A FAZENDA DA FAMÍLIA THOMPSON
A FAZENDA DA FAMÍLIA THOMPSON
– Richard, Vá pegar sua bola agora! – Ordenou sua mãe ao vê-lo ligar a mangueira para lavar os pés e adentrar na casa sem recolher os brinquedos, isso era pra ser um acordo, mas o garoto não se cansa da teimosia.
Querendo almoçar o quanto antes, afinal, quando o fim de semana é na fazenda da família, não tem comida melhor, a companheira bola de futebol percorreu muitos metros e encostou-se no cercado da fazenda vizinha, o garoto de sete anos ajoelhou-se para pegá-la e ali mesmo prostrou-se encantado, a garotinha de mesma idade, loira, olhos azuis fixantes abaixa-se e sem perceber a presença de Richard, larga a boneca de pano que entrajava um lindo vestido vermelho, põe a mão por dentro da casinha de madeira situada no final de sua cerca soltando um sorriso para Richard, enfim ela o viu, ele ansiava-se pelo o que ela arrancaria de lá, o coração já bate acelerado mesmo recebendo um célere e despretensioso sorriso dela, que continuou a procurar o que só ela sabia que havia ali por dentro, Richard esquece de sua mão incessante e concentra o olhar no seu rosto angelical, " Essa menina quando crescer vai ser minha namo..."
Interrompeu o próprio pensamento o menino Richard quando viu a penosa bater as asas, presa e contida naquela mão pequena e dócil, um canivete é tirado da sua botinha rosa-choque e com dedos firmes, ela degola a galinha em míseros segundos, a ave de cor amarronzada mesmo sem cabeça está a se debater freneticamente, o sangue jorrara de seu pescoço e a poça de lama recebendo aqueles pingos no chão deixa Richard sem saber pra onde olhar, ele soluça e começa a lacrimejar apavorado pelo que acabara de presenciar.
– Stacey ! Já está vindo com ela ? –
A garotinha é tímida e calada demais para responder ainda mais tendo que gritar, Richard agora sabe o nome da princesinha, no entanto, não sabe nem se ainda vai querer conhecê-la, de costas, ela vira-se, olha para ele e quando certifica que ele está assustado, queixo arriado, boquiaberto, franze a testa como quem o condenasse por ser homem, e frouxo !
Qualquer um adivinhara o que passa na cabeça dela naquele instante.
" Ô garoto! Por que está amedrontado que nem maricas ?! Deveria continuar a sorrir pra mim como antes, mas tá se mostrando um suburbanozinho mimado da cidade ".
Se as crianças se entendem com seus linguajares infundados, imaginem por telepatia raivosa de decepção notoriamente exposta pela garotinha, ela é impressionantemente parecida com a atriz de poltergeist ?
Richard corre até sua casa e almoça calado quase a perder o apetite, logo galinha cozida ! É o prato que sua mãe preparou, Richard olhava mais para o prato do que comia.
– Tá uma delícia filhos! Comam tudo – Disse a mãe cuidadosa por nome de Samantha Rose, seus dois filhos sentados á mesa esperando-a, eles são, o hiperativo Richard e sua irmã Hazel, dona Samantha nem imagina o que o filho acabou de testemunhar, condenando-o e ameaçando impor-lhe castigo severo se ele não devorar aquele prato e continuar com aquela cara de quem chupou limão a olhar para o belo prato, nem mais tão belo, para ele.
Não sai da cabeça do garoto o assassinato da penosa, como se ele não compactuasse com a assassina Stacey, o fato de comer tal prato suculento da mesma espécie de ave, abatida e cozida ao molho cabidela, não impressionou-se apenas devido a degolação da ave, mas pela coragem e frieza de uma menina que aparentara ter mesma idade que a sua. Os costumes de vida rural e aventureira o fez esquecer a selvageria da menina enfim, decide comer o prato de cozido, que transborda na mesa de madeira sextavada. Noutro dia, ele, sua irmã Hazel e o pai, colhem paus e galhos para preparar a fogueira de Halloween, tradição de toda a vizinhança para o dia 31 de outubro, que dessa vez caía num domingo, então aquele sábado foi de trabalho intenso, só não se sabe o que a nova vizinha e sua família irão fazer para o dia das bruxas, são calados, resguardados e de pouca prosa, o que se sabe é que abatem as galinhas que criam quando as mesmas estão velhas e sem chocar muitos ovos. O domingo de Halloween chega chuvoso, o tempo é nublado por toda a parte, uma tenda piramidal é posta no local da fogueira e uma mesa farta a servir iguarias peculiares está protegida de chuviscos, os grossos pingos vindo do céu teimam em molhar as roupas soturnas e desmanchar as maquiagens góticas de mulheres e crianças, Richard, Hazel e outras crianças soltam fogos em estradas de terra e no gramado de sua casa, depois que as bombinhas eram acendidas, todos corriam para a tenda se proteger do chuvisqueiro incessante, alguns fogos falham.
