27.
Talvez seja falso, Kurt pensou. Grande parte dele mantinha uma forte esperança em Nash. Era impressionante como, no desespero, sua mente confabulava as mais elaboradas histórias. Ele tentou encontrar todas as justificativas possíveis. Poderia ser uma cilada que Nash acabou se metendo e por isso precisou de uma identidade falsa. Talvez aquele policial, supostamente amigo, o estivesse forçando a alguma coisa. Deveria ser um engano.
Porém, quanto mais olhava para a identificação em suas mãos, mais se sentia perdido. Em algum momento, ele simplesmente deixou que sua mente se esvaziasse. Não queria mais pensar em nada. Largou aquelas pistas confusas sobre a cômoda ao lado da cama e se sentou na beira do colchão, ombros caídos, costas curvadas.
Com o amanhecer, estava ficando mais claro. Ele deveria abrir as cortinas para tornar as coisas mais nítidas, mas era como se não quisesse ver mais nada. Kurt quis ficar no escuro.
Desligado do próprio corpo, ele escutou o trânsito lá fora, distante, despertando. Um carro passou buzinando, a porta de um ônibus soltou o ar comprimido ao abrir, uma moto apressada provocou um "splash!" no que deveria ser uma poça de água grande.
Não demorou para que Nash acordasse. Kurt estava tão concentrado em seu objetivo de não ver, não escutar, não sentir, que só realmente percebeu quando Nash rolou sobre a cama e o tocou. O toque subiu por suas costas e terminou em um beijo depositado no espaço entre suas escápulas, insuportavelmente macio. Kurt estremeceu e fechou os olhos com força.
As mãos que circularam seu corpo alisaram por cima de sua barriga, justamente onde ele sentia um desconforto frio. Lábios úmidos beijaram de novo atrás de sua orelha, bem onde se encontrava seu ponto fraco. Seu coração bateu mais rápido.
— Ainda temos tempo? — A voz arranhada de Nash flutuou por todos os lados, parecendo sair das quatro paredes do quarto, e não da boca perto de seu ouvido.
Kurt ficou tenso. Aquelas mãos grandes, macias e quentes então fizeram o trabalho por ele. Devagar, Nash o virou, puxando um de seus ombros, torcendo seu tronco. O corpo seguiu, mas o rosto de Kurt foi a última parte a se virar. Havia medo do que ele enxergaria agora que olhasse para Nash. Ele definitivamente não queria ver.
Nash então o agarrou pela ponta do queixo e o trouxe para ele. Abrir os olhos foi doloroso, e Kurt esperou encontrar uma imagem perturbadora. Mas tudo o que ele viu foi o homem com a beleza que ele não sabia se acostumar, aquele que tinha cuidado dele quando precisou, aquele que o olhava com apreciação e desejo, aquele com quem ele tinha se deitado e jurou amar.
Quando se deu conta, Kurt também estava agarrado à pele dele, segurando em torno de sua cintura, ancorado na solidez do osso do quadril, porque ele não queria deixar aquilo ir. Kurt não podia aceitar que perderia tudo aquilo, toda a felicidade escapando quando finalmente chegou até ela.
Inclinando os rostos, os dois se encontraram no meio do caminho que ambos escolheram, e um beijo nasceu entre seus lábios pela vontade dos dois lados. Kurt continuava tenso, mas seu corpo fluiu quando Nash deitou devagar de costas e o levou junto. Deitado por cima dele, Kurt beijou como se fossem seus últimos momentos; o que bem poderia ser.
Os dedos de Nash fizeram carinho entre seus cabelos, e Kurt sentiu uma sonolência morna. As mãos fortes então desceram por uma trilha da nuca até atrás dos ombros, onde ficaram traçando desenhos invisíveis com as digitais. Sob o arrepio, Kurt percebeu que Nash estava escrevendo alguma coisa em suas costas, mas sua mente girava e ele não conseguiu entender a mensagem.
Kurt lamentou quando teve que soltar o quadril de Nash para se apoiar no colchão, mas ele tinha que fazer. Não teria concentração se ainda estivesse o tocando. No momento que escolheu quebrar o beijo, sua respiração tremeu, denunciando o quanto estava lutando contra algo. Nash abriu os olhos para tentar entender, e o verde em suas íris era apenas dois círculos finos ao redor de pupilas enormes.
— Chama pelo meu nome... E eu chamo pelo seu. — Kurt sussurrou a milímetros, provocando seus lábios a se esfregarem.
Inebriado, Nash soltou o ar com a boca aberta e apertou os ombros que segurava.
— Kurt... — ele repetiu o nome com musicalidade e beijou a ponta do queixo de Kurt.
O rosto de Kurt desceu mais um pouco, até que sua boca estivesse lado a lado com a orelha de Nash. Kurt encaixou o nariz na curva do pescoço e respirou fundo, sentindo aquele cheiro uma última vez. Nash respondeu remexendo o quadril contra ele, estimulado, mas Kurt decidiu se controlar. Devagar, como uma fatal contagem regressiva, ele lambeu a secura súbita dos próprios lábios e os articulou.
