13. Canções de amor, déjà-vus partidos e trincas de um norigae.

TW: Cyberbullying;

— Sabia que nossos corações são do tamanho dos nossos punhos cerrados? A voz dele rompe o silêncio instalado entre nós pela primeira vez desde que me acomodei sobre seu peito, após o efeito perdulário de suas sensações ainda ecoando dentro de mim como um eco de tudo que tinha sido feito há meia hora.

Meu corpo, ainda trêmulo e desacostumado com tanto êxtase, se recupera de um frenesi, enquanto ele, como sempre — doce, confortável e facilmente amável até nas horas mais impróprias; me abraça.

Seu coração, quase ritmado, é como música para os meus ouvidos. Uma sinfonia partida que parece ser decodificada com a mesma facilidade que encontrei em compreender o modo como seu corpo funciona; com mãos cuidadosas e exploração permissiva, e com um toque tão suave em meus cabelos que estou quase adormecendo, como se aquele cenário inteiro fosse produto de emoções inventadas.

— Achei que era só um mito!

— Não é, — Ele estende o braço até a altura dos meus olhos e então fecha o punho — pelo menos não acredito que seja.

— Mas quem garante que seu coração é realmente desse tamanho? — Seu olhar reprovatório, como uma criança contrariada, me faz rir, principalmente quando seu satoori se destaca nas palavras, provocando um efeito engraçado no modo com elas soam, denunciando uma desaprovação imediata.

— Eu garanto! Anda, me mostra a sua... — ele pede, contendo um sorriso no canto do lábio por tentar parecer durão quando nem mesmo conesegue e estendo a mão para cima, encolhendo os dedos para dentro da palma, que ele gentilmente toca.

— Seu coração cabe dentro do meu, tá vendo? — Fico em silêncio por um segundo, observando nossas mãos conectadas. Odiava vasculhar por esse lado de Jungkook, principalmente quando acabava envolvida nisso até o sumo dos ossos, como naquele momento, depois de tanta intensidade que muito provavelmente eu não saberia lidar depois.

— Isso significa alguma coisa? — Ergo os meus olhos até os seus.

— Significa um vínculo de proteção

— Vínculo de proteção?

— É, um coração que envolve outro se torna um escudo, tipo o seu dentro do meu ou vice e versa — Ele inverte a posição de nossas mãos embora a dele, sem sombra de dúvidas, lute para caber no meu encaixe. — Corações protegidos pra sempre, algo assim, não lembro tão bem do verso.

— Isso é bonito, sabia? Meio cafona, mas é bonito.

— Cafona, gatinha?!

— Sim, cafona!

— Meia hora atrás eu não era cafona. — ele rebate e sorrio, de novo. Não parei de sorrir desde que entrei aqui, mesmo depois da noite fodida e errada que essa tenha sido, frustrando minhas expectativas em relação a Taehyung em algum momento.

— Você foi cafona esse tempo todo, mas um cafona gostoso. — Ele ri outra vez quando digo isso.

— Então você me acha gostoso, hm?

Foi o que eu disse! — Me encolho outra vez contra seu peito, dedilhando a pele exposta, e agora, arrepiada pelo meu toque. Jungkook se arrepiava com facilidade. Outra coisa que havia descoberto somente há algumas horas, assim como uma lista de itens secretos e delicados demais sobre ele. Como sua constância de beijos e a sua tendência em sussurrar coisas em meus ouvidos; sacanagem, na maioria das vezes.

— Tava aqui pensando, — ele começa outra vez, sutilmente — você daria alguma canção para esse momento? Você tem todo esse lance com música e acho tão legal...

Paro por alguns segundos ponderando sobre a situação em que nos encontrávamos, inesperada e abrupta o bastante para que eu não consiga pensar sobre isso com clareza, não o suficiente, ao ponto de dar uma trilha sonora ao momento. Mesmo que lembrasse do elogio feito por vovó há uns anos e a história da Jukebox Mental (dom exclusivo dos Greene), nada me vinha à mente. Uma cançãozinha sequer.

— Não consigo pensar em nada agora — respondo, me aconchegando ainda mais em seu corpo quentinho. — Talvez outro dia ou talvez só não tenhamos uma música ainda...

— Se descobrir qual é, promete que vai me contar? — diz, entrelaçando nossos mindinhos.

— Prometo.

— Eleanor?! Ei!! Eleanor! A chamada! — Estou deitada sobre a mesa de estudos quando Hoseok me chacoalha, um pouco mais forte dessa vez, fazendo com que a realidade violente minha cabeça, tomando uma forma distorcida de luzes e janelas ao meu redor e olhares familiares que seguem direcionados a mim.

Levo alguns segundos para para assimilar o que é real e o que não é quando acordo de um outro sonho como expectativa-resquício de algumas semanas atrás. Por sorte, Hobi age mais rápido, estendendo meu braço o mais alto que pode e quase me erguendo para fora da cadeira, deixando o professor assustado.

— A Srta. Greene tá aqui!

E lá se vai outra aula perdida essa semana, tudo culpa dessa droga de insônia patética que parecia persistir por mais do que uma única noite de pesadelos que vem e vão, é a quarta vez só esse mês que simplesmente não consigo ficar desperta nas aulas. Relapsa e desorientada. O suficiente para começar a assustar Hoseok, com seu olhar que queima por cima do meu ombro enquanto guardo os materiais de estudo, — que usei de travesseiro nas últimas horas, dentro da mochila.

— Não acha melhor procurar um médico, você parece exausta — ele comenta, no seu tom educado e preocupado, que só dava as caras em situações mais sérias.

— Tá tudo bem, é só essa coisa toda da feira de profissões que tem me preocupado muito, não consegui escrever absolutamente nada até agora — Além de todas as merdas acumuladas no período de algumas semanas, tinha me esquecido completamente que a feira de profissões aconteceria em alguns dias e para quem estava determinada a conseguir o estágio em uma revista musical, estava longe de finalizar uma resenha decente à altura de uma candidatura.

Com tudo que havia acontecido no último mês, que diga-se de passagem, foi um pesadelo projetado fora de minha cabeça, não estava emocionalmente estável a respeito de nada; faculdade, as datas de entrega de projetos e provas finais batendo à porta, além da conversa com Taehyung que continuava voltando, latejando no fundo de minha mente, me fazendo fugir de um possível encontro casual com ele onde quer que fosse. E mal consigo reconhecer nessa versão que escapa de um garoto que tanto desejou ter por perto.

