C A P Í T U L O 21

A vida sob novas convicções

          A estranha sensação de que nada mais seria tão simples na minha vida, estava presente em todos os meus suspiros. Eu me sentia exausta e a semana parecia nunca ter fim. Não que eu desejasse a chegada do sábado, mas a espera estava sendo torturante. A minha vontade era resolver qualquer problema que tirara a minha paz o mais breve possível, embora soubesse que nada mais seria como antes. Querendo ou não, eu teria algumas obrigações com o Conselho de Aiden, mas isso já não era mais o pior dos problemas.

          É engraçado como certas coisas sobrevieram à minha vida para me fazer crescer. Era como se, da noite para o dia, o meu senso de existência surgisse, e junto dele, a percepção, a razão, a responsabilidade, o discernimento, tornando-os indispensáveis às minhas decisões. Comecei a refletir, e quase não pude crer em como sobrevivi por tanto tempo em um mundo tão fechado e moldado pelo medo.

          ― O que está acontecendo? Você anda muito distraída essa semana. ― Desviei os olhos da direção para a Mel.

          ― Como assim distraída? Não está acontecendo nada ― murmurei, sem dar importância. Eu ainda não havia tido coragem o bastante para contar a ela sobre a confusão que estava a minha vida.

          ― Está sim, você está aérea, aposto que nem sabe sobre o que eu estava falando. ― Fiz uma careta para ela, porque eu realmente não estava prestando atenção. Desde que havíamos saído da Wedo, ela não parava de falar, devo ter me perdido em algum momento. ― Tem homem na jogada, não tem? Quem é o dono dos seus pensamentos? Por acaso é o Alex?

          ― Estava demorando... ― Virei os olhos. ― Nem começa, dona Melissa. Você estava falando que o Benji viajou...

          ― Eu falei isso a duas horas atrás! ― exclamou estreitando os olhos, revoltada, o que me fez rir. ― Eu estava falando do aniversário do Fred, poxa. Você vai, não vai?

          ― Vai ser sexta-feira agora, não é? ― Ela falou um longo "sim" e eu quase tirei as mãos do volante para tapar a boca dela. ― Não sei, Mel. Não gosto de bar.

          ― Quem disse que vai ser em um bar? Ele não te entregou o convite? ― Eu até tinha recebido o convite, mas nem tinha me dado o trabalho de olhar direito. Fred era o típico publicitário que adorava comemorações, tudo era motivo para uma, e geralmente aconteciam em algum bar. Quase toda semana aparecia sobre a minha mesa um convite dele para alguma confraternização, mas nunca fui em nenhuma delas. ― A festa vai ser naquela boate de luxo chamada RedDoor, conhece?

          ― Não, nunca ouvi falar. Isso é uma boate comum mesmo? Com esse nome, não sei não. ― Ela soltou uma gargalhada.

          ― Boba. Até onde eu sei, é apenas uma boate de luxo. Ouvi dizer que tem uma fila de espera de meses, mas como eles são clientes do Fred, o sortudo conseguiu essa vaga pra fazer o aniversário lá. Você vai comigo, não vai? Advinha quem vai estar lá? ― Dado o sorriso malicioso dela, eu tinha certeza de que falava do Alex.

          ― Eu já não ia, agora que não vou mesmo.

          ― Ah... para com isso, Li, por favorzinho. Essa será a nossa única chance de conhecer essa boate. Além do mais, você precisa se divertir um pouco, ou tem pretensão de entrar para um convento? Aliás, existe convento de fadas? ― Mel realmente parecia pensar sobre. Ri do seu ar indagador e confuso.

          ― Não chamamos de convento, é somente um retiro de culto à Aine. E apenas fadas mais velhas podem entrar.

          ― Ah, menos mal, eu temia por você, amiga. ― Ela riu dando um tapinha em meu ombro. ― Olha, você tem que ir pra cuidar de mim. O Benji está viajando, e ele só me deixou ir, porque eu disse que você iria comigo. Ele sabe que você é a minha única amiga e a melhor de todas! ― Mel juntou as mãos fazendo um coraçãozinho enquanto piscava várias vezes.

          ― Mentirosa, acha mesmo que não te vi de papo íntimo com a Helga? ― Ela me lançou seu melhor olhar indignado.

          ― Eeeuuuu?

          Não aguentei, e voltei a rir.

          Prometi para ela que pensaria sobre. Eu não gostava de boates, apesar de ter ido a uma delas uma única vez. Mas aquela semana estava sendo tão difícil que, no fundo, até senti vontade de ir só para estar em companhia da Mel, pois sabia que daria boas risadas e acabaria esquecendo um pouco tensão que estava vivendo.