Quando a chuva cessou, foi que a família da garotinha saiu para festejar seu dia das bruxas, eram quase 01:30 da manhã, haviam muito mais abóboras acesas lá do que na festa da casa de Richard, pelo menos umas nove ou dez, a face assustadora feita no fruto era bem desenhada porém com um semblante mais horrendo a se apresentar para famílias e crianças, só alguém com imaginação tenebrosa e destreza na arte da escultura para produzir tal ornamento. Não há danças nem bebedeiras de cervejas ou sequer refrigerantes como na celebração dos outros vizinhos, apenas copos de artesanatos e de plásticos a serem abastecidos com sangria, sangria feita de uva vermelha e água de gelo.
Richard não se contém, abaixa-se quando passa nos corredores do quarto de seus pais e do quarto de Hazel, assim permanece até o quintal passando por todo o gramado e chega agachado na cerca pertencente á casa da menina loira angelical, estirado ao chão, consegue espreitar ela, seus irmãos e os donos da casa a dançarem tango argentino, Stacey se aproxima da máscara de abóbora situada bem em frente ao cercado da fazenda de Richard, é a última máscara encostada já no final do cercado, a vela acesa emana chamas perenais apesar do vento e do chuvisco que volta a cair, não era normal aquele fogo persistir tão forte, ele percebera a estranheza, pois estava tudo em sua frente a menos de três metros, parece de propósito Stacey ter escolhido aquela abóbora dentre tantas, ela suspende os pés calçados com botas roxas, ergue o pescoço o máximo que alcançara e... acende um charuto amarronzado, suga seis vezes até ele abrasear-se e depois olha para baixo, Richard não tem dúvidas que ela o viu, só depois da satisfação em demonstrar que o olhou com total desdém, ela sai correndo e entrega o charuto ao pai.
" Pelo menos não é ela que fuma! Mas mesmo assim, que negligência o próprio pai deixar a filha tão pequena fumar charutos ou acendê-los ?"
Pensou o menino de sete anos, consciencioso, desaprovando com veemência a atitude do pai.
Voltando para dentro de sua casa, com passos largos quase a decolar pela ligeireza ao zarpar dali, tem a certeza convicta que aquela menina não é normal, quantos hábitos repugnáveis ela já fez em sua presença, e que família esquisita !
" Essa tal de Stacey tem hábitos de adultos... ou melhor, de velha, parece a minha avó, falecida mãe de meu pai, que também fumava e matava porcos e galinhas"
A tarde tornara-se mais cinzenta depois que aqueles novos vizinhos se apossaram da antiga fazenda da família Mccarthy, ajudando sua mãe a colher limões e retirar folhas secas no gramado perto de onde dormem os dois cavalos de estimação, Richard paralisa seu olhar sempre curioso em direção á casa de Stacey, uma abóbora sem vela ainda permanece fincada num toco de madeira, o olhar burlesco da escultura desenhada no fruto, está empretecido pela lama saltitante que secara, intimida, é um olhar vivaz apesar de sol e chuva fatigantes. O relógio de Richard emite um som sinalizando a nova hora, seis da noite em ponto, pássaros pretos vêm de longe e pousam nos braços do espantalho também com cabeça de abóbora, Richard no auge de seus quase oito anos nunca presenciou aquilo, notara com espanto, morcegos e corvos em plena luz do dia, repousando em lugares reluzentes, não se esqueça dos urubus, que também sobrevoam pela casa, um deles pousa no ombro da mãe de Stacey.
Por que diabos, um urubu faz carinho naquela mulher a lambê-la o ombro direito como se fosse um cão afetuoso ? Afinal de contas, urubus lambem e comem carniça!
