19

Eu não sou de permanecer por perto
Basta um erro e você está fora, querido
Não me importo se eu parecer louca
Mas você nunca me decepcionou
É por isso que, quando o Sol nasce
Eu continuo aqui

Tenho todo esse tempo em minhas mãos
Podemos muito bem
cancelar nossos planos
Eu poderia ficar aqui por uma vida inteira
Então, tranque a porta
e jogue a chave fora
Não posso mais lutar contra isso
somos apenas você e eu

Vou te conhecer melhor
Espero que a gente continue
aqui para sempre
Não há ninguém nessas ruas
E você me dissesse que
o mundo está acabando
Eu não iria querer gastar
esse tempo de outra forma
Stuck With U - Ariana Grande

x

Ainda não consigo acreditar.

— Filha... eu não sei o que dizer. — Jacob falava, tão nervoso.

— Que tal isso. Desculpa filha, por ter dito que ia voltar pra te levar pra escola e só apareci cinco anos depois. — Respondi com ironia, tentando controlar a raiva que estava em mim. Não queria perder tempo.

Meu pai abaixa a cabeça e encara o prato com croissant na sua frente. O cabelo castanho escuro está com fios brancos, os olhos num tom de castanho esverdeado e aqueles lábios grossos que eu herdei.

É meu pai, mas se tornou um desconhecido. Ficamos ambos quietos, perdidos em nossas lembranças.

Algumas mesas distantes de nós, está Matthew e Alex, encarando meu pai mortalmente. Eles são os melhores amigos que eu poderia ter, apenas por estarem presente nesse momento.

— Every, eu sinto muito. Deveria ter tentado mais, fui um tolo por acreditar em sua mãe. Entendo que não vá confiar em mim novamente. — Ele confessou. Encarei o homem em minha frente, meio confusa.

— Como assim tentado mais? Você nem tentou, simplesmente foi embora. — Rebati, me irritando com suas palavras.

— Eu pensei que estivesse em Boston, como sua mãe tinha me dito. Não havia como te ligar, nenhum dos parentes de sua mãe me dava seu número. Tentei convencê-la, mas foi impossível. — Me diz, parecendo realmente muito abatido.

— Boston?! — Esbravejei. Que merda está acontecendo? — Eu nunca se quer saí dessa cidade, como poderia ter ido a Boston? — Perguntei a ele.

Jacob me olha ainda mais confuso.

— Por causa da sua faculdade de medicina. Sua mãe me disse que você passou e foi estudar fora do estado. — Ele viu minha expressão ficar pálida. — Não é? — Insistiu, me encarando.

— Não. — Falei. Meu pai arquejou. — Eu nem se quer me inscrevi em uma faculdade depois que me formei, estou fazendo cursos de maquiagem. Sou praticamente uma profissional, esse é meu sonho. Eu nunca quis me tornar médica. Pensei que soubesse disso.

— Mas sua mãe disse que...

— Você acreditou mesmo na Mariah? Depois de tudo? — Perguntei-lhe. Quando ele abriu a boca pra responder, eu o cortei. — Porque me abandonou, pai? Porque mentiu pra mim falando que ia voltar e só apareceu agora? O que exatamente aconteceu além do divórcio? — Não me importaria se ele ficasse desconfortável.

Meu pai deu um longo gole no chá de hortelã e respirou fundo. As respostas iam chegar, finalmente. Depois de anos.

— Naquela noite que sua mãe pediu divórcio, foi horrível pra mim também. Pensei que estava tudo sob controle, mas acabei sendo enganado. Sei que menti pra você quando falei que iria aparecer pela manhã, pra te levar a escola, só que eu estava tão destruído que perdi a cabeça. Acordei  na estação de trem depois de passar a noite bebendo, meu celular descarregado e sem dinheiro. — Ele começa a falar.

Eu afirmo, esperando a pior parte.

— Voltei pra casa naquela mesma manhã, mas vocês não estavam mais lá. Sua mãe não atendia quando liguei pelo telefone público, então tive que ir buscar ajuda com um amigo. Aquele mesmo que você me viu falando agora a pouco. Ele me ajudou, filha. Com o dinheiro emprestado, peguei um táxi e fui na casa de todos os seus parentes, nenhum deles dizia nada.

