12

Aynne

Clareira na floresta - Mundo humano

— Eu sou herdeiro do Alfa, e quero libertar os lobisomens da vassalagem aos vampiros!

Ao ouvir aquela afirmação, a sìthiche não conseguiu segurar as gargalhadas. Aquele jovem queria que ela acreditasse que, o filho do lobisomem que se vendeu aos vampiros e traiu todas as outras alcateias para se tornar o Alfa supremo, estaria se rebelando contra o pai.

— Não entendi porque está rindo! — ele disse naturalmente, sem se ofender com a reação dela.

— Ora, Bartholomeu — ela disse, ainda rindo —, se é que esse é mesmo o seu nome. Digamos que você é realmente o herdeiro do Alfa supremo, como pretende fazer o que disse? Não precisa ser um lobisomem para saber que a autoridade do alfa sobre os outros lobisomens da alcateia é irresistível.

— Pois esse é o motivo da minha missão — o jovem lobisomem disse, enquanto cortava um pedaço do javali, para ver se já estava no ponto —, tem alguém que eu preciso encontrar e que pode ser a solução desse impasse.

— Se o que me diz é verdade, você não deveria sair por aí falando isso para as pessoas, sabia? — Aynne disse, agora sem rir — Eu conheço algumas pessoas que adorariam matar o filho do Lorde filho da puta King.

— Se eles querem me matar por conta de quem é meu pai — Barth disse, rindo e oferecendo a ela um generoso pedaço do assado com a ponta da adaga —, então eu adoraria conhecê-los

— Você ao menos faz ideia de onde a pessoa que você procura possa estar? — ela perguntou após pegar o pedaço de carne com as mãos e dar uma mordida.

— Tenho só um ponto de partida — ele respondeu, enquanto comia também —, o mestre Nash me disse para procurar pistas, e me passou as coordenadas.

— Espera um pouco — Aynne disse, ao ouvir o nome do mestre dele —, você está falando do general Nash, o demônio lupino?

— Bom, para mim é só mestre Nash — Barth deu de ombros e foi até o javali, pegar mais um pedaço para cada.

— Seu mestre é uma lenda e se ele apoia sua empreitada, você já tem um poderoso aliado — ela disse —, mas quem é a pessoa que ele disse que pode te ajudar contra seu pai?

— É o filho dele! — Barth respondeu entregando-lhe outro pedaço de carne e sentando-se ao seu lado — Ele só soube da existência dele agora, depois de vinte anos.

— Mas se o próprio Nash se curva à vontade do seu pai, porque o filho dele seria imune? — ela perguntou, agora visivelmente interessada.

— Eu tenho a impressão de que está acreditando em mim agora — o jovem disse olhando em seus olhos e sorriu.

— Não comemore ainda, Barth — ela respondeu sorrindo também —, eu posso apenas gostar de ouvir histórias na beira da fogueira, mesmo elas sendo inventadas.

— A mãe do filho dele era humana e…

— E sendo híbrido de três raças, a influência do alfa cairia para menos de um terço — ela disse, interrompendo-o —, além de poder se tornar incrivelmente poderoso com suas três linhagens!

— Exatamente — ele disse, parecendo divertir-se com a empolgação dela —, porém a mãe dele foi morta por vampiros, que também o estão procurando. Eu não sei como ficaram sabendo sobre a existência dele, mas eu preciso encontrá-lo primeiro.

— Um mago vidente! — Aynne exclamou — Os desgraçados tem a ajuda de um maldito mago vidente!

— Como assim, magos e vampiros trabalhando juntos? — Barth perguntou confuso.

— Acho que está na hora de lhe contar o que estava fazendo lá naquele ninho de vampiros — ela começou a falar, fazendo uma pausa em seguida e continuando após ver que o jovem lhe prestava total atenção —, mas antes preciso lhe contar a minha história.

