14. Primeiras e últimas vezes.
Dedicado ao Clã.
Tudo se dispersa como uma neblina densa.
As horas mortas se arrastam até que os dias, um a um, terminem. Não faço ideia do que acontece lá fora, exceto pelas mudanças no clima que consigo ver por entre as cortinas da janela do dormitório desde que me enclausurei aqui, em um exílio auto proclamado.
Ontem nevou pela primeira vez, na madrugada, arrastando todo resquício de calor que ainda restava entre os dias cinzentos de Outono.
Estava acordada quando a nevasca caiu e fiquei observando o amontoado de neve se formando lá fora, encobrindo o gramado verde até que não fosse possível identificá-lo debaixo de tanto branco-sem-fim; enquanto ouvia um podcast qualquer sobre a história do Elton John e acarinhava os cabelos de um Hoseok manhoso que deveria me fazer companhia, mas já tinha adormecido.
A neve se acumulava na grama assim como os post-its mandões de Trine se acumulavam no meu painel de visualização, cobrindo todas as outras tarefas diárias que não cumpria há mais ou menos uma semana; poderia muito bem obedecê-los quando ela está sendo incisiva e assustadora, desenhando monstrinhos e dizendo que me tiraria daqui pelos cabelos se fosse necessário.
Mas a possibilidade de cruzar as portas da sala de convivência e de dar de cara com um pátio lotado de alunos me olhando torto faz com que a sensação do medo crescente queime no fundo de minha garganta, chacoalhando meus sentidos até eles se chocarem contra as paredes do meu corpo e me transformarem outra vez em nada, porque era exatamente assim que me sentia: um grande e insignificante amontoado de porcaria alguma.
A publicação tinha atingido a marca de trinta mil acessos em apenas três dias, os últimos que consegui conferir, antes de Christine desinstalar todas as redes sociais do meu aparelho para evitar qualquer outro dano permanente, como se àquela altura fosse possível não sair disso queimada. Marcada a ferro e fogo.
Para mim, o número simbolizava um desastre, uma prova significativa de que não só um campus inteiro tinha colocado os olhos naquele vídeo, mas qualquer criatura com acesso a internet dentro de Seul.
E os comentários foram a pior parte de tudo, pra deixar bem claro. Uma grande merda!
Sei que não se pode esperar nada bom vindo de quem se esconde por trás de um nome falso, de um rosto que não é seu em um fórum cheio de fofocas, mas ainda me surpreendia com as intenções maldosas de tantos desconhecidos, que não poupavam esforços e tempo pra me deixarem ainda mais machucada.
Havia recebido bilhetes também, a criatividade de algumas garotas no dormitório ainda me surpreendia, (estavam usando todos os métodos de comunicação já criados, pelo visto!), enfiando papeizinhos pela soleira com todos os tipos de ofensas possíveis; se não fosse Trine, assustadoramente, gritando no meio do corredor que desafiava a próxima garota a passar qualquer coisa por debaixo daquela porta à sair ilesa, talvez eles continuassem se amontoando como correspondências de um lar abandonado, no batente externo.
Nas últimas noites, Hoseok e Trine se revezaram em uma rotina especial para me fazer companhia. Na maioria das vezes, Hobi dormia aqui, dividindo comigo o espaço pequeno da cama, apertado dentro do meu cobertor enquanto víamos um ou outro episódio de Brooklyn 99.
O calor dele por perto me mantinha muito segura, confortável, mas nem mesmo sua presença cessava os pesadelos recorrentes, nem a onda de melancolia que me fazia cair no choro todas as vezes que me dava conta da proporção que o maldito vídeo tinha tomado. Só então percebendo que as coisas ao meu redor e talvez, aqui dentro, nunca mais seriam as mesmas.
O medo era paralisante. A sensação me causava uma inércia assustadora, um silêncio interno, o peso intransponível de uma culpa que tomava só para mim. Como se até mesmo os meus passos calculados pudessem causar estragos ainda maiores, disparar fragmentos de uma mina terrestre em todas as direções.
Me dava conta sozinha de que era a grande responsável pelo começo de tudo. Pelo egoísmo infundado, pelo plano mirabolante que resultou numa pequena reviravolta maldosa e por envolver meus amigos, cada vez mais fundo, no vórtice do furacão.
E Jungkook. Principalmente Jungkook.
Ontem, na última vez que cruzei as catracas, rumo à reitoria, para explicar a raiz dos boatos e tentar entender o que tinha acontecido, me dei conta de que o que parecia ter sido uma fofoca ridícula em um fórum universitário, tinha tomado uma proporção ainda maior para ele: uma acusação grave de que prestava favores sexuais em troca de dinheiro ou algum benefício acadêmico, dentro do Campus.
Ouvi a frase inteira sem me mover, sentada ao lado de Jungkook, diante da mesa do reitor Choi, que explicava pacientemente que tudo fazia parte de um processo maior, que já não cabia a ele tomar partido ou não. Tudo estava nas mãos da Corte Universitária. Casos como aquele passavam direto pela lista de situações furrecas de casais se beijando escondidos no dormitório ou brigas sem fundamento no refeitório. A Corte só agia em casos extremos. Situações graves. Na maioria delas, o rumo era sempre desastroso.
Mas de uma coisa sobre Choi, eu sabia: quando não se escolhe um lado, já se escolheu de que lado está. É simples. Ao menos as aulas de Ética Jornalística tinham me ensinado algo aplicável aqui: a imparcialidade é só um mito, cada um sabe muito bem onde põe o pé.
— O Sr. sabe que isso é crime, não é? Era uma conversa privada, gravada sem autorização e publicada por aí. Pior, um trecho totalmente fora de contexto, expondo nós dois. — rebati, deixando claro que todo o texto ensaiado e previsível que ele havia jogado para cima de nós não tinha me convencido em momento algum.
