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Eu não quero uma garota
que ganha um carro aos dezesseis anos
Ou gasta uma pilha de dólares
numa limusine
Eu quero uma garota que
pega ônibus e usa jeans largos
Arrasando com seus Nike Airs
Não quero bronzeado falso, saia curta
E dinheiro do papai não funciona
Eu quero uma garota inteligente
mais forte que seu pai
Alguém que vai rir e
tentar se encaixar na multidão

Eu não quero uma garota que tire selfies
quero ela sem maquiagem
Não quero uma garota malvada
 como uma rainha do baile vestida de rosa
Eu quero uma garota que escala árvores
sempre com sujeira em seus jeans
Seu pai lhe ensinou a consertar carros
talvez ela possa me consertar

Eu realmente não quero
uma garota com a vida ganha
Eu gosto que a minha mulher
seja independente
Então eu diria para as pessoas:
Ela é meu tipo de garota
— Trust Fund Baby - Why Don't We

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— Essa lasanha está maravilhosa, Stacey. Meus parabéns. — Connor agradece, provocando.

— Já disse, não fui eu que fiz. Não sei nem fritar ovo. — Ela explica pela segunda vez, já cansada.

— Ora essa, não seja tímida. Conte pra gente, amorzinho. Confesse seu talento em potencial. — Benjamin diz, se aproximando da loira e passando o braço por seus ombros.

— Cansei disso, já estão passando dos limites. Se falarem mais alguma coisa, eu vou... — Stacey começa, tirando a mão de Ben perto dela e se afastando de todos nós. — Vou marcar três entrevistas de duas horas pra vocês. Querem arriscar? — Ela ameaça.

Eu e os outros meninos ficamos calados, observando quando ela sai da cozinha e desaparece com seu barulho de salto batendo no porcelanato.

— O que deu nela? — Dominik perguntou, totalmente confuso.

— Não sei. Eu também não entendi. — Connor falou, colocando mais um pedaço de lasanha na boca.

— Enfim, que seja. Tenho que terminar a lasanha. Sonhos se realizam, basta comer bastante e alcança-los. Foi assim que conquistei os meus. — Ben declarou orgulhoso e todos nós rimos.

Every está sentada na mesa ao meu lado, comendo calada e olhando tudo que acontece entre nós. Estou tentando ao máximo mostrar a família que somos e deixá-la mais tranquila.

Ainda nem acredito que a reencontrei. Ela parece três vezes mais bonita agora, a luz do meio dia e com os cabelos soltos.

— Se nem a tia Lee conseguiu fazer vocês serem menos inconvenientes, eu nem quero tentar. — Jack declarou, rindo de todos nós.

A mãe de Connor foi o maior exemplo de mãe que temos aqui. Além da mãe de Benjamin, tia Carla, que mora em Salvador e nos ama também.

Essa mulher com os olhinhos puxados acompanha a banda desde antes do início, quando eu e os meninos ensaiamos no quintal dela. 

Há quase seis anos atrás, com meus dezessete anos, percebi que não queria fazer outra coisa. Cantar é meu abrigo, afugenta o meu passado triste e me faz criar momentos bons demais.

— Tia Lee é uma guerreira, tipo a Mulan. — Eu digo, sorrindo pra ela. Nossa tia sorri também, muito feliz.

Senti falta dela nesses dias que não apareceu, principalmente na hora de dormir quando começa a dar ordens e nos coloca na cama bem cedo.

— Obrigada, Matt. Você é um anjo. — Ela diz, aquecendo meu coração.

Anjo? O Matthew? Que piada engraçada! — Benjamin começa a rir de mim novamente, se sentando em seu lugar e engolindo a lasanha.

— Matt foi o que menos me deu trabalho. — Tia Lee conta a Every, que está encarando ela bastante curiosa.

— Você os criou? Todos eles juntos? — A garota do batom vermelho pergunta.

Quase isso. Quando os conheci, vi que precisavam de mim tanto quanto eu também precisava deles. No meu aniversário, eles compraram uma casa nessa vizinhança e agora não posso mais me afastar desses anjinhos. — Tia Lee disse a ela, sem esconder detalhes.

Every transmite confiança. Mesmo que seja mais calada em meio a desconhecidos, quando estou com ela sinto que não preciso temer. Por esse motivo ela não vai escapar de novo.

— Isso é muito bonito. — Declara, sorrindo. Aquele sorriso cheio de perigo, que ela nem deve imaginar.

— Minha mãe é toda bonita, assim como eu. — Connor se intrometeu, dando um beijo na bochecha da tia Lee.

— Detesto acabar com o clima fofo, mas temos que continuar o ensaio. Sábado tem a festa da Harrison. — Jackson anunciou.

— Harrison Dawin? A apresentadora? — Every pergunta, parecendo muito chocada.

Se stessa, bella cosa. — Dominik afirmou, se levantando com seu prato na mão, o deixando na pia.

— Ah, eu... não entendi o que...

— Ela mesma, coisa linda. — Dom corrige, sorrindo de canto, parecendo até tímido por falar italiano na frente dela. Algo que eu já estou acostumado.

— Vocês tem compromisso marcado, acho que já deu minha hora de ir. — Every tenta fugir, praticamente se despedindo.

— Não, não, não. Fique conosco e assista o ensaio. Ainda nem lhe devolvi seu batom, não pretende voltar sem ele, não é? — Digo a ela, segurando sua mão por cima da mesa.

