16.

Aviso de conteúdo sensível: descrições gráficas de agressão física e trauma por violência intrafamiliar.



O mais estranho foi a demora que levou.

Longos minutos dentro do carro, vendado, amarrado e amordaçado. Sozinho entre estranhos.

Kurt não entendia o que queriam. Se quisessem machucá-lo, já teriam feito. Matá-lo então, vulnerável como estava, teria levado menos tempo ainda. Mas não tentaram nada disso. Os empurrões de Kurt foram ignorados; sua luta corporal não encontrou rebote. Eles só o seguraram no lugar, até se cansar.

Com cada instante em movimento o colocando cada vez mais distante do resto do bando, ele se deu conta aos poucos: aquelas pessoas estavam o tomando, o levando para algum lugar desconhecido, onde dificilmente os outros iriam pensar em procurá-lo.

Monaco. Com raiva, Kurt relembrou a última visão que teve do rosto dele com aquele sorriso odioso, inadequado para quem tinha acabado de perder uma corrida. O que mais ele poderia querer? Logo Monaco: um apostador sujo. Um espião. Um traidor.

Era difícil entender alguma coisa quando tudo passava como um borrão, filtrado pelas restrições de seus sentidos. Seu corpo podia sentir a inércia do carro acelerado. Os nervos de sua pele eram testados pela ventania soprada pelas janelas abertas. Sua visão limitada captava flashes que piscavam pelo pano escuro da venda, luzes difusas da estrada passando em intervalos — talvez outros carros na contramão, talvez apenas postes de rua; não dava para saber.

Kurt tinha se esquecido como era se mover tão rápido dentro de um carro sem estar no controle dele. Desorientador. Ele também havia se esquecido do quanto odiava a impotência disso.

Depois do que pareceu 30 minutos, a mordaça e o capuz passaram a formar uma combinação perigosa, do tipo sufocante. Se antes Kurt estava empenhado em se debater contra seus raptores, agora ele não conseguia nem ao menos gritar mais.

Naquele momento, tudo o que desejou foi ter um pouco mais de ar para respirar. Sobretudo, para não desmaiar. Tudo para estar consciente quando fossem fazer o que quer que fossem querer com ele.

Feito um milagre, um pedido agonizante atendido, o carro parou.

Kurt sacudiu bambo de um lado para o outro quando as portas foram abertas. As molas da suspensão balançaram com o movimento de pessoas saindo, depois com as portas batendo de volta fechadas. Ele foi simplesmente deixado lá dentro.

No súbito silêncio de tudo, com a sensação vazia do assento ao seu redor, Kurt se sentiu sozinho como nunca. Mas a sensação o abandonou quando, enfim, uma mão surgiu do nada e arrancou aquela coisa de sua cabeça.

Mesmo sem o capuz, o ar continuou denso e sufocante, impregnado por uma umidade quente. Kurt lutou para respirar fundo. Piscando lento, seus olhos rolaram, buscando foco, embora ainda fosse noite e houvesse pouca luz.

Alguém se virou do banco do motorista para o banco de trás onde ele estava, o braço esticado para lhe dar tapinhas bruscos em seu rosto, como se precisasse de ajuda para lutar contra a inconsciência que borrava o canto de sua visão.

— Eu não apagaria agora, se você. O que o Mackenzie te dá para ficar aceso? Talvez eu tenha um pouco disso aqui.

A voz assumiu a forma de um rosto branco com um topete punk à sua frente. Kurt desviou do toque ao se dar conta que aquele era Monaco. Antes que uma nova onda de raiva pudesse crescer dentro dele, Kurt olhou pelo ângulo novo que teve da janela.

Foi então que viu onde estavam estacionados.

A simples visão do lado de fora suspendeu sua respiração com um choque; de novo sem ar, como se nunca tivesse se livrado do capuz de fato.

Como ele poderia esquecer aquele lugar? Um bairro à margem da rodovia, num trecho não pavimentado. As ruas empoeiradas e os quintais de grama pisada que nunca crescia. As casas pré-fabricadas de madeira fina e o grande estacionamento de trailers enferrujados sem rodas, há décadas parados no lugar. Um lugar feito de antenas enormes sobre os telhados e fios emaranhados de energia zumbindo pelo ar, ainda preso nos anos 90 com tecnologia velha de TVs de tubo e rádios a fita cassete, pois era o que havia de mais barato. Não existiam bandeiras nacionais por ali, porque ninguém era muito orgulhoso; apenas alguns varais de roupas com uma ou outra camisa esfarrapada bradando contra o vento fraco. Não era a visão que alguém pensava ao ouvir falar da Califórnia, mas era o que as pessoas daquele lugar tinham a oferecer.

Esse lugar era de onde ele vinha.

Esse lugar era sua antiga vida.

Esse lugar era Riverside.

E, em meio ao escuro da noite, lá estava: a silhueta de sua velha casa. Feito um monstro esperando no escuro.

Toda a braveza e valentia de Kurt se desfez, dando lugar a um único sentimento enterrado de fraqueza. Seus ossos começaram a tremer, dos pés à cabeça.

A porta da frente da casa estava aberta, destacada contra a escuridão pela luz vacilante de uma TV ligada lá dentro. Uma sombra humana surgiu, na forma de uma pessoa saindo de lá e descendo as escadas da frente.

De olhos vidrados, Kurt alucinou vendo a si mesmo saindo por aquela porta. Uma versão assustadora de si mesmo, aquela que ele passou a vida inteira com medo de se tornar. O mesmo cabelo. Os mesmos olhos. O mesmo nariz. O mesmo desgaste nas olheiras marcadas. O mesmo mau humor pendurado no canto da boca. Apenas... mais velho.