— Srta. Greene, não cabe a mim decidir sobre a veracidade ou não do vídeo que circula no fórum. Estou aqui para garantir que as regras funcionem a todos: à srta, ao sr. Jeon, ou qualquer outro aluno — ele disse, arrastando a cadeira contra o piso, provocando um som estranho de guincho — De qualquer forma, as investigações estão correndo, o que nos resta é aguardar!
— Há. Aguardar. Isso é patético! Então, simplesmente, vou continuar sendo chamada de vadia pelos corredores da universidade e Jungkook acusado de seja lá que merda for essa que ele não fez, enquanto o senhor pede que eu aguarde?! — continuei e nem sabia de onde toda a coragem de colocar aquilo pra fora estava vindo. Acreditava se tratar de uma mistura de exaustão por todos aqueles dias revivendo o mesmo pesadelo e o sentimento de ser invadida, analisada por uma perspectiva errada e completamente distorcida da situação. Sim, Jungkook foi meu namorado de mentirinha por alguns dias, como a pior melhor ideia que tive em vinte e três anos de existência. Mas tinha sido meu e somente meu. Exclusivamente para mim. E sobre isso, tinha certeza.
— Nunca trepei com ninguém por dinheiro, nem por merda nenhuma, se é isso que o senhor tá insinuando! — Jungkook rebateu pela primeira vez e o Sr. Choi ajustou os óculos, pacientemente, para olhá-lo de volta. E era a grande verdade sobre tudo. Nem mesmo no meio do nosso acordo, em algum ponto quando considerei a possibilidade de pagá-lo pelas semanas de serviço, ele sequer foi capaz de aceitar. Riu da situação toda quando toquei no assunto, como se estivesse contando uma piada divertida.
"Talvez eu precise te pagar uma multa por quebrar tantas regras do contrato, se continuarmos desse jeito..." ele disse, um mês antes daquilo tudo, no meio de uma situação hipotética que me deixou nervosa, quando ficamos a sós limpando mesas no refeitório e sua aproximação repentina me fez ter vontade de beijá-lo. Hoje entendo do que falava, porque também quebrei a mesma cláusula rabiscada em uma nota de rodapé: havia me apaixonado por um mané, como jurei que jamais faria.
— Jeon, por favor, mantenha a calma, ninguém aqui está com intenção de prejudicá-lo... — O Sr. Choi continuou, alinhando as mãos por cima da sua mesa ao remover os óculos.
— Manter a calma? Não posso ficar calmo enquanto esse bando de babaca fala o quer sobre a minha namorada. Foda-se o que a Corte pensa a meu respeito, eu não tô nem aí, mas a Eleanor não tem nada a ver com isso. E não precisa passar por essa situação constrangedora enquanto vocês analisam se a situação é problemática o bastante ou não.
— Jungkook, você é um aluno brilhante, assim como a srta. Greene. Sabe disso. Mas dessa vez, ela está tão envolvida neste caso quanto o senhor e a Corte tem suas suspeitas, o incidente do ano passado ainda está muito fresco na memória deles. Precisa entender isso.
Jungkook fechou os olhos por um segundo.
Sr. Choi ergueu a folha que estava lendo e vi a foto de Jungkook, anexada à ficha, de cabeça para baixo; os cabelos ainda curtos, repartidos para o lado esquerdo, um rosto de aparência mais infantil, mesmo que suas covinhas adoráveis continuassem marcadas bem ali na pele bronzeada feito um rastro de ouro em pó, como uma evidência de que se tratava do mesmo garoto, decalcado por debaixo da rasura de um homem crescido.
— Na sua ficha diz que o você cumpriu os seis meses de acompanhamento psicológico para gerenciamento da irritabilidade que foram solicitados no caso envolvendo o sr. Kim. Inclusive, um tratamento intensivo à base de medicamentos com prescrição, Lorazepam e Neuleptil, durante três meses, correto? — A caneta seguiu circulando uma série de palavras-chaves na ficha, mas os olhos de Jungkook estavam fixos no chão, como se tivesse sido, mais uma vez, totalmente exposto, nocauteado por uma verdade que não estava disposto a trazer à superfície, mas não nega a pergunta.
— Sim.
Foi um baque. Um dos grandes.
Como escalar até o ponto mais alto e despencar em uma curva íngreme, sem aparatos.
Por mais que tivesse a intenção de agir como se tudo aquilo não fosse uma surpresa, como se não estivesse completamente afetada pelo que tinha acabado de ouvir, não era a melhor em disfarçar, não conseguia sequer desviar o meu olhar dele. Fiquei sentindo as palavras do Sr. Choi se revirando dentro da minha consciência. Martelando no meu crânio. Até se espalharem para todos os lados feito uma avalanche.
O olhar de Jungkook encontrou o meu, de relance. Estava apenas verificando se, de fato, eu estava ali ouvindo tudo. Não tinha mais como negar, agora eu também sabia sobre o seu segredo.
— Peço que aguardem. É o que posso dizer por enquanto, infelizmente. Tentem seguir a rotina de vocês normalmente, deixem que os alunos esqueçam isso de maneira gradual. A publicação já foi removida do fórum conforme eu solicitei ao aluno responsável pela manutenção do site, não há muito mais que possa ser feito.
As palavras do Sr. Choi pareciam perdidas no ar, vindas de outra dimensão, uma realidade paralela à qual não tínhamos mais nenhum acesso. Meus olhos seguiam fixos em Jungkook. Porque não poderia sequer mensurar uma parcela do sofrimento que o último ano havia lhe causado. Enxergava a ponta do iceberg e somente ela. Era isso que ele havia me mostrado e era isso que queria que soubesse.
— Podem ir, ok? Qualquer atualização sobre a situação com a Corte, serão os primeiros a saber. Só peço que, por favor, sejam mais cuidadosos. E você, Jeon, analise bem essa situação, a causa dela, veja a raiz de tudo... — Choi disse, sem desviar o olhar incisivo de sua direção. — Seja mais atento para não continuar ferindo as pessoas que estão ao seu redor, é um conselho de homem pra homem.
