07. Incertezas, quase-não-beijos e serendipidade.

Fodida.

Aquela era a palavra que ecoava no meu subconsciente cada vez que eu olhava para Jungkook, bem ali, contando alguma coisa estúpida sobre um filme que tinha assistido na semana passada e engolindo o próprio jantar com aquele jeito estranho de inflar as bochechas como um filhote de coelho, como se nada tivesse acontecido algumas horas atrás envolvendo meus pais, ele e um convite para a condecoração oficial de meu irmão mais velho em Busan.

Jungkook tinha o hábito terrível de arregalar os olhos cada vez que levava a colher até a boca, uma mania estranha de fazer sons bizarros quando a comida era apimentada demais e barulhinhos fofos enquanto apreciava o sabor de alguma coisa, um pacote de bizarrices à moda da casa, algo que nas duas últimas semanas havia aprendido que se tratava de tudo que Jeon Jungkook também era.

Estou encarando ele do outro lado da mesa, os olhos fixos na sua mão grande demais pra colher e no rosto escondidos no meio da cabeleira negra, concentrado na própria comida.

Não parece nenhum pouco incomodado com a quantidade absurda de merdas que fizemos nas últimas vinte e quatro horas, o que incluía também a série de regras quebradas na noite passada.

E eu tava fodida. Da pior maneira possível.

O que foi? — Ele pergunta, lambendo os próprios dedos sujos de molho de frango quando me pega ali, brincando com o jeotgarak no meio do lámen. Seu ar inocente é fácil demais, parece despreocupado comendo seu jantar depois de termos passado uma tarde inteira com meus pais, passeando de mãos dadas como a droga de um casal, dividindo sobremesas babadas e olhares afetuosos como se nossos planos não fossem outros e como se nossa meta ali fosse tudo, menos ficar juntos.

Você deveria ter dito não. Digo, ainda falando sobre o maldito convite que ele havia aceitado para a Condecoração de meu irmão mais velho. De todas as pessoas que existem no mundo, a última que gostaria que Jungkook conhecesse era River.

Fiquei com medo de parecer muito óbvio se eu negasse... — Ele começa, puxando um guardanapo de papel disposto na mesa e limpando os cantos da boca ainda sujos de molho de frango.

Você poderia inventar uma desculpa, sei lá, qualquer coisa, meus pais levam esses compromissos à sério. Cada vez que lembrava do sorriso feliz de papai conversando com Jungkook sobre suas viagens, do empenho em agradá-lo porque visivelmente se identificava com ele, tudo aquilo parecia ridículo pra mim, principalmente quando era confrontada pelo sentimento de que em breve teria que forçar os meus pais a se desprenderem daquele vínculo imediato e sincero com Jeon, porque ele existia e naquela tarde eu havia comprovado isso.

Eu falei que iria e eu vou, tá legal? Além de que se trata de Busan, posso ficar na casa dos meus pais... — Ele diz, antes de tomar um gole do seu refrigerante.

Será que Jungkook fazia ideia de onde estava se envolvendo? Do quão longe estávamos indo naquilo?

— Mas você nunca tinha me dito que seu pai serviu na Nova Zelândia... — Ele diz, mudando de assunto imediatamente. No meio tempo que levo para respirar fundo pela quinta vez tentando não surtar.

— Foi por pouco tempo, nem chegamos a nos mudar. — Começo. — Mas e você, por que não me contou sobre o seu "lado Maori"?

Ainda estava tentando digerir aquela informação sobre Jungkook, entendia que talvez aquela parte da vida dele fosse reservada, mas ele tinha abertamente confiado em contar aquele detalhe à mamãe e papai.

— Pensei que não ia se interessar por isso, sei lá, é só bobagem.— Ele diz e estou me segurando para não perguntar sobre a tatuagem, não queria parecer intrometida sobre assuntos que ele não havia mencionado, poderia ignorar o fato de que ontem havia conseguido ver perfeitamente a ponta bonita do desenho contornando seu quadril e até me permiti tocar. Iria continuar fingindo que era um delírio causado pelo álcool, que não havia notado nem sóbria e muito menos pseudo-bêbada.

Jungkook está me encarando com um olhar tão intenso que sou obrigada a desviar, imaginava o tipo de coisa que se passava na cabeça dele naquele meio tempo, provavelmente estava relembrando do nosso ritual sacana de como fazer as coisas darem errado da pior maneira possível, quando tocamos o foda-se nas regras e nos beijamos noite passada, como quem espera e assiste uma catástrofe anunciada.

