C A P Í T U L O 18

A beleza da escuridão

          Fechei os olhos permitindo a água cair sobre a minha cabeça, meu rosto, pescoço e seios. Aos poucos as bolhas de sabão escorregavam pela minha pele e iam embora pelo ralo. Apoiei a testa no azulejo sentindo o calor escorrer pelas minhas costas, aliviando um pouco da tensão que me aprisionara o dia todo.

          Dei meu último suspiro relaxado fechando o chuveiro, e após retirar o excesso de água dos cabelos, me enxuguei calmamente, até que um barulho vindo do meu quarto me chamou a atenção. Me enrolei na toalha e saí do banheiro. Parecia que um tornado tinha passado por lá, havia várias peças de roupas sobre a minha cama e alguns pares de sapatos no chão.

          ― Até que enfim terminou esse banho! ― reclamou Sophi saindo do meu closet com um vestido nas mãos. ― Você ainda precisa secar seu cabelo, e só faltam duas horas pro jantar.

          ― Posso saber o que significa isso? ― Coloquei as mãos na cintura, analisando a bagunça que ela estava fazendo.

          ― Vim te ajudar a escolher sua roupa, porque sei que se deixar por sua conta você vai de calça jeans. ― Ela colocou o vestido na minha frente, o examinando.

          ― Tá, eu tinha separado uma calça jeans, mas a blusa é de renda branca, muito linda, por sinal. ― Sophi me lançou um olhar incrédulo, antes de balançar a cabeça negativamente. ― Sophi... não quero me sentir ainda mais desconfortável.

          ― Minha amiga, é o primeiro encontro com o seu futuro marido, um vampiro de três mil anos, portanto, você não pode estar menos que inesquecível.

          ― Você não está ajudando me lembrando disso, sabia? ― Me joguei na poltrona sentindo o surto de ansiedade voltar com toda força. ― Além do mais, ainda não me decidi, então, ele não é meu futuro marido.

          ― Isso não importa. Estudos comprovam que a primeira impressão é a que fica. Você já é perfeita, com a roupa certa, ficará mais que incrível. ― Ela levantou um vestido de renda vermelho. ― Que tal este aqui? Da cor de sangue, vai ficar irresistível. Tenho certeza que esse vampi vai comer na sua mão.

          ― Ou comer a minha mão...

          Ela soltou uma gargalhada, e eu tentei segurar, mas não consegui e comecei a rir junto com ela. O nervosismo tomando conta, o coração ficando apertado e uma crescente vontade de gritar. Quando a crise de riso terminou, já tinham lágrimas correndo incessantes pelo meu rosto.

           ― Ah, não fica assim, Li. ― Sophi me abraçou. ― Vai dar tudo certo, você só está indo conhecê-lo, isso não quer dizer que já está de casamento marcado.

           ― Eu não queria nada disso, eu não queria...

           ― Shhh... ― ela se afastou, e enxugou as minhas lágrimas. ― Eu sei que não queria, mas você é tão especial, tão forte, que os Deuses escolheram você para passar por isso.

           ― É tão injusto...

          ― Sei que é, mas lembre-se do que eu te disse, concentre-se nos pontos positivos. Tente ver o lado bom das coisas, pois ele, além de acalmar o seu coração, vai atrair outras coisas boas. Talvez, é aí que vai estar a sua verdadeira felicidade, mas você precisa estar aberta para enxergá-la. ― Depois de me dar um beijo na bochecha, ela se levantou. ― Vem, vamos escolher a sua roupa.

          Pontos positivos, coisas boas. Respirei fundo tentando não pensar em mais nada.

          Uma hora depois, meu cabelo já estava seco e modelado em ondas suaves. Em meu corpo, um vestido de renda rosé me delineava os seios, marcava minha cintura e descia levemente rodado até a metade das coxas. Já em meus pés, uma sandália delicada de tom neutro completava o arranjo escolhido pela Sophi.

          Após várias discussões, consegui fugir dela e me trancar no banheiro para que eu mesma pudesse fazer a maquiagem. Caso contrário, eu iria ao jantar parecendo uma boneca de circo. Agilizei todo o processo só com um realce delicado em meus olhos, e um leve brilho labial.