Mas era como me sentia agora, como se todos esses sentimentos tivessem se tornado ruídos que tentava a todo custo silenciar, descendo por minha garganta adentro ao ponto de me fazer esquecer atos intuitivos, como respirar sozinha. Evitava a todo custo pensar nisso durante o dia, quando me cercava de ocupações e funções que nas últimas semanas havia determinado como minhas, mas dos meus sonhos e pesadelos, não tinha como fugir.

Jungkook era um desses pontos que também me tiravam o sono. Havia sumido do Campus nas últimas semanas após ser um dos finalistas do concurso; cheio de viagens inesperadas e agenda cheia: estava apresentando seu curta-metragem em outros lugares do país, nos festivais de cinema de Busan, Jeonju, Daegu e talvez voltasse a tempo da feira de profissões, se é que estaria preocupado com isso agora, tendo em vista que uma faculdade em outro país o aguardava ansiosa.

Sequer tivemos tempo de conversar sobre tudo que havia acontecido desde a semana do resultado, tinha poupado um assunto desconfortável quando nos falamos na semana de sua ida, quão desnecessário seria falar sobre isso ao telefone, quando sequer podia, de fato, vê-lo? Sua voz denunciava culpa o tempo todo, mas não estava disposta a questioná-lo, não naquele momento.

Todavia, não consegui evitar a sensação de vazio que sua ausência tinha me causado, como se todos os acontecimentos que me desestabilizaram completamente, flutuando e se alastrando dentro de mim, de alguma forma fossem só resultado de um passado que é só um lampejo feliz de algo que sequer vivi, como um Jamais Vu, o transformando em uma espécie de fantasma de vidas passadas que voltava vez ou outra pra me assombrar.

Fechava os olhos buscando descanso e o silêncio sufocante daquela noite retornava, me via como espectadora de um momento; Nós dois deitados nos seus lençóis limpos, sua mão resvalando em meu rosto no escuro do seu quarto. Meu corpo pressentindo os acontecimentos, assim como a sensação gritante no topo de meus pulmões parecia acusatória.

Jungkook tinha gosto de bebida, como da primeira vez. Eu me lembro disso. Mas também era doce, viciante e necessário, com seus olhos brilhantes e intensamente escuros, me dando a sensação de segurança e familiaridade que buscava de novo e de novo, que parecia se fazer constantemente presente entre nós, cumprindo seu papel.

Seus cabelos úmidos tocando as pontas dos meus dedos e o seu cheiro suave banho invadindo minhas narinas, detalhes que percebemos só olhando para trás, em uma memória olfativa que me arrasta diretamente até lá.

Se soubesse antes o que sei agora provavelmente teria evitado algumas catástrofes, os desastres anunciados nas entrelinhas de um acordo falho. Se soubesse que acabaria apaixonada, teria desistido no primeiro segundo, voltaria até a Eleanor de meses atrás, aquela que sequer reconheço agora, e ponderaria os riscos novamente, desistiria de um plano idiota: escolheria nunca ter conhecido Jungkook daquela maneira.

— Você não vai conseguir escrever algo se não estiver descansada, sei que esses últimos dias foram bem fodidos, mas você precisa de um tempo pra si mesma, não acha?! — Hoseok rebate e em um movimento rápido que a letargia do pós-sono não me deixa perceber, puxa a alça de minha mochila e pendura em seu próprio ombro, me tirando da linha de pensamento cretina que me pego presa.

— Vamo comer alguma coisa e depois ver um filme, sei lá, você tá horrível e precisa urgentemente relaxar! — O tom afoito de sempre dá as caras, porque Hoseok ainda era só Hoseok e agradecia por isso. Mesmo com tudo mudando tanto, o tempo todo, ficava feliz por nada, nunca ter, de fato, atingido nossa amizade.

— Mas e a sua candidatura? Você tava indeciso entre o Departamento de Marketing e o...

— Desportivo! Óbvio que vou me candidatar ao desportivo... — começa — Essa faculdade precisa de ânimo, uma visão alegre pro jornalismo de esportes, sabe?

— É pelo salário, não é?

— Caralho, sim. Já viu como o Youngjae ganha bem? É foda! O cara é popular, bonito e ainda ganha bem...

— Hoseok, nada de dar em cima das calouras, tá me ouvindo?! — começo — Eu tô falando sério! — Ele ri, mas sei que a possibilidade já rondou sua cabeça mais de uma vez.

— Posso até ficar longe delas, mas será que elas vão ficar longe do sunbae aqui?! — Reviro os olhos, mas por mais que tente falar sério, Hobi só me faz rir. Parece até que suas atitudes são calculadas para isso: ser uma fonte de felicidade constante. De energia boa e quase solar que me aquece com carinho.

— Você é ridículo, sabia disso? — Metade dos alunos já estão fora da sala quando cruzamos as portas, atravessando um corredor lotado de pessoas indo e vindo de todos os lados, o pior de tudo sobre as aulas de Ciências Sociais era a quantidade absurda de pessoas em um lugar minúsculo como o prédio B, que parecia o mais próximo de uma madrugada agitada em Hongdae que estive nos últimos dias.

— Eleanor!— A voz feminina que me chama no meio das pessoas me faz parar de imediato. — Eleanor Greene, não é? — E então outra vez. Me movo mais um pouco entre o mar de alunos se misturando e encontro a dona da voz, materializando seu rosto, corpo e dimensão quando ela caminha até mim. É Jieun.

Como poderia esquecer de sua fisionomia?

O mesmo cabelo curto à la Amélie Poulain e os ares de personagem de filme francês, alguém que escapou diretamente de um clássico da Nouvelle Vague, exatamente como me recordava das fotos em suas redes sociais e naquela noite infeliz, aos beijos com Jungkook.

— É você, não é? Seu cabelo é inconfundível. — Ela ri, gesticulando uma representação do meu cabelo no ar. Parece tão frágil e pequena vista de perto. Tão delicada que até me assusta. A discrepância que existe se comparada ao seu poder destrutivo é inimaginável.

— A gente não se conhece formalmente ainda, sou a Jieun! — Ela fica em dúvida entre curvar-se educadamente ou estender a mão e acaba por fazer os dois. Ao mesmo tempo.

E me movo automaticamente, por puro reflexo.

— Puta merda! — Hoseok solta, rompendo uma barreira que tinha se instalado ali enquanto minha ficha não caía, como um delay cerebral que me faz responder tudo com alguns segundos de diferença, como se não estivesse ali de verdade, ouvindo e vendo tudo.