A verdade é que queria me manter longe, um nível de distância seguro o bastante para não sentir aquele arrepio correndo a espinha outra vez quando pensava no caminho tortuoso de suas mãos subindo pela minha cintura e sua boca macia e gostosa tocando a minha.

Aquela palavra em si soava errada e suja, mas materializava aquela noite inteira. Gostosa.

Em algum ponto dela eu havia sussurrado para ele o quanto tudo aquilo que estávamos fazendo tinha aquele mesmo adjetivo infame, porque talvez se eu não tivesse parado naquele minuto em que as coisas começaram a ir rápido demais, teria um problema a mais para lidar naquele momento, muito além da lembrança dos seus dedos, sua língua e suas palavras.

Um conjunto ordinário de itens na nossa lista do que não fazer, mas se eu dissesse que naquele momento não podia mais sentir o gosto dele na minha boca, seria uma mentira contada para mim mesma.

Colocaria aquela noite como a notinha de rodapé em uma cláusula quebrada com um lembrete de que aquilo não se repetiria, havia dito para mim mesma naquela manhã que tudo não tinha passado de um acidente de percurso, continuaria pensando na droga da tequila ganhando força no meu corpo e me fazendo agir de maneira impulsiva, uma forma natural de meu organismo lidar com um cara como ele no meio de minhas coxas e emaranhado entre meus dedos.

No que tá pensando? Ele pergunta antes cruzar as mãos na frente do rosto, me olhando ainda mais firme.

Nada importante, só em toda essa... Respiro fundo, movendo meu lámen de um lado para o outro. — ... situação em que estamos agora Jungkook é esperto demais, talvez ele saiba exatamente no que eu estava pensando como se tivesse uma espécie de dom mediúnico, porque vejo aquele meio sorriso se formando no canto de sua boca, antes de sua língua tocar a parte interna da própria bochecha como se soubesse com exatidão a cena que tenho na minha mente agora.

— Não precisamos falar sobre isso se não quiser. Jungkook começa, com os olhos tão presos a mim que tenho medo do que exatamente ele consegue ver.

O que? Não, nem estava pensando sobre essa coisa do beijo... Começo.

Eu tava falando sobre a condecoração do seu irmão... — Ele suga o próprio lábio de um jeito fofo, fazendo com que a covinha bonita em sua bochecha esquerda apareça. — Não estava falando sobre o beijo. — A palavra parece ganhar ênfase na boca dele e isso me deixa ainda mais envergonhada do que antes, desconcertada. Não quero entrar naquele assunto, nem falar sobre ele até ter vontade de beijá-lo outra vez. Trine havia me dito uma centena de vezes que falar sobre algo, só nos faz desejar aquilo. Todo esse lance místico de "jogar para o universo" e as coisas que ela acreditava. Precisaria imediatamente de uma Turmalina Negra para sugar aquela energia pesada que parece ganhar força entre nós.

— Bom, que horas são? Preciso encontrar o Hobi na biblioteca ainda. — Mudo de assunto tão rapidamente que me surpreendo, geralmente aquelas situações me deixam nervosa ao ponto de não saber exatamente o que fazer, paralisada pelo meu próprio embaraço.

— Quase 19h, quer ir agora? — Ele começa. — Você mal tocou no jantar.

— É, tudo isso me deixou meio sem apetite. — Respondo de imediato.
O refeitório nunca fica cheio naquela hora, estranhamente, o horário de pico era entre as 17h30 e às 18h, o que me deixava aliviada por ter algumas dezenas de pares de olhos a menos nos encarando enquanto atravessavamos de nossa mesa até o outro lado, em direção às portas de saída. Ainda estávamos marcados. Jungkook continuava sendo o boato que nunca se dissipava, o tipo que havia criado uma reputação sobre si mesmo que já não o incomodava, mas que existia como uma verdade absoluta e real, e eu ainda era a sua namorada por via das dúvidas, mas os boatos haviam ganhado proporção por conta dele e não por minha causa.

— Você não precisa me acompanhar até lá, eu posso ir sozinha... — Digo, no minuto que cruzamos até a saída e Jungkook me acompanha em direção à biblioteca.