          Quando voltei para o quarto, Sophi terminava de arrumar a bagunça que fizera na minha cama. Ela se aproximou com um olhar analítico como se estivesse conferindo meu trabalho. Ajeitou as ondas dos meus cabelos e então deu um passo para trás.

          ― Nada mal, você está perfeita.

          ― Por que você não quer ir comigo? ― indaguei entristecida.

          ― Porque é um jantar íntimo demais. Não envolve só duas famílias, mas também só duas raças. ― Sophi contraiu os lábios em um sorriso carinhoso. ― Somos irmãs, mas não sou uma fada. ― A abracei forte.

          ― Pronta, princesa? Seus pais já chegaram. ― Minha avó apareceu na porta, toda elegante trajando calça de linho e camisa de seda perolada.

          ― Sim ― respondi com um suspiro resoluto.

          ― Boa sorte! ― Sophi segurou a minha mão. ― E se o desespero bater, lembre-se das minhas palavras, ok? ― Fiz que sim com a cabeça me esforçando para não chorar.

          Louise e eu seguimos para o elevador. Meus pais nos esperavam no carro, porque já estávamos atrasados. O barulho das portas metálicas se fechando me causaram uma leve pressão no peito, fazendo com que eu apertasse minha bolsa de mão nervosamente. Olhei para a minha avó ao meu lado, que se encontrava pensativa.

          ― O que a senhora acha que devo fazer? ― Minha apreensão fez com que tais palavras saíssem da minha boca antes que eu pudesse impedi-las. Evitei ao máximo fazer essa pergunta para a minha avó, pois sabia que a escolha era um fardo só meu, e não era justo colocá-lo sobre ela, mas eu estava apavorada.

          Louise me olhou com um olhar doce, o qual eu sabia reconhecer que era só uma ilusão para esconder seu receio tão intenso quanto o meu. Seu braço me envolveu os ombros em um abraço apertado, e então um beijo fora dado em minha testa.

          ― Faça apenas o que o seu coração mandar. Vou apoiá-la em qualquer decisão. ― Sua voz soou calma, suave, mas marcaram meu coração profundamente. Talvez eu ainda tivesse a esperança de que ela pudesse me dizer o que fazer, e com certeza eu faria, mesmo que sua sentença fosse para eu me casar.

          Ao sair do prédio nos deparamos com o carro do meu pai estacionado logo em frente à entrada. Ele e Ava nos aguardavam próximos à porta, abraçados como esses casais de capa de revista. Se cada um já era lindo sozinho, juntos, ficavam perfeitos.

           ― Ainda dá tempo de desistir ― falou Petre ao me dar um abraço, sem se preocupar em esconder o tom aflito de sua voz.

           De todos, ele era o único que ainda não tinha aceitado aquela situação. Não que meus avós e minha mãe tivessem aceitado, mas eles compreendiam que a escolha cabia só a mim, e que não podiam intervir. Quanto ao meu pai, demorou um tempo para assimilar tudo, foram várias conversas com Ava e meus avós, e ainda assim, ele ficara relutante.

          ― Petre, querido ― minha mãe interferiu olhando para ele como se pedisse para que não retomasse todas as discussões.

           ― Só quero ouvir ela, Ava. ― Petre passou sua mão pelo meu rosto carinhosamente, enquanto olhava no fundo dos meus olhos. ― Você tem certeza de que quer ir, minha filha? Quero que saiba que não precisa fazer isso. Já falhei uma vez em te proteger, mas isso nunca mais vai acontecer, porque eu não deixarei que nenhum mal te aconteça. Desista dessa história, vamos encontrar outra solução, e estarei ao seu lado.

          Meus olhos começaram a arder, lágrimas se formaram e ameaçavam cair na frente dele, mas eu não podia. Não queria dificultar mais as coisas, não queria deixá-los ainda mais tristes e angustiados. Naquele dia, vi de perto a dor das lembranças e do desespero em seu olhar. A culpa fora substituída por uma necessidade irreprimível de me proteger.

           Só que era tarde demais para isso. Eu não o julgaria, não voltaria ao passado para alimentar as nossas dores, o meu presente já estava confuso o bastante para suportar. Apoiando minha mão sobre a dele em meu rosto, suspirei fundo, ensaiando mentalmente um autocontrole para que minha voz não tremesse, e as lágrimas não caíssem.