— É-é, eu sou a Eleanor sim. — Seguro sua mão por meio segundo. O silêncio que nos atinge logo após isso parece não querer ser interrompido por ninguém e perdura, sobrepõe as conversas ao redor, o movimento dos alunos no espaço, a música ambiente e o barulho do elevador subindo e descendo no prédio.

— Foi difícil te encontrar, tive que caçar seu horário de aulas... — Jieun diz, sorrindo outra vez. — Será que teria um tempinho pra gente conversar? Podemos tomar um café ou uma cerveja ou o que você quiser... — ela pergunta, um tom de voz tão animado que preciso mesmo voltar o olhar para Hoseok e garantir que não estava, de fato, alucinando sobre aquilo.

— Sobre o quê exatamente?

— Acho que te devo uma explicação sobre aquela noite, você sabe, te dar minha versão dos fatos...

— Foi o Jungkook te pediu pra vir aqui?

— Na verdade ele nem sonha que tô aqui! — ela rebate e não sei exatamente como reagir — Então, podemos? À sós, é claro. — Seu olhar se volta para Hoseok.

— Oh, eu já tava indo mesmo! Eu te ligo, ok? — ele diz, antes de deixar um beijo no topo de minha cabeça e devolver minha mochila. — Se ela também tentar te beijar, já sabe, socão no peito e corre! — Hobi sussurra e a tensão do momento só me permite assentir, mesmo que soubesse que ele estava só tentando fazer piada da situação constrangedora, todas que continuavam vindo até mim e envolvendo meu nome em inúmeras coisas que não me dizem respeito. Ao menos sobre isso, sobre aquela noite especificamente, estava envolvida até o último fio de cabelo; completamente contra minha vontade.

— Tem uma cafeteria aqui perto, quer ir até lá? — pergunto e Jieun assente.

O caminho tortuoso e lento que fazemos só parece me atingir, enquanto ela, tranquila e paciente, acende um cigarro com cheiro enjoativo de cereja e me oferece, dando "oizinhos" educados para as pessoas que a reconhecem no meio de nosso trajeto e os olhares recaem sobre nós duas porque Jieun e eu fomos resultados de rumores envolvendo o mesmo nome, a mesma fonte de problemas.

— Sei que é estranho que eu tenha te procurado só agora, mas não acho que seja justo um cara ficar falando sobre mim por aí sem que eu possa explicar o meu ponto sobre algo que me envolve, entende? — Ela traga o cigarro uma vez e expele a fumaça pra longe.

— Você tá certa, — começo — mas não é como se eu confiasse completamente em tudo que é dito por outras pessoas. — Ao menos estava sendo honesta, nos últimos dias não estava comprando conversas fiadas, meias verdades ou omissões de ninguém, estava começando a ficar cansada disso tudo. Exausta.

Ela sorri. Na verdade, não parou de sorrir desde o momento que me encontrou e já não sei exatamente para onde olhar, já que sou incapaz de corresponder à altura.

Sopro as mãos em busca de ar quente sob as luvas; estávamos no fim de Novembro e as temperaturas mais baixas pareciam se apoderar de todas as fontes de calor.

As luzes de Natal, guirlandas e toda temática festiva já dava as caras pelas decorações em quase todos os estabelecimentos ao redor da universidade e o sentimento familiar que só aquela época do ano traz se fazia ainda mais presente.

Pensava em mamãe e papai, na expectativa de voltar pra casa e esquecer esse período caótico, mas então minha mente, perversa e teimosa, me remete a Jungkook no meio de tudo que era meu; sendo amado por meus pais, por meus amigos, nem tanto por meu irmão mais velho, mas principalmente, por mim.

— Aqui? — Por um segundo me esqueço que é Jieun ali do lado apontando para a vitrine da cafeteria que já havia decorado o ambiente com todo tipo de berloque natalino.

— É, aqui mesmo. — A porta faz um barulho suave, os sinos dos ventos tintilam e o olhar do atendente se volta para nós, Jieun caminha para dentro escolhendo uma mesa e eu me permito ser abraçada pelo calor confortável do aquecedor. Meus lábios estão quase sem viço de tanto frio. Estava nervosa. Me sentia fria quando era tomada por qualquer situação inesperada e nada naquele dia poderia ser mais surpreendente que Jieun me aguardando após a aula e agora, sentada diante de uma mesa no canto da cafeteria, escolhendo o que tomar.

— O que vai querer? — ela pergunta, sem tirar os olhos do cardápio.

Macchiato de caramelo. — A resposta sai quase que imediatamente e me atropelo nas palavras para tentar justificar coisas que só fazem sentido na minha cabeça. E apenas nela.

— É bem gostoso! Acho que vou querer um também... — Jieun responde e acena para o atendente sorridente que se aproxima para anotar os pedidos.

— Mas então, Eleanor-ssi, antes de mais nada eu gostaria de te pedir desculpas pela minha atitude ridícula naquela noite, pra falar verdade não sei o que tava pretendendo com aquilo... — ela começa, tão repentinamente que nem tenho tempo de assimilar a situação — acho que só tava tentando consertar coisas que há muito tempo não tem mais conserto, entende?

— Pra falar a verdade, não... — digo e pela primeira vez o sorriso cretino no seu rosto desaparece. Se estivesse disposta a se abrir comigo sobre uma situação que nem me envolvia, assim como Taehyung havia feito por razões que ainda pondero, na tentativa de justificar qualquer que fosse a minha ideia pré-concebida sobre ele, não iria funcionar. Porque sequer me diz respeito. Sequer envolve o mesmo tipo de sentimento.

— Não fui a melhor namorada do mundo pro Gguk, isso tenho certeza que você deve saber, todo mundo sabe, boatos correm, principalmente naquele fórum estúpido... — ela começa outra vez, batucando os dedos contra a mesa, o olhar fixo no meu.

— Não sou muito do tipo que presta atenção em boatos. — Ela respira fundo, pela primeira vez relaxa a postura na cadeira e um meio sorriso surge no canto da boca. Não estava sequer sendo sarcástica ou qualquer merda do tipo. Apenas ficava analisando a minha relação com todos esses eventos, se é que ela existia.