— Como conseguiu falar com a Mariah, depois de tanto tentar? — Perguntei novamente. Escondi minhas mãos suadas debaixo da mesa, limpando na calça jeans.

— Esse meu amigo, o Daniel, passou pelo salão e viu sua mãe lá, trabalhando. Eu fui até o salão, falei com ela, ouvi todos os seus gritos e xingamentos, então pedi que pudesse falar com você. Foi a gota d'água, ela surtou e começou a gritar, o segurança me expulsou e Mariah ameaçou pedir uma ordem de restrição a ela e você. Fiquei com medo, mas anotei o número e fui morar fora do estado. — Explicou a mim.

Minha mãe mentiu. A pior parte é não ficar surpresa com nada disso, não ter nada que prove ao contrário. Ela me disse que meu pai foi no salão, avisou que não queria mais nos ver e ia se mudar pra longe. Fiquei a noite inteira chorando.

— Ela só me atendeu duas vezes, na primeira foi pra me ameaçar ficar longe, e a segunda foi pra dizer que você tinha se mudado pra Boston. Eu nunca entendi o motivo dela não me querer mais por perto, Every. Juro que não sei. — Ele declarou, apertando a xícara.

O barulho de conversas na cafeteria não ajudava muito, mas esse era o único lugar mais reservado. Muita coisa pra pensar e emoções guardadas demais.

— Me perdoe, filha. Eu poderia... ter tentado mais. Você não deveria ter passado por nada disso sozinha, entendo que vá duvidar de mim, mas me deixe te mostrar o quanto ainda amo você. — Falou aquelas doces palavras.

Meus olhos encheram de lágrimas, querendo deitar em seu colo e contar tudo que passei nesses últimos cinco anos.

— Eu preciso de tempo, pai. Foram cinco anos de perguntas sem respostas, talvez... demore bastante pra te perdoar por completo. — Fui sincera. — Mas, eu também te amo, depois de tudo.

Ele sorriu, esticando os lábios grossos. Eu sorri também, feliz em saber que o primeiro passo foi dado. O amor pode superar as dificuldades e sarar as feridas mais profundas, só basta crer e agir.

— Seus dois amigos estão me olhando como se fossem me matar. — Jacob comenta, me fazendo olhar na direção da mesa dos meninos.

Eles estão de braços cruzados, sem deixar de olhar pra meu pai por um segundo.

— Eles se importam muito com você. — Continuou dizendo. Apertou os olhos castanhos na minha direção. — Está interessada em algum deles? — Decidiu perguntar. Dei um riso curto.

— O moreno de cabelo preto é Alex, meu melhor amigo. Conheci ele no dia que você saiu de casa. — Apresento a distância. Meu pai se encolhe quando toco no assunto, mas não reclama. — O de olhos verdes e jaqueta preta é Matthew, eu acho que estou apaixonada por ele. Não tenho certeza. — Digo, um pouco tímida por falar nisso.

Acho que nunca conversei com meu pai sobre garotos e nem namoro. É estranho. Ainda mais agora que tenho vinte e um anos, uma quase adulta.

— Espero que ele te faça feliz, filha. — Murmurou, um pouco triste. Não entendi bem o motivo.

— O que foi? — Questionei.

— Perdi tanta coisa sobre você, Every. Não sei mais se vermelho ainda é sua cor favorita, se ainda gosta de chocolate ou qualquer outra coisa. Somos praticamente desconhecidos. — Confessou, com sinceridade.

Fiquei um pouco triste com isso também, mas um sorriso foi tomando meu rosto.

— Podemos dar um jeito nisso, pai. Temos a semana inteira pela frente e muito tempo livre. Vai ficar quanto tempo aqui? — Deixei o passado de lado um pouco.

Jacob pegou minhas mãos e sorriu.

— Vou ficar quanto tempo achar necessário. Depois de te perder uma vez, não vejo nada mais importante que não possa ser adiado.  — Ele me diz.

Meu coração está se enchendo de alegria outra vez. Aos poucos, as feridas vão sendo cicatrizadas e as lembranças ficando enterradas. Percebo agora.

Eu quero perdoa-lo. E aos poucos posso conseguir, só basta tentar.

x

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top