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Anos atrás, quando eu era mais jovem
Eu meio que gostava
de uma garota que conhecia
Ela era minha, e nós éramos um amor
Isso foi antes, mas foi verdade

Estou apaixonado por um conto de fadas
Mesmo que isso machuque
Porque não me importo se ficar louco
Já estou amaldiçoado

Todos os dias
nós começávamos brigando
Todas as noites
nós nos apaixonamos
Ninguém mais poderia
me deixar mais triste
Porém, ninguém mais poderia
me fazer tão feliz

Fairytale - Alexander Rybak

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Coloquei tudo em cima da mesa, todos aqueles documentos.

Fotos que tiramos juntos, o celular com a conversa aberta, os post-its que deixamos na porta da geladeira, o extrato das nossas contas conjuntas, a escritura dos imóveis e até mesmo o recibo da viagem de lua de mel e nossa viagem a praia antes do casamento, tudo isso conta.

E nem estou falando da certidão de casamento, de nascimento, passaporte, carteira de motorista entre outras coisas.

Eles olhavam tudo cada detalhe. Eu havia assistido junto com Ben alguns vídeos de pessoas que contavam como foi a entrevista delas e criei esperança de dar certo.

Não queria pensar nisso, mas estava mentindo pro governo do meu próprio país. Eu percebi que não era muito diferente do Derek. Acusei ele de tudo aquilo e no fim eu fiz pior.

— Com os documentos está tudo certo, agora vamos começar com algumas perguntas. — O rapaz disse, se sentando reto na cadeira e cruzando os dedos sobre a mesa. 

Permaneci plena, tentando parecer o mais tranquila possível.

— Claro, tudo bem. — Falei, dando um pequeno sorriso.

— Como foi o primeiro encontro de vocês? — Questionou, segurando um caderno de anotações.

Minha mente se revirou. Se eu falasse que foi na praia, não faria sentido já que tinha sido pra ver o espaço do casamento. Então, escolhi a segunda opção. 

— Ele fez uma surpresa e me levou em um restaurante brasileiro. Ficamos no terraço, dançamos juntos e depois passeamos pelo parque que tinha logo em frente. Foi tudo tão... perfeito. — Não consegui evitar o sorriso bobo que surgiu em meu rosto enquanto falava.

— Há quanto tempo vocês se conhecem? — Ele continuou, parecendo que nem se importava.

— Cerca de quatro anos. Mas só começamos um relacionamento sério um ano depois. — Eu respondi, tranquila.

Já tínhamos decidido isso na noite anterior e estava fresco em minha memória. Conversamos sobre todos os fatos que aconteceram três anos atrás.

— E aonde foi que isso ocorreu? — Killian, o entrevistador, cerrou os olhos.

— Numa festa de um amigo nosso, Jaaziel Celare. Eu estava servindo bebidas quando Benji fez o amigo dele me liberar do trabalho e me chamou pra dançar. — Contei pelo menos uma verdade. 

O sorrisinho invadiu e abaixei a cabeça, me lembrando de cada momento e sensação.

— Quem fez a proposta de casamento? 

— Benjamin fez. Na cafeteria do amigo dele, em frente a todos os nossos outros amigos. — Outra meia verdade.

— E você conheceu a família dele? — Continua.

— Conheci minha sogra Carla. O pai de Ben o abandonou, então não o conheço, é claro. — Eu expliquei. Suspirei fundo, ainda conseguindo ouvir as palavras dele falando sobre o pai idiota que tinha.

— Pode me dizer exatamente onde vocês moram?

Eu digo o endereço e tiro a chave da bolsa, mostrando também.

Demora mais um minuto enquanto ele anota tudo, coisas que não faço ideia do que são.

— Roxy, me diga, quem acorda primeiro pela manhã? — Ok, eu não pensei nisso. 

Mas sei a resposta, com certeza. 

— Benjamin. Ele tem ensaio da banda, que começa às oito da manhã. Eu durmo até um pouco mais tarde. — Comentei, confiante da resposta. 