— A verdade é que fui bem babaca com alguém muito amável e eu realmente pensei que um tempo distante faria as coisas ficarem bem de novo, entende? — ela diz — O Jungkook e eu já tínhamos terminado uma vez, "dado um tempo", todo esse lance de casal e sei lá, as coisas andavam estranhas, e o Taehyung, você sabe quem é, certo? Ah, o Taehyung tem aquele jeito dele tão...encantador, faz a gente se sentir segura, faz a gente querer coisas que não devia, sabe? — Poderia muito bem responder um sim imediatamente, mas para falar verdade, não tenho mais tanta certeza se sei sobre esses sentimentos com a mesma profundidade que acreditava saber antes.

— Não pensa que tô buscando uma justificativa por ter ficado com o Tae, sei que fui uma grande escrota, é que sei lá, era um sentimento muito presente, uma constância que me envolvia muito, era como se eu não pudesse parar, tinha um tipo de adrenalina nisso... — ela diz, de olhos fechados, como se revivesse as sensações proibidas de antes, uma a uma.

— Vocês tiveram esse lance por muito tempo? — pergunto, pela primeira vez desde que me sentei aqui. Jieun se cala por um segundo quando o atendente se aproxima trazendo as bebidas e espera até que ele esteja a uma distância segura para responder.

Por algum tempo, até ele...

— Até ele descobrir, certo? — O olhar dela paralisa no meu, como uma pausa dramática em uma linha de raciocínio.

— Sim, até rolar tudo que rolou, todo drama masculino de narizes quebrados e supercílios fodidos... — ela responde após tomar um gole do seu café, deixando resquício de batom vermelho marcado ao redor da tampa. — Acho que o pior de tudo foi perceber que mesmo com a aproximação do Taehyung, nada nunca foi realmente por minha causa.

— O que quer dizer com isso? Ele gostava de você, não é? — pergunto e ela solta uma risadinha nasalada.

— Talvez seja só uma ideia errada que tenho a respeito de tudo que aconteceu, mas parecia que o Taehyung, no fundo, só queria ter um pouco de tudo que estava na vida do Jungkook, sabe? É que eu conheço os dois há mais tempo que me lembro e isso nunca mudou. Nunquinha. O Jeon que sempre foi muito ingênuo pra perceber isso... — ela rebate, tomando outro gole do café — mas quem sou eu pra ter senso moral a respeito dessas coisas?!

— Então você acha que ele só fez isso por...

— Inveja? É, talvez inveja. Talvez seja algo mais profundo que isso. Não dá pra prever, muito menos interpretar as intenções do coração de alguém, mas definitivamente, não foi porque estava interessado em mim — Um sentimento estranho me atravessa, quase como se tivesse sido atingida por agulhas elétricas de uma única vez. Então, se tudo isso era realmente verdade, eu havia sido a segunda tentativa de Taehyung e muito provavelmente a mais frustrada. Esse era um plot twist que não esperava, definitivamente.

Tomo um gole do café e quase acabado queimando a língua, provavelmente um sinal do Universo para me manter de boca fechada sobre aquele assunto do qual sequer tinha certeza.

— Mas ele gosta de você de verdade, se quer saber. — Jieun diz, voltando aos sorrisos gratuitos e sem motivação aparente de antes — Digo, o Gguk. — Poderia mencionar o fato de que não éramos um casal de verdade, e esse pensamento fica me rondando por alguns segundos até parecer desnecessário demais para vir à superfície, com tantas coisas que havia para dizer a Jieun, esta, entre todas, seria a mais imprudente.

— Hum...

— Confesso que voltei com o intuito de recomeçar, queria mesmo outra chance. — ela continua — Acho que senti um pouco de ciúmes porque tinha perdido meu lugar no coração dele, e é um pensamento egoísta demais, eu sei, mas eu meio que queria ter certeza que realmente tinha terminado...

— Por que tá me dizendo essas coisas? Me chamou aqui para falar sobre ter traído meu namorado e sobre um provável ex-amigo estúpido dele ser o causador de tudo isso? — A frase se forma na minha boca mais rápido do que pretendo, com mais ênfase do que realmente quero. Namorado?

— Eu só queria garantir que não causaria outro dano à vida dele, entende? O jeito que ele falou de você, o modo como os olhos dele brilhavam só de mencionar que você... — ela começa — Reconheço amor quando vejo, principalmente o dele, que já foi direcionado a mim uma vez. Enfim, só tô tentando ser uma pessoa melhor, sabe o que dizem. — Jieun revira os olhos ao dizer isso, como se tivesse pecado contra si mesma falando em voz alta algo tão profundamente clichê quanto aquilo. Mas reconhecer o erro já era um passo e se Jungkook, que havia sido a única vítima daquele desamor, tinha perdoado Jieun, o que mais eu poderia fazer a respeito?

— Você fez o certo, de contar a verdade pra ele e de tentar consertar as coisas, pelo menos as que têm... — digo e ela sorri, agora, verdadeiramente.

— Só quero que ele seja feliz, como merece. Como sempre mereceu.

Como um impulso inesperado e gentil, Jieun levanta e me abraça. Se curvando completamente para envolver meu corpo e apoiando a cabeça contra o meu ombro.

— Obrigada por não me julgar, Eleanor-ssi.— É repentino e simplesmente não sei o que fazer no momento e quase imediatamente penso sobre o que Hoseok falou mais cedo, mas apesar de tudo, não tenho motivos para odiá-la e não vou.

— Tudo bem, Jieun. Tudo bem.

Naquele momento apenas silencio os pensamentos intrusivos e a abraço de volta.

Digito.

Apago.

Digito.

Apago.

O processo se repete pelo menos uma centena de vezes entre inícios ruins e parágrafos perdidos. Uma pilha de anotações está por cima da mesa de estudos e uma quantidade assustadora de post-its amarelos seguem colados em meu quadro de visualização, — que a essa altura não me permite visualizar absolutamente nada, já que minha visão cansada está apenas embaralhada e desfocada. Trine esteve aqui, duas hora atrás, pra me trazer uma refeição que engoli sem sequer perceber o que, de fato, estava comendo. Deduzi pelo sabor que era Kimbap, meu favorito.

Encarava a tela em branco do word como se ela fosse um monstro do outro lado de uma linha imaginária esperando apenas algum mínimo movimento para me pisotear. Estava a dois dias da Feira de Profissões com um total de zero palavras escritas para o meu texto avaliativo e começando a torcer para uma espécie de Cedrico Diggory aparecer de surpresa no dorm e me dar uma dica para procurar inspiração em algum lugar da faculdade, mesmo que tivesse que correr com um ovo dourado por aí.

Tô começando a surtar. É um fato.