— Após a guerra o mundo sombrio não era mais um lugar seguro para nós, que éramos pacifistas, mesmo tendo nossa equipe de guerreiras mortais, então aproveitamos que as barreiras estavam fragilizadas e viemos para o mundo humano, procurar asilo.

— Depois de um tempo ajudando os humanos com nossa magia e medicina, começamos a ser perseguidas por fanáticos religiosos que nos culpavam pelo aparecimento de doenças terríveis, que não nos atingiam, por conta de nossa fisiologia ser diferente das deles, e isso nos obrigou a viver como ciganas, fazendo pequenas colônias para tentar viver fora do radar de humanos e de magos caçadores que poderiam querer nos mandar de volta para o mundo sombrio.

— Agumas Sìthiches decidiram viver sob a tutela humana se prostituindo para sobreviver e como somos uma espécie de reprodução assexuada, além de termos envelhecimento quase nulo após os dezoito anos, isso se tornou bem lucrativo aos donos de bordéis.

— Eu tinha meus dezesseis anos quando o meu acampamento foi atacado por homens de uma cidade vizinha que queriam escravas sexuais e teria sido levada se a minha mãe, que era uma guerreira, não tivesse aparecido e matado todos eles.

— Mesmo levando nosso acampamento para longe dali, a notícia do massacre de "homens inocentes que caçavam para alimentar suas famílias e foram atacados por bruxas da floresta", se espalhou e chegou até os Magos caçadores, que como sabemos, nunca procuram olhar os dois lados de uma situação quando um dos lados é uma criatura sombria e o outro é um humano.

— Fomos atacados de madrugada. Eu escutei os gritos do lado de fora da nossa tenda e vi um portal se abrir do lado de dentro. Uma caçadora saiu dele, mas, para o meu espanto, não nos atacou, apenas nos orientou a entrar no portal e mesmo que eu me recusasse, a minha mãe aceitou e me levou junto.

— Do outro lado, fomos recebidas por um simpático Muscaliet que nos explicou tudo. Estávamos em um refúgio para criaturas sombrias e a caçadora que nos enviou para lá era chamada de "A Mãe". Outras Sìthiches tinham sido resgatadas também, mas a maioria tinha sido morta ao resistir ou fugido para o mundo sombrio, onde morreram também.

— A minha mãe passou a fazer parte dos "Anjos da Resistência", uma equipe de criaturas bem treinadas que resgatavam outras criaturas que eram atacadas por vampiros ou mesmo por caçadores. Sempre estivemos um passo à frente dos caçadores por conta das habilidades de oráculo da Mãe, que é a nossa líder.

— Infelizmente, a minha mãe morreu em uma missão e eu decidi treinar para substituí-la, porém o meu ódio por caçadores era bem explícito, pois não conseguia aceitar a justiça cega deles. Justiça essa que quase resultou na extinção da minha espécie, e a regra número um dos Anjos da Resistência, era "não matar caçadores", pois isso poderia atrair a atenção deles para o nosso grupo.

— Depois de anos de treinamento com o mestre Kaghan, eu controlei o meu ódio e me tornei uma guerreira habilidosa e entrei para a equipe, mas o estigma me perseguiu, e em uma missão em que deveríamos proteger um assentamento de criaturas que seria atacado por vampiros, eu estava de vigia quando vi dois caçadores abrindo o portal para os vampiros chegarem até o local e então decidi confrontá-los sobre essa ação, porém nós entramos em batalha e eu acidentalmente matei um deles, enquanto o outro fugiu.

— Quando meus companheiros, que haviam matado todos os vampiros retornaram, me viram ao lado do corpo do caçador e mesmo eu explicando tudo, era difícil acreditar em uma aliança entre caçadores e vampiros e então me levaram sob custódia de volta à nossa base. O que chegou aos ouvidos da Mãe, foi que o caçador que fugiu relatou que eles estavam em missão, quando foram atacados por uma Sìthiche selvagem.