          ― Tenho, vamos.

          Ele me soltou ainda resistente, um tanto arrasado. Me virei para o carro com uma urgência suspeita. Minhas lágrimas já escorriam.

           O clima dentro do carro não ficara tão tenso porque minha avó começou a contar algo sobre o seu filho mais velho, o tio Ivo, com a intenção de distrair meus pais, enquanto eu, observava pela janela o brilho da cidade movimentada. Ao mesmo tempo que via e ouvia, era como se não visse ou escutasse nada. As imagens e os sons surgiam e sumiam em segundos, como se eu fosse um objeto inanimado.

          Minha avó me despertara com um toque em meu braço, só então me dei conta de que havíamos chegado à casa dos Skarsgard. Saí do carro me certificando se o decote do vestido não mostrava demais, e se parte de baixo estava alinhada. Quando elevei minha cabeça, uma intensa tonalidade vermelha vinda da fonte me chamou a atenção.

           Das mãos do ser de pedra em seu centro, escorria água, que iluminada por uma luz vermelha, aparentava ser sangue. o feixe acarminado caía sobre o mármore e borbulhava o mesmo tom, parecendo uma piscina sombria, sangrenta, que poderia me engolir a qualquer momento. As palavras de Eleonora ao se referir àquela estátua, voltaram à minha mente, "Sua beleza está na noite.". Aquela era a beleza a qual ela se referia? Para mim, aquele ser só se tornada ainda mais horripilante.

           Apressei meus passos em direção à escada da casa, onde Louise e meus pais me esperavam, já que se negaram a sequer olhar para a fonte. Juntos caminhamos até a porta, e antes que pudéssemos bater, ela fora aberta pela vampira que eu conhecia como Judite.

          Ela nos cumprimentou com a mesma cortesia e atenção, abrindo passagem para entrarmos. Um tremor percorreu o meu corpo quando, ainda na antessala, comecei a ouvir vozes acompanhadas de uma intensa energia vampírica no ambiente.

          Tomada pela ansiedade, meu coração disparou. A apreensão se misturava a uma euforia estranha, uma intensa curiosidade pelo que estava por vir. Me sentia caminhar para um abismo, à medida que seguíamos para sala. Aos poucos, as vozes ficavam mais altas, a eletricidade do ar mais forte, até que Judite diminuiu os passos para então sair da minha frente.

          Repentinamente, o silêncio pairou no ambiente.

          Em uma análise rápida, vislumbrei mais três vampiros e duas vampiras além de Eleonora e Vincent. Esta, que quando dei por mim, já estava na minha frente me abraçando calorosamente.

          ― É um deleite revê-la, querida. Você está esplendorosa.

          ― Obrigada ― agradeci com um sorriso tímido.

           Logo ela se afastou para cumprimentar minha avó e os meus pais, então foi a vez de Vincent me saudar com um beijo na mão e um sorriso tão radiante quanto um feixe de sol entrando pela janela. Ele estava mais relaxado e descontraído do que a primeira vez que eu o vi.

          Após me fazer um delicado elogio, Vincent se afastou dando lugar a outro vampiro que, aparentemente, não parecia ter mais que vinte anos. Ele não lembrava nenhum dos anfitriões da casa, o que me fez pensar que ele não seria o filho deles. O rosto pálido do jovem era mais fino, comprido, marcado por cabelos escuros e lisos jogados na testa. Seus olhos eram de um verde-escuro que tinham um brilho jovial e perspicaz.

           ― Fadas são seres realmente gloriosos. Não me recordo de ter visto tanta beleza em um único ser. ― Sua voz soou com um leve sotaque que lembrava o do Sr. Landon em algumas palavras. Será que ele era Britânico também? Uma de suas sobrancelhas se elevou junto de um dos cantos de sua boca. ― Encantado, sou o Nicolae.

          Fiquei tão hipnotizada pelo seu sorriso sedutor, que demorei perceber que sua mão estava estendida para mim. Ao segurá-la, me senti oscilar diante do frio que se apossou das minhas entranhas. Com seu toque macio, ele virou a palma da minha mão para cima, e então, em um movimento lento e sem retirar os olhos dos meus, se curvou levando os lábios até o meu pulso. Senti sua respiração profunda e quente na minha pele, antes dele fechar os olhos e inspirar com ânsia o meu cheiro.