O ímpeto que me atravessava era de mostrar a Choi o dedo do meio, dizer algumas verdades mesmo que isso pudesse me render alguns dias de suspensão acadêmica, que naquela situação não parecia ideal, contudo, Jungkook permaneceu de pé, no meio da sala, sustentando a alça de sua mochila, enquanto absorvia as palavras pelo tempo que elas duraram até chegarem nele e o atingirem com toda força.
— Sim, senhor.
A porta se fechou atrás dele com cautela e meus olhos continuaram buscando por qualquer sinal que imaginava que seu corpo me daria de forma involuntária, de novo. Poderia dizer que aquele lado frágil, entre todas as versões do Jungkook que conheci ao longo daqueles dias, era uma das que nunca tive acesso. A mais reclusa. Que quase nunca dava as caras. Não que tivesse mergulhado no senso de masculinidade tóxica com a ideia de que mostrar um lado sensível e passível ao dano fosse como confrontar quem ele realmente era, mas afugentava todo e qualquer sentimento que o deixasse vulnerável diante de outra pessoa. E eu sabia disso.
Queria abraçá-lo e dizer que tudo ficaria bem, mas me sentia uma intrusa em uma história que só sabia pela metade. Os remédios, as crises, o tratamento. Tudo havia sido arremessado em meu colo nos últimos vinte minutos e embora estivesse lutando para processar todas as informações o mais rápido possível, não sabia como proceder. Ainda estava ali ponderando os porquês dele ter ocultado o lado mais significativo do que aconteceu.
— Podemos conversar? — Minha voz parecia um sussurro, denunciando o cuidado sobre o assunto no qual iria tocar e Jungkook sabia disso, porque em nenhum momento, naquele meio tempo, teve coragem de me olhar de volta.
— Agora não dá, eu tenho aula daqui a pouco! — ele se afastou minimamente e o alcancei pelo cotovelo, forçando-o a parar.
— Jun, se for pelo que o Choi falou na sala, tudo bem! Isso não muda nada sobre o que -
— Por favor, Eleanor. Eu só não quero falar sobre isso agora. — Seu tom não era agressivo, mas enfático. O suficiente para me parar ali.
— Ok. — comecei, — Desculpe.
— A gente se fala depois, pode ser? — ele perguntou, pressionando os lábios contra a minha boca e se afastando antes que eu tivesse tempo o suficiente de responder antes de vê-lo cruzar as portas.
— Tudo bem...
Por mais que estivesse tentando esconder, era óbvio; ele estava prestes a chorar.
♆
Recebi um torpedo de Hoseok para encontrar ele e Trine no refeitório e a ideia pareceu péssima partindo do ponto que era justamente lá que se concentrava a maior aglomeração de alunos que, sem nenhuma razão aparente ou motivo nobre, simplesmente me odiavam.
Ainda estava anestesiada com tudo que ouvi na sala de Choi, me sentindo patética por não saber de absolutamente nada no fim das contas. Jungkook continuava acumulando seus segredos e eu acabava descobrindo tudo porque alguém estava disposto a arrancar os esqueletos do armário.
O celular vibrou em minha mão, me arrancando de um pensamento quase doloroso e se tratava de outro torpedo de Hoseok.
[12:23] hobison 😈:
Posso ir te buscar aí,
se quiser!
[12:25] eu:
Relaxa,
vou tentar passar
despercebida.
Puxei o cachecol até a altura da boca e saí da sala da recepção do reitor de cabeça baixa, não percebi se algum olhar estava direcionado a mim quando atravessei o pátio naquele horário movimentado, até chegar ao refeitório. Aproveitei a chance para entrar quando um grupo grande de calouros focado em ler anotações de apostilas e discutir sobre uma questão de Filosofia abriu a porta, avançando para dentro. Hoseok estava sentado em uma mesa nos fundos, um pouco mais isolada do restante dos alunos e agradeci mentalmente por isso.
— Te comprei cheeseburguer e fritas, tem problema? — ele perguntou, assim que puxei a cadeira ao seu lado.
— Não, tudo bem, comeria qualquer coisa!
— Tá tudo bem mesmo? — Queria dizer que perdi a fome e que estava afundando em um pensamento cretino sobre o que tinha feito Jungkook viver nos últimos meses, queria mesmo contar como tudo aquilo estava sendo horrível e como me sentia a pior pessoa do mundo por fazer Trine e ele se envolverem em um problema que era só meu. Pensei em dizer tantas coisas, mas desisti antes que começasse a chorar copiosamente no refeitório.
— Tá sim...
— E como foi a reunião com o Sr. Choi? Ele já descobriu sobre o autor da postagem?
— Não e não acho que vá conseguir. — comecei. — No fim das contas isso tudo não vai dar em nada, você sabe. Ele vai dar uma desculpa aqui e outra ali e essa história vai morrer.
— Sua mãe é advogada, Nonô, ela deveria realmente vir aqui conversar com o reitor. Você foi exposta e tudo vai ficar por isso mesmo?! — Era impossível deixar meus pais de fora do que aconteceu, embora tenha contado só metade da história. Não queria revelar sobre o namoro falso e deixar aquela estranheza presente entre eles e Jungkook.
Eu sabia que estava sendo muito filha da puta com mamãe, papai e River. Mas não queria envolver mais ninguém nisso. Não queria arrastar mais ninguém na avalanche dos meus problemas. Meus pais detestavam Seul, todo o ar caótico e artificial da cidade, só traria os dois aqui para eles ouvirem o mesmo que ouvi há meia hora, um grande"não me importo com isso" disfarçado de "estamos fazendo o possível."
— Hobi, não vale o esforço! Além de fazer meus pais passarem essa vergonha à toa.