Seus olhos agora ardiam. Kurt piscou para desfazer a imagem, mas ela continuou lá. Ele estava mesmo vendo aquilo: Antony Young, para alguns. Tony, para outros. Mas para ele, pai.

Como um espelho, seu reflexo indesejado o percebeu dentro do carro e o encarou de volta através do vidro da janela. O mundo inteiro parou junto com o coração de Kurt.

Não havia mais para onde escapar. Ele foi visto. Ele foi pego.

Num estalo, Tony marchou furioso até onde o carro estava estacionado no quintal da frente. Kurt chutou o tapete num gesto desesperado e escorregou para trás, se empurrando para o mais longe que podia. Mas seu pai escancarou a porta como se pudesse arrancá-la e o alcançou mesmo assim.

— Eu disse que ia encontrar você! Seu grande filho da-

No lugar do xingamento, Kurt ouviu um zumbido ao ser atingido pela mão pesada do pai em sua orelha. Sua cabeça bateu contra o vidro, um baque surdo e dolorido. Estando amarrado, autodefesa não era uma escolha; revidar, muito menos. Então, num gesto automático, Kurt fez o que sempre odiou fazer: ele se escolheu e abaixou a cabeça. Covardemente entregue.

Todos aqueles meses e, ainda assim, ele não tinha desaprendido a sentir esse medo.

Um puxão veio pelo ombro, pela manga da camisa, fazendo a gola estrangular na base do pescoço. O murro no meio do peito forçou o ar para fora de seu pulmão. Quando Kurt se dobrou com a dor. O punho de Tony encontrou seu rosto com outro golpe no queixo, que fez seus dentes baterem.

— Olha para mim, seu moleque, enquanto te ensino uma lição!

Mas Kurt espremeu os olhos fechados. Com cada pancada adormecendo seu corpo, sua mente começou a se afastar, fugindo para um lugar fora dali, assistindo como uma experiência extracorpórea. Ele era de novo a criança sozinha do lado de fora de casa, parada no meio do quintal seco, a cabeça ardendo onde seu pai tinha acabado de lhe acertar com a arma, encarando o céu escuro depois de apanhar enquanto, mais longe, os cachorros da rodovia latiam zangados para o mundo. Ele estaria segurando o choro se fosse de chorar. Mas, desde cedo, ele só tinha raiva dentro de si.

Ele queria desaparecer.

Ele deveria desaparecer.

Um puxão em seu cabelo, atrás de sua cabeça, o sacudiu com tanta fúria que seu pescoço poderia quebrar. Aquilo o forçou a voltar para o presente.

— Fiquei pensando no que fazer com você quando essa hora chegasse, mas agora sei que nada é o suficiente. Você tem ideia do que fez? Tem ideia?! — Tony o encarou com o rosto cheio de sombras. Não era sua cara de bêbado, era sua cara de ódio. E com uma crueldade insensível, completou: — Como eu queria que sua mãe tivesse te matado direito.

O punho fechado recuou, para mais uma punição. Mas a voz do banco do motorista interrompeu:

— Ei! Ei! — Monaco gritou, fazendo Kurt se lembrar que não estava, de fato, sozinho com o pai ali. — Já deu. Nada de danificar a mercadoria.

Mas o jeito que dizia aquilo não passava empatia alguma, só a monotonia de quem tinha se entediado.

O aperto de Tony segurando a manga da camisa soltou, encontrando alguma razão nas palavras de Monaco. Kurt aproveitou o ligeiro instante de brecha e se atirou contra a porta do outro lado do banco, de joelhos encolhidos e respiração pesada.

— Me deixa sair! Por favor, me deixa sair! — Sua voz saiu tão tremida e covarde, mas Kurt nem ao menos estava em condições de se odiar por isso. — Eu cubro! Não importa o quanto ele ofereceu, eu pago mais! O quanto quiser! Só me deixar sair!

Para Kurt, não havia dúvida: Monaco e seus comparsas tinham encontrado o anúncio de recompensa que Tony tinha feito por sua cabeça e agora queriam o pagamento. Era a resposta mais óbvia. Ou, pelo menos, devia ser.

A ruga de estranhamento entre as sobrancelhas de Monaco dizia o contrário.

— Eu não quero o seu dinheiro — Monaco rebateu. — Você não sabe mesmo por que está aqui?

Um silêncio tenso pairou sobre o momento. Não havia outra razão. Havia?

O olhar sombrio de Monaco viajou lentamente de Kurt até Tony. Quando Monaco sorriu, daquela mesma forma inadequada de quando perdeu a corrida, Kurt soube que algo estava muito errado.

— Você é mesmo um péssimo pai por não ter contado — Monaco disse para Tony, rindo.

O tom de zombaria provocou outra onda de violência em Tony, que se debruçou sobre a curva do teto para entrar no carro e descontar a raiva em Kurt. Monaco estalou a língua, irritado, e gritou para fora da janela aberta:

— Ace! Dá pra segurar o cara?

Um par de mãos pálidas surgiu, arrastando Tony para trás com uma técnica de imobilização por baixo dos braços. Tony lutou, se debatendo até conseguir se soltar. O outro cara, apesar de alto, era muito mais magro e, apesar de tentar, não era o suficiente para segurar a força de Tony.

Enquanto o cara continuava tentando, Kurt reparou nas roupas que vestia: jaqueta preta com faixas refletivas, calças escuras anti-impacto e coturnos altos. Roupas de motociclista. O reconhecimento caiu como um assombro. Era o mesmo cara que o seguiu com uma moto na outra noite, depois da confusão no bar; o mesmo que filmou sua corrida contra Monaco; o mesmo que não fez nada quando colocaram um capuz sobre sua cabeça e o atiraram dentro daquele carro. Seu cabelo era cor de cobre, liso e comprido, feito um headbanger. Sem o capacete, Kurt agora era capaz de reconhecer o quão mais novo ele parecia.

