Reflexos Sombrios de uma Alma Atormentada

Aviso de gatilho: O conto a seguir pode possuir gatilhos emocionais por abordar temas como bullying e transtornos emocionais e psicológicos.

Peço aos leitores que avaliem as próprias condições antes ou durante a leitura e que não leiam ou parem de ler caso achem melhor.

A vida de Marina era marcada pelo tédio, para ela não havia qualquer remédio que lhe trouxesse alegria. Vivia em uma casa grande e abastada onde nunca lhe faltava nada, mas nem assim ela sorria.

Sua mãe era uma importante empresária e sua rotina diária era cuidar de seus negócios. Sendo que até o seu tempo de lazer, ela gastava para fazer mise en scéne para os seus sócios.

O pai, que a tempos ela não via, já possuía outra família e para compensar lhe enchia de presentes, mas nada que ele pudesse lhe dar, poderia aliviar as suas dores subconscientes.

Marina tinha pensamentos destrutivos, mas os deixava bem escondidos e levava uma vida normal. E para não enlouquecer, ela tinha o hábito de escrever como uma espécie de ritual.

Os contos, que não mostrava para ninguém, eram uma espécie de réquiem, para a sua alma atormentada. Os personagens que por ela eram criados, como ela, também eram quebrados e dentre tantos, Hygor se destacava.

Hygor era um adolescente, que levava uma vida deprimente, mas tinha encontrado uma forma de extravasar. E na escola onde ele estudava, sem gerar suspeitas ele observava, o próximo que iria matar.

Mas ele nunca escolhia aleatoriamente, pois de forma deturpada em sua mente, o que fazia era justiça na verdade e as vítimas que ele almejava, eram os jovens que na escola praticavam algum tipo de maldade.

Ele era um assassino serial, cujo modus operandi usual era fazer a morte parecer acidental. E enquanto na escola Marina estava, ela sempre imaginava como seria se Hygor fosse real.

Marina era uma garota introvertida, sempre fora assim em sua vida, mas nunca foi alvo das maldades, porém no colégio valia a lei do mais forte e outros alunos como ela não tinham a mesma sorte, então sofriam barbaridades.

O bullying ali rolava com frequência e não sofria qualquer interferência dos professores e demais responsáveis. Marina via acontecer todos os dias, humilhações, perturbações e covardias sempre tendo como alvo os mais frágeis.

Aqueles episódios constantes, atormentaram muito os estudantes que ficavam com a autoestima abalada. Eram tantas as humilhações que se fechavam em suas emoções e nem aos pais diziam nada.

Marina tinha vontade de intervir, mas não tinha forças para agir, então assistia a tudo calada. Enquanto em seus contos retratava o que via, mas lá, seu personagem Hygor agia e a vítima era vingada.

Mais um dia normal na escola e enquanto alguns garotos jogavam bola, ela viu uma agitação. O professor estava distraído e em um canto escondido, acontecia a importunação.

Um garoto franzino com óculos gigantes, como ela já tinha visto acontecer várias vezes antes, estava sendo atormentado. Um valentão chamado Rodrigo, que sempre trazia outros garotos consigo, não queria deixá-lo sossegado.

Tinha decidido pegar o pobre para Cristo, mesmo sem ter qualquer motivo para isto e o arrastou para o vestiário. O garoto franzino tinha claustrofobia e disso o valentão sabia, então o trancou dentro de um armário.

Além de tudo ainda fez uma ameaça, quem o tirasse de lá, se tornaria a próxima caça e todo mundo se acovardou. E o pobre do garoto ficou lá, até que o zelador o encontrar, mas a verdade ele não revelou.

Rodrigo sentiu-se poderoso, de suas maldades estava orgulhoso, pois sempre se saía bem. No mesmo dia seguiu para a piscina despreocupado, sem imaginar que estava sendo observado, pois não temia ninguém.

Pulou na água sem pudor, era um excelente nadador porque tinha piscina em seu quintal. Mas o ralo estava destampado e ele foi fortemente puxado pela sucção mortal.

Seu calção preso ficou e a água em seu pulmão entrou, até ele ficar inconsciente. Quando o encontraram não se podia fazer mais nada e sua morte foi tomada como um terrível acidente.

Enquanto os meses daquele ano corriam, outros acidentes fatais aconteciam, sempre envolvendo os valentões. Sempre eram tratados como fatalidade, mas Marina temia que na verdade, Hygor estivesse por trás daquelas ações.

Ela não sabia a que ponto, o seu personagem poderia sair do conto para matar no mundo real, mas parecia que era ele quem estava fazendo aquilo, pois aquele era exatamente o seu estilo e era algo surreal.

Era assustador para ela pensar que tinha sido capaz de criar aquele assassino serial. Mas ela tinha um ponto, pensava que um simples conto era impossível de causar qualquer mal.

Mas ela não podia ficar parada, pois se ela não fizesse nada, Hygor ia continuar a matar. Então pensou qual seria a próxima vítima dele e talvez se conseguisse conversar com ele, poderia fazê-lo parar.

Mesmo com todas as mortes parecendo acidentes, os episódios foram suficientes para dar aos estudantes um pouco de tranquilidade, mas após um tempo de paz no seu colégio, que ela admitia ter gerado algum tédio, uma garota foi vítima de maldade.

A valentona que era bem maior que ela, incomodada pelo fato de ela ser mais bela, decidiu fazer a covardia. Marina viu a menor sendo arrastada pelos cabelos e levada para onde o bullying aconteceria.

Ela sabia o que iria acontecer em seguida, seu personagem tiraria outra vida e ela teria que entrar em ação. Por mais que não gostasse de covardia, uma coisa ela sabia, matar não era a melhor solução.

Então seguiu a Valentona aquela tarde, pela escola sem fazer alarde, imaginando quando Hygor iria agir. Mas nem em seu pior pensamento ela imaginou o tormento que iria se seguir.

A menina foi ao terraço para fumar escondida e mal sabia que a sua vida estava prestes a acabar. Ela estava bem perto da beirada e Marina viu desesperada, seu personagem Hygor se aproximar.

Ele era como ela imaginava e até as mesmas roupas usava, tal qual descrevia na ficção. Ele empurrou a menina sem hesitar e lá embaixo ela iria se espatifar, se Marina não a segurasse pela mão.

Ela evitou uma morte naquele terraço e no dia seguinte houve grande estardalhaço, todos falavam do seu ato de coragem. Mas o diretor a pegou de surpresa, quando a chamou em sua mesa, para lhe mostrar uma filmagem.

No vídeo alguém empurrava a menina, mas lá era a própria Marina quem executava a ação. Parecia que sua cabeça ia explodir e flashes de memórias começaram a surgir, fazendo o terror invadir seu coração.

Ela se viu apertando o botão, que abriu o ralo de sucção da piscina quando Rodrigo se afogou. E os flashes em sua mente mostraram que ela estava nos locais de cada acidente e que foi ela quem os causou.

Ela não estava entendendo o que estava acontecendo, mas não resistiu quando vieram lhe buscar. Para uma instituição psiquiátrica foi levada e ficou até conformada de que aquele seria seu novo lar.

Continuou escrevendo suas histórias, mas não tinha mais as memórias da sua antiga vida. O que ninguém podia imaginar era que Hygor passou a dominar e que Marina já estava perdida.

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