Lembranças
Quando conheci a história de vida de Bella, meu passado imediatamente surgiu em meus pensamentos.
E eu acabo voltando há quase 25 anos...
Em três meses eu faria dezoito anos. Era próximo ao aniversário da Bianca. Um doce de menina e filha dos patrões do meu pai, também a negra mais linda de Minas Gerais.
Bianca era filha única e tinha tudo para ser chata e mimada, mas nunca foi. Na semana seguinte ela faria quinze anos e me escolheu para ser seu Príncipe.
Claro que seu pedido foi feito como amiga. lembro bem em como me senti.
Eu amava aquela menina e sua amizade me bastava.
Me tornei sem perceber, seu protetor. Eu sempre fazia palhaçadas para ela sorrir quando estava triste, eu sempre a defendia no Colégio. Colégio este que era pago pelos pais dela.
Todos debochavam de mim na escola simplesmente por eu ser gordo. Eu me entristecia, mas guardava isso pra mim, pois de naquela epoca, ela sempre parecia mais triste que eu e eu precisava fazê-la sorrir. Foi nesta mesma semana que ela me contou o motivo da sua tristeza.
Que sem ela saber também passou a ser minha.
Ela estava infeliz por que o tempo estava passando rápido demais e ela não demoraria à fazer dezoito anos.
-Qual o problema de fazer dezoito? -a olhei sem entender.
-Aos dezoito tenho que me casar com o filho do sócio do meu pai, ele já tem trinta anos e quando eu tiver com dezoito ele terá trinta e três. -suas palavras sairam entre lágrimas e entraram em mim como uma facada.
-Não! Ninguém pode te obrigar a se casar.
-Pode sim Grandão, ou eu me caso, ou minha família perde tudo.
-Eu vou conversar com seu pai. -A abracei forte
-Não vai adiantar nada.
-Eu posso tentar, você quer fugir? A gente foge junto.
-Não, se eu fizer isso meu pai te mata.
-Eu não ligo de morrer se você for livre.
-Ah meu amigo, só você mesmo para me fazer sorrir em uma hora como essa.
Por eu sempre ser brincalhão, quando eu falava sério ela achava que era piada. Saí dali chateado. Mesmo assim eu fui falar com o pai dela.
-Senhor Edson boa tarde, posso falar com o senhor?
-Fala Lucas.
-O senhor acha certo casar Bia, contra à vontade dela?
-O que você tem com isso? Pensa que não sei que você gosta dela? Se olhe no espelho seu moleque gordo, para ela você é somente o bobo da corte e nada mais. -palavras que me machucaram muito.
-Eu não ligo, gosto de fazê-la sorrir e se depender de mim, ela não vai casar com aquele homem que por pouco perderia ser pai dela...
-Saia já da minha frente e mande minha filha vim falar comigo.
Eu saí mas não dei o recado a ela. Naquela semana porém, não consegui mais fazê-la sorrir e lembro bem que também fiquei muito mais triste.
No dia da festa escutei seu Edson, falando com a esposa.
-Lucy, ela vai ter que casar, se aquele gordo fosse rico eu até mandava ela se casar com ele, mas não, ele é filho do motorista. -Sorriu ao terminar de falar.
Sai dali e fui procurá-la, ela estava na mesa perto da piscina já maquiada para a festa.
-Bia, não fique triste, vou ganhar muito dinheiro e te tirar daqui antes de você completar 18 anos.
-Quem dera Grandão. -sorriu tristemente.
-Vou conseguir, você vai ver. Temos três anos ainda.
-Está bem. Agora vamos que você também tem que se arrumar. -Ela não escondeu sua falta de fé em minhas palavras.
Porém antes de sair, fiz ela sorrir de verdade, com a minha imitação da Madonna.
Fui pra casa me arrumar. Casa não, era um quarto com banheiro em cima da garagem. Terminei rápido e voltei pra casa dela.
Quando eu ia bater na porta do seu quarto ouvi a Beth rindo alto e dizendo:
-Que nojo amiga, imagina você transamos com aquele monte de banha e ainda por cima pobre. Aquele ali só serve mesmo pra te fazer sorrir mesmo.
Ela respondeu algo baixo e ambas riram. Me afastei com lágrimas nos olhos, mas quando ouvi o barulho da porta, entrei na primeira que vi. Essa era do escritório do seu Edson, fiquei lá por mais ou menos uma hora e quando criei coragem para ir à festa... Gui barrado e levado para a delegacia. Meu pai já estava lá esperando por mim.
-Por que você fez isso filho?
-Fiz o que pai? -Perguntei sem entender.