Ace. Kurt pensou em como Monaco o tinha chamado pelo nome e que, se eles se conheciam, então era só mais alguém em quem não podia confiar.

Vendo a dificuldade de Ace em controlar Tony, Monaco resmungou contrariado e empurrou a porta aberta, chamando por reforços:

— Ei, Carter, vem dar um jeito! A ideia de esperar foi sua!

Kurt não teve tempo de colher mais informações. A porta em suas costas abriu de repente e ele caiu para trás, uma pancada dura que levantou poeira do chão. Monaco apareceu sorrindo bem acima dele e logo começou a arrastá-lo pelo caminho. Kurt tropeçou de joelhos até conseguir se levantar.

Com Monaco o apressando, ele não conseguiu ver o rosto do homem recém-chegado que conseguiu arrastar seu pai com uma impressionante habilidade. Mas Kurt deu uma boa olhada para aquele homem de costas e pensou mais uma vez no nome que ouviu: Carter. Kurt nunca havia conhecido alguém mais forte que o pai.

Não havia nada que Kurt pudesse fazer ao ser levado de volta para a casa de onde tinha fugido. Mas, ao invés de ser empurrado pela porta ainda aberta do imóvel decadente onde a TV piscava ligada, ele se viu sendo forçado por um caminho diferente: as portas de ferro da velha oficina, bem ao lado da casa. O lugar que o criou agora o recebendo de volta.

Ele foi jogado no chão sujo da oficina, sentado de frente para o pai, que agora estava com as mãos amarradas atrás das costas também. Só então Kurt viu o rosto que correspondia ao nome de Carter: traços finos e elegantes; cabelo loiro escuro penteado para trás; um bigode loiro falhado por uma cicatriz que riscava da boca até o queixo. Kurt já tinha o visto antes e pensado como era do tipo de marca que contava uma história.

Por que estava encarando o mesmo gerente do posto de gasolina, onde trabalhou meses atrás? Aquilo tinha sido há muito tempo. Quando ainda não tinha nada: sem a Toca, sem o bando, sem a proposta de Mackenzie. Quando era só um desesperado que tinha acabado de fugir de casa com o carro roubado do pai.

— Roman, fecha a saída — Carter, o gerente do posto, ordenou com seu sotaque estrangeiro. Italiano, provavelmente.

Como ordenado, alguém puxou o portão de aço da oficina com força, fechando todos eles ali dentro. Kurt se virou com o susto e flagrou o último dos comparsas de Monaco, parado ali de braços cruzados. Não podia ser coincidência, porque Kurt também o reconhecia. Um imigrante russo de quase dois metros de altura, com uma barba rala e linhas vermelhas abaixo de seus olhos de pálpebras caídas. Era o dono do estacionamento no centro para quem ele pagou as diárias quando não tinha outro lugar onde dormir, senão dentro do velho Taurus. O mesmo homem que esteve lá, com uma espingarda carregada, quando agressores apareceram para levar o Taurus e ele junto pela recompensa no anúncio de seu pai. O mesmo que o expulsou na ocasião, o fazendo deixar de vez o estacionamento e ir para o deserto, atrás da oferta de Mackenzie.

Ace. Carter. Roman. Nomes novos, rostos antigos.

Tudo doía para fazer sentido.

Fazia menos sentido ainda ver o próprio pai ali, sentado no chão bem à sua frente, simplesmente de cabeça baixa. Kurt se perguntou onde estava aquele Anthony Young que só conhecia a linguagem do grito. Mas, enquanto os outros quatro arrastavam móveis e mudavam as coisas de lugar, mexendo na sua oficina, dentro de sua casa, Tony não ousava interrompê-los. Sem dúvida, ele entendia a situação muito mais do que Kurt; ele sabia algo que Kurt não sabia, o que o deixava com mais medo.

Carter, com toda sua calma calculada, arrastou um banco de rodinhas quebradas até o meio deles e se sentou entre pai e filho. Todos pararam para observar o que ele iria fazer. Alisando o bigode loiro e por cima da cicatriz, ele apenas sorriu.

— Bem, por onde devo começar? — Carter pausou, mas ninguém respondeu, porque a questão não foi para nenhum dos outros. Foi, particularmente, para Kurt. — Que tal assim: Era uma vez... um garoto que pegou um carro que não era dele. E depois disso, sua vida nunca mais foi a mesma. Reconhece esse pedaço da história, ragazzo?

Kurt tremia por inteiro conforme seu coração disparava. Ele não sabia o que devia realmente temer ali. Ele olhou para o pai, não em busca de ajuda, mas para tentar ler alguma resposta em seu rosto. Antony Young levantou o olhar sem levantar o rosto, cheio de uma raiva doentia, mas não ousou dizer nada.

Carter observou entre eles e continuou:

— Ou será que devemos começar um pouco antes... sobre um pai de família com dívidas. Muitas dívidas. Um homem tão desesperado por dinheiro e depois desesperado para pagar de volta quando conseguiu emprestado. Capaz de penhorar tudo o que tem: a casa, o carro... até o próprio filho.

Kurt encarou o rosto de Carter, horrorizado e desconfiado.

— Você já sacou, vero? — Carter se inclinou para frente. — Naquela noite em que você pegou o carro do papai, pensando que estava fugindo... Nada aqui é realmente do seu pai, garoto. Assim como aquele carro não era mais. Naquela noite, nós viemos buscá-lo como parte do pagamento. Mas qual foi a surpresa em ver que outro ladrãozinho tinha chegado primeiro. Então fomos atrás... e vigiamos você. Todas as horas. Todos os dias e semanas. Por todos esses meses. Quer saber por quê? — Carter se divertiu com o silêncio que seguiu. — Por que você tem muitas utilidades para P.J.. Eu soube, desde o início, que você renderia muito mais do que o carro, do que a casa, ou qualquer dinheiro que encontrássemos escondido aqui.