          O que era aquilo? O conflito de sensações não me permitiu reação alguma. Eu estava assustada, mas também fascinada com as singularidades daquele vampiro. Até pensei em puxar o meu braço, mas não queria parecer medrosa.

          ― Liz, igualmente ― sibilei com um fio de voz, tentando disfarçar com um sorriso, toda minha inquietação.

          ― Vá com calma, brother, a noiva não é sua. ― Uma mão pousou sobre o ombro do tal Nicolae, e a minha atenção fora integralmente tomada para o dono dela. 

          Um ser lindo, de pele marfim, cabelos escuros e olhos azuis claríssimos assim como os de Vincent e Eleonora. De repente o ar se tornara pouco, quase inexistente. Era ele? O meu coração falhara quando o vampiro se colocou à minha frente. Ele parecia ser mais velho e era mais alto e corpulento do que o Nicolae. Ombros largos marcados pela camisa preta evidenciavam um físico que parecia ser atlético, e os traços do seu rosto eram mais angulares e marcantes.

          Seus olhos levemente estreitados, me perscrutaram com astúcia antes de se fixarem nos meus, então, sua mão pairou aberta à minha frente. A segurei incapaz de conter meu tremor, a respiração ficando presa em minha garganta. Um sorriso enviesado, um tanto malicioso, apareceu em seus lábios quando seu toque desdeu pela palma da minha mão até se concentrar em meus dedos.

          ― Sou o Sebastian, muito prazer. ― Sua voz grave e encorpada reverberou, e então, se curvou e me beijou o dorso dos dedos.

          Não era ele.

          Foi inevitável soltar todo o ar de uma vez, aliviada, mas não totalmente. Dei-lhe um sorriso acompanhado de um cumprimento rápido, pois quase no mesmo segundo uma vampira me puxou para um abraço. Seu corpo magro e esguio que parecia ser da minha altura, fora pressionado contra o meu sem nenhuma reserva.

          ― Hum... que cheiro bom você tem ― murmurou.

          Ela se afastou, mas continuou bem próxima de mim, até demais. Seu rosto se inclinou levemente para o lado, seus dedos tocaram a minha bochecha e desceram pelo meu maxilar em um toque suave e frio, ao mesmo tempo, bom e assustador.

          Estremeci ainda mais.

          Minha atenção foi de seus olhos azuis para os seus lábios grossos pintados de vermelho, o inferior preso entre os dentes brancos enquanto um sorriso se estendia entre eles. Ela era linda, exótica. Os cabelos negros desciam jogados para o lado, lisos, longos, e apesar dos traços finos de seu rosto, as sobrancelhas arqueadas e o cheiro doce, picante, davam a ela um ar selvagem e sedutor, realçado pela calça e top de couro, extremamente justos ao corpo.

           ― Muito prazer, Madeleine ― cumprimentou com a boca próxima à minha bochecha, onde depositou um beijo.

          ― Igualmente ― sussurrei.

          ― Então, quer dizer que você será a minha cunhada. ― Não tinha sido uma pergunta, era uma clara e convicta afirmação. Ela deu um passo para trás, ainda me analisando de cima a baixo. ― Você é maravilhosa. ― Dito isso, ela deu uma piscadela e então, se afastou.

          ― Izvinite. ― Meus olhos se voltaram em direção à voz rouca, ligeiramente ríspida que me fizeram arrepiar da cabeça aos pés. ― Sinto muito. Às vezes, Madeleine pode ser um pouco... expansiva.

          Eu acreditava que não tinha como ficar mais tensa, mas o ser ao meu lado tinha acabado de me provar o contrário. Seria ele? Justo o que menos se parecia com Eleonora e Vincent?

          Não menos bonito do que os outros, apenas o mais diferente, com seus cabelos pretos de comprimento até os ombros, e olhos profundos e escuros que não revelavam absolutamente nada. Ele era alto, mas não corpulento demais, e o que mais me chamara a atenção fora a sua postura rígida, e elegância que parecia ser natural.

          Dando um meio sorriso, quase imperceptível, ascendeu a mão para mim.

          ― É um prazer conhecê-la, sou o Andrei. ― Ao tocá-lo, minha mão fora levada até seus lábios para um beijo em seu dorso.