          A deixei na porta do prédio em que morava, e uma hora depois, eu já estava em casa de banho tomado, jogada na cama me decidindo se iria ou não, jantar. Jantar... Recordações irritantes do sábado anterior começaram a me perturbar, e junto delas voltaram as expectativas aflitivas do que ocorreria dali a dois dias.

          Será que ele se atrasaria de novo? Ou melhor, será que ele iria? Não importava. Eu mesma só iria àquele noivado para conversar com Avigayil e saber qual o próximo passo que deveria ser dado. Mas e se ele fosse? Não tínhamos mais nada o que conversar, portanto, não precisaríamos ficar perto um do outro. Mas talvez fosse interessante tentar ter outro diálogo... Não!

          ― Não vai jantar? ― Louise apareceu na porta com um sorriso protetor.

          ― Não estou com fome ― confessei. Meu apetite não estava dos melhores naquelas últimas semanas, uma vez que, meu estômago parecia estar constantemente revirado pela ansiedade.

          Ela franziu a testa, e então se aproximou.

          ― Acha mesmo que tive aquele trabalhão todo na cozinha para a senhorita me dizer que não vai comer? Não mesmo, mocinha. Olhe só para esses ossinhos expostos! ― Ela cutucou minhas costelas me fazendo dar um pulo com cócegas, o que me arrancou algumas risadas. ― Vem, vamos jantar.

          Recusar alguma comida feita por Louise era uma afronta, a qual ela já havia suportado com pesar quando passei pela crise da descoberta do contrato. Não me restou outra saída a não ser acompanhá-la, e aproveitar sua deliciosa torta de frango. Apesar de não ter fome, me esforcei para comer pelo menos um pedaço pequeno, enquanto a Sophi, comera três bem grandes, o que a deixou muito feliz.

          Após o jantar, minha avó e eu voltamos ao meu quarto para mais uma sessão do nosso treinamento. Desde a semana anterior, ela vinha me ensinando a controlar e a distanciar os meus poderes das minhas emoções. Eu já estava sentindo uma diferença significativa, e a prova disso, era o quanto consegui me controlar perto daquele vampiro.

          Anton me indignou tanto que se fosse antes dos treinamentos, provavelmente eu teria exposto a minha luz, para não dizer que não teria conseguido controlar a mesma ao ponto de atingi-lo. A pergunta que não abandonava os meus pensamentos, era como que ele podia ser tão diferente dos pais. Não havia vestígios de remorso ou culpa tal como vi nos olhos de Eleonora, e até mesmo de Vincent.

          Nem a sua beleza impressionante disfarçava a névoa tenebrosa que emanava dele. Parecia até que um detalhe complementava o outro, em um conjunto realmente exótico. Mas, afinal, quem não era exótico naquela família? Impossível não me sentir diferente perto deles. Concluí que todas as sensações incontroláveis do meu corpo, ao tê-lo por perto, não era um efeito só dele. Não poderia ser.

          ― Você está se esquecendo de respirar, princesa. ― Abri meus olhos devagar, dando de cara com uma Louise observadora.

          Nós estávamos sentadas na cama em posição de lótus, uma de frente para a outra. Ela olhava intrigada para a minhas mãos abertas para cima, das quais emanavam uma luz de uma cor rosa bem escura, talvez, vermelha.

          ― Hum... luz vermelha? No que está pensando, heim, mocinha? ― Seus olhos brilharam divertidos. Um pouco maliciosos, mas acho que era o reflexo da minha luz neles.

          ― Raiva, só estou com raiva, vó.

          Estávamos em um dos bairros nobres da cidade. As enormes casas eram bem afastadas umas das outras, com uma imensa quantidade de verde entre elas. Era um local um tanto estranho para se existir uma boate, o que me fazia ficar cada vez mais apreensiva à medida que o movimento das ruas diminuía, e as distâncias entre as propriedades aumentavam.

           Espiei o taxista pelo retrovisor, e o mesmo parecia estar bem concentrado na direção. Já a Mel, que estava ao meu lado, digitava algo no celular sem qualquer preocupação sobre o fato de estarmos sozinhas em um táxi em um lugar totalmente suspeito.

           ― Tem certeza de que é aqui? ― sussurrei pousando a mão em seu braço. Ela me olhou confusa por alguns segundos, depois voltou sua atenção para fora do carro.