A palavra simplesmente escorregou para fora. Apenas uma:
— Nathan.
A reação foi instantânea. Nash segurou tenso em seus ombros e tremeu por inteiro, como se Kurt tivesse gritado ao invés de sussurrar. Em seu rosto estava a expressão que denunciava tudo: o vinco entre as sobrancelhas, a boca tensa, as pupilas de novo pequenas. Ele estava dizendo que Kurt estava certo sem nem ao menos uma palavra.
Tudo desmoronou.
Com apoio das mãos e dos joelhos no colchão, Kurt se levantou em um só movimento. Nash continuou no mesmo lugar, apoiado nos cotovelos, olhando espantado como se tivesse visto um fantasma.
— O que... — Nash tentou.
Mas Kurt apanhou a identificação da polícia em cima da cômoda e a jogou em cima do peito de Nash. O documento rolou, escorregando, mas Nash o segurou no lugar. Quando deu uma olhada, pareceu ainda mais assustado.
Sem pensar, Kurt limpou a boca com as costas da mão, se desfazendo da sensação do beijo. Calado, ele se desfez da jaqueta que não era sua, mas ainda a vestia. Então deu as costas e saiu do quarto. Deixou que Nash ficasse sozinho, um tempo necessário para eles dois.
Ficou por longos minutos parado na varanda do corredor do hotel, olhando a rua lá embaixo sem foco algum. Depois foi até a máquina de bebidas e pegou qualquer lata que ajudasse a desfazer aquela secura arranhando suas cordas vocais. Deu grandes goles enraivecidos, mas aquele nó na garganta não se desatava tão fácil.
Só quando vizinhos de outros quartos começaram a sair, trombando com ele, foi que então Kurt saiu do caminho, escondendo o próprio rosto. Ele voltou para o quarto com a marcha reduzida, adiando o momento. Mas, alguma hora, teria que chegar até lá.
Quando passou pela porta, a luz entrava pelas cortinas abertas. Sentado na cama, Nash tinha se vestido. A identificação havia sumido de novo para dentro de sua carteira, confirmando que ela lhe pertencia. Ao levantar o rosto, havia uma máscara tensa nele.
Kurt fechou a porta e ficou encostada nela, mantendo uma distância calculada.
— Isso... — Nash hesitou. Foi a primeira vez que Kurt viu uma rachadura na confiança dele. — Não tem nada a ver com você.
Kurt deu um riso amargo.
— Não? Como não?! — Algo dentro de Kurt se agitou, querendo explodir. — Isso me afeta diretamente. Você mentiu pra mim!
Os ombros de Nash se alinharam e ele inflou o peito.
— Omitir não é mentir. E você nunca perguntou.
Kurt soltou o ar como se escutasse uma piada de mau gosto.
— Isso não é justo — ele rebateu e lançou um olhar ferido, de quem acabava de ser cortado e ainda podia sentir a dor. — O que você está fazendo? Isso é sobre as corridas?!
Não poderia ser uma mera coincidência. Um oficial da polícia, no coração de uma das maiores organizações de racha do Estado. De duas uma: ou Nash estava em uma serviço secreto, ou não passava de um profissional corrupto. Kurt não saberia dizer qual opção era a pior.
— Sim — A resposta curta demonstrava o quanto faltava coragem a Nash. — Também.
Ouvir a confirmação conseguia ser pior. Kurt bateu a cabeça na porta, fechando os olhos.
— Você está... nos investigando? — sua voz mal tinha força.
— Eles. Não você — Nash retrucou.
Kurt negou com a cabeça e o encarou.
— Pare de tratar como se fosse duas coisas diferentes. — Parte dele ficou na defensiva pela maneira como Nash parecia destacá-lo do grupo, como se não fizesse parte.
Do outro lado do quarto, Nash inspirou pelo nariz e soltou pela boca.
— Olha... Eu estava apenas fazendo o meu trabalho. Eu estava nessa investigação por mais de um mês. Meses inteiros. Estava focado. Mas então... você apareceu. — A voz de Nash suavizou. — Você não estava nos planos. Você era a única coisa que eu não podia prever ou controlar...
Ele se levantou da cama e avançou dois passos, mas Kurt esticou o braço com a mão aberta, um gesto exigindo que parasse onde estava. Nash paralisou, seu olhar estilhaçado.
— Não me toque agora. — Kurt recolheu a mão devagar.
— Kurt...
— Eu conheço você? — Ele respirou pesado.
— Kurt, não faz isso... — Os ombros de Nash caíram.
— Sério. Eu te conheço? — Kurt repetiu com raiva. — Porque eu sinto que estou encarando uma farsa. Que tudo não passa de uma farsa!
— Não! Não... — Nash começou a colocar energia nas palavras também. — Entre você e eu, não tem nada de falso. Eu estive sendo totalmente sincero dentro do que eu podia. Kurt... Eu nunca menti pra você, sobre nada.
