18.

Todo aquele esforço seria inútil se P.J. não ficasse sabendo o que ele cumpriu com a ordem. Isso foi o que Kurt disse a si mesmo quando resgatou seu Camaro desfigurado e dirigiu para o hotel do cassino, mesmo que cada célula de seu corpo rejeitasse a ideia.

Entrando pelo hall de elevadores, ele recebeu de novo aqueles olhares atravessados dos diferentes grupos formados por homens vestidos de preto, mas não olhou em particular para nenhum. Esperava que sua atitude de voltar com as próprias pernas entregasse o recado por si só.

De volta ao andar que se lembrava, ele parou na frente do quarto. Seu quarto, eles disseram. Ao menos ali, ele tinha esperança de encontrar um pouco de privacidade. A fechadura, que antes só abria com um cartão magnético, havia sido trocada por um leitor de digital, que agora reconhecia e aceitava sua identidade.

A trava da suíte abriu. A pequena tela de led da fechadura eletrônica piscou com uma mensagem iluminada em verde: Bem-vindo. Kurt olhou diretamente para a câmera que filmava o corredor, esperando que estivesse gravando, e depois entrou.

Lá dentro, descobriu que não estava sozinho.

O que encontrou foi Monaco, jogado no sofá, braços abertos e pernas largadas, ocupando mais espaço do que o necessário para uma única pessoa. Usava óculos 3D enquanto assistia um filme barulhento de ação no projetor que transformava a parede da sala numa tela de cinema. Ele parou no meio da ação de comer pipoca de um balde extravagante tamanho família quando viu Kurt chegar. Então abriu um sorriso traiçoeiro de orelha a orelha e subiu os óculos para descansarem sobre a cabeça.

— E aí está ele! Hum... meio decepcionante. Esperava ver um pouco mais de sangue. Mas só pela sua cara já dá pra ver que foi incrível ter deixado o Mackenzie puto. — Monaco se levantou, derrubando um monte de pipoca no processo, e deixou o filme rolar. — Como se sente? Precisa de um abraço, irmão?

Kurt respondeu com uma cotovelada quando ele chegou perto demais.

— Eu não quero nada seu, irmão. O que tá fazendo aqui?

— Qual é, cara. É uma recepção! Não vê isso que tá rolando aqui? — Monaco gesticulou entre eles. — A gente se entende melhor do que ninguém. Eu sei o que é estar do lado de lá; você também. Conheço o que é estar do lado de cá; e agora você também. As mordomias de P.J. são boas, mas faltam um pouco de intimidade. Já o tratamento de Mac... nós dois sabemos. Vai levar um tempo para você se acostumar com a falta de calor aqui. Mas até lá, se precisar de uma mão amiga...

Kurt torceu a mão de Monaco que tentou apalpar a frente de sua calça. Monaco protestou com uma exclamação de dor, mas Kurt ainda não largou seu punho, mantendo o ângulo torcido.

— Foi uma brincadeira, cara! — Monaco choramingou. — Pensei que poderíamos nos dar melhor, não?!

— Eu não sou a porra do seu irmão. Muito menos parecido com você. — A voz de Kurt saiu baixa e controlada, por mais que quisesse gritar na cara dele. — Se bem me lembro, eu saí porque pedi por isso. Já você foi chutado porque fracassou em se camuflar e foi descoberto. Nós não somos iguais.

Ele enfim cedeu a uma das muitas tentativas de fuga de Monaco e o soltou, mas não sem um empurrão rancoroso.

Monaco parou, massageando o punho, e então olhou de lado.

— Então você não se revelou para o Mac? — Monaco perguntou com um sorrisinho mal intencionado que fez Kurt sentir um nervosismo frio. — Isso vai ser interessante.

Kurt imediatamente se colocou na defensiva.

— P.J. não disse nada sobre contar tudo. A ordem era só me desligar e declarar que eu não iria voltar.

Monaco fez uma face impressionada.

— Trapaceando com o chefe desde cedo? Ousado.

— Cala a sua boca — Kurt disse entre os dentes. — Não é trapaça. É literalmente o que P.J. disse, e o que o Carter transmitiu.

Monaco levantou a palma das mãos, em sinal de bandeira branca.

— Beleza, cara. Foi só um comentário. Como eu disse... isso vai ser interessante.

Kurt se sentiu ferver.

— Você não tem o direito de interferir. Não foi um trabalho dado pra você. Se disser qualquer coisa para o Mac...

Monaco estava rindo, se divertindo.

— Relaxa. Eu não passo por cima da palavra de P.J. Se foi só isso que ele te mandou fazer, então é só isso que deve ser feito. Além do mais... estamos jogando do mesmo lado, não se lembra? Longe de mim te prejudicar. — Monaco disse com franqueza, mas tudo o que saía de sua boca sempre parecia uma emboscada. — Vai me chamar de irmão agora?

Sai daqui. Agora.

Monaco estalou a língua.

— Você é difícil, hein? O Mac deve te adorar.

Kurt se forçou a ficar calado e esperou no mesmo lugar, até ele se retirar. Antes disso, Monaco saiu dando a volta pela suíte, pegando tudo o que julgava ter direito: duas garrafas do mini bar, frutas caras na cesta sobre o frigobar, um monte de moedas de aposta para jogos de cassino na mesa, um sobretudo novo do closet.

— Até a próxima, irmão — Monaco provocou, abafado por uma ameixa inteira na boca.

Kurt bateu a porta que ele deixou aberta.

De volta à sala, Kurt saiu puxando irritado todos os fios das tomadas, até acertar o que desligava o projetor do filme. O som incessante de tiros finalmente parou, dando lugar a um silêncio ainda mais brutal.

Ao invés da cama, Kurt se jogou no chão, sobre o carpete. Uma recusa orgulhosa em usar qualquer um dos luxos que aquele lugar podia lhe oferecer. Restava saber até quando sua resistência precisaria, e conseguiria, durar.

Ele encarou o teto esculpido por um longo tempo, até que algo vibrou em seu bolso. O celular novo. Kurt se sentou para olhar.

De zero a cem, seu coração disparou com a mensagem que tinha chegado:


Bom trabalho. Você faz parecer fácil desarmar caras durões e fazê-los implorar.

Qual deles foi mais satisfatório: nosso Mac ou aquele outro — Nash o nome dele, não é?


Na identificação do remetente, duas letras: P.J.

A primeira resposta furiosa em que pensou foi: Tire seus olhos dele. Mas, se mostrasse para P.J. que Nash continuava sendo alguém importante, estaria colocando um alvo nas costas de Nash com as próprias mãos. Kurt tinha que desviar a atenção de volta para si, fazer P.J. esquecer o bando, se é que isso era possível. Foi pra isso que tinha feito tudo o que fez.