Kurt apertava os dentes tão forte que foi difícil relaxar o suficiente para articular palavras. Mas elas saíram:

— Você está mentindo. Está inventando — ele rosnou baixo, ainda zonzo dentro da própria cabeça. — Você... conhece eles?

A pergunta de tão pouca fé foi para o pai.

— Não me olhe como se tivesse algum direito de me julgar — Antony Young rebateu e apontou com o queixo para a oficina. — De onde acha que vinha o seu trabalho nessa espelunca?

Kurt revirou o passado em sua memória com novas lentes que pintavam tudo de vermelho agora, como um alerta. Os carros esportivos luxuosos que paravam na oficina para que ele consertasse... eram carros dos homens de P.J.? O dinheiro que o alimentou, o vestiu, o criou por anos... era dinheiro de P.J.?

Não. Você- — Kurt engasgou com as próprias palavras, se perdendo. — Você não pode ter vendido tudo para ter o dinheiro deles.

A boca de Tony fez uma curva desdenhosa.

— Vender você foi o mais fácil.

Kurt recuou como se o golpe tivesse sido físico.

— Isso... — Kurt engoliu quadrado, desviando o olhar para não ter que olhar mais para o pai. — Isso não significa nada. Vocês não sabem nada sobre mim. Nenhum de vocês. Eu não sou uma coisa que podem pegar.

Em resposta, Carter respirou fundo e gesticulou com dois dedos para a mesa, onde Ace se sentava calado com suas roupas escuras e lustrosas de motoqueiro, observando por trás da cortina de cabelo comprido.

— As fitas, ragazzo — Carter exigiu com o sotaque carregado.

Obedecendo ao comando, Ace girou um computador portátil sobre a mesa, virando a tela na direção de Kurt, mas de um ângulo que todos podiam ver. Havia um vídeo pausado, apenas com o sinal triangular no meio da tela apagada. Com a luminária da oficina acesa bem acima deles, o reflexo de Kurt se espelhou na tela preta, e ele estranhou as sombras que se projetavam em seu rosto, deixando suas órbitas escuras e suas linhas de expressão carregadas, irreconhecíveis.

Ace logo apertou uma tecla do computador, e o vídeo que começou a rolar ganhou toda a atenção. Era uma montagem de várias gravações, com datas diferentes, horários diferentes, lugares diferentes. Em todas elas, havia a mesma pessoa em foco: Kurt.

— Estivemos assistindo você... — Carter cantarolou. — E tudo que nós vemos, P.J. vê.

As gravações continuaram sem som. Eram muitas delas, Kurt reconheceu espantado. Desde câmeras de mão o flagrando saindo e entrando do carro, até câmeras de segurança o vigiando em lojas de conveniência, supermercados e postos de gasolina.

— Seu moleque burro e inútil! — Tony Young finalmente gritou, chutando na direção de Kurt. — Olha o que você fez! Olha!

— Cale a boca que eu ainda estou falando! — A voz de Carter soou mais alta e imponente. Efetiva o suficiente para fazer Tony se recolher e abaixar o olhar outra vez.

Carter se levantou, empurrando o banco para trás, enquanto o vídeo ainda rolava com as gravações de Kurt, um caleidoscópio confuso de informações. Estalando os dedos, Carter murmurou algo para Roman, o grande imigrante russo recostado junto ao portão fechado, e recebeu uma caixa pesada dele. Kurt perdeu o fôlego quando a luz entrou pela tampa aberta e capturou o brilho do que havia lá dentro: uma arma.

Enquanto encaixava um silenciador na ponta do cano, Carter continuou a história:

— Eu vigiei você por uma semana no posto de gasolina enquanto você esfregava o chão por alguns trocados. No momento certo, mandei você embora, porque lá fora estava o seu carro sem uma das rodas, planejado exatamente para que não saísse do lugar. E adivinha só? Fomos nós também. Foi só um jeito para fazer você percorrer por aquela estrada a pé. Você encontrou algo logo à frente, não encontrou? Um Porsche branco precisando de conserto. E você parou para dar uma olhada. Já que foi você quem consertou o carro do Mackenzie aquele dia, conta pra mim: qual foi o defeito que fez ele ter que parar no meio da pista?

Kurt vacilou, com o queixo tremendo.

— Um tiro... no para-choque — ele pensou alto, mas mal foi um sussurro.

Carter se virou, rindo vanglorioso. A arma em suas mãos oferecia uma sugestão.

— Muito bem — Carter aprovou a resposta. — Foi um tiro leve, o suficiente para o Porsche empacar logo onde você passaria. Nós não tínhamos como garantir que tudo funcionaria, mas tínhamos que tentar. Para a nossa sorte, o Mackenzie realmente não consegue resistir a um garoto bonito e solitário, consegue?

Kurt balançava a cabeça, tentando negar a legitimidade daquela versão da história. Mas tudo fazia um doloroso sentido. Mac tinha reagido tão violento à sua aproximação, tão desconfiado de sua intenção, tão certo de que ele tinha sido enviado por alguém.

Não, não, não... Kurt começou a repetir dentro da própria cabeça.

— Quando você escolheu um lugar para passar as noites com o carro, depois de fugir de casa, — Carter continuou, tranquilo como se nada daquilo representasse nenhum peso — nosso Roman aqui assumiu o comando do estacionamento para controlar quando você entrava e saía. Até que, num belo dia, Roman pressionou você a sair, o que forçou você a ir pro deserto à noite, não foi?

Ele não devia saber de tanta coisa, com tantos detalhes, Kurt pensou com raiva, desespero e impotência.