— Não?!
— Confia em mim. Quando estávamos na estrada de Nevada, meses atrás, foi a primeira vez que contei algo sobre mim. Eu poderia ter inventado qualquer coisa, você nunca saberia. Mas eu escolhi dizer uma verdade, a única que eu tinha para oferecer. Contei sobre o meu passado no vício, quando passei pela reabilitação antes de vir parar aqui. E eu nunca digo isso a ninguém. Mas eu queria te dar algo de verdade. E era a única coisa livre que eu tinha.
Depois de uma pausa para respirar, ele continuou.
— A cada vez que eu pedi para que você não se envolvesse com tudo, eu estava sendo sincero, porque eu sabia desde o início o quanto era perigoso, e que você não deveria pagar por nada disso. Todas as vezes que você me perguntou, eu respondi. Mesmo que fosse para dizer que eu não podia contar tudo. E quando eu disse sobre querer você, sobre amar você... eu não estava mentindo. Em nenhuma das vezes.
Kurt fechou a boca, rangendo os dentes. Nash soava sincero, como sempre foi, e talvez essa fosse a pior parte. Kurt empurrou a porta e deu a volta pelo quarto aumentando a distância.
— Então tá. Vamos fazer um jogo. Eu pergunto, você me diz a verdade. E apenas a verdade. — Ele tentou ser firme. — Qual o seu nome?
Demorou alguns segundos para que a resposta viesse. Por mais que Kurt já soubesse, pareceu mais doloroso para Nash ter que dizer em voz alta.
— Nathan Hay Jones. — Sua voz soou pesada, e ele viu os ângulos da boca de Kurt puxarem para baixo, o queixo tremendo. — Kurt, ainda sou eu. Ainda sou eu...
— Para quem você trabalha? — Kurt interrompeu o apelo.
O suspiro de Nash saiu trêmulo.
— Departamento de Polícia de Los Angeles. Divisão de Suporte à Operações Especiais.
Perto da janela, o corpo de Kurt se encolheu em um reflexo inconsciente. Ele sempre foi aterrorizado por policiais, e agora não sabia como se sentir. Paixão se misturava com medo, admiração com aversão. Enquanto ele tentava injetar aquele amor em suas veias, o sistema natural de seu organismo rejeitava qualquer partícula daquilo.
— Você se juntou ao bando apenas para investigá-los?
O olhar de Nash desviou, o que pareceu uma imagem surreal. Nash nunca olhava para baixo.
—... Sim. — ele respondeu sem satisfação alguma.
— Você está tentando incriminá-los?
— Não mais.
Kurt esperou que Nash erguesse o rosto de novo, porque ele precisava ler aqueles olhos.
— Se explique — Kurt exigiu.
— Apostadores de racha sempre foram caçados, não é segredo. Mas a operação tomou proporções maiores quando a Divisão de Gangue e Narcóticos percebeu crimes mais graves ligados a isso, como formação de quadrilha, tráfico e contrabando. E desde que roubos maiores ganharam ligação com alguns grupos conhecidos por corridas ilegais, foi montado um esquema de busca por provas para prisão dos culpados. É onde eu entro. Me deram a ordem de me infiltrar e conseguir evidências contra Mackenzie, porque, para o Departamento, ele é o principal culpado pelos saqueamentos na estrada e roubos na cidade. — Nash fez uma pausa para recuperar o fôlego. — Mas eu e você sabemos que não é. Eu só preciso convencer o Departamento disso.
Mesmo se segurando na firmeza da parede, Kurt se sentiu vacilar.
— Você... está tentando defender o Mac?
— Quase isso. Eu só não quero incriminar as pessoas erradas. É verdade que Mackenzie tem crimes em suas costas? Sim. Mas não é do que estou atrás. Eu investigo os roubos, o contrabando, e não é o Mac que está por trás disso. Estou certo de que é P.J., mas não tenho provas o suficiente. — Nash esfregou a mão atrás da cabeça, perturbado. — O Departamento sequer quer acreditar que P.J. existe, porque não posso oferecer um rosto ligado ao nome.
Naquele momento, Kurt se deu conta que Nash não sabia como ele teve acesso aos locais onde P.J. esteve, recebendo mensagens e recados pessoais, e até mesmo vendo P.J. à distância, mesmo que de longe e sem muitos detalhes. Kurt imaginou se Nash o tornaria um alvo se soubesse de tudo aquilo.
— Então para chegar até onde queria, você criou um nome falso, uma identidade falsa... — Kurt engoliu quadrado. — ...uma personalidade falsa.
— O que você conhece de mim não é falso.
Kurt sentiu uma pontada. Era cruel como Nash o fazia se sentir especial. O lado pessimista de sua mente então o forçou para outra memória. Ele se lembrou de como os outros do bando já comentaram que Nash esteve em uma relação exclusiva com Mac. Pelo tempo que estiveram juntos, Mackenzie deveria ter farejado a verdade também, muito antes dele.
