C A P Í T U L O 3
A confusão que alimenta os cegos
A perversidade é um dos impulsos mais primitivos do ser. Ela se mantém à espreita em um labirinto de espelhos esperando que um fugaz descuido provenha a dormência da alma. O ser se torna refém de si mesmo, onde seu eu inerte assiste calado a todos os males regidos pelo ódio.
Seu coração, ainda que transborde paixões, possui uma depravação natural tão grande quanto seu sublime talento para a benevolência e as virtudes mais complexas.
A cada respiração que cruelmente é tomada, o pecado é gravado em sua alma e o sofrimento infligido se torna a dor da sua culpa. O alto preço que é pago por essa infâmia. Ainda mais alto, é ter de suportá-la para sempre.
Há perdão para a mais nefasta das almas?
Um suspiro longo escapou das profundezas da minha alma, onde eu me mantinha submersa no silêncio.
Imagens vinham em minha mente com tanta rapidez que acabei absorta em uma teia de lembranças que nunca consegui anular. Minhas unhas, que estavam impiedosamente cravadas na densa capa de papel, se soltaram de modo lento assim que retomei meus sentidos. A verdade me causara tal reação, uma maneira inconsciente de tentar reprimir a dor das minhas memórias tão corrosivas. Eu as buscava em palavras carregadas de dor, como uma sentença eterna, um lembrete constante para não cair no abismo mais uma vez.
Lamentei os resquícios dos maus-tratos que minhas unhas deixaram em mais um dos meus preciosos livros. Corri meus dedos pela página envelhecida com um desejo furtivo de apagar a dor e o remorso que ali refletia. Não era direito lhe atribuir toda a culpa, uma vez que, ela me pertencia e as palavras só a tornava clamorosa. Há três mil anos essa era uma das minhas maldições, nunca teria um fim, e eu nunca me adaptaria a ela.
A grossa camada de papel foi passada para trás. Minha mente, já doutrinada, se preparava para a próxima reminiscência, até que três batidas na porta me emergiram de minhas reflexões. Inspirei profundo e calma sentindo um almíscar de sândalo envelhecido, uma visita rara, em uma hora incomum. Ocorrências dubitáveis, punição e subterfúgios me preencheram a mente, o básico para me ocasionar uma inquietação indesejada, as minhas madrugadas de domingo eram significativas e não me agradava uma intromissão imprevista para esses fins.
― Entre ― ordenei, a irresignação soando como uma lâmina oculta, levando-me mais uma vez a buscar em um respirar a concentração precisa para reter algum equilíbrio, porquanto ninguém era réu da minha mortificação, senão eu mesma.
A porta se abriu e revelou o ser alongado coberto de preto, cujo rosto envelhecido e macilento esteava um semblante tão austero quanto o meu estado de espírito naquele instante. Alguns passos deliberados e silenciosos foram dados, a sua atenção atilada sempre a frente e a postura tomada por uma rigidez maquinal quando se postou a uma distância mesureira.
― Majestade ― saudou curvando-se à frente em reverência.― Perdoe-me o desagradável incômodo.
― Aproxime-se, Eustáquio ― pedi com um gesto conciso, designando a poltrona ao lado. ― Por favor, sinta-se à vontade.
― Remerceio, mas não se faz necessário, serei breve. ― A voz de vibração grave e ponderada foi suspensa pela primeira das três batidas caliginosas que ressonaram do relógio. Ao final da última, ele retomou com igual circunspecção. ― Previamente, se me permite antever, constato que a senhora me parece bem.
Com um aceno lacônico asseverei a sua observação, expectando por uma elucidação que não veio. O silêncio se fez, e agravou ainda mais as imprecisões quando o seu olhar se desviou do meu, para os longos dedos que se uniam em frente ao corpo. Um gesto deveras reflexivo, quiçá apreensivo, para uma figura que quase sempre adotara uma atitude blasé, o que o tornava um excepcional representante do Conselho de Draos.
Aos longos dos seus mil e oitocentos anos, sempre fora solícito e precavido aos detalhes. Nunca demonstrava emoções, e nunca as deixava interferir em sua exímia conduta. Um exemplo diplomático a ser seguido por todos os vampiros da América do Sul, região pela qual era responsável.
― A que devo a sua agradável visita? Conjecturo que não veio até aqui só para ver como estou.
Outra vez consegui a atenção daqueles olhos reentrantes de uma nuance encanecida de azul. Eustáquio Isadore era sempre expresso, me estranhava seu hesitar em falar sobre seu desígnio ali. Reconhecendo a minha indelicadeza, esbocei um sorriso para atenuar a rispidez das minhas palavras e deixá-lo menos desconfortável.