— Eu fiquei presa no acampamento para aguardar julgamento, mas precisava comprovar essa aliança e então decidi fugir com a ajuda de uns amigos e saí à procura de ninhos vampíricos para coletar provas.

— As adagas que eu roubei confirmam que estão fornecendo armas mágicas para os vampiros e agora, o que você me contou, prova que eles têm ajuda de um mago vidente também. Além do fato de estarem conspirando para encontrar um híbrido de três espécies, o que indica que estão se preparando para algo muito maior.

— Então eu estou ajudando uma fugitiva? — Barth disse, fingindo espanto — Eu sabia que você era perigosa!

— Essa foi a única parte que você ouviu? — ela respondeu, rindo também — Pelo visto você é só mais um manipulado pelo sistema.

— O que acha de quebrarmos esse sistema juntos? — ele disse, estendendo a mão para ela.

— Vai ser ótimo ter ajuda! — ela respondeu sorrindo enquanto apertava-lhe a mão.

— Vão ter que esperar até o julgamento para fazer isso, jovens! — uma voz grave disse das sombras, fazendo Barth se levantar e ficar em estado de Alerta, mas Aynne conhecia bem aquela voz — era Liam, seu companheiro de equipe.

— Você não vai querer lutar contra mim, rapaz — Liam disse, saindo das sombras —, só queremos levar nossa amiga fugitiva de volta. Sabemos que a ajudou e agradecemos, mas nós assumimos daqui.

— Ah cara — Barth disse, vendo que Aynne ficou paralisada ao ver o homem —, mas eu adoro lutar!

— Você é quem sabe — Liam respondeu com um ar confiante —, mas vamos um pouco mais para lá, pq não quero derrubar o javali. Pretendo comer um pedaço depois de acabar com você.

Aynne viu a tensão entre os dois e pensou em aproveitar a distração para sair dali, mas sentiu uma presença logo atrás dela e então permaneceu onde estava.

— Boa garota! — a voz sussurrante de Lucy entrou em seu ouvido, a fazendo congelar. O modo furtivo como ela e o marido se moviam mesmo sendo Licantropos, era de se assustar e fazia deles exímios assassinos — As ilusões do Vyk nos atrasaram, mas demos um jeito naquele pestinha.

— Eu vou voltar com vocês sem lutar, Lucy — Aynne disse —, eu já tenho como provar minha inocência.

— Relaxa, amiga — a licantra disse, colocando a mão no ombro dela —, só me sirva um pedaço de assado enquanto o Liam ensina umas coisinhas para o garoto.

Em uma clareira iluminada pela fogueira que assava o javali, os dois homens se preparavam para a batalha. Barth parecia empolgado para lutar, mas não se transformou, já que seu adversário também não o fez e ao invés disso, iniciou a luta com um ataque em uma velocidade incrível, que parecia ser impossível de ser feito na forma hominídea.

Antes que pudesse ser atingido, Liam se esquivou com facilidade e contra atacou com golpes rápidos e certeiros, atingindo vários pontos do corpo de Barth, lançando-o com força para o alto. Imediatamente, aproveitando que o corpo do jovem estava no ar, ele saltou e segurando-o pelo pescoço, o lançou violentamente contra o solo, colocando os joelhos sobre ambos os seus braços, imobilizando-o por completo.

Aynne viu quando Barth, movido pela ira, iniciou sua transformação e Liam se afastou, surpreso ao ver o jovem assumir a forma Crínica sem antes passar pela pela Glábrica, mas sem perder a tranquilidade.

— Obrigado, cara — Liam disse após soltar uma gargalhada —, tem muito tempo que não preciso usar isso. Estava até com saudades.

Antes que Barth pudesse atacar, Liam também iniciou a sua transformação e para espanto do jovem, também assumiu a forma Crínica, se tornando um gigantesco lobisomem crinos negro, cujo poder e ferocidade até oprimiam quem estava perto.

— Vamos brincar então! — Barth rosnou por entre os dentes pontudos e ambos partiram para o ataque.

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