— Como o Mac aceita isso?
Nash raspou os dentes pelo lábio inferior e encarou sem piscar.
— Ele não sabe — Nash respondeu numa tacada só.
Segurando o ar, Kurt tapou a boca. Ele girou em torno de si mesmo, agitado. Ouviu um alarme disparar, viu luzes vermelhas pelo canto dos olhos, mas custou a notar que tudo estava apenas dentro de sua mente. Kurt xingou um palavrão.
— Alguém sabe?
Nash balançou a cabeça.
— Não. Só você agora.
Kurt espremeu os olhos, andando de um lado para o outro.
— Droga, droga, droga...
Ele deu as costas para Nash porque tinha se tornado insuportável encará-lo com todo aquele peso entre eles. Tentando acalmar a respiração, ele encostou a testa no vidro frio da janela.
Atrás dele, Nash tentou se explicar melhor.
— Eu entrei para o grupo com o trato de que daria a Mac as informações mais atuais sobre P.J., tudo que eu conseguia reunir nas minhas investigações. Mas ele pensa que tudo não passa de uma antiga desavença entre eu e P.J., que eu só o procurei por vingança ou algo do tipo. — Ele suspirou entre a pausa. — De qualquer forma, eu não acredito que Mac seja o responsável pelo contrabando. Esse foi o motivo pelo qual eu fiquei.
— E então, você acabou dormindo com ele?
Nash soltou o ar.
— Efeito colateral — Nash murmurou.
Kurt esfregou as pálpebras fechadas. Conhecer a verdade era bom para saber guiar seus passos, mas também se tornava uma arma virada contra ele. O colocava de novo na posição de um traidor.
— A partir do momento em que me contou... Isso me torna um cúmplice, não?
Pelo reflexo da janela, Kurt viu Nash dar alguns passos contidos em sua direção, as mãos dentro do bolso.
— Da minha parte, eu vou garantir que você não tenha nenhum problema com a justiça pública. Mas já com a justiça do bando, eu não tenho muito poder sobre isso. — Nash parou a três passos de distância, mas Kurt podia sentir sua energia calorosa como se estivesse o tocando. — É verdade que você pode contar para todo mundo agora. Não há nada que eu possa fazer. Eu não quero te silenciar. Você é livre. Mas... eu só peço que pense um pouco.
A sensação era a de ter cordas amarradas em cada lado do corpo, puxando para direções diferentes, num cabo de guerra. Kurt pensou que enlouqueceria. Porque ao mesmo tempo que amava o bando e queria protegê-los, ele também amava Nash e, no fundo, desejava protegê-lo. E ele não podia defender um sem afetar o outro. Ele precisava escolher um lado, mas era incapaz.
— Eu não quero que ninguém se machuque — Kurt desabafou, se virando.
— Nem eu! Nem eu... — Nash argumentou, desesperado. Os dois olhares se encararam, analisando um ao outro. — Se ainda quer saber, eu mudei o foco da investigação por conta própria. Se o Departamento desconfiar, se interpretarem como obstrução de justiça, eu posso perder tudo, ser mandado embora e talvez até processado. Mas eu fiz porque não poderia viver comigo mesmo se eu incriminasse o Mackenzie no lugar de P.J. Eu tive muitas oportunidades de acabar com tudo, de destruir o bando, de expor a Toca, levar o resto da polícia até lá. Mas, ainda assim, eu não fiz. Eu escolhi não fazer.
Kurt piscou repetidamente, os olhos ardendo. Fungou uma vez e encarou um ponto distante, perto da porta.
— Eu não sou o monstro, ok? — Nash insistiu. — Eu não sou o cara mau da história.
— Eu nunca disse isso.
— E nem precisa... Seus olhos estão me dizendo. Me mata saber que você me olha dessa forma. Essa é a pior parte.
Kurt esfregou o rosto.
— Eu preciso de tempo. Para pensar.
Nash concordou:
— Tudo o que você quiser — ele disse, quando na verdade queria pedir um: "me deixe te tocar de novo". Mas as portas estavam fechadas, um muro de concreto levantado entre eles. Nash encarou a ponta dos próprios sapatos. — Está tudo nas suas mãos agora, do que você decidir fazer com as informações que tem. Só tenha cuidado. Se eu perco meu cargo, mandarão outro no meu lugar, e esse novo agente pode não ter tanta consideração.
Na quietude do quarto, eles puderam escutar o som suave de quando Kurt engoliu.
— Vou... pensar.
— Se precisar de algo, me ligue. Estarei na linha, esperando por você.
Kurt se limitou a virar para a janela e fechar os olhos.
Em algum momento, Nash deixou o quarto.
A porta abriu e bateu, um baque suave, um eco distante. E depois, silêncio.