          ― Senhor ― chamou ela, cutucando o ombro do motorista. ― Tem certeza de que é aqui? Veja bem, queremos ir à uma boate, e esse aqui parece ser um bairro residencial.

          ― Pode ficar tranquila, moça, estamos no lugar certo. Já vim buscar um passageiro nessa boate.

          ― É bom mesmo, não vamos pagar corrida extra. ― O motorista riu, e só coube a mim um olhar perplexo. Mel realmente estava preocupada com a taxa extra enquanto o taxista podia ser um assassino psicopata?

         O arrependimento por ter ido de táxi já estava apontando, quando por fim, ele parou em frente a um grandioso muro preto. Para o alívio da minha inquietação, era possível ver sobre ele um letreiro prata sombreado por uma intensa luz vermelha, escrito "RedDoor".

          Um segurança de terno preto se aproximou, e a janela ao meu lado fora automaticamente abaixada pelo motorista. Descendo a cabeça até ela, o homem nos analisou por um tempo, antes de nos mandar seguir. O portão que estava à frente fora aberto rápido, e logo trilhávamos uma estrada estreita guiada por algumas estátuas de pedra.

          Não que eu tivesse conhecimento sobre boates, mas sabia que aquela ali estava longe de ser uma comum. Era uma mansão colossal, de no mínimo três andares. Seus tons fluíam do cinza ao preto, com destaque somente para os detalhes das janelas e as portas que eram vermelhas.

          Assim que o táxi parou no limite da estrada com o retorno, pagamos pela corrida, e então descemos. Praticamente em cada degrau da escada que levava até as suntuosas portas, existia um segurança. Alguns deles eram vampiros, mas suas energias não eram nada se comparadas às energias dos Skarsgard. Talvez seja por isso que nem me importei com esse detalhe. Algumas pessoas estavam paradas por ali, outras eram guiadas até uma das entradas, e ainda tinha duas mulheres que estavam enfurecidas com outra que parecia ser funcionária do local.

          ― Uau... ― Mel suspirou, examinando tudo com a precisão de um radar. Subitamente ela se virou para mim, ajeitando o vestido moderno de paetês pratas. ― Como estou? Eu sabia que o local era chique, mas não imaginei que seria tanto.

          ― Você está linda. ― Ajustei um de seus brincos que estava virado. Ela jogou o longo cabelo escuro para o lado, abrindo um sorriso reluzente.

          De fato, ela estava linda e combinava com o lugar. Já eu, não tinha muita certeza se estava apropriadamente vestida. Agradeci por não ter me entregado a vontade de pôr uma calça jeans, em vez dela, escolhi uma calça justa de cós alto estilo alfaiataria, na cor pérola. Só me incomodava a blusa de renda preta, era simples, e decotada demais.

          ― Convites, por favor. ― Uma morena alta, muito bem vestida e maquiada, pediu ao se aproximar.

          ― Somos convidadas de Frederico Roriz. ― Mel se adiantou, enquanto entregávamos nossos convites a ela.

           A mulher também pediu nossos documentos pessoais, os examinou, e então voltou-se para o tablet em suas mãos. Passados alguns instantes de uma minuciosa busca em seu aparelho, ela nos devolveu os convites e documentos indicando a porta vermelha que ficava do lado esquerdo. Achei esquisito, já que todos que tinham a passagem liberada, eram guiados para a que ficava do lado direito.

          Subimos as escadas, e um dos seguranças abriu a porta revelando uma suntuosa recepção. Entrei primeiro e tive de puxar a Mel que ficou parada olhando tudo de cima a baixo. Não podia culpá-la, não tinha como não ficar maravilhada com todo o luxo ostentado ali.

          O chão era forrado por um carpete preto, enquanto as paredes pareciam ser cobertas com veludo vinho, e sustentavam pequenas luminárias negras que projetavam desenhos abstratos, e que combinavam com o grande lustre de mesma cor. Já o balcão e o jogo de sofás que existiam ali, eram rebuscados e opulentos, em uma mistura exagerada de preto e vermelho.

          Outra morena alta, tão maquiada e tão bem vestida quanto a anterior, se aproximou e, novamente, nos foi pedido os convites e os nossos nomes. Depois de conferi-los na lista, entregou para cada uma de nós uma pulseira vermelha de silicone com algo que parecia ser um chip.

          ― Apresentem a pulseira aos garçons todas às vezes que forem consumir algo. Algumas bebidas não são inclusas no pacote do aniversariante, e se caso optarem por alguma delas, precisarão pagar na saída. Lembrando que a área RED não está inclusa no pacote, e essa pulseira se limita apenas à área VIP. No entanto, vocês também poderão ir para a área comum que fica na parte inferior. ― A morena, que mais parecia um robô falando, abriu um sorriso mecânico. ― Sejam bem-vindas, e entreguem-se à noite.