— Preciso buscar um livro, relaxa. — Talvez estivesse deixando óbvio o quanto a situação em si parecia incômoda quando estávamos sozinhos, mas como uma rota particular e trilhada mais de uma vez, os dedos de Jungkook procuram os meus, entrelaçando-os com uma facilidade de quem parece confortável com tudo que fizemos.

É estranho quando sinto sua pele outra vez entre os meus dedos, as mãos de Jungkook são ásperas, calejadas, sabia que era culpa do treino intenso e me perguntava se ele havia perdido a sensibilidade ao toque naquela região, tão diferente da suavidade com que me lembrava de seus suspiros cada vez que minha língua contornava delicadamente seu pescoço na noite passada e sua mão respondia automaticamente apertando firme o meu quadril.

Precisava parar de pensar naquela maldita noite. Urgentemente.

As luzes do pátio já estão acesas e o clima frio se dissipa quando Jungkook puxa a porta e uma lufada de ar quente vindo de toda aquela movimentação silenciosa nos alcança.

A biblioteca está quase lotada e não conseguimos evitar os os olhares das pessoas, como se fossemos o centro de toda atenção do campus naquele momento, antes de desviarmos para as prateleiras gigantescas dos livros de Sociologia, caminhando em direção às mesas de estudo na parte de trás.

Caminho tão rápido que estou praticamente arrastando Jungkook pelo braço para longe de onde aquela quantidade de pares de olhos possam nos alcançar, mas ele subitamente me para, bem ali, entre uma prateleira e outra.

— Ei, o que você tem? Desde cedo você parece me evitar. — Ele começa. — É por conta do beijo? — Do beijo. Das suas mãos. Da sua boca. Da droga do seu corpo. De você inteiro, Jungkook.

— E só que, sei lá, me sinto culpada. — Digo, enquanto o assisto cruzar os braços diante do próprio peito. — Não é que eu não quisesse aquilo, é só... errado quando temos um acordo, não é? — Comento e ele desvia o olhar para algum ponto acima da minha cabeça.

— Não me sinto culpado, me sentiria se eu soubesse que fiz algo que você não gostou. Eu fiz algo que você não gostou? —

Não, Jungkook! Eu gostei até demais, esse é o ponto.

— Não, não fez! Nosso beijo foi... muito bom! Eu só... Olha, não vamos mais falar disso, certo? — Digo e mantenho meus olhos bem ali, entre seus braços cruzados e os botões do seu cardigã bege de mauricinho.

— Tem certeza? — Ele pergunta uma outra vez, avançando de uma maneira tão suave que só consigo notar sua aproximação sutil quando meu corpo toca um dos livros ali atrás.

— Tenho sim. — Respondo, no meio de um suspiro.

Eu sabia que ele ia me beijar, na verdade, eu tinha certeza. Mais um passo e nossas bocas iam se tocar outra vez, estava quase sentindo o sabor do seu beijo de novo, ainda tão vivo naquela lembrança recente, com sabor de cerveja e alguma outra coisa que deduzia que era só dele.

— Nonô! — Reconheço a voz de Hoseok vindo de algum lugar além do meu subconsciente, e é por conta dela que me afasto naquele segundo antes de Jungkook me beijar uma outra vez. É ele que está ali, de pé, bem atrás de mim, usando óculos de Sol à noite e um moletom azul.

— O que vocês estavam fazendo aqui, hein? — Ele pergunta, trocando o olhar entre Jungkook e eu.

— Hmmm, procurando livros de Sociologia... — Começo. — Você sabe, maneiras de destruir o patriarcado. — Respondo e Jungkook continua com aquela feição de poucos amigos, coçando a própria nuca como uma tentativa ridícula de não parecer culpado.

— Oh — Hobi comenta. Ele já tinha entendido a situação muito bem. — Ei, Tsunderezão, eu queria pedir desculpas por ontem... — Hoseok começa, baixando um pouco os óculos para dar uma boa olhada na marca púrpura quase tatuada no pescoço de Jungkook. — Você sabe, essa coisa de coração partido né? — Ele diz, tocando o ombro de Jeon de maneira amigável.

— Tudo bem, Hobi. Você tá melhor? — Jungkook havia ignorado completamente o fato de que Hoseok tinha estragado o seu melhor par de sapatos, além de marcado seu pescoço com um chupão gigantesco e naquele momento parecia realmente preocupado, algo que eu não esperava.