Depois de ponderar, ele digitou uma resposta com a força de sua raiva:


O que mais você quer de mim?


Meio segundo depois, uma notificação automática carregou com um símbolo de erro:


Erro: Mensagem não enviada. O número solicitado não pode ser contatado.


Pareceu confuso, até Kurt checar as informações do contato. No lugar de algoritmos formando o número de telefone, havia uma porção de asteriscos. Criptografado então. Um número de via única, que só enviava mensagens, mas não recebia contato de volta.

P.J. não estava esperando por uma resposta de verdade. Só estava fazendo uma demonstração de que sabia das coisas e observava tudo.

Kurt se perguntou como P.J. poderia saber o que tinha acontecido na Toca, até a tela do celular apagar em descanso, e ele ser deixado encarando o próprio reflexo na tela preta. Tarde demais, Kurt percebeu que tinha levado aquele aparelho para dentro da Toca. Era provável que P.J. tivesse escutado tudo por um grampo escondido nele.

Desesperado, Kurt repassou mentalmente tudo o que havia dito dentro da Toca, revisando se tinha sido algo comprometedor. Mas, no fim das contas, ele só tinha feito o que foi mandado. Entrou e saiu. Nada mais.

Com intenção de destruir, ele atirou o celular na parede, do outro lado da suíte. Nunca precisou de um daqueles, de qualquer forma.


Com uma semana, Kurt sentia falta de ser só o mecânico. Agora, ele era usado para tudo, menos consertar coisas quebradas. Como um fantoche, era colocado atrás do volante e ditado para onde dirigir, fosse para encurralar um carro-forte dentro de um túnel ou se infiltrar no cofre de um político importante, atrás de documentos mais importantes ainda. Não se tratava mais de correr ou apostar, mas de tomar e enganar.

Cada dia era, de fato, o replay de um pesadelo; a roda da tortura girando de novo. A sequência era previsível, mas isso não fazia dela menos amarga: uma porção de ameaças aqui, armas sendo carregadas ali, uma pílula descendo forçada pela garganta para se forçar a ficar acordado, discussões no meio do caminho.

No domingo, Kurt estava tonto quando chegaram ao lugar da vez.

Na madrugada fria e úmida, ele encostou o carro novo que lhe deram — um Toyota GT86 — com os faróis apagados no meio fio. Na calçada do outro lado da grande avenida esvaziada por obras na entrada da via, a vitrine de uma joalheria da Tiffany & Co. cintilava como um verdadeiro diamante no meio da noite. As luzes brancas iluminavam coleções de joias que se exibiam desinibidas, cheias de pedras pequenas e etiquetas grandes. Nas frágeis portas de vidro havia uma mensagem implícita de desprezo, como se não considerassem que ninguém teria audácia o suficiente para ameaçar romper o alto sistema de segurança. Mas os homens daquele carro miravam a joalheria sem piscar. Tinham sorrisos afiados de quem adorava um desafio.

O cronômetro daquela vez era dos mais curtos: 5 minutos. Carter apertou o pino do relógio, iniciando a contagem. Os outros o seguiram para fora do Toyota; Monaco com seu equipamento de arrombamento, muito mais refinado do que o pé de cabra e o maçarico das outras vezes; e Roman, acompanhado de um fuzil quase tão comprido quanto ele próprio. Kurt sentiu um mínimo momento de alívio quando foi ordenado a ficar no carro. "Espere com o motor ligado", foi o que Carter exigiu, sem ninguém acompanhar com nenhuma piadinha em seguida. Dessa vez, estavam concentrados.

Quando as portas bateram e tudo dentro do carro se tornou silêncio, Kurt suspirou fundo e encostou a testa suada na curva do volante duro. Estava sendo difícil não desenvolver uma síndrome do pânico a cada vez que tinha que dirigir agora.

O som de teclas sendo digitadas com velocidade preencheu o espaço, o puxando para fora de sua bolha de aflição.

No banco de trás, Ace tinha o rosto iluminado pela tela embutida em sua maleta aberta. Era a primeira vez que não veio dirigindo a moto; o que quer que estivesse fazendo naquela engenhoca parecida com uma mala-computador, devia ser importante para que dedicasse cem por cento da atenção nela. Um fone sem fio cobria sua orelha esquerda. Kurt sentiu uma nostalgia culpada por se lembrar de Cole, que sempre estava usando um daquele modelo para comunicação durante as corridas.

Kurt se deixou distrair pelas imagens exibidas no monitor do outro rapaz para esquecer aquilo. Nove quadrados completavam a tela, cada um mostrando um ângulo diferente de dentro da joalheria. Em três deles, havia vigias noturnos uniformizados circulando. Ace reportou a localização de cada um deles pelo microfone acoplado do fone sem fio, e recebeu um "bip" em resposta pelo rádio preso em seu cinto.

Kurt analisou, pasmo.

— Como vocês conseguem acesso a isso? — Ele perguntou por cima do ombro.

— Eu plantei — Ace respondeu sem levantar a cabeça, a luz azulada do monitor brilhando fantasmagórico contra sua pele pálida. — São câmeras novas. As antigas eu apaguei e programei para exibir apenas imagens em repetição. Eles vão demorar a perceber que na verdade estão assistindo as mesmas imagens gravadas no mês passado.

— Uau. Sempre pensei que você fosse... novo demais pra saber tudo isso — Kurt gesticulou para todo o espaço ao redor deles. Não era apenas do hacking que estava falando.

Os ombros magros do rapaz subiram e desceram.

— Algumas coisas você simplesmente nasce... sabe? — Ace levantou o olhar do computador, buscando alguma empatia no rosto de Kurt.

Aquele olhar fez Kurt lembrar de si mesmo: usado para o trabalho muito cedo, forçado a entrar em negócios que não eram seus, e ensinado a aceitar que aquela seria a vida possível para ele. Ace sabia de onde Kurt tinha vindo e sabia também que Kurt entenderia seu ponto.

— É, claro...

Eles dois ficaram em silêncio, em uma concordância muda. Foi só naquele momento, olhando no rosto dele por um minuto inteiro, que Kurt entendeu de onde vinha a expressão sempre fechada de Ace. Não era feita de antipatia, como os outros. Na verdade, era uma espécie de tristeza.

Reparando bem, Ace era transparente em mostrar que não estava satisfeito com nada daquilo. Tudo nele indicava mesmo ser um estranho no ninho, desde a aparência — pouco preocupado em exibir qualquer status e mais em se esconder — até a distância impessoal que mantinha do resto do grupo.