— E como o Jungkook reagiu a tudo isso? — Trine perguntou. — Quando a postagem foi publicada ele pareceu bem desesperado, tava realmente preocupado com você no meio daquela coisa toda! — Poderia contar sobre o que ouvi na sala de Choi e tentar entender como nunca suspeitei sobre o ocorrido em momento algum, sempre tão mergulhada em mim mesma, como sempre. Mas sabia tanto quanto qualquer outro ali, um mero resumo simples de uma situação complexa.
— Está abalado. Pra falar a verdade, nunca o vi assim... — Mordi o hambúrguer, evitando olhar demais para Trine porque sabia que ela suspeitaria de minhas meias verdades, como acontecia quase sempre.
— Você não suspeita de ninguém, Nô? — Ela perguntou dessa vez, se aproximando um pouco mais. — O que teria motivado tudo isso?
— Eu tenho um milhão de suspeitas, mas todas elas me direcionam sempre para a mesma pessoa. — respondi — E se eu tiver certeza, nem sei ao certo o que poderia fazer. — Os olhos de Trine avançam até os de Hoseok, como se as suspeitas em comum validassem o mesmo ponto.
— Ei, Eleanor-ssi, se você quiser trepar comigo, juro que pra você eu nem cobro! — Um garoto gritou, ecoando na mesa atrás da nossa, seguido de risadinhas sacanas de apoio. Meu corpo inteiro retesou, cada músculo tensionado como cordas apertadas de uma guitarra, quase a ponto de estilhaça-las. Já sentia o sangue tomar as bochechas, meu rosto arder de vergonha, porque não importava o quanto tentasse, me escondesse, fugisse disso aqui: continuaria marcada.
— Ninguém quer sentar nesse seu pau de dois centímetros, seu babaca! — Trine respondeu, erguendo o dedo do meio.
— Uma piranha por vez, Christine, relaxa aí! — Trine levantou, caminhando até a mesa e eu já estava prevendo o desastre. Sabia bem o que iria acontecer.
— Cara, cala a boca! Você não cansa de ser filho da puta?! — Hoseok ficou de pé também, logo atrás de Trine.
— Meu problema não é com você! Se manda, ô viadinho! — ele continuou — Ou você também é pago pra comer as duas?!
Foi um lapso. Um corte temporal sangrando em uma linha do tempo diferente da realidade em que eu estava. Quando ergui a cabeça entre Trine e outro idiota de pé, ao meu lado, vi Hoseok estendendo o braço sobre a mesa dos garotos e puxando as bandejas para o chão.
— Pronto, agora seu problema é comigo! — ele disse, se aproximando de Yugyeom que já parecia pronto para socá-lo.
Nenhum argumento se manteve de pé depois que o punho de Hoseok golpeou o outro garoto, sem deixar alternativa para uma resposta imediata ou um pedido automático de paz. A briga tomou proporções ainda maiores, de forma generalizada. Trine, de pé, assistindo tudo a uma curta distância enquanto os outros garotos, sem saber exatamente o que fazer, se dividiam entre uma tentativa de separar Hoseok e Yugyeom rolando por cima das porções de comida jogadas no chão ou registrar os momentos pra compartilhar em alguma rede social depois. Nem sei ao certo como tive o impulso de pedir ajuda, mas o pânico falou mais alto quando o garoto montado em Hoseok como um cavalinho, desferiu socos, um atrás do outro, sem pensar duas vezes.
Não demorou muito e Hobi já estava segurando a cabeça de Yugyeom contra o piso, cheio de molho de tomate, quando um dos rapazes do curso de Filosofia que agarrei pela camiseta interviu para separá-los.
— Fala de novo, seu cuzão! Repete! — Hoseok vociferou, enquanto outros dois garotos com o dobro do seu tamanho tentavam tirá-lo de cima de um Yugyeom machucado e meio fora da realidade pelo último golpe certeiro.
Não lembro direito como guiei Hoseok no meio das pessoas, pela mão, até o laboratório audiovisual e interrompi o almoço de Seokjin com um pedido de ajuda. Trine estava logo atrás de mim, segurando as mochilas com uma das mãos, enquanto a outra afastava a camada de cabelo de Hoseok do rosto para ver bem o estrago.
— Desde quando sabe fazer essas coisas? — ela perguntou, usando a touca azul, que há dois minutos estava em seu cabelo, para limpar um pouco do sangue escorrendo pelo nariz de Hoseok.
— Krav Magá, — ele começou, exibindo um sorriso ensanguentado — por dois anos no ensino médio.
— Cacete, acho que minha calcinha tá molhada agora! — Trine comentou, fazendo Hoseok sorrir ainda mais.
— Qual foi a merda dessa vez? — Jin perguntou enquanto puxava as persianas para baixo, caminhando até onde Hoseok estava para guiá-lo em direção à uma das cadeiras giratórias e observar bem o seu rosto.
— Algum idiota só recebeu o que merecia... — Hoseok disse, erguendo a cabeça para que o sangue parasse de gotejar no jeans que ele usava.
— Espero que não tenha sido você — Jin disse e Hobi sorriu ainda mais. Parecia orgulhoso do próprio feito, mesmo que por alguma razão, aquilo tudo só parecesse ainda mais errado. O resultado poderia ter sido pior, ter causado um dano irreparável.
— Vocês estão rindo? Você poderia ter se machucado de verdade, Hoseok! Isso foi muito irresponsável! — gritei.
— Nô, tá tudo bem, relaxa! Isso aqui não foi nada — ele respondeu, o tom de voz desaparecendo em um fio ruidoso que depois disso, silenciou a sala inteira.
Desabei em um choro quase compulsório. Pega desprevenida por um soco de culpa.
— Não, nada, nadinha nessa merda de vida tá bem. E isso também é culpa minha. Tudo isso! — Outra vez o silêncio desconfortável. Tinha arruinado o almoço de Seokjin pra completar o pacote ordinário de tudo que não deveria ter feito e ainda sim, continuei fazendo sem medir as consequências.
