05. Tatuagens secretas, amigorados e Jungkook.
— Já notou que toda frase que você disse na última hora começou com Jungkook ou aquele idiota? — Trine caminha para fora do banheiro minúsculo do dormitório enrolada em um roupão vermelho, os cabelos úmidos envolvidos em uma toalha amarela e com aquela cara típica de quem sabe exatamente como me deixar sem respostas prontas.
Ok, talvez isso fosse um problema.
— É que ele me... irrita! E eu preciso contar isso pra alguém antes que eu exploda. — digo, ainda contrariada. Não era bem verdade que estava constantemente falando sobre Jungkook, mas agora, tecnicamente, ele era meu namorado e o tempo que vínhamos, de maneira forçada, passando juntos só me fazia pensar no quão merecedor ele seria de receber o primeiro soco que daria na vida, se eu ao menos soubesse como fazer isso. Minha rotina tinha se cercado dele, por todos os lados, de todas as formas. Nos meus horários livres, lá estava Jungkook. Durante o tempo trabalhando no refeitório, ele estava por perto outra vez. No almoço, jantar, estudos. Olha só, mais Jungkook! Para qualquer lugar que voltasse os meus olhos, Jeon provavelmente estaria. Inevitavelmente.
Estava começando a me envergonhar do meu comportamento embaraçoso e perceptível de quase obsessão por tudo que envolvia ele e suas manias.
— Ele te irrita?! Ok, você passou o almoço inteiro observando ele mastigar ao invés de comer sua própria comida e depois ainda ficou tentando arrumar a franja dele por uns vinte minutos, e me pergunto, por qual razão mesmo?! — Trine questiona, se referindo ao almoço daquela quarta-feira constrangedora e nossa tentativa ridiculamente óbvia de parecer um casal.
— Você já viu o modo como o Jungkook mastiga?! Se você tivesse ao menos prestado atenção, iria perceber como aquele som é irritante e outra, não sei lidar com aquela quantidade de cabelo cobrindo o rosto dele, você não fica incomodada?! — digo, e ela ri enquanto solta os cabelos para penteá-los na frente do espelho.
Ainda estou usando as roupas de ginástica, engolindo uma torrada com gosto estranho enquanto caminho de um lado para o outro, acompanhando Trine e seus rituais noturnos de beleza, enquanto seguia me deteriorando em por destilar um ódio teleguiado somente a um indivíduo. — Sabe o que é pior? Ele ter vindo com aquele papo de ai, não podemos nos apaixonar e blá blá blá, sabe quais são as chances reais de me interessar por ele? Nenhuma! — Enquanto falo, Trine continua se movimentando para cá e para lá.
— Jungkook não faz meu tipo. Nem um pouco. Ele consegue pegar o charme barato que tem e jogar fora quando abre a boca.
— Então você o acha charmoso?— Ela me olha pelo reflexo do espelho, mas evito lhe dar a resposta que quero, uma mal educada e atravessada, contudo, Trine logo muda de assunto. — Mas enfim, você acha que tudo isso vai funcionar? digo, o lance do Taehyung? — A grande pergunta que não queria calar. Se aquela ideia iria ou não funcionar, eu ainda não sabia direito, mas estava empenhada naquilo, tinha afundado até o pescoço e seguia fazendo tudo conforme um plano idiota que havia bolado. Jungkook e eu. Um término abrupto. E então, Taehyung e eu.
Que Simone de Beauvoir me perdoe pela minha decadência moral.
Nossas interações online avançaram gradativamente nos últimos dias. Para mim, era um sinal verde. O que começou com alguns comentários aqui, curtidas ali e principalmente a certeza que ele estava me observando atentamente, migraram para uma conversa de algumas horas na noite de sábado, sobre um filme legal que assisti no fim de semana, que evoluiu para uma sequência de perguntas sobre gostos musicais, artistas favoritos e discos colecionáveis. Taehyung ficou impressionado quando contei que havia herdado uma coletânea de discos do James Taylor. Poderia ter aproveitado a abertura para sutilmente convidá-lo a ouvi-los comigo, mas precisava ser cautelosa com cada passo dado.
Um boato dentro da universidade tinha sido mais efetivo do que quatro anos inteiros de tentativas frustradas de chamar sua atenção, essa era a grande verdade, e ao mesmo tempo que ficava feliz, estava curiosa sobre o quê, necessariamente, havia atraído Taehyung para perto, provavelmente depois que os olhos de todos recaíram sobre mim e seu ex-melhor amigo, os dele também tenham seguido a mesma direção. Não podia reclamar disso, lógico, este era o intuito desde o começo.
O toque pouco suave na porta do dormitório repetidas vezes só entrega que é Hoseok lá fora e que ele viria para repassar o conteúdo com Trine naquela noite. Depois de seu sumiço repentino, aparecendo na manhã da terça na aula de Teorias do Jornalismo como se nada tivesse acontecido, já conseguia identificar que, provavelmente, havia uma garota envolvida na trama. E não estava errada. Hoseok tinha caído nas graças de Kang Seulgi na festa do campeonato, obviamente não o julgava, até mesmo eu vivia questionando minha sexualidade quando se tratava dela.
Contudo, quando abro a porta, me deparo com Hoseok usando um capuz preto, óculos escuros, à noite, e um par de seios falsos com alturas diferentes por baixo do moletom.
— Oh, então você acha que a Joohyun vai realmente pensar que tem uma garota com peitos estranhamente retangulares no nosso dormitório?! Uau! — Assim que digo isso, ele caminha para dentro do quarto, me dando um beijinho no rosto.
— Eu precisava esconder os livros em algum lugar, então só pensei, porquê não?! —disse, cumprimentando Trine e se jogando na minha cama, pronto para ligar a TV. — E por quê tá tão mal humorada hoje, Nonô? Problemas no paraíso? — ele pergunta e Trine se adianta. — É aquele problema que começa com Jung e termina com Kook. — Os dois se olham e sorriem.
Hoseok vasculha na gaveta da cômoda, procurando uma das barrinhas de cereais emergenciais e enfia a metade na boca.
— Nonô, acho que você deveria passar mais tempo com ele, não sei, saber mais sobre a vida do Jungkook, talvez isso deixasse as coisas mais suportáveis, vocês ainda tem um mês inteiro pela frente. — Hoseok diz, cruzando os braços por trás da cabeça, fazendo com que os farelos da barrinhas caiam na gola de sua camisa.
— Ou eu poderia simplesmente chutá-lo e desistir desse plano patético, que tal? — digo, e ele sorri. Apontando a barra para mim.
— E pra onde está indo vestida desse jeito?
— Eu infelizmente ainda preciso ser vista com ele, então vou assisti-lo treinar, se não morrer de tédio até o fim da noite. — comento e Trine arqueia as sobrancelhas. — Se eu não aparecer daqui a uma hora, podem procurar meu corpo na academia do campus.
— Vem cá, você não fica curiosa pra saber como o Jungkook é na cama? Porque você sabe, esses esquisitões podem surpreender quando se trata de fodas decentes... — A frase nem precisa ser concluída para meu estômago revirar com a vaga ideia que ela me oferece. Eu estava delirando? Ou Trine estava realmente falando aquilo?
— Que nojo! Vou fingir que você não acabou de me perguntar isso.