— Você conheceu Monaco nos rachas, é claro. Mas não era só ele que estava lá. Nosso Ace... — Carter gesticulou vagamente com a arma na direção do rapaz de cabelo comprido atrás do computador — ele esteve infiltrado entre as corridas. Tudo para filmar sua evolução.

Kurt encarou indignado entre as filmagens na tela e o rapaz atrás dela. Por covardia ou qualquer outra razão, Ace desviou o olhar, se afundando na cadeira atrás da mesa.

Carter deu alguns passos devagar, até que parou. De pé, com bons centímetros de altura em vantagem, o italiano olhou para baixo e deu mais um de seus sorrisos para Kurt, inspirando uma satisfação genuína. Um pai orgulhoso que Kurt nunca teve.

— Ficamos muito felizes com cada passo que você deu, cada vez mais perto de Mackenzie e para dentro do círculo dele. — E, com uma calma sádica, Carter ditou cada palavra com um sabor individual: — Nosso pequeno peão funcionou tão bem. Meus parabéns!

O estômago de Kurt se revirou. Ele poderia vomitar ali mesmo. No lugar disso, ele cuspiu aos pés de Carter.

— Não sou peão nenhum. Não sou nada de vocês! — Ele gritou, fazendo a pressão dentro de sua cabeça aumentar, pulsando de dor.

Carter se divertiu com o desespero dele.

— Ah, você é. Nosso jovem espião. Assim como Monaco também foi. Só que dessa vez é muito melhor. Porque você nem ao menos sabia. Tem ideia disso? — Carter soltou uma gargalhada. — Todo esse tempo sendo usado por P.J., e em nenhum momento você disse nada... porque simplesmente não sabia. Ficamos realmente orgulhosos.

— Pare de brincar comigo — Kurt se recusava a acreditar.

— Eu pareço estar brincando pra você? — Carter o encarou com a arma em mãos. — Então aqui vai: não só como prova, mas como uma cortesia por todo o serviço que você tem prestado, P.J. quer fazer um favor a você. Um gesto de retribuição para demonstrar como estamos do mesmo lado, capiche?

Num momento, o italiano estava sorrindo; no outro, seu rosto assumiu uma expressão vazia. A arma em sua mão traçou um arco no ar até parar apontada para a cabeça de alguém.

Kurt se encolheu. Mas aquela não era sua cabeça. Era a cabeça de Antony Young.

— Em outra oportunidade, até poderíamos deixar você mesmo fazer isso... — Carter deu de ombros, despreocupado. — Mas não podemos permitir que você tenha uma arma ainda.

Antony Young não podia realmente enxergar o cano da arma naquele ângulo atrás de sua cabeça, mas sem dúvida podia senti-la, porque agora ele tinha uma expressão desesperada. Uma enervante certeza da morte.

— Isso é sua culpa — Tony rosnou, encarando Kurt com olhos marcados por fortes veias vermelhas. — Eu fiz quem você é. Tudo o que você sabe: trabalhar, consertar, dirigir. Você me deve tudo. E é assim que você me paga, moleque filho da-

— Diga: "Tchau, papai" — a voz de Carter interrompeu e, junto dela, o som do tiro.

Um BAM!

Grave, seco e curto.

O silenciador serviu para reduzir o volume, mas não o impacto. De olhos arregalados, Kurt viu o corpo cair à sua frente com a cabeça aberta. Ele sentiu os respingos quentes grudados por sua pele gelada, mas não conseguia se mexer para verificar. Paralisado, tudo o que via era a oficina manchada. As paredes de sua infância, que por tanto tempo foram sujas apenas de graxa e suor, agora pintadas de vermelho; não com o sangue dele, como sempre imaginou, mas com o de seu pai, morto em seu lugar.

O tempo parou, congelado junto com ele. Kurt não se deu conta que tinha entrado em completo choque até Carter se agachar à sua frente, tomando a visão de seu pai. Os outros se moviam ao redor, desfazendo a cena: Ace fechou a tampa do computador e se levantou, Monaco se espreguiçou bocejando e rodeando para a saída, enquanto Roman levantava de novo o portão de aço da oficina, para que saíssem. Ninguém mal se importava com o corpo ou com o sangue. O território era deles, de qualquer forma, e podiam fazer o que quisessem. A casa, a oficina... até ele, Kurt repetiu em sua mente o que tinha ouvido.

Benissimo — Carter parabenizou. — Agora parece que você está começando a entender a quem pertence de verdade.

Ainda de mãos atadas atrás das costas, Kurt o olhou com olhos vazios e abriu a boca. Mas sua voz demorou a encontrar o caminho pela garganta seca.

— O que ainda querem de mim? — Seu sussurro saiu cheio de uma incompreensão dolorosa do porquê Carter ainda estava segurando aquela arma e não tinha dado um fim igual ao pai para ele.

No lugar de uma resposta, veio um sorriso perverso. E então Kurt se viu sendo içado para cima pelas cordas ao redor dos pulsos, cambaleando de pé, empurrado pelas costas para seguir aquelas pessoas para fora do primeiro lugar que aprendeu a conhecer como familiar.

Ele não sabia dizer quando foi que desmaiou. Mas, de repente, acordou em outro lugar.

A temperatura foi quem deu o primeiro sinal. Estava frio de um jeito artificial que só um ar condicionado faria. Com a consciência voltando devagar, Kurt rolou os olhos ao redor, descobrindo coisa por coisa.

Debaixo dele, uma cama de veludo, rodeada por um dossel feito de seda escura. Acima, um grande espelho pelo teto inteiro. Kurt se viu encarando a si mesmo, espalhado pelo colchão ainda com as roupas sociais que o bando havia escolhido para ele ir à festa em Little Tokyo; uma noite antes que agora parecia tão distante. Ele também tinha roxos na cara e respingos de sangue imprimidos não só no tecido da roupa, como em sua carne também. Marcas que seriam difíceis de lavar. As últimas coisas que o pai havia deixado para ele. Obrigado pelo grande presente.