Não tinha como fugir do meu próprio medo, nem das emoções implodindo e expelindo carne viva, entranhas e ossos para todos os lados. Poderia muito bem optar pelo caminho doloroso e mais fácil e me retirar do campus com minha insignificância, pedir transferência para Busan e fingir que nunca fui Eleanor Greene, a namorada farsante de Jeon Jungkook.
Christine se aproximou, passando os braços ao redor de minha cintura, em um movimento sutil, puxando-me para perto.
— Ei, tá tudo bem, uh? Tá tudo bem... — ela começou, — essa dor vai passar, você vai ver! — Sua mão deslizava indo e vindo em minhas costas, num carinho quase maternal que me fez ter vontade de ir pra casa. Roubar a bicicleta fodida de Jungkook e pedalar até Busan, onde alguém, independentemente das merdas que fiz nos últimos meses, ainda estaria, irrevogavelmente, me amando. Dormiria em paz sabendo que os bilhetes maldosos não se acumulariam na soleira da porta, nem que os olhares cruéis me acompanhariam, julgando meus passos como uma criminosa condenada ao corredor da morte. Não teria títulos e condecorações forçadas sobre tudo que nunca fui. Evitaria qualquer outro dano a quem ousasse se aproximar.
— Eu só queria ter feito diferente, só isso! — comecei, — Não queria ter machucado ninguém — Trine se afastou um pouquinho, sentando ao meu lado, perto das mesas do laboratório.
— Não foi culpa sua, Eleanor. Não é crime lutar pelo que quer, por favor, não inverta os lados. — ela disse, — Ninguém tem controle sobre a vida, muito menos sobre o que as pessoas vão pensar de nós, só temos controle sobre aquilo que nos afeta e como nos afeta. — sua mão acarinhou meu cabelo, afastando-o do rosto. — Não vou bancar a psicóloga com você, sei que odeia quando fico te avaliando assim, mas você sabe, no fim das contas suas decisões te mostraram um outro caminho, às vezes a resposta tá nele, entende? — ela finaliza, segurando meu rosto para olhá-la bem nos olhos.
— Não gosto quando você banca o Mestre dos Magos comigo, — começo — não sou boa em resolver enigmas — Christine riu.
— No fundo a gente não pode fugir do que vai acontecer, às vezes é melhor assim — Trine disse, bagunçando a franja para um dos lados do rosto.
— Sei que tô sendo idiota, mas é que tudo isso parece um reflexo de tudo de errado que já fiz... Tudo voltando, de uma vez só.
Continuava rastejando no meu ciclo vicioso de culpa. Os comentários continuavam surgindo em memória, vez ou outra, como se quisessem manter um memorando de quem eu realmente era ali. Doendo em um lugar que não deveria sequer ser alcançado por outra pessoa sem a permissão devida.
— Acho que você vai entender tudo em algum momento, sei lá, uma hora tudo isso vai fazer sentido, tipo, o Hoseok saber chutar bundas, sacou?
— Saquei. — Direcionei o olhar para Hoseok fazendo careta enquanto Seokjin limpava um corte minúsculo em sua boca.
— Ele ficou sexy depois de uma surra.
— Christine!
— O quê? Só tô dizendo que talvez socar o Hoseok, às vezes, o ajude a ter mais desenvoltura amorosa...
— Claro, claro.
— Homens perigosos são mais sensuais, mas mulheres perigosas são minha ruína — ela disse e eu sorri, de novo.
— Eu te amo, Trine. Não sei o que seria de mim sem você e o Hoseok.
— Ainda seria essa garota forte e sem juízo que sempre teve certeza do que queria! Mas eu também te amo, sua bobona. — Trine me puxou mais para perto, me acolhendo em um abraço.
E agradeci, silenciosamente, por tê-la comigo.
♆
À noite, preparei um chá e recomecei a ler as anotações patéticas que havia feito para o artigo de candidatura ao estágio.
Minha decadência dava sinais óbvios até mesmo em reflexos mínimos na minha escrita, tudo parecia muito pessoal e emocionado, como se estivesse escrevendo uma página de diário, me derramando para estranhos em um texto que não fazia sentido. O sr. Shin já havia questionado algumas vezes o motivo de me mostrar tão vulnerável em uma escrita que deveria ser impessoal, mas parecia que meu corpo só esperava uma oportunidade para colocar para fora, da forma que conseguia, tudo que eu estava sentindo nos últimos dias.
Todavia, continuava deslizando o ponteiro do mouse defeituoso para baixo na tentativa de encontrar qualquer trecho relativamente aceitável, embora minha mente tivesse encontrado maneiras sinuosas de me tirar de órbita cada vez que começava a releitura de algum parágrafo. Tomei um outro gole do chá de camomila e chequei as horas no celular, e ali na barra de notificações, uma mensagem de Jungkook piscava no aplicativo de mensagens.
[23:23] jun
Podemos conversar?
É importante!
Tum. Meu coração reverberou pelo quarto, pelo prédio inteiro. Não nos falávamos desde a reunião com Choi, pela manhã, quando senti que havia pressionado em um ponto que ainda feria de mais Jungkook, em contrapartida, meu intuito tinha sido apenas de ajudá-lo e nunca de fazê-lo se sentir como se quisesse invadir os seus segredos.
[23:25] eu:
Ok.
Onde?
[23:26] jun:
tô em frente às catracas,
mas quero te mostrar um lugar.
[23:28] eu:
É seguro?
[23:30] jun:
sim, gatinha!
nunca te colocaria em risco
de novo.