          ― Igualmente. ― Sorri timidamente, meio desconcertada pela intensidade do seu olhar.

          Sem falar mais nada, ele se afastou abrindo meu campo de visão para a linda vampira parada a poucos metros de mim. Ela se aproximou a passos curtos, calculados, um pouco mais baixa do que eu. Parou à minha frente com as mãos cruzadas diante do corpo, e então sorriu um pouco acanhada.

          ― Oi, muito prazer, me chamo Katerina.

          ― O prazer é meu ― falei sorrindo enquanto estendia minha mão para ela. Sem hesitar a jovem vampira a segurou e o seu sorriso se abrira ainda mais evidenciando suas covinhas.

          Achei divertido o fato de ela ser uma vampira, provavelmente milenar, e ainda assim parecer tão meiga e tímida. Pelo que eu me lembrava, quando Eleonora mencionara os filhos, citou o nome dela por último, talvez por ter sido a mais nova a ser transformada. Realmente, ela tinha uma aparência bem jovem, parecia até uma bonequinha, de pele branca com cabelos escuros e olhos grandes cinzas-esverdeados.

          A maioria dos que estava ali já haviam se sentado nas poltronas ou sofás. Passei os olhos rapidamente pelo local me certificando se não faltava mais ninguém para ser apresentado. Na verdade, faltava, mas ele não estava ali, e eu não sabia se ficava aliviada ou ainda mais preocupada. Parecendo perceber que o meu interesse ia além da decoração do local, Eleonora se pronunciou:

          ― O Anton ainda não chegou, mas certamente já deve estar a caminho. ― Ela lançou um olhar discreto para o marido, em meio a um sorriso um tanto sem graça, quase tenso. Será que tinha acontecido algo? Sua reação só me deixara ainda mais ansiosa e inquieta.

          ― Certamente, se ele vier, mãe ― Nicolae falou rindo. Dado o tom de divertimento, poderia ser uma brincadeira, mas será que existia a possibilidade de ele não ir?

          ― Ele virá ― replicou Eleonora num tom severo, quase descortês, que contradizia toda sua complacência e entregava uma certa nota de tensão.

          Nos minutos seguintes tentei me concentrar nas conversas que se sucederam, e fiquei surpresa com o quanto eles pareciam ser uma família normal. Cada um tinha suas particularidades, mas, ao mesmo tempo, pareciam se completar de certa forma.

          Percebi que Sebastian e Madeleine eram os mais ousados, e o Nicolae era o extrovertido engraçado. Já o Andrei, era o mais reservado, parecia ser o bom filho, cuidadoso e disciplinado, enquanto Katerina era a caçula, princesinha da família, contudo, algo nela me dizia que era bem centrada e madura.

          O meu pai ainda parecia desconfortável, mas Vincent continuava se empenhando em uma conversa casual para fazê-lo relaxar. Minha avó conversava com Katerina e Andrei enquanto minha mãe com Eleonora e Sebastian, restando-me Madeleine e Nicolae, sentados ao meu lado.

          ― Qual a idade de vocês? ― indaguei à Madeleine. Nem tinha me dado conta do quanto havia sido indiscreta até ter perguntado, mas ela pareceu não se importar, pelo contrário, seus olhos brilharam.

          ― Bom, esse ano meu pai completa seus 3045 anos, uma vez que fora transformado aos 45. Minha mãe já fez 3041 e foi transformada aos 41 anos. Anton fez 3027, uma vez que, foi transformado aos 27. ― Novamente, um pouco de ar me faltou ao ouvir o nome dele. ― Os três passaram por muitas coisas durante os primeiros quinhentos anos, por isso demoraram para criar o primeiro de nós, que no caso foi o Sebastian. Ele virou vampiro aos 28 anos e atualmente possui 2528. Depois veio o Andrei, transformado aos 24 e que já completou seus 2324. Em seguida, foi a minha vez. Fui transformada aos 21 e acredite se quiser, possuo 2171 anos. ― Ela riu, provavelmente, pela minha expressão completamente atônita. ― Depois veio o Nick, que vai fazer 2098 e que fora transformado aos 18, e por último veio a Kate que tem 2016 anos, transformada aos 16.

