Capítulo III
- É verdade que eles adivinham os pensamentos, vô?- perguntou uma ciganinha.
- É verdade sim, mas só adivinham o pensamento deles. Madalena não precisava dizer nada para Ramirez saber o que queria, viviam enamorados pelo meio do acampamento, nunca que ouvi uma palavra áspera dele pra ela, nem dela pra ele. Amaram tanto a pequena filha que santa Sara protegeu a pequena das chamas e ela sobreviveu.
A velha cigana sorriu, nunca soubera o que havia acontecido de fato para resistir as chamas e sobreviver.
- O senhor se machucou, pai?- perguntou uma cigana de olhos escuros.
- Queimei as pernas só.- o velho puxou as barras da calça e mostrou parte das pernas queimadas.
- E o que aconteceu depois, vô?- quis saber a ciganinha de tranças.
O velho limpou a garganta, algumas ciganas baixaram a cabeça para disfarçar as lágrimas enquanto outras faziam questão de chorar aquela dor a tanto carregada por seu povo:
- Quem conseguia fugir do fogo era abatido por arma de fogo.- respondeu o velho; - Feito bicho caçado.
- Gente ruim, quanta malvadeza com a gente.- choramingou um ciganinho.
- Foi malvadeza mesmo.- concordou o velho.- O que restou do nosso povo cabia numa carroça.
- Por que fizeram isso com a gente, vô?
- Porque acreditaram no que o nobre falou na praça, acharam que nós não ajudamos e que podíamos ter evitado a morte dos entes queridos deles.
- E mataram os nossos.- completou um cigano.
- Quanta tristeza, vô.- falou uma ciganinha.
- Vida de cigano é de alegria e tristeza mesmo filha.- falou uma mulher.
- E como você fugiu vô?
- Meu pai me jogou na carroça e eu parti com o que sobrou do meu povo.
- O vô não conseguiu escapar também, pai?
- Conseguiu sim, ele ficou escondido vendo o que faziam com os corpos, disse que roubaram o ouro, as joias e que atearam fogo depois, mas algumas crianças estavam vivas e na hora que iam queimá-las também, apareceu uma mulher cheia de luz e gritou:- Não toquem nos meus filhos!
Os ciganos se animaram e saudaram santa Sara.
- Foi santa Sara, vô?
- Dizem que sim e eu acredito que foi mesmo. Quase vinte crianças ciganas sobreviveram e minha zaira estava entre elas, foram levadas para um orfanato da cidade.
- O senhor sabe como saíram de lá?
- Sei, essa história é da sua avó.- o velho olhou para a cigana idosa que sorriu, dando permissão para que ele contasse essa história:- Essas crianças foram discriminadas por serem ciganas, comiam restos das demais crianças, vestiam os trapos de roupas que ninguém queria mais e quando alguém importante ia visitar o orfanato para levar doações, elas ficavam escondidas num porão escuro e sujo.
- Muita malvadeza com a gente.- resmungou uma ciganinha.
- Meu pai encontrou a gente quase três meses depois, contou que ficou ali escondido por um bom tempo e só saiu quando não tinha mais ninguém. Andou um bom tempo e caiu sem forças, achando que ia morrer, mas apareceu uma bela cigana e lhe mandou levantar e entrar na mata. Meu pai ficou com medo, estava cansado e fraco se encontrasse um animal com certeza não conseguiria fugir. A mulher insistiu e ele entrou, encontrou um riacho e matou a sede, se banhou e descansou. Ao acordar achou frutas e só então voltou para a estrada para seguir caminho.
- Quem era a cigana meu pai?
- Era a cigana da estrada meu filho, uma cigana desencarnada que ajuda o povo cigano a seguir seu caminho. Meu pai foi encontrado por uma caravana cigana, ajudaram ele a nos encontrar. Quando ele disse que nossas crianças estavam vivas, nós lançamos uma promessa: de voltar para buscá-los.
- E vocês voltaram logo, vô?
- Não foi possível, meu povo tava muito machucado. Seguimos caminho e fomos ficando mais fortes para poder voltar. Zaira cuidava das crianças menores, havia aprendido com a mãe a zelar por elas. Quando a fome apertava muito ela contava histórias para distraí-las e quando o frio machucava a pele, ela dançava para aquecer e eles a imitavam.
- Dançava nessa tristeza toda?
- Dançava, embalava essa desgraça na saia e rodava mais ela para desmanchá-la, as vezes conseguia e dormiam rindo, outras não e as lágrimas atrapalhavam o sono. Zaira cresceu e ficou mais formosa. Uma freira vivia olhando os feitos dela e percebeu como cuidava dos pequenos, foi contar para a superiora que logo decidiu enviá-la para a casa de uma dama rica para auxiliá-la com os filhos pequenos.
- E a vó quis ir?
- Querer ela não queria, brava que era brigou feito galo com a tal religiosa para ficar, jurando que dali só arredara o pé morta.- a idosa sorriu, meneando a cabeça em concordância.
- Ela foi?- insistiu a ciganinha de tranças.
- A religiosa ameaçou de deixar morrer de fome os ciganinhos daquele orfanato se ela continuasse recusando, Zaira não queria carregar a culpa da morte desses inocentes e se deixou ser levada. Chegando naquela mansão toda enfeitada, Zaira foi apresentada a dona da casa: Ofélia. Era uma dona jovem, dada em casamento à um rico negociante que não parava na casa, sempre em viagens por lugares distantes.
- Feito cigano, vô?- perguntou um ciganinho.
- Feito cigano não, porque cigano sempre está junto dos seus. Ofélia gostou de Zaira, era atenciosa com os filhos e os divertia com suas histórias e danças ciganas. Ficaram amigas e Zaira ensinou feitiços de amor para a dona. O casamento dela melhorou muito.
- E você estava onde vô?
- Eu estava longe com meu povo, foi-se por aí dois ou três anos, quando voltamos para buscar os nossos.
- Você foi atrás da vó que nem os príncipes das histórias dos gajão?
- Muito melhor que príncipe gajão. Fui com as pernas cheias de cicatrizes e o coração transbordando de amor.
A cigana idosa sorriu e lhe enviou um beijo.
- Voltamos e as religiosas não hesitaram em nos entregar os nossos, ao contrário queriam que trouxéssemos todos. Mas Zaira não estava entre eles, meu coração me sufocou no peito. Nos disseram que havia morrido de uma febre alta.
As crianças se achegaram mais para ouvir as palavras ditas baixinho:
- Eu quis morrer também, não fazia sentido viver em um mundo sem meu sol, sem a alegria do meu riso, sem a melodia do meu canto.
As jovens ciganas suspiraram.
- Meu povo partiu, eu recusei a deixar o local onde minha amada havia suspirado pela última vez, supliquei aos pés da religiosa para que me deixasse ficar, que me permitisse plantar um jardim para minha amada, eu prometi que nada pediria: nem comida ou água. Ela só aceitou porque lhe entreguei as poucas joias que foram de minha mãe e eu guardava para dá-las a Zaira.
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