— Ué, mas o Jungkook é um cara bonitão, você não pode mentir sobre isso! E assim, confesso que aquele cabelo grande, que você aparentemente odeia, só o deixa bem sensual..— ela começa. — Imagina você segurando aquele cabelo bonito enquanto ele -
— Juro por Deus que se você terminar essa frase eu me mudo desse quarto ainda hoje! — digo e ela e Hoseok riem abertamente.
— Viu só? Eu te disse, ela sempre fica assim. Toda nervosinha. — Trine comenta e Hoseok me puxa para um abraço, tentando amenizar a birra que começou ali mesmo, me trazendo para mais perto da cama. — Você sabe que uma hora as coisas vão acabar só acontecendo e vai lembrar do que eu te disse, toda essa raiva e impaciência só tem uma explicação, é puro tesão contido. Li um artigo sobre isso esses dias. — Trine continua, abrindo as mãos teatralmente. —Energia sexual não liberada.
Isto tudo é um delírio coletivo. Estou em uma realidade paralela. Certeza, é isto.
— Fique amiga dele, Nonô, torne isso ao menos suportável pra você ou não vai aguentar os dias que ainda restam. — Talvez Hoseok tivesse razão, talvez realmente devesse me aproximar de Jungkook, como amiga, ao invés de apenas notar seu pior lado. Convenhamos que era o lado mais evidente, porque ele inteiro era estranhamente irritante. Para ser sincera, até agora não tinha conseguido perceber nenhum outro lado além de seu mau gosto para paletas de roupas, sua obsessão com o mesmo modelo de sapatos ou sua franja despenteada sempre cobrindo os olhos.
Talvez as qualidades estivessem escondidas debaixo da camada densa que cercava Jungkook. E, embora, meus sentimentos fossem só mecanismo de fuga, não estava interessada em conhecê-lo mais a fundo porque isso implicaria em algum tipo de apego emocional, e essa, entre o todas as outras possibilidades cretinas, era a última que precisava agora.
— Hobi, caramba, será que o "30" do @Kim_30 é o tamanho do...
— TRINE! — A cabeça de Christine se enchia de ruído branco quando ela acionava o modo provocação com um comentário pior do que o outro.
— É melhor eu ir agora, antes que eu acabe vomitando essa torrada...
— Oh, Yeaaah! Jeon! Yeaaaah, Assim! Jungkook!!! — Trine estava encenando explicitamente quando fecho a porta atrás de mim e Hoseok está gargalhando tanto que mal consigo ver seus olhos.
São esses momentos que me fazem pensar como vim parar aqui.
Cruzo a porta do dormitório e coloco os fones de ouvido, há meses não usava aquelas roupas de ginástica, — que esta manhã ainda estavam com um cheiro de cânfora pelo tempo enfiadas no fundo meu armário —, mas não pareceria convincente o bastante se eu simplesmente aparecesse pela academia do prédio principal sem elas. Dou sorte de pegar o elevador vazio, desviando de um grupo de garotas que carrega os cestos escada abaixo para a lavanderia, batuco os pés no ritmo da música tocando nos fones de ouvido, é Two Door Cinema Club e What You Know sempre melhora meu humor, mesmo nos piores dias ou com Trine bancando a atriz pornô no quarto e fazendo piada de minha situação crítica.
Quando as portas de metal se abrem, caminho em direção aos degraus e o pequeno saguão interligado às portas de vidro, já consigo avistar as luzes da academia do outro lado das catracas, duas bandeiras a meio mastro exibindo a insígnia da faculdade. Uma música ambiente toca alto, um pop genérico de algum boygroup popular que só consigo ouvir com mais clareza quando abro a porta pesada e caminho para dentro.
Um rapaz está na esteira, tão concentrado em seu treino que sequer percebe minha entrada triunfal tropeçando em um haltere esquecido no meio do caminho, já a garota do outro lado da sala está ocupada demais arrumando o próprio cabelo no espelho e agradeço pela sua adoração por si mesma, já que minha cena trágica não teria testemunhas.
Caminho um pouco mais para dentro e consigo ouvir os socos desferidos contra o saco de areia, um pouco mais à frente. Reconheço Jungkook pela quantidade generosa de cabelos que balança conforme ele se movimenta, os solados de seus sapatos produzindo um som de guincho contra o piso. Ele está concentrado demais no que está fazendo, os olhos fixos no saco como um oponente; evito fazer muito barulho para não tirar sua atenção e fico ali entre o espaço dos bancos vazios e os aparelhos de pilates observando-o.
É a primeira vez que o vejo usando shorts esportivos e uma camiseta sem mangas, tinha visto mais pele que aquilo na tarde fatídica em seu quarto, é claro, mas havia prometido para mim mesma que esqueceria a cena, definitivamente, assim que aquela droga chegasse ao fim.
Ele me olha de relance enquanto enxuga o próprio suor com a gola da camisa do Led Zeppelin, que já está úmida o suficiente para permanecer grudada no seu corpo, as mãos estão envoltas em faixas brancas com as pontas amarradas nos pulsos, não está usando luvas e nenhuma proteção além daquela. Me pergunto se a resistência física de Jungkook se dá a algum outro fator unicamente dele ou pelo excesso de treinos. Seus traços de personalidade se resumiam unicamente a malhar e encher o saco.
Seus pés se movimentam rápido, quase como uma dança, enquanto ele golpeia o oponente vermelho, finalizando com um último soco que faz o saco de areia deslizar pela barra em que está suspenso.
— Achei que não viria. — ele diz, ofegante, caminhando em minha direção depois de pegar o suporta para água ao lado da mochila, sentando-se ao meu lado.
— É, estava afim de desperdiçar algumas horas da minha vida vendo você socar aquela coisa ali. — digo, apontando para a base que sustenta um saco, agora, meio murcho e ele sorri. Um sorriso cretino e estranhamente atraente. Poderia colocar na lista futura de qualidades algum dia.
Número #1.
Um sorriso cretino, que talvez seja a única coisa atraente nele.
— É bom pra aliviar a tensão, eu gosto. — diz, enquanto relaxa o pescoço movimentando-o de um lado para o outro.
— Teve um dia ruim?
— Digamos que sim. — ele começa — Mas então, como faremos isso? Você vai ficar me assistindo treinar ou o quê? — Seu desvio do assunto, sem nenhum tato, já é uma resposta bem clara, mas não exigiria respostas sobre absolutamente nada que ele não quisesse falar, estava ali apenas para ficar por perto, bancar a namorada, como tudo que havíamos planejado juntos.
— Estava pensando, que tal se nós fizermos um jogo?! — eu começo.
— Um jogo?
— É, tipo um jogo de perguntas e respostas, assim nos conheceríamos um pouco melhor, o que acha? — Jungkook toma mais um gole de água em sua garrafa e respira fundo.
— Perguntas sobre qualquer coisa?
Não, poderíamos, sei lá, trazer o painel do roda a roda e tentar adivinhar as palavras.
— É Jungkook, sobre qualquer coisa. — Parecia que ele tinha algum tipo de prazer culposo em confirmar tudo que eu falava só para me ouvir dizer uma segunda vez. Em um nível sutil, porém ainda presente, de provocação.
Observo-o levantar novamente, caminhando em direção a cadeira de outro aparelho da academia, selecionando o nível de peso para puxar. Se acomodando na cadeira e afastando as coxas, uma para cada lado, com os pés bem apoiados contra a base de ferro. Meu celular vibra no bolso, tirando a atenção de seu puxa-solta. É uma mensagem de Trine.
[20:12] Trine Migles: Monta nele, vaqueira!