O rapaz voltou a teclar calado, e Kurt apenas se concentrou nos chiados baixinhos que de vez em quando vazavam do fone de ouvido, reconhecendo algumas palavras italianas de Carter. Duas câmeras filmavam Monaco e Roman em duas salas diferentes, saqueando bancadas e armários que guardavam joias feitas de pedras preciosas. Kurt esfregou os olhos, repetindo a si mesmo que estar ali, dirigindo aquele carro, dirigindo para aqueles homens, não o fazia um deles. Era apenas um beco sem saída que estava sendo mantido preso, por isso não podia fugir. Sabe-se lá quanto mais até pagar pela dívida do pai, jogada sobre sua cabeça.

— Aquelas gravações sobre mim... — Kurt murmurou, se lembrando das filmagens que usaram para segui-lo e reportar a P.J. cada um de seus movimentos.. — Foram todas você quem fez?

Ace apertou os lábios, seu olhar ainda abaixado para a tela, embora seus dedos estivessem estáticos. Carter falou com ele pelo fone de novo, mas Kurt não entendeu.

— Eu não deveria falar disso com você — o rapaz respondeu, mais baixo e mais ríspido.

Kurt fechou a boca, quase ofendido. Depois de um segundo de consideração, se virou para frente de novo e se jogou contra o encosto do banco. O couro novo rangeu sob seu peso.

— Você é bom — Kurt comentou em voz alta, mesmo sabendo que estaria falando sozinho. — A não ser por aquela vez, de madrugada, do lado de fora do bar, eu não vi sua sombra me seguindo nenhuma vez, e olha que sou muito bem treinado para sentir qualquer olhar nas minhas costas. Fez um bom trabalho... eu acho. Se estou aqui, então quer dizer que funcionou. Você é os melhores olhos que P.J. poderia ter.

Kurt deu um suspiro cansado e os deixou cair de novo na ausência de som do carro. A avenida quieta ganhou movimento quando um táxi solitário passou correndo na rua concorrente para ultrapassar o semáforo amarelo, logo à frente. Os dedos ansiosos de Kurt tamborilaram o volante, esperando pelos 3 minutos restantes. Ele estava se desconectando do momento em pensamento, deixando sua mente correr para longe, até que Ace resolveu falar.

— Me... desculpe. — O pedido saiu hesitante.

Kurt olhou sobre o ombro para ver o rapaz fechando a mão ao redor do discreto microfone que saía da outra orelha. Ace fez um gesto que pedia silêncio, então Kurt observou calado. Com um clique, o rapaz apertou uma tecla dura, e na mesma hora uma luz vermelha se apagou. Ace então soltou o microfone.

— Eu sei como isso tudo é doentio. Mas... não é como se eu tivesse uma escolha também. Foi o que me mandaram fazer.

A confissão inesperada fez Kurt paralisar, sem entender bem de onde aquilo tinha vindo. As pálpebras pesadas dele piscaram lentamente.

— Está sendo ameaçado também? — Kurt perguntou, se virando devagar para trás.

Ace fez que sim e coçou a cabeça, irritado.

— Todo mundo que entra nisso está, de alguma forma. Alguns apenas parecem não se importar e se identificam com a sujeira. — O rapaz revirou os olhos na direção da Tiffany, onde os outros estavam. — Pra mim, quando começou, parecia promissor. Mas depois... Isso se tornou muito maior do que eu imaginava. E é como se não houvesse uma saída agora.

Um risada nervosa escapou de Kurt.

— Por que não pega suas coisas e vai? É jovem e inteligente, tem uma vida inteira — Kurt rebateu e assistiu a Ace balançar a cabeça, em negativa.

— Quando você sabe demais, eles não te deixam ir.

Os dois se calaram depois disso. No rádio relógio acoplado em cima do painel, o último número em vermelho atualizou a hora. 1 minuto. Mesmo depois de acertar a postura no banco, Kurt se virou para trás de novo, incapaz de esconder a curiosidade.

— Você já conheceu o P.J.? — Ele questionou, se lembrando bem de como todos tratavam o líder adversário como um anônimo.

Em reação, Ace rangeu os dentes, trancando a boca. Seus olhos espertos viajaram por vários cantos do carro, depois através da janela, na direção da joalheria. Kurt tinha entendido aquilo como uma recusa de resposta, mas no instante seguinte, Ace murmurou um "dane-se" e arrancou o fone de ouvido da orelha. O aparelho ficou sobre o banco, jogado.

— Nós somos apresentados a um monte de gente que se chama P.J.. — ele explicou, cobrindo a boca com a mão.

— Então são como... uma organização? — Kurt arriscou o palpite, interessado no assunto.

Ace negou de novo.

— Estou bem certo que isso é para nos fazer acreditar que eles são vários, não apenas um. Mas eu pessoalmente acho que isso seja só para confundir. — Ace explicou com a empolgação de quem estava com sede há muito tempo de conversar sobre aquilo com alguém. Uma satisfação suave passou por Kurt, por ter ganhado aquele tipo de confiança de alguém como ele. — Mas sinceramente, eu não sinto a mínima vontade de saber quem é de verdade. Não quero ter que lidar com os métodos de silenciamento deles.

Kurt tomou um momento para absorver as informações e observar a situação de longe. Havia um tipo de ligação, algo como reconhecer a si mesmo dentro de outra pessoa. Ace não parecia mau; era apenas sozinho, como ele. Kurt tinha a sensação que não era precipitado pensar nisso. Ace apenas teve o azar de terminar com as pessoas erradas. Se ele tivesse sido encontrado por outro grupo ao invés de P.J., talvez Mac... Talvez tivesse sido diferente.

— Realmente, você não é como eles — Kurt deixou sair.

Ace sorriu sem graça, soltando o ar pelo nariz.

— Esse é um elogio e tanto. Obrigado. — Ele abaixou a cabeça devagar. Mas voltou a ficar tenso quando seus olhos alcançaram de novo a tela dentro da maleta. Seus ombros enrijeceram.

Kurt acompanhou seu olhar e flagrou uma confusão de movimentos através das câmeras. Pelo singelo instante que se distraíram, o pequeno intervalo que Ace se desligou do fone de comunicação, os seguranças da Tiffany tinham chegado ao coração da operação. Só perceberam tarde demais, quando as filmagens já mostravam o caos. Ace xingou um palavrão enquanto puxava de volta o fone. Um barulho muito fraco soou ali no exterior, mas pelas imagens eles viram as bancadas e os armários de vidro explodindo com o início do confronto, balas voando para todos os lados.

Quando Kurt desfez as travas do Toyota, os tiros chegaram lá fora. Eles se abaixaram dentro do carro, surpreendidos. A vitrine principal foi destruída quando alguém se jogou contra ela, de dentro para fora, provocando uma chuva de cacos. Roman caiu rolando na calçada e, antes de se levantar de novo, já estava abrindo fogo contra a joalheria, atirando com o fuzil. Uma cacofonia de tiros, gritos e o alarme disparado da loja se formou. Pelo enorme buraco, os outros três saíram correndo, atirando cegamente com pistolas para trás, tentando se equilibrar com as sacolas cheias.