          ― Posso ser milenar, mas tenho a disposição de um jovem, sweetie. ― Nicolae me lançou uma piscadinha seguida de um sorriso provocante que preferi fingir não ter reparado.

          Eu ainda estava nervosa, e a cada segundo que se passava, ficava mais tensa. O fluxo de sangue corria impetuosamente pelas minhas veias, enquanto a ansiedade continuava a consumir tudo por dentro. Outra vez, tentei me concentrar nas pessoas que estavam ali. Eu precisava conversar, pensar em qualquer outra coisa, me distrair.

          ― E qual dos três transformaram vocês? ― perguntei aos dois.

          ― Os três juntos transformaram cada um de nós. ― respondeu Madeleine. ― Na verdade, nós cinco somos os únicos vampiros criados por eles. Os demais são nossas crias, crias das nossas crias, e assim por diante. No entanto, para cada um que fora transformado, houve uma certa autorização de algum dos três.

          Parecia que eu tinha tirado aquela noite para me surpreender. Já devia estar me acostumando com aquele novo mundo, mas ainda era muito diferente do meu. O oposto do que eu pensava, eles eram organizados, e pareciam ter uma ordem hierárquica fechada, bem estruturada e controlada.

          Naquele segundo Judite apareceu na sala, se aproximou de Eleonora e falou algo em seu ouvido, fazendo com que no mesmo instante a anfitriã se levantasse pedindo licença. Então, sem nem mesmo esperar a governanta, ela se retirou do recinto. Alguns minutos depois, Eleonora voltou, com o mesmo sorriso apreensivo que falhava em disfarçar.

          ― Devo um pedido de escusa pelo atraso do Anton. Decerto houve algum contratempo que o fundamente. Entretanto, podemos desfrutar do jantar até que ele chegue. Acompanhem-me, por favor?

          Então era esse o problema? O atraso do filho estava deixando-a desconcertada. Pelo pouco que eu a conhecia, podia imaginar que com toda aquela educação, um atraso seria algo bem grosseiro e imperdoável. Mas eu não me importava, até me senti tranquila, por hora.

          Minutos depois, ainda estávamos postos à mesa aproveitando o último prato elaborado que nos serviram, uma deliciosa torta gelada de frutas vermelhas. Confesso que foi difícil me controlar para não repetir a sobremesa, sempre tive um tórrido e intenso caso de amor com os doces.

          Após o jantar alguns se dispersaram, especificamente os seres do sexo masculino, incluindo o meu pai, que seguiram para o bar da casa, enquanto o restante de nós voltamos para a sala de estar. Posso dizer que eu estava relaxada, não sei ao certo se era por estar bem alimentada ou se era porque à cada minuto que se passava, a chance de me encontrar com o vampiro o qual queriam me casar, diminuía.

          Talvez eu devesse estar furiosa e ofendida com aquele atraso. E se ele não quisesse se casar? Bom, neste caso eu não seria a culpada. Mas como eu livraria as fadas do Jardim de Aiden? Era certo que a minha espécie seria a mais prejudicada por causa do capricho daquele vampiro.

          Quando dei por mim, já estava ficando nervosa novamente. Quem ele pensava que era? Aquele maldito contrato fora feito por causa de algo que ele provocara, então o mínimo que poderia fazer, era se esforçar para cumpri-lo. Mas e se tivesse acontecido algo que justificasse seu atraso como Eleonora falara? Lá estava eu o julgando sem ao menos conhecê-lo. Com certeza esse não seria um bom início, era melhor manter a calma, sem decisões ou conclusões precipitadas.

          Todos já estavam de volta à sala, e pelo olhar do meu pai, diria que estava pronto para nos chamar para ir embora. Provavelmente era o melhor a se fazer, a espera tinha sido exaustiva, e eu não queria parecer a desesperada que o esperou até o último segundo. Pelo contrário, meu único desespero era o de ter de me casar com um estranho. No entanto, confesso que aquele atraso me deixara intrigada.

          Eu seguia submersa em um redemoinho de pensamentos quando comecei a sentir um intenso frisson que fez o meu coração dar um salto e, em apenas um segundo, atingir o seu ápice de batimentos. Antes que pudesse assimilar o que se passava comigo, percebi que a eletricidade do ambiente tinha se acentuado violentamente. Era como se toda a energia que já existia ali, tivesse dobrado em intensidade, e só tive a certeza de que aquela sensação não era um devaneio da minha imaginação, porque vi que os meus pais e a minha avó também ficaram tensos e preocupados. 