A garota balança a cabeça afirmando pra minha pergunta, aterrorizada com o contato físico na frente de todos.

— Perfeito, então vamos. — Jack se ergue, batendo palmas.

— Onde a Stacey foi? — Ben perguntou, olhando pra entrada da cozinha.

— Deixa ela, daqui a pouco aparece de novo com seu bom humor. — Connor resmunga, ainda terminando de comer o terceiro pedaço de lasanha.

Todos nós deixamos nosso pratos na pia, começando uma discussão sobre quem vai lavar, já que quem fez isso ontem fui eu. O anjo da banda. Pego na mão de Every e a tiro de lá, antes que o nome dela entre na lista de lavadores. 

Eu não entendo o motivo de comprar uma máquina de lavar pratos se nós nunca usamos.

— Conte o que está pensando. — Peço a ela, indicando que se sente no sofá da sala. O barulho da cozinha é mais baixo.

— Muitas coisas. Como ninguém nunca ouviu falar que a mãe do Connor cuidou de todos vocês? E porque quer tanto que eu fique aqui? Ainda tem o fato de não querer que seus amigos me achem uma interesseira. — Ela desanda a falar, muito nervosa de repente. Como se tivesse escondido essas emoções.

E confesso que é boa nisso, pois nunca imaginaria tantas dúvidas.

— Uma pergunta de cada vez. Primeiro, nós não deixamos que a mídia saiba sobre a tia Lee, ela é muito reservada e não gosta de nada disso; Segundo, desejo que fique. Gostei de você e quero te conhecer melhor do que uma conversa de cinco minutos no bar; Terceiro, meus irmãos te adoram e sabe bem disso. Fizemos um brinde a você ontem no lançamento. — Eu conto tudo a ela, na esperança que não me ache um maluco e fuja de novo.

Sua mente fica processando a informação. Dou risada de sua cara confusa e sem jeito.

— Every... se você falar que prefere ir embora e nunca mais me ver, vou pegar o seu batom e te devolver, te levar até o carro e me despedir. É só falar e eu farei. — Explico um pouco mais.

Isso parece acalmar seus nervos. Já que ela me dá um sorriso de canto, bem pequeno. Chama atenção pra os seus lábios grandes pintados de nude.

Um pecado grave.

— Então, o que me diz? — Pergunto diretamente.

— Eu fico. Já vou logo avisando que não posso passar de seis da noite, tenho um jantar de família. — A garota me diz. É impossível não sorrir.

Sou pego de surpresa quando Every estende a mão e toca no meu queixo, bem em cima da covinha formada.

— Você tem que sorrir assim mais vezes, fica muito fofo. — Me confesa. Fico encantado, admirando-a.

Ela deixa o seu olhar cair pra meus lábios e quando menos espero, encosta sua boca na minha.

Perco completamente a noção do espaço. Quero beijá-la daquele mesmo beijo de quarta, o dia que nos conhecemos.

Rápido demais, Every se afasta, tentando esconder seu divertimento por me ver tão frustado.

— Quero que cante Batom Vermelho no ensaio. Quero te ver cantando pessoalmente. A minha música. — Ela me falou, acendendo fogos de artifício na minha cabeça. — Posso chamar assim, ok? A minha música. — Questionou, sorrindo perigosa.

— É a sua música, Every. — Deixo bem claro, querendo que entenda. Não consigo mais me afastar dela e nem de querer beijar sua boca a todos instante.

Afasto o sentimento de aflição, torcendo pra que ela não desista e vá embora a qualquer momento. Não quero prendê-la em mim, então se ela passar por essa porta e nunca mais voltar, vou entender.

O mundo que me fez ser uma estrela musical também sabe ser cruel e espinhoso. É comparado a uma rosa.

— Um metro de distância, crianças. — Connor surgiu, me afastando de Every e se sentando bem no meio.

— Connor... — Reclamei, mas fui ignorado.

— Prometi ontem que agradeceria a você pessoalmente. Obrigada garota do Matthew, por ter saído correndo e lhe dado inspiração pra escrever. Não te julgo, eu também fugiria dele se pudesse. Vá enquanto dá tempo. — Meu amigo guitarrista falava, colocando o braço pelos ombros de Every.

— E por que devo fugir? — Ela pergunta, cruzando os braços e encarando o rapaz coreano.

— Matthew é um garoto muito irritante e... — Connor continuou, sussurrando algo a ela que não fui capaz de escutar.

— Tia Lee, eu vou bater nele! — Informei a minha quase mãe.

— Sem violência, Matt. Nós temos visita. — Benjamin resolveu aparecer também, sorrindo irritante.

— Eu adoraria ouvir mais sobre o Matthew dormindo abraçado com uma pizza de pelúcia. — Every fala alto o suficiente pra eu escutar.

Connor tem seu sorriso convencido no rosto, muito animado por ter alguém que pode usar contra mim.

— Vou te contar, fofa. Aguarde. — Prometeu. Tive que revirar meus olhos.

Every parece mais relaxada, talvez até normal em estar entre ídolos da música pop rock. E com ela, me sinto um pouco normal também, e nem de longe sou assim.

Algo se conforta em vê-la no meio dos meus irmãos, da tia Lee e do Jack e da Stacey, como se encaixasse. Pelo menos, é o que vejo. E espero que ela também se sinta da mesma forma.

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