajudar. Eu irei atrás de Aynne, Liam e Lucy e os trarei para cá o mais rápido possível. Todos entenderam?
— Sim senhora! — os três jovens responderam em uníssono, e então cada um seguiu para onde foram designados.
O coração da jovem bruxa batia acelerado. Ela havia se preparado todos esses anos para lutar, mas as ordens de sua mãe e dos líderes ciganos era sempre fugir das batalhas. Ali ela sentia que estava exatamente onde deveria estar e que poderia finalmente fazer os opressores pagarem por toda maldade que cometeram.
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