Capítulo II
A fogueira recém acesa crepitava enquanto chamas alaranjadas dançavam dando vida ao fogo assim como as ciganas dançavam com suas saias rodadas e coloridas dando vida ao acampamento e os homens tocavam e cantavam animadas canções. Miro se aproximou da fogueira e sentou-se num dos tocos que serviam de bancos.
As crianças foram se juntando e convocando os demais:
- O vô Miro vai contar história.
Logo o acampamento fizera silêncio para ouvir o velho cigano de cabelos grisalhos e pele morena, vô Miro limpou a garganta:
- Vou contar coisa velha e já sabida, ainda tem tempo de recomeçar a cantoria e calar a lembrança embaçada desse velho.-brincou Miro já sabendo que dali ninguém arredaria o pé, seu povo aprendia costumes através de histórias contadas ao pé da fogueira;- Pois então não aceito reclames depois, vou contar sobre nossos antepassados Madalena e Ramirez.
Ouviram-se alguns suspiros, aquela história fora transformada em conto de fadas cigano e todo jovem casal que se enamorava queria viver amor igual ao do casal, evitando o final.
- Ramirez era cigano de palavra com peso igual ao de ouro, palavra dele empenhada tinha valia para ciganos e gajão. Era bom de negócio, nunca levava desvantagem mas também não tirava, por isso sempre que precisava de mantimentos em grande quantidade para o acampamento o grande pai Osmir pedia que Ramirez fosse fazer a negociação.
Os ciganos menearam a cabeça concordando com a afirmação.
- Madalena era chamada de predileta de santa Sara, dançava feito gazela nova, rodava as saias e encanta quem a assistisse, era de coração grande e generoso, nascida para ser mãe: ajudava a cuidar das crianças e sabia de olhar quem fizera arte.
Foi a vez das ciganas concordarem, balançando a cabeça.
- Certa feita a febre alta deixou de cama um bebê de dias, diziam que os tsinivari a haviam encontrado, já não tinha mais o que se fazer.
As mulheres levantaram um lamento e as crianças pequenas esconderam-se em seus véus por medo desses espíritos malignos.
- Madalena escondeu o pequeno entre suas roupas e pediu a mãe que lhe dissesse o nome que sussurrara ao nascimento, a mãe o fez e Madalena vestiu com o manto do bebê um pedaço de bananeira e sussurrou o nome dado ao bebê. Em dias seguidos, manteve o verdadeiro bebê escondido em sua própria tenda, quando os tsinivari secaram a bananeira a febre deixou a criança que foi devolvida aos pais.
As crianças comemoraram a vitória de Madalena.
- Esse casal de ciganos fora abençoado com apenas uma filha, minha amada Zaira, que trazia o céu escuro no olhar.- Miro fitou uma cigana de olhos escuros e cabelos grisalhos que lhe lançou um beijo.
- Só uma filha vô?- perguntou uma ciganinha de olhos claros.
- Só uma, mas que era a mais bela daquele acampamento. Dançava como a mãe e era esperta como o pai.
- A vó era brava, vô? - quis saber um outro ciganinho.
- Feito mula que não era domada.- riu o velho, arrancado um riso das crianças e um olhar desaprovador da cigana grisalha.- Mas também carregava a doçura do mais puro mel nos lábios.- completou ele recebendo um sorriso da velha cigana.
- Que aconteceu com o Ramirez, vô?- perguntou um ciganinho.
- Fez o nome dele e o do nosso povo, por sua conduta de homem de palavra, Ramirez era bem vindo em todos reinos e povoados, nosso povo era bem tratado e os negócios bem sucedidos. Nossas mulheres dançaram para reis e rainhas e foram aplaudidas por todos os nobres, cobriam-se com ouro e joias e nossos homens tinham ouro nos dentes, em medalhões que exibiam no pescoço e nos anéis, foi um tempo de prosperidade pro nosso povo.
Um clamor saudoso se elevou entre os ciganos adultos, as crianças já nasciam na dificuldade não sabiam o que era fartura.