O cômodo em si era um quarto de dois níveis, com colunas clássicas e teto de gesso esculpido. Papel de parede e carpete cobriam tudo com uma camada superficial de vaidade. Nenhuma janela à vista, mas um monte de pinturas com ricas paisagens fazia uma exibição. Três degraus levavam ao segundo nível mais baixo, onde uma jacuzzi foi construída no chão de madeira, próxima a uma moderna lareira elétrica.

À direita da cama, duas portas abertas: uma levava a um banheiro privado; a outra, a um closet caro, com prateleiras de vidro. À esquerda, um mini bar rodeava mesas de jogos, brilhando com prateleiras cromadas e garrafas suspensas numa adega.

Todos os cantos vazios, a não ser por ele ali no meio. Kurt realmente não entendia o que estava fazendo num quarto tão luxuoso.

Devagar, apalpou os bolsos. Vazios. Sem celular, sem carteira, sem chaves.

Quando o barulho de uma porta fora de vista estalou no ar, Kurt se levantou depressa, ainda que tonto. Pelo corredor do outro lado do cômodo, Monaco entrou girando um molho de chaves ao redor do dedo. Ele parou no arco da entrada, intrigado pela pose assustada de Kurt.

— Nem depois de apagar você não consegue relaxar? — Monaco ironizou.

— Que merda de lugar é esse? — Kurt o cortou, retomando a raiva de antes, como se tivessem pulado do fim daquela corrida à beira do rio Los Angeles direto para aquele quarto. O resto permanecia como um sonho febril distante, afastado no fundo da mente.

— Qual foi? Não tá curtindo?

— Quero saber porque me enfiaram aqui com tudo isso — Kurt insistiu impaciente.

— O quê? Pensou que te jogaríamos numa caverna ou algo assim? Não, não... — Monaco riu sozinho e circulou o frigobar do minibar, onde havia uma cesta de frutas frescas por cima. Ele pegou uma ameixa e a lustrou contra a camisa antes de mordê-la. — A melhor suíte para o volante de ouro!

Ele respondeu de boca cheia de forma exaltada, cheio de gestos para o quarto pomposo. Kurt esperou por uma ironia que revelasse a verdadeira intenção, mas não veio nenhuma. Monaco apenas acenou, confirmando:

— Acredite em mim quando digo que P.J. está realmente querendo te agradar, irmão. — Finalizando em outras duas mordidas, Monaco brincou de acertar o caroço na lixeira automática e limpou os dedos no estofado de uma poltrona. — Eu demorei a receber metade disso aqui, se quer saber. Todo esse conforto? Tsc.. mimado demais. Aposto que o Mackenzie nunca te deu isso.

Kurt sentiu uma nova onda de raiva. Ele nunca pediu nada disso, e agora tinha que se mostrar grato? Nesse caso, uma caverna teria sido melhor.

— Onde estão minhas coisas? — Kurt tentou sondar suas chances de recuperá-las e sair dali o mais rápido possível. — Minhas chaves? Minha carteira? Meu carro?

— Primeiro de tudo: não tem nada seu. É nosso. Ou melhor... de P.J. Ainda não entendeu? Você é um peão, amigo. — Monaco bateu por cima da tatuagem com a peça de xadrez em seu ombro com uma força orgulhosa. — Tudo o que você conquistou naquele grupinho do Mac foi para, no fim, fornecer a P.J. Incluindo as chaves, as senhas, os registros, e toda forma de acesso ao mundinho do Mackenzie.

O sangue nas veias de Kurt reagiu primeiro, subindo pelo pescoço até o rosto, quente e acelerado.

— Do que você tá falando? — A pergunta saiu murmurada primeiro. Mas, antes que pudesse pensar direito, Kurt já estava dando a volta pela cama king size e marchando com punhos fechados até Monaco. O resto do apelo saiu mais alto e mais forte: — O que vão fazer com as minhas coisas?!

Monaco rapidamente se afastou, colocando a mesa de jogos como uma barreira entre eles.

— A partir daqui isso não é mais da sua conta. Os dias de espião se foram. Seu papel é outro agora — Monaco respondeu.

— O que vocês ainda querem comigo?! — A voz de Kurt ganhou uma nota de exaustão por cima da raiva.

— Não é sobre o que nós queremos. É sobre o que P.J. quer.

— E o que é?

Monaco abriu um sorriso irritante.

— Você como motorista.

Kurt esperou pelas risadas, mas um momento de silêncio se suspendeu. Não era uma piada.

— O quê? — Ele contorceu o rosto, incrédulo.

— Você dirige para P.J. agora — Monaco repetiu devagar e silábico, como se para uma criança em aprendizado. — Aqui é seu lugar. Você fica aqui com a gente e dirige para onde for mandado. Esse é seu lado da história agora. Sempre foi. Você só está enxergando agora. Com o tempo, vai aprender a gostar, eu garanto.

A visão de Kurt ficou vermelha. Quando voltou a si, ele já estava montado sobre Monaco caído no carpete, segurando a gola da camisa com uma mão e investindo o punho em sua bochecha com a outra. O soco fez barulho uma vez, antes que Monaco reagisse, empurrando e rolando para o lado. Kurt caiu sobre os cotovelos, respirando pesado.

— Tente fazer isso de novo e sua mordomia acaba aqui! — Monaco gritou, massageando a linha do queixo e testando a abertura da boca duas vezes. — Não é porque você é o volante de ouro de P.J. agora que eu não possa acabar com você com uma desculpa de "disciplina".