Prendo o riso. Trine parecia pressentir quando alguma coisa estava prestes a acontecer e gostava de me provocar apenas para deixar meus nervos abalados. Nada que aos poucos não estivesse me acostumando, assim como todo o resto de seu comportamento libertino que era engraçado e habitual.
— Eu posso começar? — Jungkook pergunta, antes de se posicionar para puxar os pesos para baixo outra vez.
— Manda ver! — ele respira, puxa o peso uma vez e solta.
Ele leva um segundo, articulando a pergunta.
— Qual é a do Park? — Ah, o Jimin! Eu sabia que aquela conta chegaria em algum momento, eu poderia evitá-la, mas nunca fugir dela completamente, assim como teria que encarar meu passado para sempre, perseguida por um primeiro beijo e uma virgindade perdida com um imbecil.
— Acredite ou não, ele é meu ex-namorado. — Jungkook me olha rapidamente e continua a sequência. Desce e sobe. — Nos conhecemos há anos, éramos vizinhos e... bem, foi meio que um rolê de primeiro amor de infância, sei lá, aconteceu. — Faço uma longa pausa dramática esperando alguma resposta ácida, algum comentário ou reação, mas Jungkook não me oferece nada; nem julgamentos prévios, pelo menos, não abertamente. — Mas, agora ele é o Park Jimin, rebatedor do time de baseball e nada além disso, enfim longa história curta, minha vez! — digo, finalizando o assunto ridículo que não parece comovê-lo.
— Você já namorou? — Jungkook respira fundo outra vez e solta os pesos, girando os punhos para alongar os músculos.
— Sim, por cinco anos. — Caralho! Cinco anos é muito tempo. E ao lado de Jungkook parece muito mais um pesadelo. Pobre coitada.
— Oh, você gostava muito dela? — pergunto, atropelando sua meia pergunta, que surge como um protesto e morre assim que ele me olha outra vez. — Ou dele... não sei.
— É minha vez agora, não é? — ele começa — Por que o Kim? — A pergunta ecoa entre nós, enquanto ele se movimenta para outro aparelho. Não é uma questão tão difícil, não deveria ser, mas me pego sem saber exatamente o que responder, algo que desejei durante quatro longos anos agora se torna um silêncio constrangedor e um borrão sem uma resposta clara.
— Bom, eu gosto dele há muito tempo. Ele nunca me notou e também não sou bem do tipo que chega e fala com todas as letras o que sente. Só que, sei lá, não acho justo ir embora sem ter tido uma única chance. Eu realmente gosto dele. — Jungkook continua a série de puxa-empurra, e tomo a frente antes que ele faça qualquer comentário. Me sinto uma traidora por estar prestando tanta atenção em suas pernas quando ele as movimenta empurrando os pesos para frente e para trás, no aparelho. O tecido de sua bermuda está dobrado e consigo notar a tatuagem em sua coxa direita, cobrindo quase completamente a pele, subindo em direção ao quadril, por dentro da parte não visível. São desenhos de vários formatos circulares, juntos, formando uma ordem única, lembravam pinturas indígenas ou algo que, definitivamente, eu já tinha visto em livros. A minha falta de autocontrole e discrição só faz com que ele perceba para onde estou olhando e deslize as mãos para baixo, puxando o tecido do short para cobrir a parte exposta. É melhor falar alguma coisa, senão tudo ficará ainda mais estranho.
Fale Eleanor, fale. Qualquer coisa!
— Então, o que aconteceu entre você e o tatuagem? Digo, Taehyung. Entre você e o Taehyung. — Eu conseguia ser assustadoramente estúpida nas piores ocasiões.
Uau! Agora você se superou!
Jungkook para a sequência e apoia os pés no chão, puxando o cabelo úmido pelo suor para trás.
— É uma longa história... mas pra resumir, o Taehyung traiu minha confiança. — Tinha absoluta certeza de que se tratava de Jieun, desde a primeira vez, a reação de Jungkook havia sido a mesma, sempre com aquela expressão que mudava drasticamente, deixando claro o quanto o assunto ainda o incomodava e não apenas metaforicamente.
Quero dizer algo, quero perguntá-lo mais uma vez, mas sei que vou acabar sendo inconveniente, então apenas espero sua próxima pergunta enquanto tento ler suas expressões.
— É minha vez agora, certo? — ele pergunta, tomando um gole de sua água outra vez.
— Yep.
— Quer sair daqui? — A pergunta me pega de surpresa, afinal, estava pronta para uma noite de exercícios e graças a Trine, alguns pensamentos desnecessários rondavam minha mente vez ou outra me fazendo temer qualquer aproximação física.
— Para onde quer ir?
— Quero te mostrar um lugar onde adoro comer, você tá com fome? Ainda dá pra chamar de jantar, eu acho... — Seus olhos miraram o relógio digital no topo da parede. 20h45. Eu poderia pensar duas vezes antes de aceitar, não estava preparada para sair; tinha vestido uma roupa de ginástica antiga, meu cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo ridículo e eu não tinha sequer pego um casaco, mas qualquer benefício que viesse de ter que aturá-lo seria bem-vindo e aceito de bom grado.
— Ok! Você pode esperar só um segundo? — pergunto, antes de checar minha aparência destoando no espelho ele assente, guardando seus pertences na mochila. Caminho até o banheiro na lateral. Por sorte havia trazido, pelo menos, um protetor labial no bolso da calça e tento dar um jeito nos cabelos, desfazendo o rabo de cavalo e deslizando os dedos entre os fios, amenizando aquela aparência desajeitada e frisada natural do meu cabelo ondulado.
Estava menos péssima, se é que aquele era um bom sinal. Estava torcendo para não ser um lugar muito badalado, odiaria aparecer assim, de cara limpa, em qualquer ambiente bem frequentado. Com os anos vivendo aqui, aprendi que a sua aparência pode falar mais do que você, e eu, sempre carregando o rótulo cruel de estrangeira, precisava seguir os moldes sociais à risca.
Quando volto, Jungkook está parado ao lado da porta de saída, com a alça de sua mochila em um dos ombros. Ele me encarou por um tempo questionavelmente longo, o que me fez pensar que, provavelmente, manter o cabelo preso talvez fosse uma opção melhor. — Podemos ir?
Faço que sim com a cabeça.
— Seu cabelo é bem legal. — ele comenta, antes de puxar a maçaneta, me dando espaço para passar.
— Hum, obrigada.
Caminhamos para fora das portas de vidro em silêncio, tenho certeza que não vou aguentar ficar vestida apenas naquele top ridículo sem meus mamilos parecerem duas placas sinalizadoras, o vento gelado faz com que eu me arrependa de ter aceitado o convite, principalmente quando vejo Jungkook caminhar até o bicicletário ao lado do prédio principal.
— Pera, nós vamos de bicicleta?
— Nãaaao, eu tirei ela dali apenas pra te mostrar como a minha bike é irada.
— Ok, você pode não ser um babaca por tipo dois minutos?! — Ele está rindo da própria piada como um idiota, estava estranhando o sarcasmo habitual de Jungkook não ter dado as caras na última meia hora, mas tinha compensado só naqueles minutos. O cinismo barato já estava entranhado nele.
— Desculpe, ok? — ele riu de novo — E nós vamos de bicicleta sim, é um pouco distante daqui, não dá pra ir a pé... — Jungkook monta na bicicleta preta e ajusta a o cadeado retirado na lateral da bolsa.
— Tá, mas não tem como você me levar aí...