O que lhe intrigava também era o fato de morcegos estarem em plena luz do dia a se acalentarem no casaco de lã que cobre o espantalho, morcegos ao léu do dia ?! Mesmo dias pálidos, que esfriavam a tarde cinzenta de outono ?
O cão vira-lata sai de sua casinha bastante deteriorada por cupins e vai de encontro ao espantalho, as aves lá repousadas devem esgueirar-se e sobrevoarem para longe dali, mas não é que acontece, o cão maltrapilho e de cor encardida fica embaixo como quem quisesse fazer companhia, quando os corvos e morcegos defecam no chão, o asqueroso canino começa a devorar os excrementos que deles saem, cada dia que passa aquela fazenda lhe causa repulsa, sua mãe pela primeira vez lhe escuta:
– Mãe, olha! – Diz Richard querendo que ela veja algumas das imundícies que lá acontecem.
Dentre tantas atrocidades que ocorrem na fazenda pocilga da família Thompson, pelo menos sua mãe ver uma delas.
– Ããhh ! – Exclamou admirada dona Samantha ao ver o que jamais pensou o que um dia veria, um urubu carinhoso! Em cima de alguém ?! Cães a comerem bostas de morcegos e corvos ?!
Richard olhando-a, ansioso...
– Vamos entrar Richard, estou exausta e vendo coisas demais –
O garoto Richard queria lhe falar que hábitos e costumes estranhos emergem com frequência naquela fazenda ao lado, no alto de sua inocência e pouco tempo de vida, ele nem sabe que urubus apenas se aproximam de impurezas e podridão, que morcegos não saem á luz do dia, e que sua mãe não viu aquilo sozinha, nem está ficando louca.
Último dia de Richard e sua família aproveitarem o fim de semana prolongado do feriadão, Richard acorda ainda sonolento, empanturrado com a sobra do banquete do Halloween, provido de muitos doces e croissants, levanta-se, abre a janela do quarto que dorme junto a irmã e se depara com Stacey a segurar mais uma penosa que degolada, está suspensa a balancear lá e pra cá presa pelas mãos pequeninas da linda loirinha de 7 anos. O semblante daquela formosura enganara, ela tem força, frieza e muita perversidade, uma sordidez que habitara nos piores adultos, " por quê fazer questão de se mostrar tão sádica ?" É agora que o menino Richard se esborra pelas calças !
Olhando para trás, sua irmã adormecida sobre a cama, o resto da casa em silêncio, indica que mais uma vez ninguém se não ele, se dá conta de quão estranha é aquela garota e que vizinhança mórbida ali se prostrara.
– Hazel, acorda, Vem ver isso ! – Vociferava Richard, querendo mostrar ao menos para a irmã, as peripécias que tanto vê na obscuridade expressa naqueles vizinhos.
Sua irmã não acorda, ao virar-se novamente para espreitar na janela, Stacey desaparece, tudo volta ao normal, a porta detrás da fazenda que separa os cômodos internos da casa dos poleiros das galinhas é fechada, lá, em meio ao breu de nebulosidade sempiterna, a graciosa menina Stacey aparece sempre a importunar o juízo de Richard, no pomar de frutos mortos sempre se apresenta disposta a abater uma penosa e mostrar-lhe com sarcasmo, os cadáveres sacrificados para a necessária alimentação dela e de sua família.
Ninguém via o que só ele via naqueles vizinhos, sua mãe não veio a manifestar qualquer indício a mais de espanto no episódio do urubu domesticado e cão imundo, enfim, acabou o feriado imprensado de 4 dias de folga no lar campestre, demoraram 45 dias para a família de Richard voltar a fazenda, a noite logo escurecera e os moveis da casa estavam bastante empoeirados. Passou-se algum tempo e não mais que outros 45 dias são necessários para a família inteira de Richard sentar-se nas suas varandas ou em meio as janelas observarem que nem espectadores fervorosos de grandes peças teatrais, todo o dia a dia e lampejos de bizarrice dos membros Thompson's.