A próxima coisa que Kurt viu foi Carter se jogando abaixado no banco do passageiro, seus gritos incompreensíveis pela confusão. Um tiro acertou a janela de trás, e o som fez o ouvido de Kurt zumbir. As portas traseiras abriram e bateram, fazendo o Toyota balançar, enquanto o resto dos homens se amontoava lá dentro. O tiroteio continuou atrás deles, mas, pela forma como houve uma queda abrupta na quantidade de tiros, Kurt teve certeza que Roman acertou algum dos seguranças; talvez mais de um.

Kurt engatou e afundou o pé no acelerador antes de verificar se havia algum ferido dentro do carro. O Toyota se afastou da joalheria, deixando os seguranças assistindo apenas aos faróis traseiros e à placa coberta. Os tiros ainda o seguiam como trovões, acertando a lataria. Até que Kurt tentou uma manobra arriscada, jogando o carro para dentro do primeiro beco que enxergou.

A última bala quebrou o retrovisor da porta do motorista, deixando o reflexo de Kurt distorcido nele. Ele girou o volante para a esquerda, os tirando do beco de volta para as ruas quase vazias. Ainda que não tivesse ninguém atrás deles, Kurt continuou acelerando. O Toyota disparou por uma descida, espirrando água de cada poça que encontrava.

Os homens ainda gritavam, culpando uns aos outros, e as mãos de Kurt estavam suadas sobre o volante. Ele tentou ignorar cada xingamento desferido contra ele, dando atenção apenas ao motor fazendo o carro vibrar. Tenso, ele mudou a marcha sem pensar e pegou outra rua, que os levaria por um caminho direto até o covil dos homens de P.J.


Como sentença por sua parcela de culpa no desastroso desfecho do plano, trancaram Kurt dentro de um dos galpões que usavam para armazenamento temporário das cargas roubadas. A ordem era de que organizasse todo o lugar, até que as centenas de caixas estivessem ordenadas.

De mau humor, Kurt ficou sozinho com os ecos do grande salão, empilhando caixas e mais caixas. Não percebeu quando o tempo passou, rolando para as últimas horas da madrugada.

O galpão era amplo para caber ao menos cinco caminhões. Espaçoso o bastante para Kurt não enxergar alguém entrando escondido. Somente quando estava a caminho de jogar mais uma caixa sobre uma das pilhas, foi que escutou o ruído sutil de um sapato escorregando atrás da prateleira mais alta. Kurt não teria notado se não estivesse com os nervos tão à flor-da-pele desde que chegou do último roubo. Mas ele ouviu, então congelou na mesma hora.

Evitando qualquer barulho, ele se agachou com cuidado, encostando a bochecha no piso frio de cimento queimado. As prateleiras enfileiradas lhe davam uma visão até os fundos. Pela fresta mais baixa, ele flagrou a sombra de um par de pés se movendo devagar. Sapatos brancos. Sem dúvida, não era um dos homens de P.J.

Kurt se levantou rápido e se esgueirou pelo canto da parede, evitando as janelas para não provocar nenhum vulto. Seguiu quase na ponta dos pés, puxando um cabo de aço no meio do caminho, para ter com o que se defender. O último corredor estava vazio quando chegou lá, mas a silhueta do invasor ainda fazia sombra pela lateral das prateleiras, se esgueirando para o meio do galpão.

Até mesmo sua respiração se suspendeu por um segundo, para que nenhum som o denunciasse. Kurt foi atrás daquela figura, segurando as duas pontas do cabo em cada mão, ponto para o bote. Quando virou a quina da prateleira, ele saltou, atacando.

Por trás, ele enroscou o cabo ao redor do pescoço do outro e puxou com força, estrangulando. O outro fez um barulho de sufocamento e, com a força do puxão, cambaleou para trás, caindo contra o corpo de Kurt. Suas mãos aflitas lutaram para afrouxar o aperto na garganta, mas Kurt segurou mais forte. Com uma mão, ele prendeu o cabo num nó; com a outra, puxou o capuz da blusa que cobria a cabeça do invasor.

Kurt congelou quando viu a cor do cabelo, quando reparou no rosto irado que tentava se virar para ele. Ele desfez o aperto do cabo no instante seguinte. O outro rapaz tossiu convulsivamente, se dobrando sobre os próprios joelhos. Kurt estava formulando um pedido de desculpas, quando o outro parou e se levantou de novo. Por quase um minuto, os dois ficaram se encarando, no galpão mal iluminado.

— O que você está fazendo aqui? — O rapaz de cabelos loiros perguntou, ainda meio sem ar. Iggy parecia muito diferente vestido em roupas largas para o seu número. — Aliás, onde você esteve? Você sumiu, por tipo, uma semana inteira!

O rosto de Kurt ficou quente. Isso significava que Mackenzie não tinha contado para os outros que ele tinha saído?

Ele soltou o cabo no chão.

— Eu... — Kurt se viu num beco sem saída. Não havia o que pudesse dizer. Iggy descobriria tudo. Logo Iggy, dentre todos... Kurt engoliu, nervoso. — O que você está fazendo aqui?!

Massageando a marca vermelha em seu pescoço, Iggy revirou os olhos azuis.

— Procurando alguma coisa para me ajudar a me vingar de P.J., é óbvio. Não vai ficar de graça o que fizeram com o nome de Mac... Nem com meu carro. Nem comigo. — Iggy respondeu, em pausas. Era a primeira vez que Kurt o via considerar a si mesmo, não apenas a Mackenzie.

Depressa, Kurt os puxou para debaixo da escada de ferro no canto, a qual levava para a saída do galpão, entrando para as sombras.

— Como chegou até aqui? — Kurt cochichou.

— Eu só usei um dos idiotas do P.J. — Iggy murmurou, puxando o braço de volta. — Nem todos eles são tão héteros quanto parecem, se quer saber.

Kurt piscou lento, assimilando as informações, mas desistiu de tentar adivinhar o que Iggy teria feito para conseguir aquele endereço.

— É, mas esse é só um dos esconderijos. Um dos menores pelo o que consegui perceber. — Kurt contou, passando a mão do rosto para o cabelo desordenado. Sua torcida era para que Iggy não tivesse mais questões sobre o motivo por encontrá-lo ali, ou sobre o porquê já estava familiarizado com os tamanhos dos negócios de P.J. — Não é um lugar importante. Provavelmente, não vamos achar nada aqui.

Para sua sorte, Iggy estava cego pelo empenho em seu plano. O rapaz o empurrou pelo ombro, voltando ao alcance das luzes de sódio que acendiam o galpão.