— Você pode vir sentada aqui na frente, não vou te morder — Suas sobrancelhas se ergueram minimamente. Panaca. — Só se você quiser.
Reviro os olhos quase automaticamente.
— O problema não é esse, Jungkook. O problema é que não quero cair, nem me machucar — Respiro fundo, me aproximando da base da bicicleta para verificar se tinha alguma chance, mesmo que remota, de caber ali.
— Então sem problemas se eu morder você, certo?! — E lá vai ele, rindo da própria piada outra vez. — Vem, senta aqui, vou ser cuidadoso com você, prometo! — ele diz, tão sério que de alguma forma, confio. — Posso ir devagar, se quiser, gatinha. — Apelido patético.
Estranhamente tinha aquela sensação quando se tratava de Jungkook, mesmo que considerasse bizarro e errado, sabendo tão pouco sobre ele, sentia que podia confiar.
— Nunca andei nessa coisa. — digo e Jungkook me olha mais de perto, ele não parece tão ruim quando seu cabelo está assim.
— Nunca andou de bicicleta?
— Foi o que eu disse.
— Pera, você não sabe andar de bicicleta?
— Nop. — respondo. Algumas coisas precisam ser desenhadas para que ele entenda?
— Me lembre de te ensinar antes do acordo acabar, você é uma adulta, precisa saber dessas coisas e se rolar um apocalipse zumbi?! Como vai ser?!
— Eu vou jogar a bicicleta em um possível zumbi, Jungkook?! Achei que eu deveria ter, sei lá, tacos de baseball com arames enrolados na ponta ou riffles do tamanho do meu braço, não uma bicicleta.
— Mas ter um meio de transporte é essencial para a sobrevivência em uma situação de apocalipse.
— Achei que o essencial para a sobrevivência era não ser comido. — digo e ele ri de novo.
— Toma, coloca meu moletom, tá um pouco frio aqui fora. — falou, retirando a mochila do ombro e puxando um moletom esportivo, era o mesmo que ele estava usando na primeira vez que o vi, ainda me lembrava. Obviamente tem o dobro do meu tamanho, principalmente nas mangas, mas me mantém aquecida e agradeço por esconder o frio de meus mamilos que acabariam cegando alguém. O cheiro de Jungkook está impregnado no tecido, tão insuportavelmente forte que é como se estivesse presa em um abraço indesejado, cercada dele por todos os lados.
Eca.
— Podemos ir? — Me encaixo devagar entre suas coxas, no quadro escorregadio da bicicleta, que faz o tecido de minha legging deslizar para a direita.
— Sim, mas vai devagar. Por favor!
Os braços de Jungkook estão ao redor dos meus ombros, as mãos segurando no guidão de hastes vermelhas, sem as faixas protetoras que estava usando mais cedo, o peito pressionado contra minhas costas e os cabelos balançando no vento frio. Seu corpo inteiro em contato com o meu; tudo que menos precisava agora. Estou com a mão apoiada naquele pequeno espaço entre as suas, a sensação de da pele dele pressionando meus ombros faz com que minha mente tenha um pensamento cretino demais sobre nós dois.
Automaticamente sou arremessada até um lugar de meu cérebro onde o comentário de Trine naquela noite, traçou um caminho obscuro em uma linha de pensamento nada justa, voltando para me assombrar quando estou sentada ali, entre as coxas de Jungkook subindo e descendo contra os pedais e roçando em meus quadris.
— Por que está tão quieta? — ele pergunta, por cima de minha orelha, e estremeço, sou pega totalmente desprevenida.
— Tô com medo de cair, meio que tô vendo essa cena na minha cabeça em todos os ângulos possíveis. — respondo, inevitavelmente nervosa.
— Coloca as mãos aqui, qualquer coisa eu te seguro — ele posiciona minhas mãos para mais perto do espaço das suas, apertando meus dedos gelados por debaixo dos seus, mornos. A pele de Jungkook era absurdamente quente. Conseguia sentir o calor dele vencendo o tecido.
Merda! Merda! Merda!
Respiro fundo, afundando na gola de seu casaco e tentando focar em qualquer outro pensamento que não envolva Jungkook posicionado, estranhamente, em minhas costas, com as mãos ao redor das minhas, sussurrando em minha orelha.
Eu deveria começar a orar agora pela minha alma, tinha certeza que alguma parte minha estava pronta pra saltar daquela bicicleta no meio do trânsito caótico de Seul e daquelas ruas movimentadas apenas para que eu não fosse atormentada por aqueles pensamentos incontroláveis.
Ok, tenta pensar em outra coisa, sei lá. Traqueia. É, pensa em traqueia. Foi a primeira palavra que me veio à mente, mas tento focá-la na minha cabeça como uma maneira de me manter segura.
Traqueia. Traqueia. Traqueia. Traqueia.
Ele desvia para uma curva e automaticamente pressiona seus dedos nos meus, uma tentativa silenciosa e eficaz de me lembrar o que havia dito há poucos minutos, de que não precisava me preocupar porque ele estava ali.
— Já estamos quase chegando... — comenta. — Você tá tão ofegante, ainda tá com medo?
Respostas curtas, Eleanor. Respostas curtas.
— Uhum!
Jungkook desvia para uma rua e em seguida para outra e avisto os letreiros do restaurante piscando em neon. Era um daqueles lugarzinhos com mesas coladas às janelas e com uma vibe retrô, o último ambiente que poderia imaginar que Jeon Jungkook frequentaria.
— É aqui?
— Sim, você precisa experimentar o hambúrguer de bacon com molho de abacate. — ele comenta, no espaço de tempo em que estaciona sua bicicleta no espaço reservado para elas na lateral do restaurante.
— Parece nojento. — digo e ele revira os olhos.
— Se está disposta a beijar o Kim, vai comer o hambúrguer sem reclamar!
Jungkook cumprimenta o rapaz bonitinho que está no caixa quando nos sentamos em uma das mesas, e uma garota linda usando um broche com seu nome escrito nele se aproxima. Nayeon é o que está escrito em letra serifada.
— Ei, faz tempo que você não aparece por aqui... — ela diz para Jungkook, tão próxima dele que tenho a sensação que a qualquer momento vai beijá-lo. Sua mão toca o cabelo dele, puxando a mecha para trás da orelha. Os maneirismos óbvios de quem tem intimidade o suficiente para isso.
— Hmm, é que eu ando meio ocupado, mas quero que conheça alguém... — ele tosse, dando uma pausa, provavelmente, para o oxigênio retornar ao cérebro. — Essa é a Leanor, minha namorada. — A palavra namorada não soa perdida e estranhamente vaga como de costume, principalmente quando se conta uma mentira. É tão real que por um segundo eu também acredito. Os olhos da garota se voltam para mim e ela sorri, aquele meio sorriso por pura educação, de quem foi pega desprevenida, olhando novamente para Jungkook e então para mim de novo.
O ar parece denso entre nós.
— Oh, legal! Hum, vou pedir para o Youngjae atender vocês, certo? Um segundo. — Nayeon se afasta da nossa mesa, caminhando em direção a um grupo de garotas na mesa ao lado.
— Impressão minha ou ela simplesmente estava com ciúmes?! — pergunto e Jungkook esfrega as duas mãos contra o rosto antes de responder.
— A Nayeon e eu já saímos algumas vezes e... — Ele morde os próprios lábios, como se tomasse consciência do que está dizendo, indo e voltando em uma linha de pensamento.