Não se deve esquecer, dos tios sinistros, que visitaram-no da ultima vez, teve-se a certeza que eram de fato, bisonhos, na segunda vez que eles compareceram e presentearam as crianças com filhotes de ratazanas, isso mesmo, filhotes de ratos, recebidos com festa e afagos calorosos pelos braços acolhedores de Stacey e seu irmão Izack, os asquerosos mamíferos como se sabe, nômades por natureza e andarilhos de esgoto a esgoto por instinto, são tratados como fofuras domésticas de estimação pelos fazendeiros Thompsons e seus louquejantes hábitos. Olhar para aqueles fazendeiros vizinhos dá a impressão que o Halloween não terminara.
Os novos vizinhos estão incrementando os detalhes e móveis que restam para adornar a casa, a fazenda é a única morada dos Thompsons, cada membro vai decorando partes da casa com sua cara e estilo, os lustres avantajados, de cores escuras, ornamentados com detalhes góticos acompanhados por penduricalhos em forma de caveira, enfeitam a sala espaçosa, que iluminava-se também através de uma luz roxa que emanava do chão. Ao invés de janelas amadeiradas, com entornos rústicos e tons rurais, um fumê escurecido de vidros revestidos em trincos metálicos de segurança em todos os quartos, ao invés de um Hamster, uma aranha negra caranguejeira na gaiola do quarto de Izack, no quarto de cor encarnada de Stacey, invés de singelas bonecas, cadáveres de sapos, escorpiões e baratas conservados em formol dentro de vidros fortemente tampados, uma cabeça de búfalo também dependurado ao lado do ar condicionado orna em seu estimado ambiente dando a entender sua paixão sepulcral pelo desconhecido, pelo além. Senhora Samantha já observara que o filho Richard volta e meia se aproxima de Stacey e já conhecera os donos daquela fazenda Thompson, sem porquê, numa noite congelante sua fazenda se encontra sem luz, o breu incomodara, se torna impossível sequer pernoitar no próprio rancho.
Segurando com força as mãos de Richard, pois o garoto não queria ser levado á casa da temida e apaixonante vizinha, Samantha está disposta a pedir velas emprestadas naquela casa abundantemente reluzida e iluminada, mesmo ciente que ali reside esquisitíssimos indivíduos.
– Boa tarde senhora! Moro aqui do lado e gostaria de saber se por gentileza tem velas para me emprestar ? Estamos no escuro total !–
– Temos um bocado de velas aqui – Disse baixinho Stacey ao pensar alto demais, cabisbaixa, a tirar o esmalte de cor preta das unhas, acabou dizendo o que todos já sabem e o que sua mãe não esperava, aquela fazenda transbordava velas em suas entranhas, tanto dia quanto noite, era para sua mãe ter respondido, mas, a dona Morgana Cruz Thompson, ainda observava com espanto e olhos saltos em direção a Samantha pela coragem e desaforo de bater em sua porta, que sustentava uma alça de bronze para ser batida e avisar com um estrugido dissonante, visitas quase sempre indesejada, era uma porta intacta de mãos estranhas a tocá-la e assim deveria manter-se.
– Claro, vou pegar – Responde a sogra dos sonhos de Richard, Stacey estava ficando cada dia mais bela no entanto, cruel.
Stacey por sua vez, olhava para Richard e sua mãe com encaradas penetrantes, parecia querer julga-los por atos errantes, Morgana retorna com velas pretas e vermelhas, não eram os tipos de velas que Samantha esperava para aluminar sua morada rural. A desconfiança que aqueles seres da fazenda Thompson eram terríficos se concretizava nas mentes inocentes de Richard e sua família, na de Richard tudo era mais perturbante, ele tinha certeza que aquelas velas escuras e nada convencionais, tinham poder de contagiar e transformar a índole das pessoas, deixando-as soturnas e malvadas como Stacey e sua prole .
– Stacey, querida, precisamos comprar agasalhos nesse rigoroso inverno, ou eu sou o único que congelo nesse inferno petrificante ? –
Disse Richard após passar 25 anos desde aquele dia em que sua mãe solicitou velas de cera para aquela que um dia seria, de fato, sua sogra.
Ouviu-se falar nessa história... Algo referente ao patriarca da família Thompson ?
Não... Por que segundo a tradição dessa família, um pai, um homem, é sempre um zero a esquerda, não tinha voz, comando, nem sequer o mesmo DNA.
Foi cumprido o destino de Richard... Casar-se com a filha mulher daquela família, ter filhos com ela, e ser o único a sentir na pele , o sangue quente de quem jamais, falecera.
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