Mais tarde, Kurt voltou para a Toca, principalmente porque precisava devolver o Skyline. Sem surpresa, Nash não estava lá. Sua ausência representava uma dicotomia sentimental, um vazio melancólico.
Alheios à sua guerra interna, o bando o recebeu de volta cheios de abraços e conversa alta, talvez bêbados ou só animados demais, o relembrando que era noite de jogo com outros grupos. Nada de apostas, apenas a boa e velha socialização.
Kurt teve tempo apenas de se arrumar minimamente antes de pular para dentro do Challenger laranja de Darko, na companhia de Jerome e Cole, uma vez que Mac e Iggy já tinham saído na frente.
Com uma crise de enxaqueca, Kurt tentou fazer com que o som alto do carro não o afetasse ainda mais. No banco de trás, ele se sentou ao lado de Cole, escorado na porta, segurando na alça de teto.
— Ei, docinho — Jerome chamou do banco do carona, enquanto Darko acelerava o carro. Cole passou um cigarro aceso para ele. Jerry tragou, dando uma olhada em Kurt pelo retrovisor lateral. — Por que essa cara de quem está vivendo um drama?
O cigarro descansou entre seus dedos na janela aberta, e Kurt contemplou os pedacinhos de brasa acesa voando com o vento. Ele detestava o fato de ser tão transparente às vezes, mas foi um incômodo que resolveu ignorar naquela hora. Seu objetivo agora estava focado em sondar até onde o bando realmente sabia sobre a verdade; era preciso medir as coisas para tomar as decisões certas.
Sentindo o banco vibrar com os graves do som potente, Kurt amplificou a voz para ser ouvido sobre a música:
— Mais cedo, eu estava com o Nash.
O Challenger continuou em movimento, mas foi como se dentro do carro se levantasse um instante de suspense. Ninguém se moveu.
— ...Mesmo? — Jerome tragou de novo e soprou a fumaça, nublando o carro. — E descobriu o que ele tem de secreto para ter hipnotizado o Mac?
Foi uma piada, mas Kurt levou a sério.
— Na verdade, sim — ele rebateu e esperou.
Se algum deles soubesse a verdade, aquela era a hora de descobrir. Eles deduziriam de imediato que Kurt sabia que Nash era um leva-e-traz, que dava a Mackenzie informações sobre P.J. para se manter no grupo, mas no fundo escondia ainda mais coisa. Já seria um bom início para mapear o território onde estava pisando.
Mas, quando Jerome se virou com tudo sobre o banco, sua reação foi outra. Seu queixo estava caído e havia um meio sorriso preso no canto de sua boca aberta.
— Ai-meu-Deus... — Jerry exclamou pausadamente. — Vocês treparam?!
Kurt engasgou, e Cole riu; ou melhor, gargalhou.
— Não foi o que eu quis dizer... — Kurt respondeu, sem graça.
— Sei, sei. Me engana que eu gosto. O que mais iria querer dizer? — Jerome se agitou, brigando contra o protesto de Darko para que se sentasse e colocasse o cinto de segurança. — Vai, conta, conta! Como foi?
Eles não sabiam. Kurt pensou. Realmente, não sabiam.
Com um suspiro chateado, ele desviou o olhar para a janela, distraindo-se com luzes e lanternas traseiras que passavam rápido.
— Deixa isso pra lá — Kurt pediu de uma forma tristonha que sensibilizou a todos.
Ninguém entendeu bem o que aconteceu, mas, ainda assim, respeitaram em atender ao pedido. Jerome se virou de novo para frente, e eles deixaram que o rock californiano na rádio fosse a única coisa a tomar o espaço de suas vozes.
Às margens de um bairro do subúrbio, havia uma quadra de esportes ao ar livre. Durante o dia, era onde crianças descalças brincavam de chutar garrafas e adolescentes fugitivos da escola se deitavam para fumar e tomar sol. À noite, o estacionamento ao redor era dominado por carros de luxo. Mas não era um momento feito para corridas. No meio da quadra, homens se dividiam em dois times para disputar uma partida de basquete. Apostas pequenas e independentes rolavam na plateia dispersa, mas nada feito com ambição. Era uma noite de pura camaradagem, em nome da interação. Kurt ainda se surpreendia em pensar que o bando tinha momentos como aquele com outros grupos.
Eles encontraram Iggy na arquibancada cinza de cimento, as pernas cruzadas e exibidas num short, enquanto os cotovelos se apoiavam no degrau de trás. O loiro levantou os óculos escuros para cima da cabeça e lhes deu uma olhada de cima a baixo.
— Olhe só, se não são os meus fracassados — Iggy comentou com uma nota provocativa.
Os outros reagiram como se fosse um elogio e se juntaram a ele. Kurt desviou de pessoas de pé no meio do caminho e se manteve ao lado da arquibancada, observando a partida com eles. Antes que perguntasse por Mac, ele viu o líder no meio da quadra, dominando a bola laranja de listras pretas. Ele podia não ter a vantagem em altura, mas parecia ter outras habilidades melhor desenvolvidas quando, facilmente, se desviava dos adversários rindo, sem deixar a bola escapar.