— E você disse que não estava pronto para um relacionamento sério, mas do nada aparece aqui comigo e diz que sou sua namorada, certo? — questiono, porque era óbvio. Jungkook parecia ser do tipo que levava tempo para se envolver, que se relacionava apenas quando estava 100% seguro do sentimento e inexplicavelmente, em um espaço de tempo de uma semana ou até duas, aparece com uma namorada no restaurante da sua ex-ficante. Era natural que ela ficasse, no mínimo, chateada.
— Certo. — ele responde, puxando o cardápio para perto. Seu rosto está tão vermelho que a onda de constrangimento é perceptível.
— Você não precisava ter dito que estávamos "namorando". — Era ridículo o modo como precisava constantemente enfatizar as aspas sempre que aquela palavra escapava de minha boca, não fazia sentido ainda. Não deveria, pelo menos. — Poderia ter dito que eu era, não sei, sua colega de classe, uma amiga do clube audiovisual, qualquer coisa...
— Eu quis, não me senti na obrigação de dizer. — ele começa — eu apenas... apenas quis dizer. — Jungkook respira fundo, tamborilando os dedos contra o plástico azul do menu. — Podemos pedir?
O encaro uma última vez antes de puxar o cardápio para perto.
— Tá, mas você paga.
♆
O hambúrguer de bacon com molho de abacate não era assim tão ruim como havia imaginado, na verdade, era estranhamente gostoso. Talvez nem tudo sobre os gostos incomuns de Jungkook fossem assim tão ruins, sinceramente, naquele meio tempo já sabia que gostava de filmes conceituais indie, terror japonês e queria muito dirigir um deles, coisas um pouco mais normais no meio dos boatos que Hoseok havia escutado por aí envolvendo o nome de dele.
Ainda queria questioná-lo sobre Jieun, queria saber o que havia acontecido e porque a faculdade inteira falava sobre aquela garota que ele se recusava a mencionar, mas sentia que talvez colocaria a perder aquele momento ameno que estávamos tendo.
— Então, me fala sobre você agora. — ele diz, mordendo um outro pedaço de hambúrguer fazendo com que o molho verde e gosmento do abacate escorra pelo seu queixo. É quase automática a maneira como me estico sobre a mesa e deslizo o dedo contra seu queixo na tentativa de limpar os resquícios de molho, e só me dou conta naquele meio segundo em que levo o meu próprio dedo até a boca de que ali não se trata de Hoseok e nossa intimidade diária, é Jungkook. É Jeon Jungkook do outro lado da mesa. Com os olhos fixos no meu rosto e a boca ainda cheia. Provavelmente se perguntando o que eu estava fazendo.
E esse é o momento que você fala alguma coisa, Eleanor. Silêncios constrangedores nunca são bons.
— Desculpe, é...tinha molho no seu queixo. — É, eu acho que ele notou. Só uma dica.
— Ah, obrigado! — Ele desvia o olhar até os guardanapos na mesa, puxando um e limpando o que sobrou ali.
— E respondendo sua pergunta, eu gosto mesmo de música. Quero escrever artigos sobre isto para alguma revista importante um dia, tipo a Rolling Stones ou a Billboard Magazine... — Tomo um outro gole do meu milkshake de cereja antes de continuar. — Eu amo música, mas não sirvo pra cantar. Prefiro apreciar e falar sobre isso. — digo. — Dizem que jornalistas musicais são músicos frustrados, não é? Mas acho que sou só uma entusiasta, a música tá na minha vida desde que me lembro.
— Você deve entender muito sobre o assunto.
— Digamos que domino um pouco.
— Ok, qual sua banda favorita?
— Sem sombra de dúvidas, Fleetwood Mac.
— Nem fodendo!
— Juro! E posso te contar um segredo? — Jungkook se aproxima, curvando seu corpo contra a mesa, os olhos arregalados enquanto me escuta — Tenho o LP do Rumours autografado pela Stevie Nicks.
Sua expressão de surpresa parece até inocente.
— Cacete! Vale tipo... muita grana.
Faço que sim com a cabeça.
— Eu herdei da minha mãe! O Fleetwood Mac é tipo a trilha sonora da família Greene, sabe? Mas e você? Do que gosta?
— Música? David Bowie. Não tenho os discos como você, mas eu acho o cara incrível pra caralho. — Jungkook engole um pedaço do hambúrguer. — E eu gosto de cantar, não sei se faço isso bem, mas no banho minha plateia nunca reclamou. — ele comenta, levando o canudo de seu refrigerante até a boca. E minha mente mais uma vez me trai, imaginando-o outra vez no banho.
Droga! Droga! Droga!
— Tá pensando em mim pelado?! — ele pergunta, em tom de brincadeira, provavelmente para ser descontraído depois do meu silêncio, mas era a verdade, era exatamente aquela a visão que eu estava tendo naquele momento, quando acabo tossindo descontroladamente e seu sorriso sacana se transforma em uma expressão preocupada. Talvez sua ação seguinte seja apenas uma forma de não me deixar estranhamente constrangida, quando me oferece um gole de sua bebida e aceito, engolindo não apenas um pedaço de bacon preso em minha garganta, mas todo o orgulho descendo pela glote.
Jungkook checa as horas em seu relógio e só então nos demos conta do horário para o toque de recolher do dormitório, que seria em exatos 30 minutos, é quase automático como nos preparamos para ir embora ao verificar as horas. Ele caminha até o caixa para pagar a conta enquanto o aguardo lá fora e Nayeon o evita uma segunda vez quando ele tenta ao menos um contato.
Meu celular está atolado de chamadas de Trine e de mensagens de texto, provavelmente porque havia dito que se não aparecesse em uma hora, ela poderia vasculhar pelo meu corpo no campus.
[21:37] Trine Migles: Onde você tá??????
[22:02] Eu: Saí para jantar com o Jungkook,
mas já tô chegando!
[22:04] Trine Migles: Saiu pra jantar ou pra ser o jantar, huh?
tô te esperando, safada!
Ina.cre.di.tá.vel.
— Vamo? — Jungkook diz, me puxando abruptamente daquele pensamento enquanto desce as escadas de acesso ao restaurante e apenas concordo.
— Vou precisar ir mais rápido dessa vez, então se segura bem tá? — disse, antes de colocar a mochila nos ombros.
— Ok.
A medida que Jungkook avança, pedalando tão rápido, não consigo evitar o frio na barriga que sinto cada vez que desviamos de um carro ou de outro, entrando pelas ruas movimentadas ou os sons estranhos presos no fundo de minha garganta que o fazem rir sem parar e não consigo evitar as mechas do meu cabelo que o vento levam em direção a sua boca uma ou duas vezes. Pela primeira vez, Jungkook e eu estamos rindo sobre alguma coisa juntos e não um do outro. Metaforicamente e não metaforicamente. E me sinto estranhamente satisfeita com aquilo.
Talvez Hoseok estivesse certo, tentar me aproximar de Jungkook como amiga tornaria tudo menos pesado e denso, perdidos no meio das obrigações irritantes de sermos o não-casal tentando a todo custo ser um casal, ao invés de explodir de paixão como a maioria costumava fazer, só teríamos os sentimentos ruins ali no meio daquela bagunça que havíamos começado.
Jungkook pedala um pouco mais rápido e avançamos pelo gramado do campus, depois de cruzarmos a pequena ponte de pedra que era o símbolo da Kyung Hee, chegando até as rampas do dormitório bem a tempo.