Meu celular vibra pela vigésima vez só naquela tarde, mas dessa vez é o nome de Jungkook que brilha na tela.

Escuto o farfalhar das folhas por cima da mesa de estudos deslizando para o chão, mas não me movo para apanhá-las. Continuo encarando a tela brilhante do celular com a mensagem de Jungkook nas notificações, o som das batidas do meu coração reverberando contra meus ouvidos, o rosto em brasa. Sensações que reconhecia como causa e efeito dele.

Meu dedo desliza mais rápido que meu raciocínio, quase automaticamente, abrindo a mensagem.

[16:48] jun:

Acabei de chegar na KYU,

Posso te ver?

O ponteiro pisca no aplicativo e o teclado surge, esperando ansioso por uma resposta que não tenho de imediato. Meus olhos passeiam pela mesa de estudos e uma série de palavras soltas em textos grifados formam frases sem sentido na minha cabeça, mesmo que meu cérebro busque compreensão para tudo aquilo, e entre elas, um trecho que havia rabiscado de um livro que estava lendo na última semana:"Mas eu continuava viva, e a vida, com suas necessidades, dores e responsabilidades, me chamava", muito provavelmente resumindo um misto do que havia sido os últimos dias e como estava lidando com minha vida nesse meio tempo, parecia se encaixar perfeitamente com o agora. Com o que sentia de imediato.

Em algum momento, a vida de Jungkook e a minha seguiriam rumos completamente distintos e talvez o medo que tenha se escondido nos últimos meses, e tudo que estava evitando pensar retorne mais forte agora, de imediato, quando me dou conta disso.

A tela apaga e retorno a tocá-la, relendo a mensagem. Ainda sem resposta.

— Eleanor! — A voz de Trine rompe o silêncio tão abruptamente que acabo por derrubar o celular no chão, no susto.

— Merda, Christine! — respondo e ela ri, enquanto retira as botas

— Tava tão concentradinha aí, conseguiu escrever algo? — Viro a tela do notebook em sua direção e ela bufa, caminhando até onde estou para apanhar os papéis que ainda continuavam do mesmo jeito.

— Hoje tem Reunião do Conselho Universitário, vamo? — ela diz, depositando as folhas por cima da mesa e caminhando até minha cama, jogando o corpo por cima das almofadas arrumadinhas.

— Reunião do Conselho Universitário?! Desde quando você frequenta esse tipo de evento? — Era um questionamento óbvio, porque até nas palestras do próprio curso, Christine costumava não aparecer.

— Soube que é importante ter esse tipo de comprometimento pra um currículo aceitável no mercado de trabalho.

"Aceitável no mercado de trabalho?", tá chapada, Trine? — Ou aprontando alguma, o mais conveniente.

— Não, só acho importante, sério, só falta um período pra gente chutar as portas dessa merda de lugar, um esforço agora não mata ninguém né? — ela começa — Anda, vai se arrumar, e coloca uma roupa bonita, porque nunca se sabe o que pode acontecer!

— Eu tô cheia de coisas pra fazer, ainda nem consegui escrever minha análise...

— Eleanor, são só algumas horas, ok? É sábado e o eu texto não vai sumir, até porque ele nem apareceu ainda, há. — ela diz, sarcástica — Quem sabe sair desse ambiente te inspira, uh?! — Ao menos Trine tinha um ponto. Talvez me ajudasse de alguma forma ou estava sendo vítima, outra vez, dos seus dons persuasivos, o que era mais provável em uma situação como aquela.

— Onde vai ser?

— No laboratório Audiovisual, como sempre. — responde, esticando-se na cama, e estendendo o braço para alcançar o livro disposto na minha mesa de cabeceira e folheando as páginas, aleatoriamente.

Penso automaticamente em Jungkook e releio outra vez sua mensagem congelada na tela do celular. Ensaio digitar uma resposta, mas por fim, não digo nada. Desisto momentaneamente de pensar tanto nisso e sigo as ordens de Trine, seguindo para um banho quente. 

— Não tem absolutamente ninguém no laboratório audiovisual, Trine, as luzes estão apagadas. — digo, no exato segundo que cruzamos o gramado e avisto o campus de longe, exatamente como imaginava que estaria uma hora dessas.

— Relaxa, é uma reunião pra um grupo bem seleto. — ela diz, se aproximando um pouco mais e envolvendo os braços ao redor do meu, se aconchegado no meu calor.

Levamos cerca de cinco minutos para chegar até o laboratório, e Trine, invade o espaço mesmo com as luzes apagadas, um completo silêncio que só dura meio segundo quando meia dúzia de rostos familiares emergem por trás de mesas e sofás e gritando em minha direção.

FELIZ ANIVERSÁRIO! — A luz invade minhas retinas com toda força e vou reconhecendo cada feição feliz que se materializa pra mim. Hoseok, Seokjin, Yoongi, alguns garotos do clube audiovisual que conheço de vista e Jungkook, bem ali, no canto da sala.

— Mas meu aniversário é só daqui a uma semana, Trine! — digo, surpresa e emocionada o suficiente pra não ter desconfiado que ela, definitivamente, faria algo do tipo.

— Te peguei dessa vez, não é? Feliz aniversário! — Ela me enche de beijinhos no rosto, me espreme em seus braços, seguida de Hoseok, um Yoongi tímido e Seokjin, vestido em tons de lilás da cabeça aos pés. E claro, os garotos do clube.

— Não se preocupa, só deixei entrar quem te trouxe presentes! — Seok comenta e sorrio.

Tem unicórnios e arco-íris por todos os lugares, em todas as direções, tanto glitter espalhado pelos cantos que me perguntava como Jin se iria se livrar daquilo tudo após a festa.

Aos poucos todos vão se dispersando em direção a mesa, Trine já está animada tomando alguma coisa em um copo cor-de-rosa com um desenho de unicórnio cheio de glitter, assim como os chapéus de festa bonitinhos que todos estão usando, mas meus olhos estão fixos em Jungkook, não desviam dele, como se temessem que ele pudesse desaparecer dali, sumindo no meio de um processo de ebulição.

Ele é o último a se aproximar e o observo na tentativa de absorver o máximo possível de sua figura; tudo parecia novo, intocado e irreal, como se visto pela primeira vez.

— Belo chapéu. — digo, assim que ele se aproxima o suficiente para me ouvir.

Feliz aniversário, gatinha! — diz, antes de tirá-lo e encaixá-lo em minha cabeça.