Sob os holofotes altos de luz, Mac brilhava de suor. Sua regata branca e larga dava uma boa visão de seu corpo tatuado. Vez ou outra, alguém lhe dava um puxão pelo tecido, mostrando um pouco mais do que havia por baixo. Pela repetição daquilo, sua roupa já estava frouxa de tantos puxões. Kurt passou a desconfiar que não era por acidente ou simplesmente parte das jogadas. Mas Mackenzie estava rindo, então ele não entendeu como um problema.
— Vocês não jogam? — Kurt se focou de novo na arquibancada.
Sentado com as costas apoiadas em Cole e as pernas passando pelo colo de Darko, Jerome murmurou um "hum-hum" enquanto negava com a cabeça.
— Ajudamos mais nos mantendo de fora — Jerry riu. — Somos horríveis.
— Diga por vocês — Cole protestou, tomando um gole de energético em lata que passava de mão em mão. — Eu só estou desinteressado.
— Claro. Vamos fingir que sim — Iggy provocou da outra ponta e se juntou a Jerome nas risadas.
Kurt voltou a prestar atenção no jogo acontecendo no meio da quadra.
— Eu preciso falar com Mac — ele disse.
Na sua vez de tragar o cigarro já no fim, Darko assobiou.
— É melhor se sentar e esperar pelo fim da noite. Mac não vai sair de lá até acabar e vencer.
Jerome se inclinou para sugar a fumaça da boca de Darko.
— Ou você teria que entrar na quadra para ter atenção dele — Jerry sugeriu.
O humor na voz deixava claro a intenção de soar como brincadeira, mas naquela noite, Kurt estava levando tudo a sério demais.
O jogo não tinha um juiz, eram eles por eles. Assim, quando o primeiro jogador saiu para se refrescar com um pouco de água do bebedouro, Kurt correu para tomar seu lugar. Ele não escutou se os outros disseram algo na arquibancada que ficou para trás.
Logo que passou pela grade malhada de alumínio, seus tênis rangeram contra o piso. Ele sentiu a nuvem de transpiração e calor que dominava a quadra, ao mesmo tempo que os olhares se viraram para ele. Mackenzie girou segurando a bola, no meio de uma jogada, e o analisou. Um desafio reluziu em seu sorriso afiado. Separados por uma linha no chão, apenas naquela hora Kurt percebeu que eles estavam em times opostos.
Mac saltou, arriscando um arremesso certeiro para a cesta, um tanto quanto pretensioso pela grande distância entre ele e o alvo. O sangue de Kurt correu quente; então, ele pulou também, o braço erguido. A bola teria acertado a cesta com uma mira boa, mas Kurt a bloqueou com um empurrão, mandando para fora. Seu time vibrou, comemorando. Já Mac, ficou no mesmo lugar, rolando a língua dentro da boca, os lábios retorcidos.
Alguém recuperou a bola e jogou para Kurt, reiniciando a partida. A esfera pesada e laranja quicou uma, duas, três vezes, até que então ele arrancou com passos apressados. Era claro que Mackenzie atravessaria seu caminho. Ele surgiu de braços abertos, impedindo a passagem. Para onde Kurt tentasse desviar, ele dava um passo em antecipação, prevendo seus movimentos.
— Finalmente, um dos meus que sabe jogar. — Mac ergueu as sobrancelhas, gotinhas brilhando em sua testa, descendo por baixo do boné de aba virada para trás.
Kurt vacilou, desejando tão profundo que eles estivessem do mesmo lado e no mesmo time.
— Sabe... eu pensei que você não se vendesse — Kurt disse, por cima da comoção.
— Fale a minha língua. Sem enigmas, Young — Mac ofegou pela boca entreaberta.
Com uma manobra esperta, ele roubou a bola, fazendo-a quicar entre as pernas de Kurt e a capturando do outro lado. No domínio da jogada, ele deu três passadas largas, correndo. A bola foi e voltou entre ele e mais dois jogadores, trocando passe. Mas a jogada final era de Mac. Ele foi rápido, e não havia ninguém à frente. A bola subiu. Cesta. A plateia vibrou, principalmente o bando na arquibancada.
Kurt o assistiu voltar ao meio da quadra, enxugando a testa com o braço. A bola voou de volta e Mackenzie a pegou no alto. No momento que se encararam, Kurt falou:
— Nash. Fiquei sabendo que ele está comprando você e comprando o lugar dele no grupo. Com informações. Sobre você sabe quem.
Um risinho mordido, e Mac bateu a bola no chão, com força.
— De novo esse seu nariz intrometido, hum? — Mac murmurou e começou uma nova corrida para a metade oposta da quadra. Kurt o seguiu, tentando tomar a bola. — Mas se alguém tem um preço aqui, é ele. Isso é como ele paga para que eu o deixe ficar. Se ele não corre, precisa pagar de outra forma. Todo mundo paga para ficar, nada é de graça.