— E quem faz as refeições? — Insistiu, parecendo muito desconfiado.

— Como ele acorda primeira, sempre faz o café da manhã. O almoço e o jantar são feitos pela empregada que contratamos quando não estamos em casa. — Eu disse. Fiquei nervosa com aquele olhar esquisito que me dava como se pudesse ler a minha vida pelos olhos.

— Qual o horário que ele chega do trabalho? 

— Isso depende bastante. Se for apenas um ensaio vocal e resolver a questão da mídia, vai chegar sete e meia, mas dias de ensaio para a turnê que está chegando, é entre oito ou nove horas da noite. — Eu contei tudo que sabia.

Afinal, eu não ficava o tempo inteiro com o celular nas mãos.

— Quantos carros vocês tem? — Anotou mais uma coisa.

— São dois. Ganhamos um de presente de casamento do nosso amigo e outro já era de Benjamin, que ele mesmo comprou. — Informei.

Só gente super rica tipo Jaaziel dá um carro de presente.

— Quem lida com as finanças? 

— Nós dois juntos. Dividimos as contas sempre que possível. 

— Cite os nomes das testemunhas do casamento de vocês. — Me encarou firme.

Ah... o casamento. A maior e melhor encrenca que eu me meti.

— Jackson White e Lee So Kang. É o nosso casal de conselheiros desde sempre. — Eu afirmei, sem desviar o olhar e deixando a expressão tranquila. — Inclusive, estamos tentando juntar eles. Fazem um casal incrível e todos concordam. — Acabei dizendo, rindo um pouco.

O entrevistador deu até um sorriso de canto quase invisível. Eu fiz ele rir, finalmente.

— Qual o nome do meio de Benjamin? 

Fiquei confusa. Ele não me disse nenhum nome do meio. 

— Nome do meio? — Perguntei, sem perceber.

O rapaz inclinou a cabeça, erguendo a sobrancelha. Droga, que vacilo.

— Benjamin não tem nome do meio, senhor. — Falei, mostrando minha confusão. 

— Tem razão. Ele não tem. — Me contou, pegando as fotos que deixei na mesa. Evitei suspirar de alívio. Minha pressão quase caiu. — Diga o que acontecia em cada situação dessas fotos. — Pediu.

Ele pegou a primeira, que tiramos na praia indo ver o espaço da festa. Nossos pés estão juntos na areia e é possível ver o mar no fundo junto com o céu limpo brilhante.

— Tiramos antes do casamento, quando fomos a praia juntos pela primeira vez. Nenhum dos nossos amigos pode ir, então ficamos lá conversando e assistindo o pôr do sol. — Expliquei, sem conseguir tirar os olhos da beleza dessa foto. 

Até meu pé ficou bonito.

— E essa? 

Peguei a outra foto. Nós dois no carro, quando ele quis postar nos stories e decidiu imprimir de tão perfeita que havia ficado. 

— Ah, isso foi quando estávamos indo procurar um apartamento. Eu tinha acabado de sair do estúdio de música. Acho que estava brilhando de alegria e não parei mais de sorrir. Ben notou e queria marcar o momento. — Eu colocaria aquela foto em um porta retrato quando voltasse pra casa.

Killian me fez contar sobre cada uma das cinco fotos. E eu realmente amei. Era tão bom relembrar os momentos que passamos juntos nesse mês de organização. 

— Última pergunta. Quem disse "eu te amo" primeiro? — Ele questionou. E eu sorri.

— Fui eu. Eu disse. — Respondi.  Foi há trinta minutos atrás.

— Como foi esse dia? — Cruzou os braços, tentando me abalar.

— Ben estava indo pra uma entrevista e passaríamos bastante tempo afastados. Foi quando eu percebi que ia sentiria muita falta dele, mais do que antes. Quando pensei nas palavras, meu coração acelerou e não escondi. Gostamos de provocar um ao outro e dessa vez não foi diferente, eu falei que o amava e saí correndo, ele estava muito atrasado e não podia me seguir. É uma das nossas histórias mais engraçadas. — Contei tudo, falando toda a verdade que habitava em mim.

