7. A VISÃO DO ASTERIXS
Ambelle
"Vamos! Vamos!" Alguém gritava ao lado do acampamento.
Já faziam duas noites desde a última fogueira, onde eu me ofereci como voluntária para o ritual. O que quer que isso fosse. Não que eu me lembrasse de ter feito tal coisa, mas ninguém ligava para esse minúsculo fato. O lado bom de tudo isso, é que mais jovens do clã se ofereceram como voluntárias também, ao menos eu não estava naquilo sozinha.
Por mais que perguntasse papa nunca dizia exatamente o quê era o grande ritual, seus murmúrios sobre isso eram cheios de bufadas estratégicas e bochechas vermelhas, como se ele houvesse comido muita pimenta e de repente desenvolvido uma alergia mortal. Acho que no fundo ninguém sabia realmente o que aquilo era.
"Ambelle!" Freyja jogou uma túnica vermelha em minha direção, segurei-a com uma das mãos examinando, era feita com seda e detalhes em tecido transparente. "Espero que fique bom em você..."
Pisquei lentamente. Eu estava um pouco distraída, ok muito distraída e aquela pequena frase não parecia ter encaixe em meus pensamentos. Examinei a túnica uma última vez, vendo o corte do tecido e como era provocante com todo aquele pano transparente.
Papa nunca me deixaria usar isso, pensei. Mas então como se uma estrela brilhasse sobre minha cabeça, meus pensamentos se conectaram.
"Foi do seu casamento?" Perguntei com os olhos arregalados.
"Sim, eu usei na última noite de festa," Freyja sorriu timidamente. Vindo de Freyja isso era o mesmo que acordar e ver o céu se tornar vermelho sangue. "Você pode levá-lo e ajustá-lo para conseguir usar."
"Claro que eu não deixaria Freyja ter todo esse prazer sozinha." Cloe sentou-se ao meu lado. Os pés afundando na margem do rio assim como os meus.
Quase todas as mulheres do clã do Sul estavam ocupadas com a limpeza das roupas, o aglomerado de mulheres nas margens do rio era pontilhado por um ou outro homem que vinha carregar baldes ou bacias.
"Este foi o que eu vesti na minha primeira noite a sós com meu marido." Ela deixou a roupa minúscula se abrir a minha frente, eu imediatamente agarrei a roupa de suas mãos e a afunde na água do rio, minhas bochechas deveriam está como duas maçãs maduras.
"Vocês... urgh!" Eu não sabia o que falar pra nenhuma delas.
"Não precisa nos agradecer." Freyja sorriu divertida.
"Eu queria lhe dá o vestido do primeiro dia, mas essa é uma função dos pais do noivo." Cloe deu de ombros, fazendo um biquinho chateado. Eu sentia meus olhos molhados, e pisquei várias vezes para não deixar nenhuma lágrima cair.
"O-Obrigada meninas," funguei, apertando os lábios.
O pensamento de um casamento com Richard… Não conseguia me imaginar sorrindo em nenhuma parte da cerimônia, nem nos dias de festa que se seguiria.
"Seu casamento será maravilhoso!" Cloe exclamou animada, envolvendo-me em um abraço capaz de quebrar todos os meus ossos.
Sorri, esticando as bochechas para parecer um sorriso real. A verdade, é que eu não tinha mais tanta certeza se o casamento aconteceria ou não. Depois da fogueira, eu vi os pais de Richard conversarem com os meus, e o próprio Richard me encarava com uma expressão furiosa, mesmo estando do outro lado da fogueira eu ainda tremia dos pés a cabeça ao encontrar aquele olhar.
Aqueles olhos brilhando com fúria, eram tão diferentes das palavras doces e toques suaves que eu tinha encontrado até o momento. Meu coração se apertava sempre que alguém me lembrava do casamento, sendo eu incapaz de definir meus próprios sentimentos.