Seu cabelo está amarrado, completamente puxado para trás, deixando suas sobrancelhas bonitas à mostra e quase tenho o ímpeto de tocá-las como sempre fazia. Quero tocá-lo inteiro e verificar a veracidade do que vejo. Me certificar de que esses últimos dias não foram um lapso de algo irreal, memórias inventadas apenas para não afundar na saudade, no vazio que permeava por dias.

Jungkook é bonito ao ponto de machucar, de causar dor. E já experimentei disso para dizer com toda certeza do mundo, mas agora está diferente e parece que os últimos dias o transformaram em uma versão que nunca experimentei. Logo ele que tem tantas versões, e parece mostrar todas nas horas mais apropriadas, trazia outra para mim ali: preocupada e crescida.

— Ei, vocês podem se lamber depois, vamo comer! — Hoseok diz, quebrando o feitiço que não me permitia desviar o olhar para qualquer outra direção, puxando nós dois para fora da parede invisível que se construiu ao redor.

— A gente tem mesmo que conversar — sussurro para ele, antes de caminhar até onde os outros estão para apagar as velas.

— Faz um pedido! — Trine diz, após acender as velas coloridas de unicórnio. Mentalizo o que mais desejo no momento, fecho os olhos e torço para que o Universo me ajude naquilo.

Hoseok e Trine estão dançando ao som de uma música lenta, rodopiando no meio do laboratório audiovisual de forma quase teatral, enquanto estou encolhida no sofá de veludo no canto da sala, observando a cena que é altamente confortável aos olhos.

Jungkook se aproxima outra vez, retirando a jaqueta de couro escuro que parece feita sob medida para ele e puxando as mangas da camisa até os cotovelos, sentando-se no espaço vazio ao meu lado.

— Por que tá vestido como um adulto hoje? — comento, meio grogue pela quantidade de soju que tomei na última hora. Ele ri, apoiando a cabeça contra o encosto do sofá, levando a garrafa de cerveja até a boca e tomando um gole generoso, depois apoiando-a no espaço entre suas coxas.

— Talvez esteja na hora de ser adulto. — ele responde, um sorriso escondido no canto dos lábios, ainda úmidos.

— Você fica bem com roupas de adulto, principalmente com essa gola alta aí, — digo — uma pena que escondem sua tatuagem. — Sua mão desliza por cima do tecido de minha calça, tocando de leve a ponta dos meus dedos, entrelaçando nossos mindinhos. Dura só meio segundo, o tempo que tenho para desviar o olhar e fixá-lo nele, pelo tempo que acho necessário.

— Senti saudades...— Ele toma outro gole da cerveja antes de apoiá-la contra a mesa do abajur lateral e se põe de pé outra vez, esticando a mão para que eu a alcance. Meu coração, por um segundo, congela. O efeito do álcool parece ser diluído pela realidade, a ansiedade se fazendo presente no centro do meu corpo.

Vem — sussurra, e levanto quase que imediatamente, quase flutuando, mesmo que a cena ocorra em câmera lenta ao meu redor, dentro de minha cabeça.

Ninguém percebe nossa saída, nem mesmo Seokjin que está ali, girando em uma das cadeiras do laboratório com uma garrafa de Soju quase vazia nas mãos.

— Pra onde vamos? — pergunto, naquele meio tempo que levo para encontrar os olhos de Jungkook outra vez.

Paramos às portas da biblioteca, que está com as luzes apagadas, mas ainda aberta. Vejo meu reflexo na superfície espelhada das portas frontais. Uma figura assustada e ansiosa, como alguém que tinha me tornado nos últimos dias e quase não me reconhecia nela.

— O laboratório de Engenharia fica nos fundos da biblioteca central, muito provavelmente tem alguém trabalhando por lá, então eles não costumam trancá-la esse horário... — ele diz, enquanto empurra a porta que abre sem esforços.

Toda luz que ilumina o lugar vem de fora, por entre as prateleiras, mesas e janelas imensas, quase reproduzindo uma cena retirada de filme. Ele caminha até uma das mesas e se senta, exatamente a mesma do nosso primeiro encontro, quando as coisas ainda eram tão diferentes, tão distante do agora. Me pergunto se ele ainda lembra disso, dos nosso primeiros momentos, de quando nada apontava para essa direção que seguimos inconsequentemente. Aqueles dias parecem infinitamente longe de mim nesse ponto, tanto, que sequer fazem parte da mesma atmosfera de pensamento.

— É bonito aqui, não é? — ele pergunta e assinto — Costumava passar horas aqui, planejando aulas no semestre passado. Era calmo, não tinha pessoas me olhando torto ou qualquer ruído que fosse, era um momento muito bom, tranquilo... — Seu olhar vagueia pelo lugar e volta até mim.

— Quase me esqueci, te trouxe um presente — ele diz, vasculhando no bolso da calça, caçando a caixinha vermelha com um laço amarrado ao redor, que retira dele com dificuldade — Não queria que ninguém mais visse, já que era algo só seu.

— O que é? — pergunto, tão ansiosa que acabava apavorada com todo tipo de surpresa.

— Abre! — Desfaço o nó bem amarrado ao redor da caixa e o papel-seda que cobre a caixa, guarda um pequeno item, que com cuidado retiro de dentro dela.

É um Norigae entrelaçado de fios vermelhos em formato de flores, trincados de ponta a ponta, com contas bonitas que brilham conforme a luz as alcança. Na base, há uma flor bonita e de cor vibrante e abaixo dela, ondas do mar quase a ponto de tocá-las, em um desenho bonito e delicado demais.

— Meu Deus, Jungkook, é lindo! — digo, assim que o seguro diante dos meus olhos.

— Quando tava em Busan, encontrei a tenda dessa Ahjumma que fazia Norigaes, encomendei um enquanto contava sobre você, queria algo que tivesse um pouco de nós. — ele começa, — então coloquei a flor de Pohutukawa, nativa do meu povo, coloquei as ondas do mar, que ainda me lembram muito seu cabelo, e firmei nossos elos em Busan, onde nossas vidas se encontraram antes mesmo que a gente soubesse disso — Fico em silêncio por mais tempo que deveria, digerindo o que ele diz.

— A Ahjumma me explicou que os laços vermelhos significam...

— Laços de amor — falamos em uníssono e outra vez me lembro de um resquício de passado: seu coração dentro do meu.