          A segunda porta foi aberta expondo um ambiente escuro e desabafando um som agitado, porém, agradável. O ar frio acompanhado de um cheiro apimentado nos envolveu, e eu pude sentir uma mistura de energias extravagante que, curiosamente, se harmonizava com o ambiente e revelava a presença de todas as raças ali.

          Ao contrário da recepção, todo o conjunto de dentro era completamente preto, mas tão luxuoso quanto. Um arranjo incrível de texturas, iluminação, e arte compunham a beleza do local. Sofás aveludados dispostos nos cantos ao lado de poltronas encouradas, sombreados por pontos de luz languidos e estratégicos, que davam toques de dourados à decoração. No centro, um bar em ilha dividia o amplo recinto em dois.

          ― O Fred está lá. ― Mel apontou para um dos sofás que ficavam após o bar.

          Enquanto nos aproximávamos percebi que, com exceção dos irmãos Landon e de alguns poucos publicitários, todos da Wedo estavam presentes. Não pude deixar de sentir um alívio por não ver o Adam ou o Alex ali, pelo menos eu teria uma noite livre de tensão.

           Fomos recebidas com abraços e beijos de um Fred eufórico, em uma típica embriaguez inicial. Me surpreendi quando ele nos apresentou seu namorado, não que eu não soubesse que ele era gay, mas ele parecia ter o espírito livre do tipo que não se apegava a convenções e rótulos como o de um namoro.

          ― Fiquem à vontade, gatas ― falou ele nos entregando um cardápio revestido por couro.

           Assim que terminamos de cumprimentar o pessoal, eu mal me sentei no sofá e a Mel, transbordando animação, me puxou. Pensei que estávamos indo dançar, quando me dei conta de que ela me arrastava para o bar. O que era desnecessário, já que existiam garçons transitando por todas as partes, de um canto a outro.

          ― Você podia ter pedido algo a um dos garçons, sabia? ― Ela fez uma careta.

          ― E perder a oportunidade de conhecer esse bar maravilhoso? Não mesmo. ― Mel sorriu e se virou para frente, onde já tinha um barman a postos. ― Uma margarita blue, por favor.

          Após fazer um movimento de quem tinha anotado mentalmente o pedido, ele voltou os olhos para mim.

          ― Só uma água com gás ― pedi, Mel me encarou boquiaberta, e eu só levantei os ombros. ― Uma de nós duas tem que se manter sóbria.

          Ela fez um gesto com a mão para o barman.

          ― Esquece a água, traz uma margarita pra ela também. ― Eu estava pronta para protestar, mas fui interrompida: ― Não pira, Li. Nenhuma de nós está dirigindo hoje pra se preocupar com isso. Além do mais, estamos entre amigos, então relaxa.

         Talvez ela tivesse razão, eu precisava relaxar.

          ― A propósito, por que a Sophi não veio?

          ― Porque uma vez por semana ela presta serviço social a esses grupos de apoio, e acabou que a reunião dessa semana caiu logo hoje. De qualquer forma, muito provável que ela não poderia entrar aqui sem um convite.

          ― Se o problema fosse só o convite, daríamos um jeito. Mas é uma pena, pensei que a conheceria hoje ― disse curvando os lábios para baixo em sua melhor caricatura triste.

          No mesmo instante o barman colocou no balcão à nossa frente, dois drinques refinados de um azul quase neon, em seguida, um sensor fora passado em nossas pulseiras de silicone. Mel se apossou da taça e tomou aquilo como se fosse a melhor coisa do mundo. Certamente que por sua ascendência mexicana, ela era acostumada com tequila, mas o drink à base dessa bebida era péssimo, forte demais, amargo demais.

          Minutos depois, quando Mel já estava com sua segunda margarita em mãos, fui arrastada para o centro do lugar, onde algumas pessoas dançavam empolgadas. Ela me puxou para perto dela, elevou minha mão me fazendo dar um giro, enquanto sorria e se remexia no ritmo da música. Me deixei levar, ora tentando absorver os passos que ela ensinava, ora fechando os olhos e permitindo as vibrações me envolverem.

           Reparei que o sorriso dela ficou maior, para então me lançar uma piscadela. No segundo seguinte comecei a sentir uma presença atrás de mim, e tão logo veio um sussurro em meu ouvido. 



Frederico Roriz




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