— Pare de me chamar disso! — Kurt rebateu, sem se importar em se levantar. — Eu não sou nada de P.J.! Eu não trabalho com vocês! Eu não sou como vocês! Acabem logo comigo se acham que vou fazer qualquer coisa dessas.

Ser um dos homens de P.J.... Era algo que jamais passaria pela cabeça de Kurt, e não podia acreditar que estavam querendo forçá-lo àquilo. Ele não saberia contar quantas vezes já tinha corrido pelo bando de Mackenzie, quantas vezes já tinha sido visto lado a lado com o Porsche branco nas ruas. Todos sabiam a quem ele pertencia. Aquela exigência ia além de uma violação pessoal. Era uma ordem para que Kurt fosse um traidor.

Mas Monaco se limitou a apenas revirar os olhos e suspirar, entediado.

— Quer saber? Foda-se. Tenho mais o que fazer — ele anunciou, se retirando de volta pelo corredor por onde entrou. Quando Kurt tropeçou pelo caminho atrás dele, Monaco se virou apontando o dedo para o seu rosto, antes que o seguisse para a porta. — Você fica aqui. Enquanto não se comportar, vai ficar aí, pensando na chance que P.J. te deu, e no privilégio que está recebendo. Muitos de nós estaria se matando para ter isso.

Kurt parou no lugar, respirando pesado, e xingou um:

— Vá se foder.

Monaco reprovou com um gesto de cabeça.

— Você realmente deveria aproveitar enquanto P.J. está sendo legal — Monaco acrescentou.

— Pra quê? Pra acabar como meu pai? — Kurt esfregou a boca que de repente sentiu muito amarga. — Isso já me diz o bastante sobre o que significa estar do lado de P.J.. Então, não, muito obrigado.

A expressão de Monaco se contorceu.

— Não seja ingrato. Aquilo foi um favor! — Monaco exclamou com a certeza de quem acreditava no que dizia. — P.J. sabia o quanto você queria se livrar daquela sombra do passado. E P.J. te deu o que você queria! Vai dizer que você sente muito pelo papai agora? Eu acho que não.

— Desde quando P.J. sabe qualquer coisa sobre o que eu quero ou o que eu penso? — Kurt mastigou as palavras contrariado.

Um riso seco depois, Monaco voltou a sorrir daquela forma soberba.

— Pode ter certeza que P.J. estudou você com um cuidado especial. Você vai descobrir que tudo aqui dentro foi colocado para se encaixar bem com você. — Monaco gesticulou desde o closet cheio de roupas até as opções de bebidas dispostas no minibar. De relance, Kurt reconheceu algumas de suas marcas de referência. — P.J. sempre assiste e sempre sabe.

Quando Monaco saiu, Kurt esmurrou a porta uma vez, depois caiu sentado contra ela.

Embora tivesse recebido tanto luxo, ele ficou trancado no quarto pelo o que pareceu um dia inteiro. Os únicos contatos com o lado de fora foram as vezes que recebeu comida. Mas era sempre Monaco que trazia a bandeja, o que Kurt se recusava a aceitar.

Mesmo que estivesse ficando faminto, o enjoo era maior.

As lembranças voltavam a cada vez que ele fechava os olhos, gravadas atrás das pálpebras. O tiro. O sangue. O som do corpo caindo. O pai morto a sangue frio. Tony Young não faria falta alguma e tinha passado de seu pior medo para um fantasma que não podia mais alcançá-lo. Mas isso também criava uma lacuna vaga na mente de Kurt. Aquele lugar de medo agora era ocupado por P.J.

P.J., quem acreditava que o possuía. E talvez estivesse certo. Kurt não tinha se livrado, no fim das contas; só trocado um monstro por outro.

Kurt ficou imaginando como, em qualquer possível situação, Mackenzie poderia ter, alguma vez, estado do lado de P.J., ocupando aquele papel de motorista de P.J., e pior: se colocado na frente de uma bala por P.J., de uma maneira que o danificaria para sempre. Mac seria capaz de entender se o visse naquela posição difícil agora?

Seu pensamento ruminando o impediu de dormir, somando horas e horas. Sem janelas, telefone ou televisão, a única certeza de que tinha se passado três dias era o despertador analógico ao lado da cama, que sinalizou meia-noite três vezes.

Por mais quanto tempo o deixariam ali?

Sem energia, Kurt se agachou debaixo do chuveiro ligado e tombou a cabeça, tocando o peito com o queixo, enquanto a água gelada escorria e deixava seu corpo tão anestesiado quanto a mente. Um ruído na porta o despertou. Ele levantou a cabeça encharcada para encontrar um rapaz magro e de cabelo longo, parado feito um agente funerário na entrada aberta do banheiro.

Merda. Desculpa — Ace se retratou sem graça por encontrá-lo nu e se virou de costas, ainda sem sair do lugar. — Eu vou... esperar aqui fora até você acabar.

Ace teve a consideração de fechar a porta ao sair.

Kurt não reagiu com emoção alguma. Tampouco se apressou em terminar. Só se levantou quando se deu conta que tinham enviado Ace dessa vez, não Monaco. A mudança deveria significar alguma coisa.

Ele saiu de cabelo molhado, usando uma das roupas que havia no closet. Um suéter liso preto e calças jeans escuras, ainda com etiquetas novas, comprado com sua numeração exata. Era odiosa a ideia de P.J. o vestindo da maneira como queria, feito um boneco ou um fantoche, mas não era como se houvesse opções. As roupas marcadas de sangue com que chegou ali ele preferia queimar.

Assim que parou recostado numa das pilastras de braços cruzados, Kurt estudou o outro rapaz, sentado na beira da mesa de jogos.

— Cadê o Monaco? — A voz de Kurt reverberou pelo quarto.