As atividades não pararam. Todos estavam ocupados com alguma coisa, a maior parte dos homens desapareceram dentro da floresta e só voltaram ao anoitecer. As mulheres se ocupavam com comidas, enfeites de festas, pareciam que um grande casamento iria acontecer e todos os clãs trabalhavam a todo vapor para deixar tudo pronto.
Quando papa ordenou que todos procurassem descansar, me deixei cair na primeira coisa confortável que achei. Passos barulhentos se aproximaram parando ao meu lado. Eu estava jogada sobre uma rede escura, vinha cobiçando essa rede desde o começo da tarde, e agora eu poderia aproveitá-la, estava quente demais para conseguir dormir dentro das tendas.
"Venha para dentro Ambelle, não é seguro aqui fora." mama pediu, acariciando gentilmente meus cabelos.
"Estou bem perto da tenda," falei bocejando, e esfregando o rosto para me manter acordada. "Vou para dentro se ouvir qualquer coisa, prometo."
"Tudo bem," ela suspirou, não satisfeita com minha resposta, porém não insistiu mais. Ela ainda não tinha parado de acariciar meus cabelos quando o sono me tomou.
📌
Não sei se o que me acordou foi o frio, que sem aviso algum tomou meu corpo, fazendo até meus ossos se arrepiarem. Ou o silêncio que pareciam uma névoa pesada ao meu redor, me fazendo ouvir até mesmo o eco da minha quase inexistente respiração. O bater de cascos distante, esse era o único motivo que me fazia acreditar que não morri.
A curiosidade matou o gato, essa expressão nunca se encaixou tão bem num momento da minha vida. Eu deveria fechar meus olhinhos e voltar a dormir, ou fazer meus pezinhos caminharem em direção a minha tenda. Como por acaso havia prometido a mama. Mas, maldita fosse eu se não procurasse saber o que diabos era que estava errado ali.
Deixei meus pés irem de encontro ao chão e amarrei meu cabelo num coque no alto da cabeça, não me preocupei em olhar se os olhos estavam sujos ou se tinha um fio de baba em meu queixo quando caminhei em direção ao som dentro da floresta.
A lua não estava brilhante o suficiente para iluminar meu caminho, meus pés sofreram com as pedrinhas e espinhos. Eu deveria ser menos impulsiva e lembrar de ao menos calçar os pés da próxima vez. Meu progresso em meio a floresta foi lento, e mesmo tentando ser silenciosa eu parecia uma banda completa em meio aquele silêncio pesado que reinava.
Tentei usar minha respiração como meio para contar o tempo, mas depois de alguns segundos já estava completamente embolada com os números, então desisti. Talvez só se tivesse passado alguns minutos, ou então mais de uma hora, quando cheguei a uma clareira.
Meus pés estavam cansados e doloridos, a respiração ofegante pela caminhada difícil, mas não foi nada disso que me fez tropeçar repetidas vezes no meu caminho para o centro da clareira, também não foi o ramo da folhas e flores silvestres que enchiam o pequeno espaço.
Eu não podia acreditar em meus próprios olhos, e não podia chegar perto rápido o suficiente do gigante animal negro que estava parado mais a frente.
Um Asterixs, uma raça de cavalos tão rara que quase não haviam registros dela. Aquelas eram as únicas histórias em que eu já prestará atenção, sempre fui completamente apaixonada por cavalos e a ideia de cavalos que escolhiam seus donos e davam suas vidas para protegê-los era ridícula e ao mesmo tempo muito encantadora.
Asterixs eram conhecidos por terem os pelos de uma única cor em todo seu corpo, porém a sua crina era completamente fora do comum, alguns tinha a crina vermelho sangue ou verde. Pelo menos os únicos que ela tinha ouvido falar tinha a crina nessas cores.
Mas não este Asterixs, seu corpo era negro como uma noite sem estrelas, já a crina era violeta, assim como a cauda e os olhos. Eu estava maravilhada, poderia me amarrar a esse cavalo e nunca mais deixá-lo ir.