Entramos pelas portas de vidro e as luzes já estão parcialmente desligadas, o Sr. Lee, que cuida da portaria, já nem estava mais ali, mas pelo menos, estávamos dentro.
— Isso foi loucura!
— Minha nossa, minhas pernas estão doloridas! — ele diz, sentando-se nos degraus próximos ao elevador. — Acho que tem alguns fios dos seus cabelos presos nos meus dentes. — Voltamos a rir sem parar. E preciso me aparar no corrimão frio, contra a parede de azulejos.
— Eu tô meio enferrujado, faz tempo que não pedalava tão rápido assim. — Jungkook é bonito quando sorri. Bonito, tipo, pra caralho. Cacete! Exibindo seus dentes perfeitamente alinhados e a pintinha abaixo do lábio inferior, que parece ganhar destaque cada vez que ele movimenta a boca daquele jeito.
Só então me lembro que havia conseguido pensar em um apelido suficientemente bom para ele, associado ao ridículo e cafona que ele tinha escolhido para mim.
— Ah, antes que eu me esqueça, escolhi um apelido pra você! — Sento-me ao seu lado no degrau, apoiando os pés na parede do outro lado.
— Ah, é? Achei que "Filho de Satã" já era um começo...
— O que acha de Jun?
— Jun... — ele me olha de novo — eu gosto.
Meus pensamentos estão desconexos demais no meio daquele silêncio que nos atinge em seguida, tão confortável e agradável que me questiono se são exatamente aqueles que antecedem os beijos, quando os sorrisos aos poucos desaparecem e os olhares se perdem naquele espaço entre ir ou não. O mais estranho é que me imaginar beijando Jungkook, naquele meio segundo, não parece uma ideia estúpida perdida no meio de um sentimentalismo barato que me agarra pelas pernas. Há meia hora, a mesma ideia seria descabida.
Apego. Era justamente disso que precisava fugir.
— Bom, acho melhor eu ir, a Trine está me esperando e está tarde também... — digo e Jungkook respira fundo outra vez.
— Claro, não quero que sua amiga fique preocupada com você.
— Obrigada por hoje, foi bem legal da sua parte...
— Não foi nada, digo, as pessoas tem mesmo que experimentar hambúrguer de bacon com molho de abacate pelo menos uma vez na vida.
Minha zona segura sofreu uma ruptura frontal, já conseguia ver a rachadura atravessando a parede, suplantada em um solo infértil que considerei inviolável.
Merda.
— É! — sorrio, sem saber o que fazer com as mãos. — Então nós somos tipo, amigorados?
— O que seria um amigorado, Leanor?
— Tipo amigos e namorados.
Jungkook gargalha.
— Uau, você consegue ser muito brega quando quer! — diz e sorrimos outra vez. — Boa noite, amigorada.
— Tem razão, soa péssimo! — começo, enquanto ele me observa — Boa noite, Jun. — cruzo as catracas até o elevador e quando olho para trás, Jungkook não está mais lá.
♆
Toda a conversa com Trine na noite passada tinha me feito ter um sonho extremamente estranho com Jungkook; envolvendo nós dois, aquele quarto e sua tatuagem bonita na coxa, em um processo sórdido que começava com minha mão deslizando por cima do desenho, enquanto sua boca acompanhava um outro caminho em meu corpo, desvendando rotas secretas um do outro.
Acordei tão atordoada e ridiculamente molhada que evitei comentar sobre aquilo com Christine.
A verdade era que não tinha tanto interesse em me envolver desta forma com outras pessoas, e se tratando de sexo, não considerava uma necessidade básica que me daria um pretexto para sair e beijar estranhos em um muquifo pelos arredores de Hongdae. Não. Meus desejos às vezes falavam mais alto, lógico, mas nada que não pudesse resolver com uma mão amiga no fim da noite.
Deveria categorizar o sonho como pesadelo e tentaria esquecer aquelas cenas ridículas que seguiriam sendo jogadas de volta, como uma memória indesejada refletida em um tecnicolor, cada vez que fechava os olhos.
Não entendia muito sobre atração física, mas Jungkook tinha desbloqueado, ao menos em sonho, uma vontade desenfreada de descobri-lo por baixo das camadas de roupa esportiva.
Ok, Eleanor. Esquece isso!
Tomo um susto quando meu celular vibra debaixo do travesseiro, checo as notificações acumuladas, e a primeira mensagem que vejo é justamente dele. Jungkook era quase onisciente. Um simples bom dia e um agradecimento pela noite passada, os bons dias estavam se tornando constantes, por alguma razão Jungkook estava enviando desde que oficializamos nosso não-namoro, uma frase solta, sem gifs coloridos cafonas no meio de uma paisagem aleatória e com letras brilhantes, sem emojis ou figurinhas bobinhas, apenas um "bom dia" solto e que talvez, na cabeça dele, parecesse a função de um namorado, mesmo que falso, ser o primeiro a me desejar algo.
Encará-lo depois do sonho seria frustrante.
Mas tentaria ao menos seguir o conselho de Hoseok e me esforçar para ser uma amiga, talvez uma colega, já que não precisávamos ir tão longe assim, certo? Certo. Precisava manter meu foco naquilo que importava, e tudo aquilo ainda era sobre Taehyung. Esquecendo a nudez nunca vista de Jungkook.
Respondo um "bom dia" com alguma figurinha boba e ele apenas visualiza, típico do bom e velho Jungkook de uma semana atrás.
A noite havia sido realmente divertida, mas tinha algo que não conseguia entender sobre o sentimento de ontem, aquela sensação ali, nas escadas, como se algo estivesse presente entre nós quando não deveria estar, talvez fosse apenas uma maneira de meu organismo entender Jungkook sem resumi-lo ao panaca do cabelo assanhado. Ainda estava relutante com o que havíamos feito ontem, e era natural que sentisse o impacto de um bom momento quando só tivemos momentos ruins até aquela noite, em questão. Se tratava apenas de um moletom emprestado, uma carona de bicicleta e uma resposta honesta de mais, por que eu estava revendo tudo em looping?
E droga, ainda tinha uma prova hoje.
Não demoro tanto tempo assim protelando na cama e levanto para me aprontar, um pouco zonza quando coloco um pé no chão e me equilibro para desenrolar o outro enroscado nas cobertas. Além da prova, teria que dar conta de ajudar Hoseok, que obviamente detestava aquela matéria. Ontem mesmo tinha cochilado boa parte do nosso horário de estudos na biblioteca, alegando que se tivesse que reler mais alguma anotação, seria obrigado a arremessar os cadernos pela janela.
De quebra, ainda tinha que dar conta da rotina frenética no refeitório, com aqueles alunos que mais pareciam abutres avançando em um banquete de carne.
Estranhamente, tenho uma sensação ruim. Algo que começa em minha nuca e se espalha pela minha espinha dorsal como um calafrio, uma sensação que aos poucos toma meu coração e revira meu estômago, a última vez que havia sentido aquilo, Hoseok só conseguiu pensar em uma coisa: diarreia.
Ok, era óbvio que ele iria pensar algo completamente desvinculado do sentimento real, podia ser apenas ansiedade por conta da prova semestral, meu envolvimento repentino com Jungkook e todas as merdas acumuladas no meio de constante de sentimentos.
Trine dizia se tratar de um aviso claro e físico de minha intuição. Da última vez usou o tarô e lá estava: o dependurado e o sete de espadas. Sabotagem.
Foi na mesma semana que o plano recém-começado envolvendo Jungkook, simplesmente, foi descoberto em menos de dois dias pela minha falta de traquejo.