Em todos os meus anos crescendo aqui, sabia que ter um Norigae era um sinal de sorte, um amuleto para atrair bons sentimentos. Papai havia presenteado mamãe com um, há dois anos, quando eles renovaram os votos de casamento. Naquele dia, ela o usou pendurado em seu hanbok.

— É um presente de despedida? — questiono, após um silêncio que se estende mais do que o necessário. Talvez mais do que eu ou Jungkook tenhamos controle naquele momento.

— Não... — Outra vez o silêncio constrangedor nos atinge enquanto assistimos o movimento que os irrigadores fazem lá fora, por cima do gramado que está parcialmente coberto por folhas, sinais de um Outono que se despede, como uma série de coisas prestes a dizer adeus.

— Por que não me contou sobre o intercâmbio? — Ensaiei aquela pergunta tantas vezes, de tantas formas, dei tanto formatos e versões àquele momento que me sinto presa em um dèjá-vu que se rompe conforme a cena segue seu curso.

— Nunca pensei que teria chance de ir, não parecia importante na época...

— Há, não parecia importante. — digo e ultrapasso uma linha imaginária de gentileza que desaparece no tom áspero de minhas respostas.

— Na época, não. As coisas eram diferentes e eu não tinha certeza sobre nada... — ele diz e quase tropeço nas palavras. Em algum ponto as coisas se tornaram o que somos agora e mesmo assim, ele escolheu não contar.

— Mas as coisas mudaram! — começo — Deixe-me ver, não parecia importante porque nosso lance era só um acordo, certo? porque eu te paguei pra ser o meu namoradinho de mentira enquanto perdia meu tempo desejando um garoto que sequer sabia da minha existência até dois meses atrás?! Ok, então me diga você em que momento isso passou a importar de verdade? — ele me encara pela primeira vez nos últimos minutos, mas sua atenção se desvia momentaneamente com o barulho que vem dos fundos da biblioteca. Observo por cima de seu ombro e a penumbra não me permite ver nada, contudo a preocupação de Jungkook só dura aquele microssegundo, até seus olhos se voltarem pra mim.

— Eu sei que tô errado e que deveria ter dito, eu sei. — ele começa, e outra vez, estou de pé, parada diante dele, bem ali. — Mas eu não teria como imaginar nenhuma dessas coisas, nem o intercâmbio, nem a aprovação, muito menos nós dois. — Tem um nó em minha garganta e não sei direito lidar com nada que sinto naquele momento, todas as emoções parecem um trem fora dos trilhos, atropelando todo e qualquer sinal de razão que parece surgir em seu caminho.

— Você não respondeu minha pergunta, — começo — se isso não era importante antes, em que momento se tornou importante de verdade? — Parece que criamos uma própria frequência para esses momentos, uma linguagem que só nós dois compreendíamos, naquele tom comedido que não consegue revelar a profundidade de nada; parece que uma barreira ridícula de orgulho sempre surge, até mesmo ali, quando nossas emoções estão em carne viva.

Ele permanece em silêncio, os olhos fixos no meu rosto. Nada a ser dito.

— Foi o que imaginei! — Desvio da mesa diante de mim, caminhando em direção às portas de vidro da biblioteca.

Eleanor! — Sua mão, gentilmente, segura a minha e levo meio segundo para compreender o que estava acontecendo ali, os dedos ainda tocando o vazio que buscava como base de segurança, algo verdadeiro em que possa me segurar quando ele está tão perto de novo.

Seus dedos colocam a única mecha do meu cabelo fora do lugar para trás da orelha e o vejo outra vez, em sua real dimensão. Dispersa, momentaneamente, o paralelo imaginário que criei dentro de mim.

Eu amo você! — ele diz, enquanto raios catódicos de luzes coloridas nos alcançam, a música tocando ao fundo faz meu cérebro acompanhar a letra, is that such a stretch of the imagination; meus olhos passeiam por Jungkook, vem e vão como se vagassem dentro e fora do mesmo ambiente de sentimento. Eleanor. Eleanor. Eleanor. Sua boca se aproxima do meu rosto e preciso curvar a cabeça para olhá-lo melhor, cada detalhe que se materializa aos poucos, como velhos conhecidos. Eles também são testemunhas daquele momento que me deixa em silêncio, me faz voltar no tempo e procurar dentro de mim o exato segundo em que aqueles olhos castanhos, proibidos pra mim, se tornaram o único ponto de luz ao qual me segurava em uma realidade que jamais seria capaz de moldar conforme minhas vontades infantis. Logo eu, que nunca sequer tive um vislumbre do que era receber amor em retorno, mal conseguia me mover quando ele estava ali, diante de mim, — tão real e palpável; me permitindo senti-lo. Ao ponto de sequer reconhecê-lo.

— Eu amo você, gatinha! — ele repete, seguramente, os dedos tocando de leve minha cintura, os olhos se tornando duas fendas, que quase já não me enxergam. O ar se torna denso. Pesado. Quente.

Jungkook é o mundo inteiro e tudo que sinto. Dentro e fora.

Meus dedos se enroscam em sua nuca, serpenteiam pela gola de sua camisa até alcançar sua pele por dentro dela, que se arrepia outra vez, com a facilidade habitual. Dizer que senti saudade é um eufemismo barato, jurar em voz alta que não desejei aquilo parecia errado. Eu o quis tanto quase como o quero agora, por inteiro. Em todas as versões.

Seu nariz toca minha bochecha, as mãos entrelaçadas ao meu redor, tão perto e longe, quente e frio, tudo ao mesmo tempo. Tenho medo de derreter ali, virar líquido naquele segundo, antes de conseguir absorver tudo que foi dito.

Parece que nunca existiu um momento em que não amei... — ele sussurra — desculpa, desculpa se não tô sendo bom o suficiente... — um suspiro aliviado escapa e absorvo — é que nunca me senti assim antes.

Minha boca contorna a pintinha bonita escondida abaixo do seu lábio inferior e sua feição se transforma em sorriso.

— Eu te amo... — digo, contra sua boca bonita.

Seus cílios longos, bonitos e escuros, que consigo observar tão de perto, pendem para baixo. Tudo fica impresso em minha mente, cada detalhe, cada pequeno traço do nosso cenário, de sua voz, de seu perfume tocando alguma parte minha que sequer sabia que poderia ser alcançada e acarinhada daquela maneira. Jungkook se curva um pouco mais, os dedos perdidos entre os meus cabelos, na tentativa de alcançar minha nuca e sua boca toca a minha, lentamente.