― Certamente que não ― afirmou ele ―, e apesar de ser uma honra estar em sua presença, vim porque necessitamos do seu comparecimento no Conselho o mais breve possível.
― Qual o infortúnio desta vez?
― Um vampiro veio a óbito esta noite e... ― A mudez novamente se fez enquanto ele parecia considerar o que anunciaria a seguir. ― Seria pertinente a sua presença no Conselho para que obtenha suas próprias inferências.
Ainda mais estranho que sua visita e informações evasivas, era seu pedido insólito. Ele, assim como meus filhos, chanceleres das outras matrizes do Conselho de Draos, não tinham o hábito de nos importunar com problemas banais. Foram nominados para administrar os continentes, especialmente por serem aptos a inspecionar e controlar sabiamente todos os clãs que por lá se originaram, e a consequente desordem que nossa espécie pudesse provocar.
Diante de tão pouco esclarecimento não parecia ser nada considerável, todavia, o que me inquietava era a sua visita intempestiva para o pedido inabitual, levando-me a crer que certamente a eventualidade ultrapassava os limites de sua erudição.
― Por certo, parece significativo ― admiti fechando o livro em minhas mãos, mas com os olhos ainda inertes em seu rosto emaciado. ― Em uma hora estarei lá.
Após um agradecimento e uma última vênia, Eustáquio se retirou com a promessa de que estaria me aguardando no Conselho. Levantei-me do sofá abandonando o livro na mesa ao lado e saí do escritório em direção às escadas do átrio. Uma vez em meu closet, passeei os dedos sobre as peças penduradas nos robustos cabides de madeira até pará-los em uma textura não muito polida e tampouco nodosa, que dava forma a uma apurada releitura feminina, do masculino. Equilíbrio. O tailleur pérola era em exatidão o que eu carecia, acompanhado de um comprido casaco negro. Em meus pés, se acomodariam habituais scarpins, para aquela noite, pretos e camurçados.
Pronta, segui para o adro em frente à casa onde o Sr. Torres me esperava com a porta do carro aberta. Sorri grata pela gentileza, enquanto entrava no moderno sedã que tão rápido foi posto em movimento.
Lá fora, a delicada luz da lua, ainda crescente, desenhava no chão o contorno das árvores, conforme o vento parecia dar vida a eles ao balançar os galhos. A atmosfera noturna da colina era deixada para trás, à medida que nos aproximávamos das conturbadas ruas da cidade. O espírito livre e aventureiro dos jovens fazia das madrugadas, principalmente as dos sábados e domingos, quase tão agitadas quanto eram durante o dia.
Aos poucos deixávamos aquele alvoroço, e nos afastávamos mais uma vez. A escuridão retornou por mais uma parte do caminho, até pararmos em uma suntuosa construção neogótica. A porta do carro foi aberta, e uma mão me serviu de apoio.
Adentrei o Conselho de Draos sentindo uma efêmera nostalgia. Seu profundo corredor de mármore escuro, sustentado por dezesseis colunas e estrelado por abóbadas delicadamente talhadas em pedras claras, estava deserto, mas ainda assim, me trazia afáveis recordações.
Logo um cheiro picante e intenso se propagou no ambiente antes mesmo que seu dono, com toda sua presença imponente, magnetizassem os meus olhos. Seus traços marcantes demonstravam um divertimento genuíno através de um sorriso sedutor. Por breve segundos, o ambiente ao nosso redor se tornou quase imperceptível, um dos vastos efeitos de sua altivez.
― Creio que deveras tenha acontecido algo grave, visto que Eustáquio conseguira tirá-lo de suas partidas de pôquer. ― Caminhei até ele.
― Carissimi, meus sentidos agradecem por nublá-los com majestosa beleza e audácia. ― Seus lábios tocaram a minha mão e logo voltaram para seu sorriso galante. ― Todavia, preciso dizer o mesmo, quase não creio que ele conseguiu tirá-la daqueles livros.
Soltei um riso conciso.
― Pois bem, querido, então resolvamos isto logo para que eu possa voltar para eles. ― Com os olhos cintilando uma mal disfarçada astúcia, estendeu cordialmente seu braço para mim.
― Voltaremos para casa juntos. ― Apoiando-me nele, seguimos para a porta que havia no final do corredor.
Na sala de reunião, membros representantes de alguns clãs se encontravam dispersos, sentados à longa mesa ou ainda em pé em pequenos grupos de conversas. Ao notarem nossa presença, se levantaram e se viraram para nós curvando-se em deferência.
Como em uma imagem, todos se conservaram imóveis permitindo o quase silêncio se irradiar. No ar ainda perdurava os sons de suas respirações, dos corações acelerados e de suas ingestões secas. A paralisia se rompeu quando Vincent e eu os cumprimentamos com mesura, enquanto seguíamos em direção ao Eustáquio. Este, que estava parado no fundo daquela sala, caminhou até uma passagem lateral.