A lenda Asterixs era extensa, cheia de significados. Alguns diziam que esses eram animais loucos, outros afirmavam que eram a ponte entre o humano e o divino. Até hoje, nenhum dos lados foi indicado como correto. Tinha ainda um pequeno conto perdido onde falava que ao longo das eras os cavalos indomáveis se curvaram diante dos espíritos mais livres.
Ergui a mão direita, na intenção de mostrar que não queria machucá-lo. Ele parecia me avaliar, com os olhos muito sérios, como se me julgasse para ter a plena certeza de que eu merecia sua atenção. Deixei minha respiração sair numa suspiro baixo para acalmar meu coração e dei um passo para chegar mais perto, ele não se moveu, e eu imaginei que tivesse decidido que eu era digna da sua curiosidade.
Bufei, era tão ridículo imaginar que um animal julgava humanos como seres inferiores. Mas o olhar tão profundo e concentrado daquele cavalo me fez acreditar que sim, era totalmente possível.
Quando estava próxima o suficiente para tocá-lo, parei para que ele sentisse o meu cheiro, e assim consegui ver que ele tinha uma das patas presas... acho que eu não era tão digna de curiosidade assim, apenas necessária.
"Você é muito bonito... para um cavalo," Me abaixei pegando os ramos que envolviam os seus cascos. O Asterixs bateu uma das patas contra o chão impaciente. "Sou Ambelle! Você tem um dono?" Olhei para cima.
Eu não deveria esperar uma resposta, mas ainda assim espera, alguma coisa. Tudo o que recebi foram olhos violetas fixos em mim.
"Bom," consegui desenrolar a maior partes dos ramos, eles era grossos demais para serem partidos. "Acho que vou colocar um nome em você, só não sei um ainda."
Quando ele estava finalmente livre, não foi embora imediatamente como eu esperava; ficou completamente parado, olhando-me como se esperasse por mim. Por uma decisão minha.
Eu poderia voltar para casa sozinha, ou voltar com um cavalo que me deixaria famosa, não era uma decisão muito difícil de ser tomada. Apesar de todas as lendas que definiam os Asterixs como selvagens e indomáveis, este me pareceu tão calmo, tão diferente do que me foi dito.
Era mentira? Todas aquelas lendas, todos aqueles avisos?
Ele não pareceu assustado quando me aproximei, não pareceu agressivo quando passei a acariciar seu pelo, não pareceu perigoso quando me sustentei nele para levantar meu corpo. Foi um pouco trabalhoso, e agradeci aos céus por não ter mais ninguém ali, teria sido constrangedor me verem quase como um saco de batatas tentando subir no cavalo e ficando parcialmente nua no processo.
Respirei aliviada quando estava enfim firme sobre o Asterixs, segurei sua crina e tentei vira-lo em direção a trilha para o acampamento, mas as coisas não saíram como o planejado. O cavalo bufou virando-se para o lado contrário, suas patas bateram contra o chão arrancando pedaços de terra, e então ele se pôs a correr... correr como se todo o inferno estivesse perseguindo ele.
Ao menos isso continuava muito real, a velocidade espantosa dessa raça era incomparável. Fui jogada para trás, então ele pulou e fui para frente, ao entrar bruscamente para a direita fui jogada para o outro lado, agarrada a sua crina meus dedos apertavam tanto que o nó dos dedos estavam brancos.
Em minha mente se passava cada palavra dita pelos anciões para nunca me aproximar de cavalos tão imprevisíveis, mas já era tarde demais. Não parecia tão ruim... uma hora ele pararia, certo?
Me forcei a não deixar um único ruído sair de minha boca, e segurar-me aquele cavalo como se a vida de meu papa dependesse disso. Até ver que ele corria diretamente para uma ravina.
Não acho que todo o ar que havia em meus pulmões seria o suficiente para suprir o grito que eu estava disposta a dar.
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