Kurt aproveitou o momento em que ele ficou ofegante e bloqueou o passe que Mac tentou para outro jogador. A posse era sua agora.
— Qual o meu preço? — Kurt rodou a bola na ponta do dedo e fez um malabarismo engenhoso quando Mac tentou roubá-la sem sucesso.
— Você é o mecânico, não? Você conserta a minha bagunça.
Kurt deu um passo para o lado, mas Mackenzie o seguiu, o rosto na altura do seu, mantendo o olhar. Kurt mandou a bola para outro jogador, deixando que a partida virasse para o outro lado da quadra. Pela camisa, ele segurou Mac naquele mesmo canto.
— Um preço bem baixo para ter me aceitado de volta, mesmo depois de saber de tudo sobre... eu e P.J. — Kurt disse baixo, assistindo ao rosto de Mac tensionar com o último nome. — Ser o mecânico foi o que bastou para me aceitar de volta?
Ele não planejava trazer o assunto para provocar, mas para entender os verdadeiros limites de Mackenzie. Porque uma suposta traição daquelas deveria tê-lo riscado definitivamente da lista, mas não riscou. Ele queria entender se poderia fazer o mesmo por Nash, caso resolvesse contar para Mac a verdade.
Mackenzie deu de ombros, fazendo pouco caso. Mas Kurt já conhecia o bastante de seus padrões de comportamento para poder dizer que ele estava atuando.
— Meu ponto fraco são as pessoas por quem me apego. E P.J. sabe disso — ele murmurou o nome a contragosto. — Tempos atrás, quando P.J. tentou armar para cima de mim com o Monaco, não funcionou, porque ele não importava. Mas você, Young... você teve a habilidade de se tornar uma das minhas fraquezas.
Eles ouviram a movimentação da quadra se virar de volta na direção deles, avançando. Muito rápido os times estavam de novo em cima deles, na área da cesta. Mac girou para interceptar a bola, mas Kurt conseguiu capturá-la. Ele quicou a bola, tentando sair. Mas, quando ainda se viu preso, ele arriscou um arremesso de longe. A bola viajou no ar, em arco, e todos acompanharam. Mas Kurt estava olhando mesmo para o rosto de Mackenzie.
— Sua fraqueza? — Ele ecoou, sem acreditar que pudesse ter o mesmo efeito sobre Mac que os outros trabalharam por anos para ter. — Eu... importo dessa forma?
Enquanto todos olhavam para o outro lado, Mac cutucou a tatuagem de beijo no peito de Kurt, depois a sua tatuagem gêmea, no próprio corpo.
— Eu te dei minha marca. Eu literalmente matei por encostarem em você. E mataria de novo — Mackenzie sorriu. — Você é uma pequena coisa destrutiva e eu gosto disso. Combina comigo.
A rede da cesta sacudiu, a bola passando pelo aro. Ponto.
Mac tirou o boné da cabeça e esfregou o cabelo escuro para trás, molhado.
Outros jogadores se posicionaram no meio da quadra, para recomeçar. Mas os dois ficaram ali, na área de tiro livre, parados. Era difícil respirar, e eles estavam ofegantes.
— O que eu poderia destruir, além de mim mesmo? — Kurt questionou.
Por um instante, ele teve medo que Mackenzie pudesse ler a verdade em sua mente. Porque ele encarava tão certo de que sabia de tudo. Mas ao invés de gritar com ele, Mac cutucou a têmpora de Kurt com a ponta do indicador.
— Você é quem me diz, Young. Você é quem me diz.
Kurt estava certo de que, quando a hora chegasse, ele saberia exatamente o que dizer. A raiva de antes o tinha feito imaginar um desabafo direto ao ponto. Contaria a Mac o que Nash esteve escondendo por todo aquele tempo. Não agiria pelas costas, nem deixaria que o líder fosse o último a saber de novo.
Mas agora, com os nervos frios, o mesmo raciocínio não pareceu ser o melhor. Ele imaginou o cenário: Mackenzie faria sabe-se lá o quê com Nash, o que não terminaria em algo bom. Isso por si só já era o bastante para Kurt dar um passo atrás. Mas ele também pensou na reação da polícia; eles perderiam seu agente, provavelmente atacariam com tudo antes que toda a operação fosse perdida. No final das contas, Kurt destruiria Nash, destruiria o bando, destruiria todos eles; como uma bomba relógio.
Por um ligeiro instante, Kurt conseguiu entender o que Nash deveria sentir todos os dias. A verdade às vezes era mais benéfica quando guardada.
— Ei! — uma voz chamou da grade.
Os dois se viraram para ver o jogador que saiu para um gole de água, pedindo a Kurt para trocarem de novo de lugar.
Ao som da bola quicando e dos passos correndo atrás deles, Kurt se virou para Mackenzie.
— Estou fora — ele disse e, então, puxou o boné da mão de Mac, para colocar na própria cabeça.