— É, digamos que... Vai passar com o tempo, sou grato pelo aprendizado do agora. — Hoseok diz, dando ênfase na frase. — Ok, você foi mordido por um Coach ou o quê? — Pergunto, assim que ele termina a frase do dia que parece ter sido roubada de uma alguma página de "hashtag gratidão" na internet.

— Ah, Nonô! Não seja má! — Ele diz.

— Enfim, temos que estudar né? Então, Jungkook, nos vemos... qualquer hora?!— Digo e ele assente.

— É, então... até qualquer hora. — É repentino. Ele se inclina um pouco e deixa um beijo na minha bochecha, tão suave e lento que por um segundo fecho os olhos, porque a ponta do seu lábio toca o canto de minha boca. Seu cheiro gostoso dança ao meu redor no meio tempo que ele se vira e caminha por entre outras prateleiras, se afastando dali.

— Certo, o que exatamente foi isso? Foi um quase beijo? — Hoseok começa, mudando completamente a postura de minutos atrás.

— O que? Não! Você tá viajando... Estávamos só procurando livros! — Hoseok sabia quando eu estava mentindo, me atrevia a ser uma mentirosa porque queria, não porque pensava que ele me levasse a sério.

— Ok, o Jungkook tem algum sistema de busca de livros da biblioteca no meio da boca? A menos que seja isso, aquilo não me pareceu uma "busca por livros". — Com Hobi não adiantava e eu sabia disso.

— Tá, ok, mas promete que não vai contar pra ninguém? — Digo, assim que nos sentamos na mesa de estudos em que as apostilas de Hoseok estão espalhadas.

— Contaria só pra você se você já não soubesse. — Ele diz, sorrindo.

— Nós nos beijamos ontem... — Quando termino a frase, a boca de Hobi forma um "O" gigantesco, enquanto ele puxa os óculos de Sol para baixo, mostrando o rosto cansado e denunciando a ressaca da noite passada.

— Sua safadinha! E como foi?

— Foi... Nem sei explicar! Mas preciso dizer que... meio que demos uns amassos no seu quarto.

— O QUE? Eu tava lá?

— É... Mas olha, não foi nada demais, nós só... iniciamos as coisas. — Começo. — Enfim, podemos esquecer isso? Eu tava bêbada, não quero me sentir culpada por coisas que não fiz sóbria.

— Isso é algum tipo de fetiche? Por Deus! — Hobi diz, puxando a apostila para perto.

— Ok, tá tudo bem com seu coração hoje? — Hoseok pergunta, aleatoriamente. — Tá sim, por quê? — É tudo que consigo responder antes do momento crucial.

— O Kim tá vindo pra cá.

— O que? Não tá não.

— Tá sim, ele tá olhando pra você. Meu Deus, ele tá vindo, ele tá vindo, ele... chegou.

Não tenho tempo de raciocinar, de classificar aquele pensamento com clareza. Kim Taehyung está de pé, bem ali, ao lado da mesa de estudos, com o sorriso mais bonito que já vi na vida, materializado como uma criatura celestial, melhor do que todas as minhas fantasias noturnas sobre nós dois na biblioteca. Terminando e começando com "você foi uma garota muito má."

— Ei, eu tava mesmo querendo falar com você! — Ele diz e meu coração bate tão rápido no peito que pode romper a minha caixa torácica, eu tenho quase certeza.

— Ah, você é o... Hoseok, né? — Ele diz, sorrindo para Hobi.

—É, sou eu sim! — Hobi diz e sibila um "como ele sabe meu nome?" pra mim. — Eu preciso, é... procurar um livro sobre... A criação dos Dragões-de-Komodo, então fiquem à vontade. — Hoseok continua, antes de levantar abruptamente e sumir no meio das prateleiras. Sutileza não era o nosso forte. Óbvio.

Kim está tão bonito que mal consigo pensar. Tenho medo da expressão que está presa em meu rosto enquanto ele fala, se movendo graciosamente como um jovem deus, infernalmente bonito.

Torço pra não parecer idiota demais e talvez esteja falhando naquela função.

— Então, eu vejo que você sempre curte meus posts sobre arte no Instagram e tivemos aquela conversa legal outro dia... — Kim tem uma pintinha linda na ponta do nariz, e enquanto ele fala, estou pensando nas mil formas que posso beijá-la pelos próximos anos da minha vida. Seu cabelo parece despenteado propositalmente, assim como os botões da camisa abertos de maneira sutil pra mostrar um pouco de sua pele bronzeada de quem cresceu sob o Sol do Olimpo e nem quero continuar pensando nas coisas erradas que sua boca bonita me faz imaginar.