— Bem, você pode esperar sentado então. Porque eu vou procurar até conseguir alguma coisa — Iggy determinou, confiante.

Kurt balançou a cabeça sozinho. Era ao mesmo tempo uma má e uma boa ideia, dependendo do ângulo de onde olhava isso. À distância, Iggy começou a revirar as primeiras caixas que encontrou.

— O que diabos é isso tudo? — O loiro pensou alto.

— Provavelmente roubo — Kurt respondeu, tentando manter a maior impessoalidade daquilo que podia.

Os olhos azuis correram por todo o galpão, contabilizando as centenas de caixas empilhadas. Era um saque e tanto.

— Vai continuar aí só me vigiando ou vai ajudar? — Iggy retrucou por cima do ombro, na direção de Kurt.

De certa forma, aquela poderia ser a chance de fazer aquele trabalho sujo alguma arma útil. Se encontrassem alguma coisa, seria como usar o veneno de P.J. contra ele mesmo. Era uma boa oportunidade de fazer justiça. Por isso Kurt pisou para fora da sombra da escada e se juntou a Iggy.

Eles passaram alguns minutos descobrindo a variedade de materiais que P.J. provavelmente traficava. Incontáveis peças caras e sofisticadas para carros. Mas nada importante o suficiente para lhes dar poder ou vantagem contra o líder adversário.

Quando já estavam na terceira fileira de caixas, Kurt desviou a atenção daqueles objetos. Pelo canto dos olhos, ele espiou Iggy, ainda se sentindo meio incerto.

— Mackenzie sabe que está aqui? — Perguntou, avaliando a reação do rapaz.

Iggy parou no meio do processo de abrir uma caixa e olhou para Kurt.

— Vai saber quando eu tiver o que eu quero — Iggy respondeu como quem queria se defender de alguma possível ameaça de deduragem. Com atraso, Kurt notou que Iggy pensou que ele queria fazer chantagem.

— Não é por isso... É que — Kurt se interrompeu, avaliando bem onde pisaria. — Eu me pergunto como ele reagiria em nos ver do outro lado... você sabe.

A sugestão ficou no ar por um momento. Iggy suspirou e voltou a fazer sua busca.

— Contando que saiamos daqui com alguma munição contra P.J., ele vai saber como lidar com isso.

— Mas o Mac, ele...

— Eu sei como ele reagiria, ok? — Iggy fechou a caixa com força. — Eu o conheço. Estou com ele há mais tempo do que qualquer um. São seis anos, não seis dias.

Ele partiu para a sequência seguinte, na próxima prateleira, mas Kurt ficou para trás, boquiaberto.

— Seis anos?! — Kurt repetiu. Então piscou várias vezes e seguiu o rapaz. — E quanto... aos outros?

A luz amarelada do teto incidia logo acima de Iggy, criando um halo ao redor de seu cabelo claro. Ele estava de costas, mexendo em várias caixas ao mesmo tempo e de qualquer jeito, sinal de que estava perdendo a paciência.

— Todos tem um ano a menos do que eu, por diferença de alguns meses. Menos Nash. Aquele idiota tem apenas um mês a mais do que você — Iggy tinha a voz amargurada. Ele descontou um tapa frustrado numa das prateleiras e girou, se virando de volta para Kurt. — É isso aí. Agora você sabe porque odeio ele. Com tão pouco tempo, Nash conseguiu começar uma relação exclusiva com Mac, se sentindo no direito de excluir todos os outros que estavam ali por anos. Você acha isso certo?

Kurt ficou mudo, inseguro de como responder. Iggy suspirou, coçou o canto interno dos olhos e deu as costas de novo. Eles começaram a caminhar para o corredor lateral quando Kurt tentou arriscar um palpite:

— Eu não acho que — de repente, ele se calou, assim que Iggy congelou no meio do caminho. O seu próprio corpo também ficou paralisado.

Havia um revólver apontado para eles, na altura do rosto. Kurt só não ficou apavorado porque era Ace que segurava a arma, e não havia mais ninguém com ele. Mas aquilo não deixou Iggy mais tranquilo; ele não conhecia Ace.

— Não se mexam. Ou eu atiro — o rapaz de cabelo comprido ordenou, olhando bem atento para o loiro à sua frente, em reconhecimento.

As mãos de Kurt subiram, mostrando as palmas livres, declarando paz. Mas não escapou a ele como Iggy manteve as mãos para baixo, tentando alcançar vagarosamente a parte de trás do cinto. Era fácil entender agora o que era aquele volume por baixo da blusa, em suas costas. Em um movimento imprudente, Kurt saltou à frente, para evitar que o pior acontecesse, uma provável troca de tiros.

— Ace! Tudo bem... Está tudo bem. Eu juro — ele disse, com as mãos ainda para cima e olhando nos olhos. — Iggy não é uma ameaça.

— Você conhece ele?! — Foi Iggy quem perguntou, enojado.

Kurt espremeu os olhos e tentou ignorá-lo.

— Ace, confia em mim... — insistiu.

— O que ele está fazendo aqui? Ele é do bando de Mackenzie — Ace apontou com o queixo, mantendo a mira.

— Por que diabos parece que vocês se conhecem, Kurt? — Iggy reclamou de novo, ao fundo.

— Eu também sou — Kurt respondeu a Ace, mantendo o olhar do rapaz, numa tentativa de transmitir confiança. — E mesmo assim não fui um risco pra você, não é?

— Mas você está correndo para o P.J. Já ele...

Você o quê?! — Iggy explodiu em uma exclamação. Kurt soltou o ar e esfregou o rosto. — Não! De jeito nenhum! Você só pode estar brincando! É isso o que você esteve fazendo todos esses dias?!

Iggy girou em torno de si mesmo, segurando a cabeça, perturbado. Kurt deixou os ombros caírem com o peso e se meteu entre os dois outros. Ele tocou o pulso de Ace devagar e abaixou a arma, sem receber resistência por isso.

— Iggy, escuta... — Kurt disse e começou a se virar.

— Não! Escuta você! — Iggy apontou na direção dele e cutucou seu peito, com força. — Que merda você está pensando, hã? Você sabe o que P.J. representa! Você sabe que se não está com Mac, está contra ele! Eu sei que te devo uma pelo o que aconteceu no túnel, mas isso é muito além!

— Eu não escolhi nada disso, tá bom? — Kurt o cortou, falando mais alto. Quando Iggy parou, o encarando sem piscar, Kurt respirou fundo. — Isso é tipo... uma dívida do meu pai que eu não sabia que existia. E agora estou... preso. As ameaças que me colocaram aqui... Não é nem por mim isso tudo, pra falar a real. Se eu não fizer isso...

Kurt engoliu quadrado, covarde em confessar que o incêndio do posto, o roubo dos dados do bando, as chaves de acesso desviadas, tudo tinha sido culpa dele.