― Considero que o mais aconselhável seria verem primeiro, antes de qualquer pronunciamento a respeito ― disse ao abrir a porta, fazendo um gesto para passarmos.
Ele nos guiou até a escada no final do corredor, a descemos, e então seguimos para o observatório de corpos. Ao adentrá-lo fui tomada por um suave odor adocicado, no entanto, o que me reteve a atenção foi o que havia sobreposto na mesa de mármore existente no centro daquela sala.
Um cadáver inteiramente seco, com as orbitas oculares saltadas para fora e a boca tão aberta, que dava para ver facilmente suas presas baixas. Sua expressão refletia um profundo pavor e agonia, como se tivesse morrido asfixiado. O que era atípico, uma vez que seria impossível um vampiro morrer por tal modo. Sua pele se encolhera e grudara nos ossos como uma fina camada de tecido. Sem sinais de corte ou decapitação, ele parecia apenas ter secado daquela maneira.
― O coração? ― Olhei para o Eustáquio, que se mantinha ensimesmado e sequer ouvira minha pergunta. ― Eustáquio? ― Seus olhos se voltaram para mim. ― Não vejo cortes, o coração dele ainda está aqui?
― Oh, sim, sem cortes, e tudo está aparentemente no lugar.
― Muito bem, Eustáquio. O que aconteceu aqui e o que um cadáver tem a ver com o problema? Aliás, quantos anos tem este aqui? Uns quinhentos, talvez? ― inquiriu Vincent, visivelmente impaciente.
― Esse cadáver é de um vampiro que foi morto há apenas algumas horas, majestade. ― Meu adorável marido me lançou um olhar tão questionador quanto cético.
― Há certeza em suas palavras? Já possui informações básicas sobre ele? ― Vincent insistia em respostas mais efetivas.
― Possuo absoluta certeza, mandei averiguar. O Conselho foi contatado por outro vampiro que dizia ser amigo da vítima. Entramos em contato com o clã Vardanyan, o qual pertencem, levantamos o histórico de ambos, e ele ― disse apontando para o corpo ―, estava vivo ontem. Temos algumas filmagens da rua do Ouvidor, em que os mostram próximos ao local do ocorrido.
― E por que foi esse vampiro que entrou em contato, e não o próprio clã?
― Eles não sabiam do ocorrido, o líder, Desiderius Vardanyan me asseverou. Já o rapaz, creio que ficou tão contérrito que buscou de imediato a nossa ajuda.
Aproximei-me um pouco mais do corpo para apurar a existência de alguma incisão pelo crânio, a qual atestei não haver nenhuma. Porém, descobri outro detalhe que quase passara omisso. A essência doce que eu sentia desde que entrara naquela sala, era exalada pelo corpo.
― Esta olência ― inspirei profundamente ―, não me é estranha.
― Me parece odor de rosas ― declarou Vincent ao se aproximar e replicar o mesmo gesto.
― Por que um vampiro morto exalaria uma essência de rosas? ― indaguei pensativa, os fatos ficavam cada vez mais incomuns. ― Somente fadas exalam naturalmente este cheiro.
― Talvez uma fada tenha sido a causa de sua morte. ― O momento era inoportuno para qualquer tipo de escárnio, contudo, Eustáquio parecia estar convicto de suas palavras.
― Ora, meu amigo. No dia em que uma fada puder fazer algo assim, nossa raça estará em grande perigo ― Vincent gracejou, mas sua asserção era adequada.
Nenhuma fada seria capaz de tal feito. O fim daquele vampiro estava além de qualquer aptidão que pudessem ter. Elas eram seres doadores de luz, doadoras da vida que mantinha a natureza em inteira harmonia, e quando usavam seus poderem para se defenderem de algum inimigo, não eram capazes de secar o corpo até sua morte.
Era certo que aquela conjuntura não fazia nenhum sentido. Ao tentar buscar em minha longínqua mente alguma ocorrência parecida, reconheci que nunca vira nada igual em toda a minha existência. Vampiros só morriam se queimados até virar pó, decapitados, ou se seus corações fossem inteiramente arrancados de seus corpos.
― Sua prognose não é cabível, Eustáquio. Pressuponho que pode ter sido uma bruxa com algum feitiço que envolva essência de rosas. ― Olhei para Vincent. ― Possível, não?
― Possível, porém, para este fim ― referiu-se inclinando o queixo em direção ao corpo ―, envolveria magia oculta.
― Também não faz sentido. Avigayil proibiu o uso de magia das trevas há séculos. ― Caminhei até o outro lado da sala, ainda reflexiva. ― Eustáquio, o tal amigo, o qual você proferiu, relatou mais algum detalhe?