A verdade é que queria muito que meu plano desse certo, que as coisas começassem a funcionar de verdade e para isso, eu precisava me aproximar de Taehyung, estar entre sua roda de amigos ou insinuar que estava interessada em aprender qualquer coisa sobre baseball, o que terminaria em outra mentira, já que eu sabia bastante sobre o esporte, inclusive, conseguia avaliar bem suas falhas na base do time.
Tento desviar dos pensamentos colocando uma playlist qualquer para tocar, minha favorita era uma com músicas pop dos anos 2000, intitulada "Como Britney em 2007, meio incompreendida", minha rota de fuga. Evito pensar em qualquer outra coisa além das letras dramáticas e a melodia dançante enquanto caminho para dentro do elevador.
"My loneliness is killing me..."
Ok, talvez a próxima.
"Oops... I did it again, I played with your heart, got lost in the game..."
Talvez o meu repertório musical estivesse sendo bem específico hoje.
Levo cerca de 15 minutos pra chegar até a sala de aula, parando apenas para comprar um achocolatado para Hoseok na conveniência da faculdade, já que ele quase nunca tomava café da manhã pela sua necessidade de ficar 5, 10 ou 15 minutinhos a mais na cama, e infelizmente, o meu acordo com a senhora Jung era justamente que eu cuidasse de seu caçulinha enquanto ele estivesse longe de seus cuidados, se ela bem soubesse o filho que tem, nunca mais usaria um título daquele.
Dois minutos após a chegada de Hobi, descabelado e com a blusa pelo avesso, o professor anuncia a entrega das provas e por alguma razão, levo mais tempo que deveria para me concentrar. Tinha visto todo o assunto na tarde passada, mas ainda assim, aquele texto parecia não fazer nenhum sentido, uma pequena palavra já associada a outra e a outra me levava para longe daquela sala, para qualquer outro lugar que chegava diretamente na mentira que eu havia decidido levar adiante sobre meu namoro com Jungkook, o sentimento ruim que vinha me perseguindo desde o começo da manhã, como uma pequena corrente elétrica se dispersando pelo meu corpo.
Ok, Eleanor. Foco. Graduação primeiro, garotos depois.
Depois da aula ainda teria que auxiliar no refeitório, encarar os alunos com seus comentários idiotas, aturar o mau humor de Jungkook usando um avental apertado e as chances de outra vez encontrar Taehyung e apenas olhá-lo de longe, como o resultado de mais um dia terrivelmente entediante da vida de Eleanor Greene.
A última vez que havia beijado um cara provavelmente tinha sido na festa de Halloween do segundo ano de faculdade, estava bem bêbada e nem lembro o nome dele, Hoseok ao menos jurou que ele era "boa pinta". O velho clichê!
O único cara com quem tinha transado na vida se chamava Park Jimin, as duas únicas e remotas vezes, unicamente com ele. Primeiro, quando perdemos nossas virgindades juntos, no ensino médio, alguns anos depois de eu ter dito que beijá-lo não era lá a minha coisa favorita, mas estávamos mudando, descobrindo novas experiências e pareceu certo, foi logo naquela época em que Jimin se livrou dos óculos de armação cafona e descoloriu o cabelo, vivia por aí com camisetas exibindo o corpo que havia ganhado alguma forma durante o verão, foi uma noite estranha e que começou e terminou sem nenhum sentido. Jimin sem saber o que fazer depois de tirar a minha calcinha estampada com margaridas roxas e eu esperando que ele tomasse as rédeas da situação, já que eu não fazia ideia de qual era o próximo passo.
Não foi ruim. Jimin não era um completo idiota comigo. Mas não foi como nos filmes, é claro, toda aquela idiotice romântica, não é bem assim que funciona na real, passamos basicamente 15 minutos tentando descobrir como uma coisa encaixaria na outra.
Além da dor, algo que quase ninguém comenta. Não tem como relaxar o suficiente quando alguém está prestes a enfiar algo em você.
Talvez na segunda chance que tivemos, quando ele já tinha alguma experiência, tenha sido mais fácil para os dois. Foi no dia da formatura do ensino, quando pensamos que não iriamos nos ver nunca mais. Roubamos o licor de gengibre que sua mãe havia escondido no armário e transamos escondidos no seu quarto. Naquela época, Jimin sabia muito bem o que fazer com as mãos, com os dedos e com a boca. Poderia citar alguns benefícios do garoto-saliva e a sorte que tive naquele dia, mas algumas coisas devem apenas ficar enterradas no seu passado, inclusive, aquele era um aviso claro por si só: nunca mais contaria nenhum detalhe da minha vida sexual para Hoseok. Ponto.
Jimin e eu prometemos que isso morreria entre nós dois e desde então, é isso que temos feito, com algumas péssimas exceções (Hoseok), é claro.
Nos ignoramos na faculdade, nas redes sociais e na vida. Talvez seja bem menos vantajoso para ele deixar que um boato de que sou sua ex-namorada seja espalhado por aí, mas eu não saberia nem onde enfiar a cara neste caso. Jimin me causava uma sensação esquisita de vergonha, como um texto escrito no diário anos atrás e estou gargalhando da dor de uma antiga eu de dezesseis anos.
Contudo, consigo terminar a prova com algum esforço me obrigando a focar ali e sou provavelmente a penúltima a entregá-la e sair da sala perto do horário do almoço, correndo até o refeitório.
O tumulto dos alunos aos poucos se dispersa quando as filas se formam perto do buffet, e chego invadindo a cozinha, jogando a mochila de canto e colocando o avental. Jungkook já está servindo algumas pessoas e nossos olhares se encontram por alguns segundos, quando ele sorri fazendo um maneio com a cabeça de "ei", daquele jeito bonito. Penso no sonho e tento não olhar muito para a boca dele, lembrava muito bem das coisas que ele tinha dito. Puta merda. Automaticamente desvio para o lado de fora caminhando até a pilha de bandejas, organizando-as do outro lado do balcão.
Um dos imbecis do curso de Engenharia se aproxima, é Shin Dong-Yul, o idiota responsável pelo Peek-a-Boo, um fórum ridículo que servia como a fossa universitária para falar sobre a vida dos alunos dentro do campus. Boatos e exposição ilegal, melhor dizendo.
— Ei, Greene. — ele se aproxima mais que o necessário para alcançar uma bandeja e fico na defensiva. — O que a gente precisa fazer pra receber uma visitinha sua no dormitório? Quero tudo que o Jeon pediu e posso pagar o dobro se você usar esse vestidinho. — A sensação ruim aumenta, como se durante todo o dia eu estivesse sentido que aquele seria o clímax de toda a situação.
Quem Dong-Yul pensa que é?
— O quê? — pergunto outra vez, em um tom de voz tão baixo que parece um sussurro, talvez não tenha escutado com clareza o bastante o que penso que acabei de ouvir e queria ter certeza que não era um delírio.
Os garotos ao redor dele estão sorrindo, um deles está com o celular posicionado exatamente em meu rosto, não sei o que fazer quando Dong-Yul se aproxima um pouco mais, vencendo o espaço mínimo que nos separa. Assédio. Essa era a palavra correta. Dou um passo para trás até que meu calcanhar encontre a base do concreto e meu ombro esbarre na pilha de bandejas dispostas na lateral da baliza, derrubando algumas. Os garotos que entram pela porta lateral não nos percebem, as outras pessoas não têm sequer noção do que está acontecendo ali, ninguém está realmente prestando atenção em nós, com a barreira humana cercando Dong Yul e eu. No tempo que levo para tentar me desvencilhar de sua mão segurando meu pulso de forma dolorosa, vejo Jungkook pular o balcão e se aproximar, segurando Dong-Yul pela gola de sua jaqueta de nylon como se ele fosse um amontoado de nada.