- Diziam nossos irmãos ciganos de outras paragens que a própria santa Sara caminhava conosco, e devia caminhar mesmo porque a felicidade era constante. Até o dia em que uma doença grave caiu sobre o povoado de Sevilha, morreram muitos homens e mulheres e a doença não era contida, os mortos eram queimados dentro das casas com todos os pertences...
- Com a casa e tudo?- espantou-se uma ciganinha de longas tranças.
- Com casa e tudo, Tâmara.- respondeu o velho:- Pra parar a doença, mas a maldição avançava para o povo, nesse tempo sabíamos notícia trazidas por outros ciganos que passavam por lá. Nós tinhamos dinheiro, mantimentos e animais suficientes para não precisarmos arriscar indo pra lá. Os outros ciganos vinham negociar mantimentos, cabras, ovelhas no nosso acampamento. Ramirez como bom negociante, cobrava preço justo, vendia o suficiente para outras caravanas sobreviverem e negava o que pedissem a mais.
- E não acabava a comida de vocês?- questionou um cigano.
- Tinha pra mais de ano, Ramirez juntava uns ciganos e ia buscar de carroça pra repor, levava cinco dias mas voltava com produtos bons e bem pagos. Nosso povo decidiu levantar acampamento e partir, ficamos mais de anos sem voltar. Quando a doença foi vencida retornamos e adentramos a cidade com grande festa, fomos recebidos igual. O que restara do povo queria sorrir e dançar e vocês já viram quem escute música cigana ficar parado?
Todos concordaram.
- Foi uma festança só.- os olhos do velho brilharam e então se entristeceram ao se lembrar de algo:- Um nobre tinha perdido a esposa e um filho para a doença, parou com a música e ameaçou Osmir, dizendo que havia chamado por ajuda para salvá-los da morte e o cigano tinha se negado a ir.
- Foi assim mesmo, vô?- perguntou uma ciganinha.
- Foi não minha filha, sempre que dava doença no povo gajão e nosso povo estava por perto a gente ia oferecer ajuda, perdi muitos irmãos assim, morrendo contaminado. O que aconteceu foi que a gente tinha quatro mulheres em dias de dar a luz e não tinha como trazer doença pro acampamento nem levar maldição ao povoado. Ficamos ali, pedindo aos céus por aquela gente, queimamos muitas ervas, choramos por eles também...
Por um momento toda aquela aflição de assistir a doença matar o povo amigo recaiu sobre o acampamento.
- Mas o nobre não acreditou, ficou ali na praça lançando ameaças e maldições, pois que Ramirez não se calou e o enfrentou, o valente calou-se, humilhado feito cachorro bravo que toma coice de touro. Nosso povo voltou ao acampamento e estava se preparando para partir quando amanhecesse, mas a desgraça não dorme e durante a noite um bando de gajão covarde incendiou o acampamento de fora para dentro, fez assim: o velho desenhou um círculo no ar;- O fogo foi se chegando e empurrando o povo pro meio...
Grossas lágrimas rolaram pela face do velho e de alguns ciganos mais velhos.
- Tacaram fogo na gente, vô?- perguntou um ciganinho.
- Tacaram sim.- respondeu o velho, como que vendo as tendas ardendo em fogo e a gritaria geral, as mulheres corriam para socorrer as crianças, os homens tentavam vencer o fogo para fugir do cerco, os animais assustados avançavam contra os ciganos.
- Morreu muita gente pai?- perguntou um cigano alto que segurava uma viola.
- Morreu sim, teus avós morreram abraçados. Quando conseguiram conter as chamas e foram socorrer os feridos, encontraram Ramirez e Madalena abraçados.
A cigana idosa secou as lágrimas nas costas das mãos.
- Por que não fugiram pai?- insistiu o homem que nunca ouvira a história contada pelo pai, outros contavam.
- O que a gente descobriu é que Ramirez tinha uma ferida aberta a punhal nas costas, devia ter sido atacado pelas costas, quando o fogo começou, Madalena procurou por ele e ao encontrá-lo morto, abraçou o seu amado e entrou com ele na vida eterna.
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