— Então, o que você acha? — Só então me dou conta de que não prestei atenção em uma palavra do que ele disse naquele meio tempo. Estive tão concentrada em apreciá-lo tão de perto que simplesmente não me dei conta do que ele dizia.

— Hmm, como? Desculpe, eu tava distraída com sua boca... — Merda! — Quero dizer, estava distraída com algo preso na boca. — Porra, Eleanor. Porra!

— Oh, você quer um fio-dental ou algo do tipo? — Alguém me dá um soco?!

— Não, tá tudo bem! — Respondo e ele sorri, bonito demais. Tão gentil e preocupado com meus dentes. Um anjo.

— Então, eu estava perguntando se você não gostaria de ir comigo à exposição de Arte do meu amigo amanhã, mas olha, sei que você namora o Jeon e bom, não quero ser desrespeitoso nem nada, é totalmente sem segundas intenções... — Ele diz. — É um encontro de colegas que gostam de arte, uh, o que acha? — O convite soa tão irreal na minha cabeça que não consigo responder.

É um silêncio estúpido que dura quase um minuto, enquanto as sobrancelhas bonitas de Kim se movem como se ele tentasse me decifrar ou estivesse em dúvida se tive ou não um derrame.

Fala alguma coisa, Eleanor! Fala! Qualquer coisa! Abre a boca!

— Traqueia! — Meu Deus, você vai morrer sozinha! Você sabe disso né? — Digo, claro! Desculpe, eu tô meio confusa... a festa ontem foi, uh, muito maluca né? — Ele sorri, puxando o cabelo de leve para trás e minhas mãos estão formigando para tocá-lo. Queria ter certeza se ele era real.

— Nem me fale! Mas então, amanhã às 18h? — Quero perguntar sobre Sooyoung, ontem mesmo os dois estavam aos beijos na festa, seria estranho sair com Kim se ele ainda estivesse namorando a garota, pelo menos no meu caso, ainda era um namoro completamente falso.

— Sua namorada não vai querer ir com você? — Pergunto, e Kim desvia o olhar para outro ponto.

— Sooyoung e eu terminamos. Tivemos uma recaída, mas... nada além disso. — Ele diz e me olha como se pudesse ler minha mente. Espero que não possa ver o que estou pensando sobre ele naquele momento. Mas envolve aquela mesa de estudos.

— Oh, entendo. Então, amanhã, certo?

— Certo! Posso te enviar meu número por DM? —

— Hmm, claro!

— Até depois, Lea.

Lea.

Ele tinha um apelido para mim. Só pra mim.

Metade das roupas do meu guarda-roupa estavam no chão do quarto e a outra metade estava no colo de Hoseok enquanto ele continuava tirando fotos de si mesmo colocando meus sutiãs na cabeça como se fosse uma espécie de chapéu.

— Hobi, você poderia por favor tirar isso daí e me ajudar? — Digo, enquanto o observo posar para mais algumas fotos. — Olha, eu sou uma mosca! ZZZIIIIIIIIIIIII! — Ele diz, antes de colocar o bojo do sutiã contra os olhos.

— É sério! Eu preciso mesmo de uma roupa legal, não sei que tipo de roupas as pessoas usam pra lugares como esse, eu nunca fui à uma exposição de arte antes... — Começo. — ...Não com o homem da minha vida.

— Falando em homens da sua vida, você já falou com o Jungkook sobre o encontro com o Kim? — Hoseok agia sempre como uma espécie de autoconsciência, a primeira que eu via materializada e usando sutiãs de bojo azul como chapéus, mas ainda sim, mantinha meus pés firmes no chão.

— Não, mas pretendo falar hoje, de qualquer maneira.

— Uh! Já pensou na reação dele?

— Ele fechou o acordo já sabendo disso, então acho que ele já estava esperando que algo assim acontecesse, certo? — Para ser sincera, não havia pensado muito na reação de Jungkook sobre aquilo, imaginava que seria indiferente como costumava ser quase sempre, me perguntava se algo havia mudado depois do que fizemos ontem ou se tudo aquilo tinha sido um mero impulso ocasionado pelo clima da situação, mas quem eu queria enganar, não dá pra esquecer um beijo. Não aquele beijo.