-Você é mesmo a vergonha da minha vida. -Falou meu pai.
-O que eu fiz? -Perguntei novamente na tentativa de entender.
-Achou mesmo que me roubar faria você um moleque rico para assim se casar com minha filha. -interrompeu seu Edson.
Bia acabava de entrar com a mãe.
-Casar comigo?
-Não percebeu guria, que esse moleque te ama. -Falou seu Edson sorrindo.
-Para pai. -Ela pediu.
-É a verdade. -Afirmou seu Edson.
O delegado resolve falar.
-Todos para fora. Aqui somente o menor infrator, seu responsável e a vítima.
Ela saiu. Vi em seus olhos à decepçãoe eu ainda não tinha me dado conta que o menor infrator, era eu.
Seu Edson me acusou de roubar quinhentos mil cruzeiros, dinheiro da época. Ele mostrou uma fita comigo entrando em seu escritório e saindo uma hora depois. Não tive como argumentar nada, já que até mesmo meu pai acreditava naquela mentira.
Fui mandado para o juizado de menores e lá passei o pão que o diabo amassou. Por isso entendo como Bella se sentiu ao ser acusada injustamente e ver até quem você ama desconfiar de você.
Quando completei dezoito anos fiquei livre, só que meu pai naquele mesmo dia estava sendo enterrado. Morreu em um acidente de carro junto com a mãe da Bianca.
Assisti ao enterro de longe. Depois, fui na casa do meu pai que com muito custo o segurança me deixou entrar, mesmo assim me acompanhou. Peguei o pouco dinheiro que meu pai tinha guardado e quando eu estava de saída ela entrou.
Por um momento nada falamos, ela me surpreendeu com um abraço e acabamos chorando juntos, cada um sentindo a sua perda. Limpo seus olhos e ela pergunta:
-Por que está fugindo?
Ali ao vê-la parada, me esqueci completamente dos seus risos com Beth há três meses atrás dentro do seu quarto.
-Eu não estou, seu pai proibiu minha entrada, minha sorte foi que ele foi direto para a empresa e o chefe da segurança me permitiu entrar.
-Pra onde você vai?
-Eu não sei. Você vai se casar?
Ela não responde.
-Eu não roubei nada, eu juro.
-Eu sei grandão, me espere aqui que já volto.
Ela retornou bem rápido.
-Toma, trouxe isso para você, é tudo que eu tenho. -Fala me entregando um saquinho de jóias e um rolinho de dinheiro.
-Eu não quero Bia.
-Leve por favor. -insistiu ela.
-Eu não quero. O que eu queria era te dar um beijo de despedida? -confessei envergonhado.
Ela me surpreende beijando meus lábios, foi um beijo simples e rápido. No entanto, para mim foi perfeito.
-Vai com Deus Lucas.
Fiquei em um albergue. Porém ali na nossa cidade de Leopoldina MG, todos sabiam que fui preso e não me davam emprego, ainda mais tendo sido acusado de furto. Meu dinheiro já estava acabando. Eu estava perdido.
Mandei uma carta para meu único tio, que morava em Curitiba.
Bianca as vezes aparecia trazendo um pedaço de bolo pra mim. mas nem entrava, me entregava e da porta mesmo partia.
Meu tio me permitiu morar com ele e
no dia do aniversário de dez anos de morte da minha mãe, de malas prontas para partir, ela apareceu e me convidou pra um sorvete. Eu fui, mas antes não tivesse ido.
Mal entramos na sorveteria e os amigos dela do Colégio chegaram e fizeram todos os tipos de piada que vocês possam imaginar, fui chamado de ladrão, rolha de poço, chupeta de baleia, e por aí vai.
Ela não saiu do meu lado, mas percebi que estava constrangida e até entendi, já que eu também estava.
Na saída ela ainda me deu a mão e na porta do albergue ganhei meu primeiro beijo de língua que foi interrompido com alguns gritos de...
-Que nojo!
Ali sem ela nem mesmo saber, prometi pra mim, nunca mais deixá-la passar por isso.
Ao se despedir ela diz:
-Vá embora Lucas, não pise mais aqui, essa cidade somente fez mal à você, vá a luta, não olhe para trás, não desista, e lembre-se grandão, você pode chegar aonde quiser. -palavras ditas com seus olhos cheios
Ganhei mais um beijo, beijo esse que me encheu de coragem para entrar no ônibus com destino a Curitiba. Em mim, a promessa que em menos de três anos eu voltaria.
Por causa dela eu realmente mudei.
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🌟Não esqueçam de votar e comentem à vontade.
💋beijos da Aline💋💋.
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