Todos eles caíram em um minuto de silêncio. Os olhos azuis foram e voltaram entre Kurt e Ace, diversas vezes. Por fim, Iggy balançou a cabeça e cruzou os braços, dando alguns passos para trás.

— Você não pode esperar que eu aceite isso — Iggy disse.

— Sei que não. — Kurt correu a mão pelo cabelo, para trás e para frente. — Só não diz nada pro Mac. Eu vou dar um jeito de sair disso, eu prometo.

A perna direita de Iggy estava inquieta, balançando em ansiedade. Ele sustentou o olhar por mais algum tempo, mas depois se jogou sentado sobre uma caixa fechada. Braços cruzados, cara fechada, feito uma criança emburrada.

Kurt suspirou de alívio, como se conseguisse desarmar uma bomba relógio.

— Agora concordamos que ele não é uma ameaça? — Disse, se virando para Ace.

Ele precisou abrir o jogo para ganhar a confiança de Ace. Havia franqueza em suas palavras quando explicou o que Iggy fazia ali, mas que já estava de saída, que não provocaria nada. Kurt sinalizou para que Iggy se levantasse e se fosse logo, antes que as coisas piorassem. Mas é claro que Iggy não aceitaria sair de mãos vazias.

— Não vou voltar do mesmo jeito que entrei. Eu preciso de alguma coisa para agir. Me dê algo importante — Iggy protestou. — Você disse que esse é um dos menores esconderijos. Qual o maior então?

Kurt trocou um olhar de esgueira com Ace.

— Iggy, não é simples assim...

— Não estou pedindo simplicidade. Eu quero saber qual o covil principal de P.J. E quero que você me coloque lá dentro.

Kurt riu de puro nervosismo.

— De jeito nenhum. Se pegam você... — Kurt esfregou os olhos para afastar as imagens que sua memória evocaram. Sangue nas paredes, sangue em suas roupas, sangue numa cabeça caída no chão à sua frente.

— Espera. — A voz de Ace soou, os lembrando que ele estava bem ali. Guardando o revólver no cós da calça, ele continuou: — Acho que podemos ter um acordo.

— Acordo? — Kurt perguntou. Iggy tinha os olhos afiados na direção de Ace.

— Eu... posso ajudar nisso se me derem algo em troca — Ace disse.

Kurt abriu a boca, mas não foi ele quem respondeu.

— Desembucha — Iggy mandou, quase arrogante.

— Eu vim até aqui para te contar que... eu decidi fugir — Ace disse para Kurt, e eles se entreolharam, interessados. — Depois daquela conversa, eu percebi que você tem razão. Ainda tenho muito pela frente. Eu meio que já sabia, mas era como se precisasse ouvir isso de fora para entender de verdade.

— Ah! Muito tocante. Agora diz o que você quer — Iggy os cortou de novo, impaciente.

Balançando a cabeça, Kurt sinalizou para que Ace não se importasse com a malcriação de Iggy.

— Se você puder me arranjar ajuda para isso, eu coloco seu amigo pra dentro do cassino. — Ace apertou os dedos de uma mão, ansioso. — Se ele vestir um dos trajes que uso para pilotar a moto, ele pode passar discreto no meio dos outros. O maior risco seria só ter que usar o capacete o tempo todo, então teria que ser rápido, antes que alguém pedisse para tirar e identificar o rosto.

Parecia um plano... razoável. Kurt tomou um segundo para olhar para trás e verificar o que Iggy pensava daquilo. Ele recebeu uma encarada em retorno, como se a resposta fosse óbvia e indiscutível.

— Eu não vou sair daqui com menos que isso — Iggy determinou. — Se essa história é realmente do jeito que está dizendo, e você ainda tem alguma consideração pelo Mac, ou por qualquer um de nós, essa é a hora que tem para provar.

Um suspiro depois, Kurt se virou de volta para Ace.

— E do que você precisaria? Para fugir, quero dizer.

— Bom... Estava pensando em uma passagem aérea para fora do país. E em um carro irrastreável — Ace disse.

Relutante, Kurt acenou. A confirmação de que, agora, tinham um acordo.


Aconteceu na noite seguinte, porque não tinham tempo a perder.

Ace se esgueirou pela sala de segurança do cassino, tanto para vigiar as câmeras quanto para se manter fora de vista. Kurt vestiu um dos smokings pretos do closet que P.J. tinha montado para ele e desceu para os salões de apostas como se quisesse aproveitar a noite. Mas, por baixo do colarinho, sua nuca suava, assim como suas mãos remexiam inquietas dentro dos bolsos.

Por sorte, o cassino nunca ficava vazio, e ele era só mais um entre a numerosa massa de pessoas naquele salão.

Ele checou o relógio. Dois minutos até o exato horário combinado. Então parou numa mesa de carteado para fingir assistir à partida enquanto esperava. Dentre as seis pessoas ocupando a mesa, todas estavam concentradas demais em suas próprias apostas para reparar nele. Kurt observou sem interesse a mão de cartas do jogador à sua frente. Mas o que começou apenas com um teatro fingindo que entendia alguma coisa, se tornou um interesse real quando ele reparou nas cartas: todas vermelhas; todas no naipe de ouros; todas representando a realeza das cartas. O J para o valete. O K para o rei. E a terceira... um círculo partido ao meio na diagonal, com um losango no meio. Foi a primeira vez de Kurt percebendo que o infame símbolo de P.J. era exatamente como o símbolo de uma rainha de ouros.

Alguém trombou com força em suas costas, e Kurt acordou.

Ao se virar, deu de cara com alguém vestindo calça e jaqueta impermeáveis, coturnos escuros e luvas de couro. O capacete de viseira preta tornava impossível ver o rosto, mas é claro que ele estava muito certo de quem se tratava. Enquanto qualquer outro dos homens de P.J. que olhasse fosse acreditar ser Ace, pelo costume de vê-lo naqueles trajes, Kurt enxergava Iggy ali dentro sem precisar vê-lo.

— Desculpa — Kurt pediu baixo, como se fosse pelo esbarrão, mas na verdade era por ter se distraído e perdido o momento da entrada.

Por trás do capacete, Iggy não disse nada, embora fosse possível que tivesse revirado os olhos, e seguiu em frente, tomando o trajeto que Ace o instruiu para não levantar suspeitas. Assim que ele saiu, Kurt viu o que ele deixou discretamente para trás, sobre a borda da mesa vizinha: um pen drive e um fone de comunicação.

Entendendo o recado, Kurt pegou os dois dispositivos e circulou até uma área livre, num dos corredores de passagem, para então colocar o fone na orelha. Ele ligou com um simples clique. Kurt esperou escutar algo, mas só havia som de estática do outro lado. Até que:

— Consegue me ouvir?