Já estava de pijamas a essa altura, usando meias de pares diferentes e completamente aconchegada nas cobertas, com o notebook a tiracolo. Trine já estava dormindo há um bom tempo e considerando o horário, eu precisaria estar de volta por volta da 01h da manhã, antes que as portas do dormitório fossem automaticamente trancadas. Estava torcendo para que Jungkook não tivesse um interesse dúbio dessa vez, para resolver nossas diferenças como elas costumavam ser solucionadas: em alguma superfície próxima, confortável o suficiente para apoiar o meu corpo enquanto as coisas perdiam, gradativamente, o controle. Me sentia proibida de pensar sobre isso na situação atual e talvez fosse uma paranoia unicamente minha, já que durante os últimos dias o medo se fazia tão presente que não tive sequer coragem de tocá-lo. Contudo, a ideia não parecia tão ruim assim quando pensava na possibilidade de aniquilar qualquer resíduo de culpa só por algumas horas, esquecendo um pouco da realidade ao modo que ele sabia melhor.
Peguei algumas roupas confortáveis no armário e as vesti o mais rápido que pude, iluminada somente pela claridade do notebook largado na cama, projetando sombras do outro lado do quarto. Garanti que algumas sobreposições me manteriam aquecida e iriam servir como uma proteção extra, um escudo, caso meus pensamentos tivessem a audácia de trair por um segundo, mesmo que soubesse que nenhum dos dois, provavelmente, ultrapassariam essa linha.
Calcei o par de tênis e roubei uma das toucas de lã de Christine, antes de cruzar o corredor que já estava parcialmente escuro e chegar até o elevador. Me certifiquei de que não havia ninguém, sabia que o desconforto seria ainda maior se tivesse que compartilhar um espaço pequeno e apertado com outra pessoa que, provavelmente, pensava o pior ao meu respeito.
[23:45] eu:
Tô descendo!
A mensagem foi visualizada quase automaticamente e por alguma razão, a ideia de estar a sós com Jungkook de novo passou pela minha cabeça como uma sugestão assombrosa.
Sentia que qualquer passo em falso ou deslize meu, outra vez me arremessaria para um lugar desconfortável de exposição, não parecia seguro e secreto como antes. Todos os olhos estavam voltados para o que quer que eu fizesse. Deduzindo, interpretando e julgando cada mínimo movimento.
Quando o elevador chegou ao térreo, precisei de uma dose extra de coragem para caminhar em direção às catracas. As luzes já tinham se apagado e toda a iluminação era proveniente da claridade dos postes frontais do prédio.
Jungkook estava de pé, batucando os dedos contra o corrimão da escadaria e parecia dispersar um nervosismo instaurado a mais tempo do que os vinte minutos que levei para encontrá-lo.
Se naquele momento soubesse tudo que sei agora, teria mudado o rumo desastroso e as proporções desagradáveis que aquela noite tomou.
Me aproximei com cautela, embora tivesse a sensação que Jungkook sentia minha presença todas as vezes, sem precisar de pistas concretas, mesmo nas aproximações repentinas. Mas de novo meu coração me denunciou primeiro.
— Desculpe pela demora — comecei, desviando o olhar para qualquer outra direção. Me dando conta de que tinha esquecido as luvas e que muito provavelmente minhas mãos congelariam nos próximos minutos.
— Relaxa! Vem cá. — Gostava de como seu rosto parecia sereno durante à noite, como se só naquele horário, ele conseguisse, inteiramente, relaxar. Sabia que existia uma crença islâmica de que nossas almas são criaturas notívagas e que apenas durante este horário, elas estavam presentes por inteiro em nossos corpos. Talvez Jungkook se valesse desse ditado naquele momento. Cheio de sua própria essência e sem fugir dela.
Seus olhos se demoraram sobre mim. Pareciam vasculhar cada centímetro do meu rosto em busca da resposta para uma pergunta que até então, não foi vocalizada.
— Podemos ir? — Tirei Jungkook do modo transitório, uma linha de pensamento que terminava no modo como me olhava, sem dizer uma palavra sequer.
— Vamos sim. — Sua mão enluvada entrelaçou a minha, me guiando no meio da trilha fria e sólida de neve abaixo de meus pés, abrindo um caminho marcado por pegadas no que, algum dia, foi um gramado.
Meus olhos continuavam indo e vindo, de um lado para outro, em busca de algum rastro ou rosto familiar nos observando, mas não havia ninguém lá fora além de nós dois. Mas estava tão distraída que acabei afundando os pés na neve amontoada na lateral e sabia que em alguns minutos minhas meias já estariam ensopadas pelo gelo derretido antes mesmo que chegássemos ao local.
— Para onde estamos indo mesmo?
— Um lugar legal! — ele respondeu, rapidamente.
— Espero mesmo — comecei, — meus mamilos tão congelando...
— Posso resolver isso pra você, se quiser. — ele sugeriu, sorrindo pela primeira vez.
— Para de ser pilantra!
Nos afastamos gradativamente do campus, passando pelo caminho arborizado que durante a Primavera era colorido por um mar cor-de-rosa de pétalas de cerejeira. O Grand Peace Hall ficava a alguns metros dali, com seus ares de castelo medieval, principalmente naquela época do ano, similar a um cenário qualquer de Game of Thrones cercado de tanta neve.
— Estamos quase lá — ele avisou, depois que passamos pelo prédio do Curso de Direito, à esquerda.
Chegamos ao ponto máximo do campus, um muro de pedras relativamente baixo cercado por bancos improvisados de madeira antiga. Jungkook me ergueu pela cintura, deslizando o braço por baixo dos meus joelhos e passando uma perna por cima da mureta, seguida da outra.
A vista, sem sombra de dúvidas, era linda. Ali do alto conseguia ver toda a dimensão da Universidade, as luzes amareladas lá embaixo só pareciam estrelinhas distantes demais da realidade em que estávamos. Tudo parecia mais inofensivo e seguro.
— Uau! — comecei, — Como nunca soube deste lugar? — Jungkook riu, me puxando para sentar com ele no banco, rabiscado por iniciais de alguns casais.
— Descobri há pouco mais de um ano, quando procurei a planta da Universidade pra um projeto do Sr. Lee. — Jungkook disse, passando o braço ao redor do meu ombro. — Nos anos 90 alguns casais vinham... você sabe, aqui nesses bancos.