          De repente, o silêncio se fez. Tentei entender o que estava acontecendo correndo meus olhos pelos vampiros ali presentes, e curiosamente eles pareciam ansiosos, quase apreensivos. Eleonora se mantinha sentada em sua postura elegante, seu sorriso era uma mistura inusitada de inquietação e serenidade, mas que pela primeira vez naquela noite, lhe dava um aspecto tranquilo. Ao contrário do Vincent, que agora tinha em suas feições algum afligimento que ele não estava conseguindo disfarçar.

          Reparei que os outros Skarsgards meio que se alinharam nos assentos, com exceção do Nicolae, que continuou com o cotovelo no braço da poltrona. Ao perceber que eu o olhava, ele elevou uma sobrancelha e abriu um sorriso enigmático. Talvez estivesse querendo me dizer "Você não sabe onde está se metendo."

          De fato, eu não sabia.

          Ninguém falava nada, não se ouvia nem mesmo os sons das respirações e aquilo já estava mais que estranho. Minha atenção saltou para Madeleine que havia fechado os olhos. Vi seu peito se estufar e permanecer imóvel, até que um sorriso de deleite apareceu em seus lábios, para em seguida, ela soltar todo o ar de uma vez. Foi então que senti um cheiro diferente. Era uma mistura amadeirada, noturna, sensual e sofisticada, tudo isso em uma intensidade capaz de provocar calor. Maravilhoso seria apenas um eufemismo para descrevê-lo.

          ― Boa noite ― ressoou uma voz gutural, cavernosa.

          Naquele instante meu coração foi parar em minha boca, e um arrepio profundo retesou cada uma das fibras do meu ser. Comecei a ouvir um sussurrar em minha mente, tão suave quanto um ínfimo refletir de um eco, dizendo para não me virar, para fugir enquanto podia. Mas era tão fraco que não lhe dei ouvidos, e assim, me virei.

          De todas as formas que imaginei que aquele vampiro poderia ser, ele era mais.

          Muito mais.

          Trajando preto, da cabeça aos pés, ele estava parado do início da sala. Alto, imponente, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans, expondo uma postura autoritária e inabalável. Era espantoso ver o quanto a sua presença ostensiva adequava-se com propriedade à toda aquela energia intensa que havia pesado no ambiente. Cada ínfimo detalhe dele exalava domínio, como se tivesse controle absoluto de tudo. Detalhes estes que iam desde os cabelos negros; passando pelas linhas rígidas, ainda assim suaves, que davam forma ao seu rosto perturbadoramente harmônico; até o seu semblante, onde não havia vestígio de nada. Tão vazio, tão inexplicavelmente vazio. 

          Aquela espécie de superioridade também estava presente no queixo sutilmente anguloso, no nariz retilíneo e nos lábios fechados em um traço reto, firme, que pareciam incapazes de curvarem um sorriso. No entanto, nenhuma dessas características era mais marcante e excêntrica do que a profundidade límpida dos seus olhos azuis. Eram tão claros, tão gélidos e cristalinos, que me fizeram sentir frio. 

          Na verdade, eu já estava tremendo, por dentro e por fora.

          Algo dentro de em mim buscava voz para gritar que aquele ser era a criatura mais perigosa que eu já havia visto. Todo o conjunto era muito misterioso e nada acessível, o que manteve meus olhos fixos nele, como se eu estivesse em uma espécie de transe tentando decifrar um enigma. Um, que me deixara num estado mental confuso, desordenado, sem controle dos meus pensamentos e das minhas reações físicas. 

          Demorei a perceber a pressão que comprimia os meus órgãos, porque eu já nem respirava mais. Demorei a perceber que a intensidade daquelas sensações, eu só sentira uma vez na vida, e havia sido em um sonho.

          Ele, como se soubesse que estava sendo observado, me olhou. 


Izvinite do russo, desculpe.

Sweetie – do inglês, querida, docinho.


Sebastian Skarsgard




Andrei Skarsgard




Madeleine Skarsgard




Nicolae Skarsgard




Katerina Skarsgard




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