Tudo explode em luzes, sensações, desejos, sonhos, nuances de cor, tudo pelos ares, como fogos de artifício. Terminações congeladas, peles fervendo, alívio imediato e desesperado como um orgasmo mental, do tipo que nunca sequer experimentei antes.

Acho que isso significa o que estou pensando, a pergunta que me fiz durante tanto tempo.

Estou derretendo de amor, pela primeira vez.

Há um barulho ininterrupto que vem da outra extremidade do quarto.

Uma melodia que se estende ritmada, e então para.

Recomeça e para.

Ainda de olhos fechados, tateei pelo celular disposto na mesa de cabeceira e o levo até a orelha quase automaticamente.

— Alô?

— Eleanor? Onde você tá?

— Trine! É domingo, onde acha que tô? no dorm, óbvio.

— Tô indo pra aí, por favor, desativa o wi-fi e me espera, ok?

— O quê? Por quê?

— Só confia em mim!

Por mais que ainda estivesse relutando contra o sono, ele parece ser exorcizado do meu corpo em um microssegundo, que levo para clicar na barra de notificações do aparelho e a tela simplesmente não parar de piscar. Duas mil notificações. Meu estômago inteiro se retorce, a sensação familiar retorna me devorando por dentro. O que tava acontecendo?

Clico em uma das menções e a imagem lentamente carrega. Estou marcada na imagem assim como Jungkook e logo abaixo o link para um post no Peek a Boo, o fórum universitário patético que os garotos do curso de Engenharia tinham criado há algum tempo.

👤 - Paladino_da_verdade

Postado às 08:57:

[KYUNG-HEE UNIVERSITY]: O aluno e recém-eleita nova estrela da Universidade, Jeon Jungkook, mais conhecido como Comensal da Morte, ataca novamente. Após agredir o capitão do time de baseball e colega de quarto no ano passado, em um surto de ciúmes, parece que agora ele passou a cobrar pelos seus serviços sexuais (será que depois de uma traição ele resolveu investir na carreira de garoto de programa? ㅋㅋㅋㅋ) e uma das clientes se prova bem insatisfeita. 

[link do vídeo]

#prostituição #paladinoisback #kyunghee

Usuários que estão viram este tópico: 598987

Usuários que comentaram este tópico: 38976

Clico no link com as mãos trêmulas, respirando com dificuldade. A qualidade do vídeo é ruim, mas mostra, de um ângulo completamente diferente e distorcido, um momento que Jungkook e eu estamos na biblioteca na noite passada, exatamente quando falo sobre o acordo. Exatamente quando repito que havia o contratado. Os exatos 11 segundos necessários para me destruir completamente.

Não consigo respirar, não consigo pensar com clareza. Parece que todo o oxigênio do meu corpo se esvaiu, foi abruptamente retirado dos meus pulmões. Volto à postagem, que atualiza o número a cada segundo, e aperto na barra de comentários, que deslizam para baixo.

As palavras parecem adagas fincadas no meu corpo inteiro, rasgando a carne, cheias de uma capacidade destrutiva assustadora.

jungpiece12_: O Paladino voltou!

choo_21: Aish! ㅋㅋㅋㅋ Parece que ele está mostrando as garras, mas a única coisa que consigo pensar é: poço de DST.

kyungking: Não sei qual dos dois é mais nojento! O paladino está de volta, yeah!

Ponyponyo: Essa garota costumava estudar na minha sala, nunca pensei que era do tipo que pagava por sexo, teria me oferecido gratuitamente se ela queria apenas ser fodida! ㅋㅋㅋㅋ

joy_kim: É a Greene Eleanor, veterana de Jornalismo. Aish. Jungkook é tão bonito, mas é um porco. ㅋㅋㅋㅋㅋ

fastasyoucan_: Soube que ele ganhou o concurso de melhor curta-metragem e agora sabemos que será bem sucedido com um diretor do gênero yodang* ㅋㅋㅋ E ela certamente é uma vadia! 

Jogo o celular para longe quando mais e mais mensagens privadas surgem no topo das notificações, minha cabeça está girando, girando e girando, seguro o ar ao redor em busca de algum amparo, e falho. A única reação que meu corpo consegue ter é a de expelir. Tudo. De uma única vez. 

Acabo colocando tudo pra fora pelo chão do quarto, me segurando firme nos lençóis da cama, enquanto o mundo lá fora desaba ao meu redor, modificado e inacessível. Pontos luminosos que me guiam para lugar nenhum.

Por que?

Continuo buscando os motivos, me perguntando o que havia feito de tão errado para merecer aquilo.

O que eu havia feito de tão grave?

O celular continua vibrando, os sons de alerta não param.

O que Jungkook havia feito de tão errado?

Meus pensamentos fluem para os piores cenários, seguem sem rumo para o pior lado de minha mente. Nos piores sentidos. 

Desejo que minha capacidade física seja reduzida a nada, até virar pó, me permita sumir. Desejo tantas coisas em um fluxo de pensamento exaustivo e incessante que mal consigo alcançar a outra ponta de racionalidade que me permita levantar dali.

Abraço o meu próprio corpo, fecho os olhos por um segundo e refaço meus desejos de aniversário, torcendo para que o Universo abra uma exceção neste caso, esqueça meu pedido fútil da noite passada.

Em meio as lágrimas que caem sem nenhum controle, só peço para que tudo acabe de uma vez.

*Trecho citado: retirado de Jane Eyre, por Charlotte Brontë.

*Norigae: é um acessório tradicional coreano geralmente simbolizado como amuleto ou acessório para decorar a vestimenta tradicional hanbok. 

*Yodang: Modo como os coreanos classificam o gênero pornô.

(❥)

Olá, de antemão, peço desculpas por qualquer errinho, por se tratar de um capítulo longo, é trabalhoso para revisar e muitas vezes, alguns detalhes passam despercebido durante as releituras. Mas gostaria mesmo de agradecer a todos pela paciência e por não desistirem de CCEG, de verdade, obrigada por cada comentário amoroso, pelo tempinho que dedicam para ler, enfim, todas essas coisas que sempre vão importar muito para mim, como autora. 

Saiba que amo cada um de vocês!

E Carol, CEO do Clã, feliz aniversário. Espero que esse capítulo seja um afago no seu coração e um agradecimento à altura de todas as boas energias e palavras doces que você me direcionou desde que nos conhecemos. Te desejo toda felicidade do mundo, toda aquela que você merece. 

Amo muito você! ❤

— S.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top