— Que nojento! — disse, dando um tapinha na sua coxa. Ele riu. — Alguns dos nossos amigos podem ter sido concebidos aqui, sabia?!
— Mas, falando sério... — ele começou, — Queria te pedir desculpas pelo modo como agi hoje cedo, fui completamente babaca com você.
— Tudo bem, só tinha ficado preocupada com o que rolou na sala do Choi, não queria que pensasse que tava tentando me intrometer no seu passado...
— Não, sei que não foi isso, eu só... Sei lá, me senti péssimo. — ele parou por um instante, empurrando a neve com os coturnos.
— Fugir pareceu a melhor opção? — eu perguntei, enquanto me aproximava um pouco mais dele.
— Acho que só fiquei com vergonha de que me visse assim...
— Assim?
— Quebrado. Danificado. Fodido. — ele diz, — Como todo mundo costuma ver. Desde sempre. —
— Não te vejo assim... — comecei, — nunca te vi desse jeito. — Deslizei a mão no seu cabelo longo, puxando algumas mechas para trás, vendo seu rosto bonito mais de perto. Adorava a textura dos fios enroscando nos meus dedos. Toda e qualquer sensação que seu corpo provocava, involuntariamente, ao meu.
Observo tudo detalhadamente; a boca diabolicamente bonita, o nariz cheio de personalidade, as sobrancelhas que sempre foram minha ruína, e seus olhos, seus olhos lindos e brilhantes como como rastros de estrelas cadentes. Faria sentido dizer que ele era o Sol, quando o resto do Universo inteiro também estava escondido dentro dele.
Amava Jungkook e sabia que amava. Nem faria o esforço educado de negar que o amei há mais tempo do que estava disposta a admitir. Como se aquilo fosse capaz de me forçar a negar minha própria natureza, ir contra tudo que estabeleci como seguro. Nada, nunca foi seguro quando se tratava dele.
Enlacei meus braços ao redor de sua cintura, por dentro da jaqueta impermeável que ele estava usando, afundando meu rosto na curva de seu pescoço, na fonte de todo seu perfume gostoso de banho.
Como sobrevivi sem um pouquinho dele por perto durante tanto tempo?
Sua mão envolveu minha nuca, trazendo calor necessário e espalhando, involuntariamente, por todas as partes do meu corpo, que antes pareciam frias demais. Meus lábios ardiam de tanta vontade de tocar os dele, como se pela primeira vez estivesse experimentando seu gosto doce de amor. Era inútil relutar e eu sabia.
— Por que tá me olhando desse jeito? — perguntei, no meio segundo que levei para abrir os olhos e encará-lo de volta.
— Sei lá, — ele disse — Só não quero te esquecer.
— E porquê iria?
— Talvez o Sr. Choi tenha razão sobre o que disse, — ele respirou fundo, unindo nossos dedos e apoiando o cotovelo por cima da própria perna — essa coisa de eu sempre acabar machucando todo mundo que tá ao meu redor.
— Choi só disse aquilo da boca pra fora, Jun. Acho que ele só queria garantir que manteríamos as coisas nos eixos pelos próximos dias... — Me afastei minimamente para olhá-lo de novo.
— Não acho que seja sobre isso. — ele começou — Seja lá quem gravou a porra do vídeo, foi completamente calculado com o intuito de me afetar e toda essa merda recaiu em você. Não é a primeira vez que o "Paladino da Verdade" me expõe no fórum, isso já aconteceu antes.
— Só precisamos aguentar mais um período e fim. Acabou! Não vamos ter que lidar com um fórum idiota ou alunos nos olhando torto. Só mais um período.
— Eu só trouxe problemas pra você, desde o começo.
— Jungkook, a ideia do namoro falso foi toda minha!
— Mas eu aceitei, Eleanor. Eu sabia onde estava me metendo. Sabia sobre os riscos de tudo desde o começo. Me beneficiaria com isso também.
— Ok, aonde você quer chegar com com essa conversa? — A pergunta saiu com mais ênfase do que pretendia, talvez porque o ambiente tão isolado e silencioso não estava me dando alternativas de contenção de voz e conseguia me ouvir ecoando a céu aberto.
A ponta do nariz de Jungkook estava rosada, o princípio do frio, ao qual ele sempre pareceu imune, estava começando a se apoderar do corpo totalmente. Os lábios estavam trêmulos, resultado de um nervosismo óbvio, de tudo que não tinha sido dito. Ainda.
— Eu aceitei a proposta da bolsa de estudos em Tóquio — ele diz, de uma vez só. Como se quisesse arrancar a casca protetora de uma ferida que ainda não estava totalmente cicatrizada.
Permaneci em silêncio. Absorvendo as palavras e o significado delas. Tudo bem, o próximo semestre ainda seria o último, não poderia simplesmente exigir que ele permanecesse aqui, não poderia tirar as conquistas dele em nome dos meus caprichos. Embora nem de longe conseguisse imaginar a proporção de como receberia a notícia. E não estava nem um pouco preparada para ela.
— Então você vai embora no início do próximo semestre, não é? — perguntei. Jungkook respirou fundo, os dedos deslizaram pelo queixo como se estivesse preparando-se para uma segunda rodada de notícias desagradáveis. — Não é?
— Não, — ele começou, — o voo é na quinta-feira, já reservei as passagens.
Foi como um soco certeiro. Um empurrão do destino me tirando de uma rota indesejada.
— O quê?
— Eu falei com a administração da universidade em Tóquio e eles permitiram que eu terminasse o semestre lá, antes de iniciar a bolsa. — Tinha um nó em minha garganta, a visão turva da quantidade de lágrimas que pareciam inundar os meus olhos sem permissão, me deixando desnorteada e zonza demais.