Kurt colocou o corpo contra a parede e tapou a própria boca, no meio de um arfar. Não era a voz de Iggy, como ele esperava escutar; era a de Cole, falando de algum lugar remoto.

— Alô? — Cole insistiu.

Kurt tentou não fazer barulho algum, mas é claro que a cacofonia do cassino ao redor era o suficiente para denunciar que o microfone estava de fato funcionando.

Depois de um suspiro que encheu a linha de ar, Cole continuou:

— Kurt, você pode falar. — Ele esperou com paciência, sem saber que Kurt ainda estava morrendo de medo de se denunciar. Era necessário um incentivo, então ele deu: — O Iggy já me contou tudo.

Kurt bateu a parte de trás da cabeça na parede e fechou os olhos.

— Eu não sei do que está falando — Kurt finalmente respondeu.

— Sabe sim. — Cole foi sério. — Ele me pediu ajuda para vasculhar o covil do P.J. Senão, porque eu estaria nesse comunicador agora?

Derrotado, Kurt suspirou e esfregou o rosto, tentando não amaldiçoar o nome de Iggy.

— O Mac já sabe? — Kurt perguntou, se preparando para o pior.

Houve um breve silêncio. E então:

— Me garanta que ele não precisa ficar sabendo, que eu não conto — Cole pediu. Kurt entendia o que queria dizer; ele queria uma garantia de que não era uma traição, nem um serviço voluntário. Nada que os colocasse em risco. Sem saber que Kurt estava fazendo tudo aquilo justo para tirá-los do risco.

— Isso não é algo que eu quero. Eu simplesmente estou cercado — Kurt confessou, deixando as costas se curvarem, quase como se houvesse um peso nelas. — Eu posso expli-

— Isso já é o bastante — Cole o interrompeu, como se já tivesse sido convencido por tão pouco. — Eu só tenho uma única coisa pra te dizer: o que quer que você esteja fazendo para aquele cara... Tenha cuidado e dê um jeito de se livrar logo disso.

Kurt respirou um pequeno suspiro sufocado, que não era bem alívio, mas quase isso.

— Eu sou só o motorista — afirmou, pensando em toda a sujeira daqueles homens e como não queria se manchar como eles.

— Ninguém é apenas o motorista por muito tempo, Kurt — Cole disse. — Mas vamos dar a P.J. o que ele merece. Vamos fazer isso dar certo. Você vai me dizendo tudo o que ver aí, e eu vou te instruindo. Confirma se entendeu.

— Entendi — Kurt deu o seu melhor, ainda absorvendo as palavras.

— Ótimo. Me diz onde você está agora?

— Hum... No corredor do salão principal do cassino.

— O que tem no salão?

Kurt chegou mais perto da borda da parede e espiou para os dois lados.

— Além de uma centena de mesas de apostas e máquinas caça-níquel cercadas de muitas pessoas? Tem alguns camarotes privativos no primeiro e no segundo andar. Tem alguns palcos de performances, outros corredores que levam para outros salões menores, o hall de elevadores que leva para o hotel, a saída que leva para o estacionamento subterrâneo com a frota de P.J., uma porta dupla que acho que leva para uma cozinha...

— Espera! Esse estacionamento! É a garagem da corja de P.J.?

Kurt engoliu ao ouvir aquilo. O seu próprio carro estava lá. Ele era parte da corja agora.

— Sim. — Ele tentou não transparecer seus pensamentos na voz.

— Perfeito. O Iggy tem um pen drive que dei pra ele, você vai precisar dele.

— Já está comigo — Kurt olhou para o pedacinho de plástico e metal dentro de sua mão, quente pelo nervosismo.

— Tá. Então a próxima parte: você vai até a garagem e precisa acessar um dos carros. Vai ser melhor se ninguém te ver, porque o processo pode demorar. Você vai conectar o pen drive na entrada usb que tiver no painel e, quando estiver tudo certo, me dá o sinal, que vou baixar todos os dados que estiverem registrados no sistema do carro. O maior interesse é varrer o histórico do GPS e rastrear os principais pontos onde o carro já esteve. É assim que vamos descobrir o mapa dos esconderijos de P.J. Entendeu?

Kurt confirmou já a meio caminho das portas que levavam ao estacionamento subterrâneo. Ele desceu pelas escadas de incêndio, que estavam vazias, apenas com o som de seus passos ecoando nos degraus de concreto.

— Pode ser qualquer carro? — Ele consultou, antes de abrir a porta corta-fogo e sair na garagem.

O familiar som de motores ligados e pneus cantando o recebeu. Alguns homens de P.J. apostavam corrida pela rampa caracol que levava aos andares de cima. Ele seguiu na direção oposta, pelo canto mais quieto, onde as lâmpadas fluorescentes eram mais fracas.

— É melhor que seja um dos mais antigos, se souber identificar — Cole respondeu. — Um que rode bastante também. Que tenha mais chance de já ter estado em mais lugares.

Um carro importante, então, Kurt pensou. Dando a volta para olhar ao redor, ele escaneou as vagas cheias e catalogou mentalmente as possibilidades. Não precisou de muito para ter sua resposta. A alguns metros de distância, ele estava encarando o carro italiano que dirigiu na sua noite de teste. O Maserati de Carter. Kurt não duvidava que ele já tinha estado em muitos lugares.

Agachado por trás das fileiras de veículos, Kurt se esgueirou até o Maserati. O capô estava frio, sinal de que Carter provavelmente não tinha pegado nele naquele dia. Talvez estivesse no cassino. Talvez planejasse sair mais tarde. Kurt não fazia ideia de quanto tempo tinha.

— Tenho o carro, mas não tenho a chave — Kurt desabafou frustrado depois de testar a maçaneta e encontrá-la trancada.

— E isso é um problema? — Cole perguntou com simplicidade.

Kurt riu sozinho, esquecendo por um momento de quem ele mesmo era. Então checou uma vez a câmera do estacionamento, a lente escura o observando do canto superior da parede. Era melhor que Ace estivesse lá do outro lado e apagasse o registro do que estava prestes a fazer.

Rápido, Kurt arrombou o capô do Maserati, no ponto certo onde sabia que só precisava de um puxão do jeito certo para ceder a trava. Já tinha recebido carros como aquele muitas vezes antes na oficina de seu pai, carros de luxo com batidas de frente que precisavam de um jeitinho para desemperrar o capô para que verificasse as engrenagens. Com a mesma habilidade, buscou, por entre a fiação elétrica, aquela que desarmava o sistema de alarme e as travas das portas. Com outro puxão, os fios romperam.

Ele ouviu o carro destrancar. Suave, sem alarde.

Kurt sorriu.

Ele continuava sendo o mecânico no fim das contas.