— Você não tem medo que ele acabe gostando de você? — Hoseok pergunta e paro o que estou fazendo para olhá-lo.

— Do que você tá falando? É claro que não! — Começo. — Eu tenho quase certeza que o Jungkook ainda gosta dessa garota que ele namorou, a...

— Jieun! — Hoseok responde de imediato.

— Isso, a Jieun!

— De qualquer forma, soube que ela vai voltar, o intercâmbio dela acabou. — Não sabia onde Hoseok conseguia aquelas informações, mas ele sempre conseguia. De todos os tipos. Segundo ele, era puro "faro jornalístico".

— Jungkook nunca me fala dela, não o que eu quero saber. — Talvez em algum momento ele pudesse me falar sobre tudo que envolvia Jieun e Kim, a sua versão dos fatos, não os boatos que pareciam ganhar vida outra vez depois de sua briga com Dong-Yul.

— Pergunte ao Kim sobre isso, ninguém melhor do que ele pra falar sobre.

— Ah, claro! "Ei, Kim, então qual o problema entre você e o Jeon? É por conta da Jieun?" Não faz sentido perguntar isso no nosso primeiro encontro. — Não arruinaria minha primeira chance em anos por conta de qualquer outra situação, aproveitaria ao máximo aquele momento com Taehyung, afinal, aquele era o foco principal daquilo tudo.

— Acho que vou usar esse vestido aqui, o que acha? — Mostro a peça a Hoseok e ele sorri.

— Você fica bonita com qualquer coisa, Nonô! — Ele diz. — Me empresta esse sutiã? Quero assustar o Yoongi!

São quase 17h30 quando cruzo as portas de vidro da academia para encontrar Jungkook, achei que seria melhor falar pessoalmente sobre o encontro com Kim, Jeon e eu não havíamos nos falado depois do ocorrido na biblioteca e entendia a razão, tudo andava estranho e intenso, o clima sempre parecia denso quando estávamos perto um do outro de uma maneira inevitável.

Caminho para dentro da academia e os olhares me acompanham, me pergunto se não tinha exagerado demais quando escolhi aquele vestido, mas mantenho meu olhar na busca por Jungkook e o encontro no mesmo lugar de antes, ali, naquele espaço vazio dos fundos da academia, fazendo uma série de flexões.

Seu cabelo está amarrado, puxado para trás, consigo ver perfeitamente o contorno dos seus músculos na camisa branca, úmida de suor.
Era um fato inegável que Jungkook conseguia ser bonito em — quase — todas as ocasiões, todas as que já tinha presenciado, pelo menos, mas achava engraçado ter aquela sensação de serendipidade cada vez que o encontrava em momentos como aquele, quando ele conseguia ser sempre propositalmente atraente.

— Jungkook?

Ele ergue o olhar rapidamente, antes de se erguer do chão e me olhar pela primeira vez, dos pés à cabeça.

— Hmmm, podemos conversar por um minuto? — Pergunto, antes dele caminhar até a pequena garrafinha de água largada por cima do banco.

— Claro. — Ele responde, respirando fundo. — Você tá bem bonita. — Seu comentário é sincero e simples, educado demais, mas meu estômago revira em ansiedade quando escuto aquela frase, como se de alguma forma estivesse esperando ouvir aquilo em algum momento.

— Bom, obrigada! — Digo, me sentando no espaço vazio do banco, antes dele e sua figura bonita e suada ocupar o lado oposto. — o Kim me convidou para um encontro... hoje, no caso, daqui a exatos 26 minutos. — Os olhos de Jungkook não desviam de mim, ele leva a garrafa até a boca e toma um gole longo de água, deixando algumas gotas escaparem pelo queixo.

— E bem... Eu só queria te avisar porque achei importante que você soubesse, já que o plano era esse.

Sua expressão é tão indiferente que por alguma razão, me sinto decepcionada.

— Ok. Então, bom encontro. Era só isso? — Ele responde, se levantando outra vez e buscando as suas faixas de proteção para os punhos.

— Era, era só isso. — Levo alguns segundos para me levantar e caminhar um pouco mais para longe, ainda na esperança que ele diga alguma coisa.

— Você não vai ficar chateado, não é? — Pergunto uma última vez, ainda parada bem ali, de pé.