― Certamente. Ele presenciou tudo, e nos relatou uma história verdadeiramente excêntrica. Creio que vocês irão apreciar ouvi-la. ― Ele se dirigiu até a porta nos indicando a passagem.
O acompanhamos até seu escritório, onde um vampiro aparentemente jovem, se mantinha sentado em um sofá com as mãos sobre o rosto e os cotovelos apoiados nos joelhos. Notando a nossa presença, rapidamente ele se colocou de pé com os olhos azuis estufados em espanto, visivelmente confuso e perturbado.
― Reverência, por favor ― Eustáquio pigarreou fazendo o rapaz olhá-lo ainda mais pávido.
― E... E... Eles são...
― Sim, eles são. Agora demonstre respeito ― o interrompeu em uma exigência ríspida e no mesmo instante o jovem vampiro jogou-se de joelhos ao chão com a cabeça baixa e o tronco arqueado à frente.
― Majestade, majestade, me desculpem, eu não sabia!
― Levante-se, rapaz, e apresente-se ― ordenou Vincent ao puxar uma das cadeiras que ficavam em frente à densa mesa de madeira.
O vampiro se levantou ainda permanecendo de cabeça baixa, parecia estar com medo até de sua própria sombra.
― Me chamo Edvard, tenho vinte e um anos como humano e cinquenta e três transformado por Gedros, vigésima sétima cria de Desiderius Vardanyan.
― Sente-se, Edvard. ― Vincent indicou a cadeira. ― Conte-nos o que aconteceu com o seu amigo.
Os olhos claros no rapaz se anuviaram em desespero. Em um gesto aflito, passou as mãos sobre seus longos cabelos emaranhados, e só então se sentou. Seu relato se iniciou em meio a muitas pausas atormentadas, ratificando com clareza sua pouca idade e sua íntegra falta de experiência.
Ouvimos atentamente toda a história. Em palavras simples, descreveu uma jovem loira, muito bonita, e que exalava um cheiro doce como a assassina de seu amigo. Alguns dos fatos eram tão fantasiosos que designavam efetivamente, uma fada como responsável. Logo entendi a suposição insensata de Eustáquio.
Eu ainda me mantinha cética em relação à veracidade dos eventos. O garoto poderia estar mentindo ou ainda assustado demais para se lembrar do que deveras tenha acontecido. Sentei-me na cadeira à sua frente, então pedi para que ele me olhasse nos olhos. Hipnotizando-o, ordenei que repetisse a história com precisão de detalhes.
Todo o acontecimento foi recontado confirmando sua versão anterior. Uma profusão de pensamentos incongruentes e difusos se alastraram como a escuridão em minha mente. Nenhum deles eram coesos ou se condiziam.
Estava certa de que poderia ter sido uma bruxa, mas estas detêm um modo específico de usar seus dons. Elas necessitam de um objeto para canalizar a energia e sempre proferem algumas palavras para invocar e propagar algum elemento da natureza em forma de magia. Estas também possuem o cheiro intenso e fresco de ervas e seu sangue conserva um leve palato azedo. Já as fadas são as únicas a possuírem o cheiro e gosto doce, a sua luz é natural, intensa e silenciosa, assim como o garoto descrevera o dom da tal jovem loira.
Era indubitável que o vampiro tivera uma conduta sórdida, a qual o levou à morte. Contudo, esta ocorrência não afastava a perspectiva de um provável perigo, não só aos vampiros, mas como também às outras raças. Era necessário descobrir o que e quem era aquela jovem o mais breve possível.
― Nora? ― chamou-me Vincent enquanto eu me abstraía em minhas observações. ― Compartilhe comigo os seus pensamentos.
Olhei à nossa volta e estávamos sozinhos. Eustáquio dispensara e acompanhara o vampiro para fora do escritório.
― Devemos ir ao Conselho de Ordem ― declarei.
― Acredita realmente ser necessário?
― Diante dos fatos que nos foram revelados ainda não possuímos conhecimento do que é esse ser. Nunca presenciamos nada igual, portanto, se torna algo inescrutável. O que nos assegura que não irá acontecer novamente? Até mesmo com outra espécie? Não é um infortúnio só nosso, Vince. E sei que isso também é de sua percepção.
― Aquiesço. ― Um suspiro lamentoso lhe escapou. ― Irei marcar uma reunião no Conselho para o mais breve.
Carissimi – do latim, querida.
Tailleur – roupa feminina composta por saia e casaco.
Scarpins – é um sapato de salto que esconde dos dedos dos pés e é fechado na parte detrás.
Eleonora Skarsgard
Vincent Skarsgard
Eustáquio Isadore
Edvard Vardanyan
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