— Espere por mim. Vamos terminar isso mais tarde. — Mac sorriu sugestivo.
Dando curtos passos para trás, Kurt já estava se afastando.
— Mac, eu... meio que tenho uma pessoa agora — Kurt murmurou, fazendo Mackenzie subir e descer os ombros.
— Eu tenho quatro — Mac rebateu, bem humorado. — E todos eles gostam de você também.
Depois de um instante tenso, Kurt riu, balançando a cabeça. Estava a caminho de fazer um comentário, mas mudou de ideia.
— Boa sorte no jogo. — Foi tudo o que ele disse, antes de dar meia volta e correr para a grade, passando pela porta e pelo jogador que esperava.
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Estamos a exatamente 1 mês de terminar as postagens do livro. Serão mais 8 capítulos, portanto, mais 4 semanas. Aqui, no Wattpad, a gente perde um pouco a noção de tamanho, porque não tem nenhuma métrica a não ser a quantidade de capítulos. Mas vocês têm ideia que, até o momento, vocês já leram 185 mil palavras, equivalente a 505 páginas de livro? 🗣 Foi realmente uma JORNADA, e eu agradeço muito de coração por acompanharem esse longo caminho de reescrita comigo. Podem ter certeza que vocês me motivam muito a continuar. ♡
No capítulo anterior, comentei com algumas pessoas que escrevi uma cena extra do Kurt com o Iggy, na parte em que o Kurt estava passando um tempo a toa com o bando. Eu escrevo várias ceninhas pequenas que não entram no livro, só para enxergar melhor o que os personagens estariam fazendo "fora da câmera" principal da história, para construir melhor as cenas que de fato vocês leem. Mas já que teve leitoras que manifestaram interesse em ler essas cenas menores, eu decidi postar aqui no finalzinho, para quem quiser ler. Fiquem aí com ela, e nos vemos semana que vem, na sexta-feira (dia 25/10), com mais um capítulo! Beijos e até lá. ♡
EXTRA #1: KURT E IGGY
CONTEXTO DO CAPÍTULO 26: "O bando sempre sabia como distraí-lo, então ele usou isso para gastar o tempo. Conversou a sós com Mackenzie em seu escritório, sobre onde esteve e sobre sua mãe; Kurt quis contar, sobretudo porque havia adotado o princípio de que as coisas eram melhores quando compartilhadas. Depois, passou um tempo com Cole, planejando projetos de melhorias para os carros. Então ajudou Jerome, enquanto ele marcava jogos e jantares de socialização com outros grupos de corredores. Por último, com Iggy, serviu de companhia quando ele precisava de uma segunda opinião sobre as dezenas de roupas novas que havia comprado."
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Os dois estavam sozinhos no quarto de Iggy, algo que um dia passou de impensável para bastante comum. Kurt se sentia confortável em poder se deitar no puff gigante que havia lá, abraçado a uma almofada perfumada, enquanto Iggy trocava uma roupa atrás da outra, sem se importar com a seminudez na frente dele. O loiro se virava de todos os lados em frente ao espelho, concentrado na própria imagem, mas consciente de que Kurt estava prestando atenção nele também.
— Você acha que essa cor combina com a minha pele?
— Bastante — Kurt respondeu sincero.
— Não sei se prefiro azul claro...
— Não entendo o estresse, de verdade. Tudo fica bom. Você é que faz as roupas parecerem boas, não o contrário.
Iggy se virou e olhou para ele por um segundo em silêncio. Então decidiu dizer:
— Obrigado. — Soou como uma apreciação honesta pelo elogio. Vindo de Iggy, era uma palavra e tanto. Então se virou novamente para o espelho, voltando a se autoanalisar. — Por que não saímos algum dia para comprar algumas coisas novas para você?
Kurt rolou no puff.
— Não sei... eu só visto qualquer coisa confortável que apareça na minha frente.
— Esse é o seu problema. — Iggy apontou para ele, inconformado. Então puxou outra peça nova do guarda-roupas aberto. — Algumas pessoas simplesmente não usam o que têm, né?
Kurt parou, pensando no que as palavras realmente queriam dizer.
— E o que eu tenho?
— Não me faça dizer em voz alta. — Iggy suspirou dramaticamente.
Disfarçando um sorriso, Kurt respondeu:
— Eu adoraria sair com você.
Pelo espelho, Iggy o encarou.
— Claro que adoraria. Você ficaria perdido sem ninguém para te orientar na compra de qualquer coisa além de roupas cinza e chatas.
— Sorte a minha que posso contar com você, né? — Dessa vez, Kurt sorriu sem disfarce.
— Exatamente. Me agradeça depois. Agora... Jeans reto ou slim? — Iggy perguntou, mesmo que tivesse acabado de reconhecer que Kurt não possuía o melhor senso estético. A constatação atingiu Kurt com um sentimento caloroso, porque significava que Iggy, no fundo, só queria ser apreciado por ele.
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