— Esse era o plano desde o começo, certo? Você e o Kim. — Ele sequer me olha, apenas caminha até o saco de areia pendurado por duas barras de ferro, desferindo os socos contra ele com tanta força que tenho medo que o material se rompa.

— É, então, boa noite. — Digo, e ele finge que não está ouvindo. Daquela distância era impossível não pudesse me ouvir.
Tento não focar muito no último acontecimento, tinha apenas alguns minutos para encontrar Taehyung na ponte da Kyung-Hee, como havíamos combinado por mensagem de texto e quase me atraso no tempo que levo da academia, até a saída do campus.

A primeira coisa que avisto é sua jaqueta jeans bonita com uma pantera negra bordada nas costas, agradeço que ele não tenha me visto ainda, porque tenho tempo de tomar um fôlego e um pouco de coragem para chamar seu nome. Até mesmo dizer seu nome em voz alta parecia irreal demais. Aquilo de fato estava acontecendo, o momento que esperei nos últimos quatro anos estava realmente acontecendo, assimilar a rapidez com que tudo tinha se encaminhando para aquilo só me deixava nervosa, poderia tomar uma dose de tequila agora, beber talvez não fosse assim uma ideia tão ruim.

Não tenho tempo de me aproximar tanto quanto quero, Taehyung me vê antes e acena para mim e a única coisa que consigo pensar é que aquele sorriso bonito é por minha causa.

Imaginava o que Taehyung pensava sobre todas aquelas nossas conversas bobas por mensagens diretas do Instagram, sobre arte, filmes e música, assuntos aleatórios e desculpas fajutas para um assunto qualquer e agora, um convite repentino para algo aparentemente especial para ele, acho que jamais seria grata o suficiente à Jungkook por ter aceitado o acordo. Ele era o causador daquilo.

— Você tá incrivelmente bonita hoje, Eleanor. — Kim diz e quase estremeço. Sua voz dizendo meu nome ainda causava um frisson, e eu sabia que aquele era o poder de Taehyung sobre qualquer garota naquele campus, aquilo não era exclusivo. Estou sorrindo como uma idiota e talvez seja aquele o problema, não sei exatamente o que dizer.

— Hmmm, eu estava pensando, que tal irmos beber alguma coisa antes da exposição? Uma cerveja? — Taehyung pergunta, enquanto caminhamos na direção oposta ao campus.

— Acho que seria ótimo! — Eu precisava mesmo beber algo, me sentia travada e perdida, tinha medo de arruinar as coisas por estar nervosa e talvez beber me deixasse mais à vontade e menos sob o efeito do encanto de Kim Taehyung.

Tenho medo de tropeçar em meus próprios pés enquanto observo a forma bonita que ele se expressa, inebriada demais no cheiro dele, caminhando em direção a um pub bonitinho onde ele entra para comprar duas cervejas. Minha mente traça aquela linha de pensamento tão rapidamente que não consigo controlar, e se ele tentasse me beijar? E se ele quisesse qualquer outra coisa? Que tipo de resposta deveria ter? Me sentir péssima por estar em um namoro falso ou entender que Taehyung não dava a mínima para os sentimentos de um ex-melhor amigo? Aquilo só faz com que me sinta culpada, incinera a felicidade de minutos atrás e me coloca naquela posição injusta de traidora.

— Você gosta dessa? — Taehyung pergunta, estendendo a garrafa de cerveja para mim.

— Eu tomo de todos os tipos, não tem problema. — Tomo um gole longo e a primeira lembrança que tenho é Jungkook. Um conjunto errado de pensamentos sobre ele toma forma naquele meio tempo, ganhando força no meio de uma ansiedade estranha.

O sabor da sua boca exatamente como o daquela cerveja, sua indiferença ao encontro com Taehyung e minhas incertezas.

Como tudo poderia parecer tão errado de uma hora para a outra, afinal, se eu queria tanto aquilo por que não estou feliz?

— Pega leve, essa cerveja é um pouco forte. — Taehyung comenta, no segundo em que me vê entornar um pouco da bebida para dentro.

Não queria estar ali. E aquilo, de fato, estava acontecendo comigo. 

Sigam os personagens no Twitter, lembrando que alguns acontecimentos serão específicos das interações e não serão trazidos para dentro do universo da história.  

Jungkook:  busanshiteu

Eleanor: nonogreene

Hoseok: needahobi

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