Com a mesma discrição, fechou o capô e entrou no carro. Abaixou o banco, para que o vulto de sua sombra aparecesse o menos possível através da janela. Então conectou o pen drive na entrada usb do rádio.

— Pronto — ele confirmou pelo fone de ouvido. — O carro precisa estar ligado para que funcione?

— Não. É até melhor invadir offline. Espera um segundo.

Quase na mesma hora, uma luzinha vermelha começou a piscar do pen drive, indicando sua atividade. Quando Cole disse que agora era só esperar, Kurt deitou no banco, tentando relaxar. Mas não adiantava ignorar o quanto continuava tenso. Afinal, a possibilidade de Carter pegá-lo ali poderia acontecer a qualquer momento. Mas por cima do medo, da incerteza e da insegurança, Kurt tinha decidido: mais valia morrer tentando do que continuar sem fazer nada.

Ele ficou escutando a contagem regressiva de Cole, que contabilizava em voz alta a porcentagem de progresso. Vinte, trinta, quarenta... cinquenta por cento. Parecia uma maneira do próprio Cole de mantê-lo informado e também conectado ao momento, para não entrar em pânico.

Os noventa por cento foram contados de um em um, numa esperança feroz para o fim. Noventa e cinco, noventa e seis, noventa e sete, noventa e oito, noventa e nove...

— Muito bem, Kurt — Cole disse com um sorriso audível em sua voz. — Eu sabia que a gente não tinha errado em confiar em você.

Kurt apertou as marcas de queimadura em seus antebraços tão forte que doeu como se fossem novas.

— Cole... obrigado. De verdade.

— Só agradeça quando isso tudo terminar — Cole disse, tão certo de que encontrariam juntos o encerramento daquilo. — Consegue sair daí e voltar para o salão? Preciso que entregue o pen drive para o Iggy.

Kurt confirmou e fez conforme o pedido. Deixou o Maserati para trás — contando com a certeza de que Ace apagasse os registros da câmera e o arrombamento ficasse parecendo só mais uma armação dos outros muitos homens de P.J. que odiavam Carter. Então voltou pelas escadas para o salão, de volta ao chão macio de carpete, ao som agradável da música ambiente e a animação contagiante dos apostadores.

Depois de algumas voltas no salão, Kurt cochichou para o fone:

— Ele sumiu. Não vejo o Iggy em lugar nenhum.

— O fone dele está transmitindo uma localização pra mim. Espera, vou sincronizar vocês no mapa. — A voz de Cole sumiu por alguns segundos, até voltar. — À sua esquerda. Não consigo saber onde é, mas parece uma sala a mais ou menos 50 metros de distância.

Kurt seguiu as coordenadas com o olhar e viu do que se tratava: um dos camarotes privativos do primeiro andar. Ele não se lembrava de Ace falar para Iggy entrar em nenhum daqueles lugares.

— Tô indo até lá — Kurt informou em movimento, embora Cole já devesse saber, já que o fone tinha um localizador em tempo real.

Depois de uma cortina pesada e impenetrável de veludo vermelha, era preciso passar por um estreito hall com despensa de bebidas para entrar de fato no camarote. Kurt deteve os próprios passos antes disso, se escondendo nas sombras entre a cortina e o hall, quando flagrou Iggy lá dentro, não sozinho.

Junto com ele, na sala privada, estava um dos homens de P.J., alguém que Kurt já tinha visto somente à distância e conhecia seu nome por ser a mesma da cor de seu cabelo arrepiado: Red.

Iggy estava sentado na mesa de sinuca, apoiado nas duas mãos atrás do corpo, uma coxa dobrada na beira da mesa. Parecia muito confortável e sem o capacete, Kurt reconheceu, alarmado. Red mirava o taco numa das bolas que passava por baixo do braço de Iggy, olhando para ele enquanto fazia a tacada. Pareciam estar apostando, mas Kurt não entendia nada.

Quando o taco acertou, a bola rolou, mas errou a caçapa. Apesar disso, Red sorriu, como se tivesse ganhado mesmo assim.

Iggy pulou da mesa e empurrou a pilha de fichas na direção dele.

— Pode ficar — Iggy disse. — E pensa no que eu disse.

Iggy se abaixou para apanhar o capacete deixado sobre o sofá. Kurt viu quando Red seguiu o movimento com os olhos, descendo e subindo pelo corpo de Iggy. Ele não saberia explicar o porquê, mas se sentiu protetivo sobre Iggy naquela hora.

Antes que pudesse fazer qualquer coisa, o loiro já estava saindo da sala e deixando Red sozinho para trás.

No hall, eles se trombaram.

Em silêncio, Iggy seguiu o olhar dele e reconheceu que Kurt esteve encarando a cena. Ele reconheceu a cara fechada de Kurt para Red também.

— Não pense as coisas erradas — Iggy cochichou, em seu tom mordido habitual. — Isso também é pelo Mac.

Kurt fez um gesto indefeso, de quem não tinha dito nada. Iggy então colocou o capacete de volta na cabeça, sumindo por trás da viseira escura.

Antes de saírem, Kurt passou o pen drive para ele. Então se lembrou que Iggy estava indo embora, e que deveria devolver o fone de comunicação também. Um buraco de repente se abriu em seu peito, frustrado e triste de ter que dizer adeus sem poder ir junto.

Iggy ficou esperando com a palma aberta. Kurt fez menção de tirar o fone, mas parou com a mão na orelha antes disso.

— Câmbio, desligo. — Ele sentiu que devia avisar Cole que estava se desligando. Menos pela obrigação, e mais por consideração em não deixá-lo escutando um sinal mudo de repente.

— Kurt — Cole chamou, antes que perdessem a conexão. — Você ainda faz parte disso, ouviu? Você tá com a gente. Não deixe que te digam o contrário. Vamos tirar o sorriso do P.J. com as informações que conseguimos hoje. E você vai estar com a gente para executar tudo. Vamos sair por cima no final. Confirma se entendeu.

Kurt engoliu e deu o seu melhor para fingir que tinha a mesma certeza, quando obviamente não tinha. Mas era algo em que ele estava ficando bom: fingir. Só não sabia até que ponto isso seria bom.



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Bom, as coisas não melhoraram 100% para o Kurt, mas pelo menos agora ele ainda parece ter algum tipo de apoio dentro do bando, né? 👀 vamos ver como isso vai se desenrolar.

No capítulo que vem, vai rolar um misto de sentimentos, altos e baixos bem bruscos. Mas posso garantir que pelo menos uma ceninha de alívio nós vamos ter... hehe.

Voltamos no próximo domingo, dia 08/09. O capítulo 19 já está bem encaminhado, então vai ser sem falta! Vejo vocês, beijos! ♡♡♡



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