Shadows

  APÓS AS AULAS, as meninas se dirigiram ao refeitório e aproveitaram o tempo para inteirar a aprendiz novata sobre o funcionamento do internato.

  Amane não teve problemas quanto a interação com as novas colegas. Elise era gentil, Dália muito simpática, Jez, apesar de tê-la achado um tanto abusada, era engraçada e protetora com as amigas. Allis se demonstrava inspiradora e uma mulher de garra, capaz de tudo para defender as amigas. Amara, por sua vez, tinha um ar rebelde e se fingia de durona, quando, na verdade, ela era a mais sensível entre as amigas. Amane era observadora e analisou que todas tinham suas peculiaridades e diferenças, mas que juntas, poderiam dominar o mundo, se assim desejassem.

— Você estava dizendo que conseguiu esse vestido em um dos seus sonhos?! - Elise indagou assim que se juntou ao grupo de amigas, colocando sua bandeja com as porções de descanso e reposição de energia à mesa.

— Exatamente. - Amane respondeu, sorrindo. — Eu sonhei que estava num baile. Haviam muitas pessoas dançando graciosamente pelo salão de festas. Eu fiquei encantada com aquilo, e quando fui me juntar a eles, passei por um majestoso espelho e me vi trajando esse maravilhoso vestido. Quando acordei, ele estava em meu corpo. - Ela continuou seu relato, com os olhos brilhando enquanto se lembrava daquela noite. Aquele, de fato, fora um dos seus sonhos mais belos e calmos, pois os outros após este, apenas lhe deixaram com os pensamentos bagunçados.

— Que linda história, Amane. - Dália sorriu verdadeiramente encantada. — Posso te fazer uma pergunta? - Inquiriu. Aquela pergunta lhe causava uma sensação de ansiedade. Era sempre uma expectativa precipitada.

— Claro. - Respondeu, acanhada. Se as demais meninas perceberam seu desconforto, não disseram nada.

— Este gato que você trouxe, você não tem medo de tê-lo tirado de outra pessoa? - Aquele questionamento surpreendeu todas as aprendizes, as quais viraram suas cabeças para encarar Amane, esperando ansiosamente sua resposta.  Ela olhou para o bichano de pelos cinzentos aconchegado no colo de Jez, enquanto a mesma acariciava seu pelo. — Bem, o Hélio aparecia consecutivamente nos meus sonhos e eu acabei me afeiçoando por ele. - Sorriu. — Ele não aparentava estar sendo bem tratado, sabe? Então, certa noite, eu o segui. Ele morava numa linda casa, mas não era feliz. Ele vivia esquecido e aproveitava essa invisibilidade para fugir pelas ruas procurando seu lugar, ou pelo menos, um lar com pessoas que realmente o amassem. Bem, ele me encontrou. - Sorriu novamente e se deu conta de que seus olhos estavam marejados. Fitou as meninas e percebeu que todas estavam emocionadas.

— Argh! Que lindo! Você o salvou. - Jez comentou abraçando o gatinho e depositando um beijo entre suas orelhas. — Mas sabe que essa conversa me fez lembrar de um pequeno detalhe... - Ela disse e imediatamente arregalou os olhos, assustando suas amigas.

— O que é? - Amane perguntou apreensiva.

— O nosso Baile da Lua é amanhã! - Exclamou, e um pequeno alvoroço se iniciou quando as aprendizes se deram conta de que haviam se esquecido completamente e não haviam comprado seus vestidos a tempo.

— Com tanta confusão acontecendo no instituto, as ameaças do povo da Vila... Nós acabamos nos esquecendo completamente! - Elise disse, em tom de lamento.

— Todavia, com tantos contratempos acontecendo, há probabilidade do baile ser cancelado. - Allis comentou deixando um suspiro escapar. Suas lembranças estavam cada vez mais intensas, o que estava deixando-a desestabilizada.

— O quê?! Não, elas não podem nem cogitar essa ideia! - Amara, que estava excluída num canto da mesa, se intrometeu com fúria nos olhos e a face vermelha.

— Amara, fale baixo. - Allis a repreendeu quando percebeu que as alunas de outra classe olhavam para elas, assustadas. — O que deu em você?

— É, o que deu em você, Amara? Nunca gostou de bailes. - Jez disse e riu em tom de deboche.

— Não é da conta de vocês. - Bufou, retirando-se da mesa a passos largos. As amigas se entreolharam sem entender a atitude estranha da amiga.

— Eu vou atrás dela. - Dália se levantou e, não dando tempo para ninguém tentar impedi-la, correu seguindo o mesmo percurso da amiga.


  Dália sabia exatamente o lugar para o qual Amara havia ido. Bateu na porta três vezes e quando não houve resposta, abriu-a e adentrou o cômodo escuro.

  Desviou seus olhos para a enorme janela que havia no quarto, e lá estava Amara, fitando a noite enluarada enquanto abraçava seus joelhos.

— Amara. - Dália disse aproximando-se cautelosamente. Sentou-se ao lado da amiga, quando a mesma não demonstrou reação. — O que está acontecendo com você? - Sem respostas. — Confie em mim. - Dália, sem a mínima intenção, usou seu poder na aprendiz. Ela suspirou irritada consigo mesma, mas pelo menos a amiga começou a falar.

— As Anciãs não podem cancelar o baile de jeito nenhum! - Exclamou com desespero nos olhos e no tom de voz. — Não podem, entende? Eu quero voltar pra casa. Pra minha casa. - Dália se limitou a apenas negar, pois realmente não entendia o que ela queria dizer.

— Você já está em casa. Aqui é o nosso lar, Amara.

— Não! Esse não é o meu lugar. Não é!  As sombras me disseram tudo... Esse baile precisa acontecer, independentemente de qualquer coisa. Ele tem que acontecer! - Gritou e imediatamente caiu num choro profundo. Dália não sabia como agir diante aquele comportamento. Ela estava assustada, mas não queria deixar a amiga desamparada naquele momento. Por fim, abraçou-a de lado e a deixou chorar até estar um pouco melhor.

Após um longo tempo em silêncio, Amara piscou os olhos e se levantou de supetão. Dália que estava quase dormindo assustou-se e se levantou também.

— Está melhor? - Perguntou, mas recuou quando viu a face da amiga ficar vermelho de raiva.

— Nunca mais faça isso, está me ouvindo?! - Ralhou apontando o dedo no rosto da amiga, que, em contrapartida, se acuou cabisbaixa. — Você é muito baixa em usar seu dom de persuasão contra alguém que você diz considerar amiga.

— Eu não tive intenção. - Sussurrou, chorosa.

— Ah, não. - Amara soltou uma risada debochada. — A inocente Dália nunca faz por mal. Incrível, não é?! Eu nunca te contaria nada por livre espontânea vontade. Você não é minha amiga! Nenhuma de vocês são. Saia daqui! - Empurrou-a em direção da porta. Em prantos, Dália abriu a porta e correu para seu quarto, sem olhar para trás.

Amara, sentindo seu coração em pedaços, bateu a porta e deixou-se cair na cama, desolada.


Gif da linda e raivosa Amara 💜

(1065,p)

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