— O que você quer, uh? — Jungkook repete, com o rosto quase colado ao de Dong-Yul.
— Calma, Jungkook! Só queria saber se sua namoradinha teria um tempinho para mim também. — O sorriso sacana de Dong-Yul me faz querer socá-lo, a maneira como a palavra "namoradinha" soa pejorativa e nojenta na sua boca faz meu estômago embrulhar.
— Você é um cuzão, cara! — Jungkook sorriu, incrédulo. — Apague essa merda que você gravou e vá embora, sério. — Seu cenho está franzido e ele se posiciona como um escudo diante de mim.
— É só um beijinho, Jungkook, todo mundo aqui sabe que você gosta de dividir, não é? — O sorriso vitorioso que se forma nos lábios dele se desmancha logo em seguida e leva cerca de dois segundos para o punho fechado de Jungkook acertar o rosto de Dong-Yul uma vez, seguida de outra e outra, fazendo sua cabeça girar para um lado e então, para o outro. Dong-Yul se defende da maneira mais desonesta que consegue, e acerta um soco no rosto de Jungkook fazendo com que sua cabeça vire para o lado oposto. Estou parada no meio do caminho enquanto os alunos empolgados em assistirem a briga, esbarram contra os meus ombros quase me levando junto, mas meus pés estão fixos bem ali, grudados, e no minuto seguinte, vejo o punho de Jungkook acertar o rosto de Dong-Yul pelo menos três vezes antes de Seokjin avançar no meio do mar de pessoas e tirá-lo de cima do garoto.
— Tá maluco, Busan?
O cabelo longo de Jeon cobre seu rosto parcialmente e apenas quando ele desliza as mãos para afastá-lo dos olhos, consigo notar os danos causados pela briga; um sorriso ensanguentado e um olho parcialmente roxo. Jin tenta erguê-lo e acaba puxando sua camiseta para cima, enroscando o avental ao redor de seu pescoço.
E é naquele meio tempo que leva puxando-a para baixo que nossos olhares se encontram.
— Ei, venha. — Seokjin grita para mim, enquanto puxa Jungkook com ele. — Preciso de você.
Apenas obedeço o comando, sem saber exatamente o que fazer, mas sendo acompanhada de dezenas de pares de olhos fixos em minha movimentação. Seríamos outra vez o assunto na faculdade, eu sabia. A quantidade de celulares com câmeras voltadas para nós é tanta que tinha certeza absoluta que o mesmo rumor, que mal havia acabado, retornaria com ainda mais força.
— Seu namorado perdeu a cabeça, pelo visto! — Jin continua. — Tenho um kit de primeiros-socorros no laboratório de audiovisual, ir para enfermaria só vai render uma suspensão, anda, vamos logo. — Jungkook está tocando o próprio rosto verificando o estrago, o lábio ensanguentado parecia bem feio
— Você vem? — Seokjin pergunta.
Me livro do avental, jogando para dentro das portas da cozinha e corro até ele.
♆
O estrago era notável.
Jungkook está sustentando o próprio cabelo para longe do rosto com a ajuda da mão machucada enquanto Seokjin tenta, desajeitadamente, limpar o pequeno corte no seu lábio. Fico impaciente com a força aplicada, deixando fiapos do algodão colado ao ferimento aberto.
— Sunbae, deixa que eu faço! — digo e Jin se afasta, puxando a cadeira de uma das cabines e só então, respirando fundo.
Tenho um elástico de cabelo preso ao pulso e não penso duas vezes antes de juntar toda a quantidade de cabelo de Jungkook para trás e prendê-lo em um rabo coque bonitinho, tendo uma visão privilegiada do estrago causado por aquela briga.
— Acho que isso vai render uma cicatriz. — comento, no momento que observo de perto sua boca machucada. Levantando seu queixo com a ponta dos dedos.
— Dong-Yul é um filho da puta! — ele diz, contrariado. Instigo Jungkook a abrir a boca, quero observar se aquele soco não lhe rendeu nenhum dente quebrado, já que no caso de Dong-Yul, não sabia se teria sobrado um único dente, e é naquele segundo que percebo, pela primeira vez, o piercing que Jungkook tem na língua.
Mantenho o meu foco em verificar outros pontos de possíveis contusões, embora meu cérebro tenha, de forma sacana, adicionado aquele detalhe a imagem do sonho da noite passada. Tento não demonstrar que estou tão desconcertada assim, tudo seria ainda mais estranho, principalmente quando ele está ali, com os olhos fixos em cada expressão minha. Nunca havia me dado conta de como a presença de Jungkook era difícil de ignorar.
Respiro fundo, sentando contra o mármore do balcão para ficar na altura de seu rosto. Deslizo o algodão embebido em álcool por cima do seu corte, e ele estremece, a mão se antecipando em tocar a minha.
— É uma boa razão, mas ainda assim, não justifica sair no soco com alguém por esse único motivo.
— Ele foi desrespeitoso e não quis se desculpar, você viu. — ele continua, gemendo baixinho quando toco o algodão outra vez — Se fosse sobre mim, teria deixado passar, mas ele tinha que ser um cuzão...
Era sobre Jieun. Provavelmente se tratava da ferida aberta que Jungkook ainda mantinha. Ele perderia a cabeça daquele jeito em uma briga aleatória se não fosse por conta de algo importante para ele, se não fosse toda a situação que envolvia aquela garota e os boatos que rondavam o campus. Estava claro. Contornar uma verdade óbvia com mentiras cheias de pretextos vagos não seriam suficientes para justificar uma atitude impensada. Sabia que o motivo ainda seria ela.
— Não ia deixar ele falar com você daquele jeito! — ele conclui. Seus olhos, agora, estão voltados para os meus e não consigo desviar.
O baque de sua fala trouxe à tona a sensação proibida da noite passada.
De cair em um abismo sem nunca encontrar o chão. Caindo, caindo, caindo. Sentindo o frio na barriga da queda livre, sem aparatos.
Seus olhos passeiam pela sala e voltam para o meu rosto, ainda estático. Ele me deixou sem possibilidades de me esquivar, essa era a verdade.
Jungkook havia saído no soco com um garoto no meio do refeitório da Kyung-Hee por minha causa.
A frase perde o sentido no vácuo que minha mente entra em seguida.
— Oh, Busan! Você é mesmo um idiota quando está apaixonado! Aish! — Seokjin comenta, me trazendo de volta a realidade. Com a mão parada no ar, entre tocar o rosto de Jungkook com o algodão e me afastar dali para correr.
Apego. Apego. Apego.
Você não pode, Eleanor. Sabe bem que não deveria.
Com os meus olhos fixos na imensidão dos olhos escuros dele, outra vez, me sinto tonta.
— Obrigada por me defender então.
— Não tem que me agradecer — ele diz, se aproximando do algodão embebido em álcool, deixando tocar seu lábio inferior.
— Sou seu namorado.
—
N/A:
Os personagens de CCEG agora tem perfis individuais no Twitter pra vocês interagirem!
Eleanor: nonogreene
JK: busanshiteu
Hobi: needahobi
Tae: basemankim
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top