O entrevistador pareceu apático, mas não deixei de rir. Era mesmo hilário.

— Ben passou muitos anos sem acreditar no amor. Eu sabia que iria ser difícil pra ele retribuir sentimentos e ficar vulnerável. Ele não teve nenhuma reação quando nos encontramos de novo, mas alguns dias depois, quando eu menos esperei, recebi sua declaração. Um ano e meio depois, nos casamos. Um bom resultado, não acha? — Perguntei dessa vez, orgulhosa.

Todo aquele treinamento de ontem valeu a pena. Mais alguns segundos depois, ele anota mais algumas coisas rápido e afirma.

— Parece até um livro de romance. — Resmungou. Eu segurei minha risada. 

— Tenho mais uma coisa pra mostrar, senhor. — Peguei minha bolsa e tirei a lista.

Deixei que observasse tudo que estava ali escrito antes de explicar.

— Eu e Benjamin fizemos essa lista na nossa lua de mel em São Francisco. É uma lista de coisas que nós dois queremos fazer durante o nosso casamento. Vamos colocar mais coisas depois, essa é apenas a metade. — Eu digo, passando o dedo pelas palavras.

Ele não falou nada, apenas me encarou e entregou a lista de volta. 

Quando a entrevista acabou, com mais algumas assinaturas, vi que Benjamin já estava ali de pé andando de um lado pro outro. Ele passava a mão nervosamente pelo cabelo escuro.

— Algum problema, Benji? — Ofereci um sorriso tranquilo e feliz.

Meu marido arregalou os olhos e veio correndo na minha direção, me abraçando.

— Graças ao meu bom Deus. Você demorou demais, está tudo bem? — Perguntou preocupado, colocando as mãos em meu rosto. 

— Tudo ótimo, estou bem. E você, como foi a entrevista? — Ajeitei o cabelo bagunçado dele.

— Foi até tranquila. Poucas perguntas constrangedoras. — Me fala e nós rimos.

— Que tipo de pergunta eles fizeram pra você? — Eu perguntei, pegando a garrafa de suco que ele trouxe pra mim. 

Por ser Benjamin que precisa do visto, fizeram mais perguntas pra ele e tinha duas pessoas o entrevistando. Eu li sobre isso nos sites e vi em alguns vídeos. Ele faz o drama mesmo.

— Em casa eu te conto tudo, não se preocupe. Agora vamos, eu ainda estou com sono, você me acordou no susto. — Ele diz, dando cosquinha na minha barriga. Tento me afastar.

— Nem inventa, Ben. Foi sua ideia chamar a Cassidy e o Lucas lá pra casa e ficar assistindo o filme até tarde da noite. — Eu neguei, correndo dele.

— E foi você que dormiu no meu ombro e babou minha camisa. — Rebateu, convencido.

— Não tenho nada a dizer sobre isso, seu chato. — Comecei a andar na frente, mas ele me alcança. 

— Lembre-se que você tem uma aliança no dedo, amora. Aceitou se casar comigo, não pode mais me achar chato. — O ouvi dizer. Apenas revirei meus olhos, mas eu sorria.

— É exatamente por isso que eu te acho chato. — Brinquei ainda.

Quando entrei no elevador, com Benjamin do meu lado ainda falando sobre o quão incrível ele era, avistei o meu entrevistador parado nos observando. Fiquei confusa novamente.

Não tive muito tempo, apenas acenei em agradecimento antes das portas se fecharem.

— E que jogada foi aquela do "eu te amo" antes da entrevista? Foi por causa das perguntas, certo? — Benjamin me questionou de repente. Peguei fôlego.

— Sim, claro. Foi por causa das perguntas. — Eu contei, remexendo os dedos nervosa.

— Ah... entendi. As perguntas. — O clima ficou tenso de repente.

As portas abriram e entramos no estacionamento. 

Mentiras contadas. Palavras não ditas. Ações sinceras.

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