— Então isso significa que é o fim de tudo? — Era no silêncio cruel das respostas não ditas que cabiam todas as perguntas que machucavam mais. Dúvidas que irão me perseguir como demônios materializados com o rosto das incertas: será que isso tudo nunca foi verdade? Será que o tempo todo foi um jogo? — De tudo entre nós?! — Minha voz era só um sussurro. Palavras que colocava para fora na intenção de apenas ter certeza do que estava realmente pensando, como se elas fossem capazes de soar absurdas demais e romper a barreira mágica de um pesadelo lúcido.
Seus olhos sequer me encaram de volta, estavam fixos no rastro de suas próprias pegadas como se decorasse o caminho mais rápido que ele tomaria na volta.
— Eu sei que quanto mais ficar aqui, mais eu vou te machucar...— ele começou, vociferando enquanto continuei me afastando minimamente na direção oposta para voltar ao dormitório. — Eu só quero te proteger. Sabe que faria qualquer coisa por isso.
— Proteger? Eu te pedi pra me proteger? Não preciso disso!— eu comecei, a visão embaralhada pelas lágrimas que jamais derramaria na frente dele, se pudesse. — Se você está indo, ao menos assuma que é por vontade própria.
— Eleanor, por um segundo, só me escuta!
— Escutar o quê? Uh? Só me diz, isso tudo foi divertido pra você? Dizer tudo que disse e me fazer acreditar nisso?!
— Nada disso foi uma brincadeira, nada que eu disse era mentira — ele se aproximou, as mãos tocando meu rosto. — Sabe que me apaixonei de verdade.
— E o que eu posso fazer só com suas palavras? — Meu raciocínio parecia danificado, sem seguir uma linha que fizesse total sentido. — O que posso fazer com tudo isso que você me diz? Você simplesmente decidiu ir embora e acha que pode consertar tudo dizendo que se apaixonou por mim? — Afastei Jungkook mesmo que suas mãos continuassem atadas ao meu corpo, como um fio vermelho interligando nós dois, do qual não poderia cortar, romper ou me livrar.
— Você nem faz ideia do quanto eu amo você. — Era a primeira vez que via Jungkook chorar, tão afetado que, por um momento, faz meu coração doer — Tô fazendo isso por nós dois.
— Você decidiu isso sozinho, não diga que é por minha causa! — comecei. — Amor é sobre verdade, Jungkook. É sobre honestidade. Não é só sobre trepar ou dizer palavras bonitas e achar que tá tudo bem. — Já não tinha mais nenhum controle do meu próprio corpo, que tremia, fraquejava, parecia agir por vontade própria. — Eu não posso fazer nada só com suas palavras.
— Eleanor, deixa eu só te explicar...
Estava nua diante dele. Uma nudez que não me exigia pele exposta, roupas jogadas pelo chão em uma rota marcada. Eu gostaria muito de dizer que em algum ponto de todas as tentativas, estava disposta a lhe dar minha outra face, dizer que nunca me senti assim com nenhuma outra pessoa no mundo. E que ele, mesmo sem intenção, foi o meu primeiro amor. Talvez minhas palavras agarrassem-no pelas pernas, impedindo-o de caminhar para muito longe sem arrastá-lo de volta. Envolvendo seus braços e mãos, fazendo com que ele tivesse motivos suficientes para ficar ao lembrar do meu toque, ou que meu gosto o perseguisse sobrepondo todo e qualquer outro que ele ousasse experimentar, e eu continuasse tatuada em cada parte dele, serpenteando ao seu redor mais do que qualquer outro desenho em tinta permanente. Mas de que me adianta tudo isso se seu coração, há tempos, partiu antes de mim?
— Eu só queria nunca ter te conhecido. — Me desvencilhei do seu toque com a mesma facilidade com que me afastei afundando na neve macia, até que ele fosse só um ponto solitário no meio de tanto branco infinito, embaçado pela visão turva das lágrimas que segurei pelo tempo máximo que pude.
Queria que ele nunca tivesse entrado naquela biblioteca.
Queria que ele nunca tivesse me tocado.
Queria nunca ter me apaixonado por Jungkook.
No meio de uma sensação dilacerante, que me virava do avesso, avancei sem rumo, enquanto ele continuava parado no mesmo ponto, com as mãos no rosto, se tornando cada vez menor à medida que eu me afastava.
E embora não soubesse disso no momento, aquela seria a última vez que veria Jungkook.
(❥)
Lá na #ClãCCEG a gente pode conversar sobre o capítulo de hoje! 🍍
CCEG chegou a 100K? MEU DEUS!
Antes de mais nada só quero agradecer imensamente a cada um dos leitores: por cada voto, leitura, comentário, por todo carinho contido em coisas tão pequenas que, juntas, se tornam gigantescas. Ainda olho para esse número simbólico e me sinto grata por saber que Como Conquistar Esse Garoto me permitiu conhecer tantas pessoas incríveis. Amigos que quero levar comigo para além das páginas de uma história. Obrigada, muito obrigada a cada um de vocês por terem dado uma chance à CCEG e me proporcionado uma experiência tão única de ver uma história minha atingindo uma marca que nunca sequer SONHEI que poderia alcançar (e ainda me pergunto se mereço isto!)
Eu sempre serei infinitamente grata a cada um!
Em breve, CCEG entrará em processo de revisão outra vez. Quero aperfeiçoar alguns capítulos e melhorar alguns trechos que ainda me incomodam bastante, então durante o próximo mês tentarei focar nisso. Mas não se preocupem, CCEG agora tem um Spin-off narrado pelo ponto de vista do Taminha e planejo postar mais um capítulo especial em breve. Não tenho previsão para a próxima atualização, mas deixo vocês cientes de que CCEG está se encaminhando para a reta final.
Mas não pensem que acaba por aqui, tem muito mais vindo por aí e peço que aguardem ansiosamente.
Como sempre, agradeço a quem tirou um tempinho para ler e comentar e saibam que não importa o que aconteça: eu amo vocês.
— Sô (twitter: etthereal_)
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