Ace levantou a cabeça surpreendido. A cortina de cabelo liso deslizou da frente de seu rosto tenso.

— Foi decidido que ele não era o melhor para te situar por aqui. — A resposta soou mecânica, como se tivesse sido uma fala decorada de outra pessoa.

— Não me diga — Kurt soltou um riso seco e sem humor. — E quem é melhor? Você?

Ace piscou em silêncio. Talvez não tivesse decorado uma resposta para isso.

Então Kurt continuou:

— Eu não vou com a sua cara muito menos. — Kurt não tentou ser educado. — Com a nenhuma de vocês.

Embora Ace não o incitasse a querer começar uma briga, como Monaco sempre fazia, isso não mudava o fato de que Kurt não estava disposto a ceder nem um pouco.

— Bem... no momento, eu sou o único que pode te levar para fora daqui — Ace respondeu, dessa vez com alguma autenticidade na voz. Uma resposta honesta de alguém que estava tentando negociar. — É sua escolha colaborar. Se não for comigo... o próximo na fila a aparecer vai ser o Carter.

Pareceu como um conselho, não uma ameaça. Kurt engoliu, se lembrando do italiano armado, sujo com o sangue de seu pai.

Acima de tudo, ele precisava agir com inteligência. Entre se revoltar e ficar trancado por mais sabe-se lá quantos dias, ou se controlar para traçar uma estratégia mais esperta, ele pacientemente escolheu a segunda opção. Por sorte, Ace não era tão provocativo quanto Monaco, e tinha um rosto menos socável.

— Então... eu me comporto e você abre a porta pra mim. É assim que vai ser? — Kurt testou para ver até onde iriam os limites.

Ace tinha se levantado e se virado a caminho até a saída, mas parou e olhou para trás. Seu silêncio durou um instante a mais, observando quieto. Como se adivinhasse exatamente o que se passava pela mente de Kurt, Ace respondeu:

— Você não pode correr. Não dá pra fugir. Sinto muito. — De novo, não soou como uma ameaça. Era mais como se quisesse de fato dizer aquilo. Então ele apontou com a cabeça para o corredor, incentivando Kurt a sair do lugar. — Por aqui.

A porta principal tinha uma fechadura eletrônica que só abria com um cartão magnético. Tão rápido quanto apareceu, o cartão sumiu de volta no bolso de Ace, sem tempo para que Kurt pudesse ver como se parecia. Mas quanto a saída finalmente se abriu, não havia mais nada que ele estivesse interessado a não ser ver como o lado de fora se parecia.

Eles saíram num longo corredor coberto de carpete vermelho, cercado por paredes ornamentadas de detalhes dourados e lustres de cristais pendurados no alto. Numerosas outras portas como a dele se estendiam para a esquerda e para a direita.

Imediatamente, o som de muitas vozes surgiu, fazendo Kurt perceber o quanto o isolamento acústico do quarto era eficiente, por não ter ouvido nada antes.

Havia dezenas de pessoas cruzando o corredor. Todos homens, jovens e se vestindo como ele: roupas escuras que se misturavam fácil nas sombras. Assim que pisou para fora, Kurt recebeu olhares de lado, espiadas seguidas de cochichos. Ele fechou ainda mais a cara. Não esperava que outras pessoas o vissem ali. E se rumores se espalhassem? E se Mac ou o bando escutassem com maus ouvidos? Kurt sentiu uma urgente necessidade de sair de vez dali.

— Decore isso — Ace chamou a atenção de volta. Kurt se virou para ver do que se tratava e o viu apontando para uma placa de metal dourado pregada na porta. V-10, ela indicava. — É o seu quarto. Para quando precisar voltar.

Kurt odiou a possibilidade de ter que precisar ficar ali de novo.

Enquanto Ace seguia pela esquerda, Kurt foi atrás, reparando na sequência de portas. A contagem continuava até o V-20, onde eles viraram para a saída no fim do corredor. Pela lógica alfabética, Kurt imaginou que deveria haver outros corredores como aquele, em outros andares, com mais letras e mais números. Pelo menos outros seis corredores. Pelos menos outros 440 quartos. Aquilo só podia ser um hotel, e dos grandes. Kurt tentou recordar se já teria cruzado com algum prédio desse para tentar adivinhar a localização, mas a ideia não se encaixava em nenhum dos espaços limitados e superpopulosos que já havia estado na Califórnia.

Eles entraram num grande hall. Várias portas duplas de elevador cintilavam sob as luzes. Os painéis de indicação dos andares mostravam que havia tantas letras quanto Kurt havia imaginado e incluído na conta. Eles passaram por mais um bando de homens de preto, que não paravam de olhar, analisando Kurt como se ele fosse a ameaça. Depois entraram sozinhos num elevador que esperava no andar. Quando as portas se fecharam e todos os murmúrios finalmente foram abafados, Kurt pode respirar aliviado.

— Pra onde tá me levando? — Kurt tentou antecipar o que viria a seguir.

— Pra conhecer esse lugar e como as coisas funcionam. Antes do seu teste. — Ace disse olhando para a frente e apertou a tecla do subsolo.

— Teste? Que tipo de teste? Agora?

— À noite. É sempre à noite. — O elevador enfim arrancou, os levando para baixo. — Vai ser uma forma de confirmar que você respeita sua nova posição agora e que está comprometido. Você só vai ter que dirigir. Pelo o que já vi de você nos rachas, não vai ser difícil. Mas tem que fazer do jeito certo.

— E qual o "jeito certo"? — Kurt se irritou pela ironia da coisa. Não havia nada certo naquilo tudo.

— Sem vacilar e sem gracinhas. Chegar e sair tão rápido que mal consigam te ver. Já foi piloto de fuga antes?

Kurt hesitou.

— Vou precisar fugir do que, exatamente?

Ace ficou em silêncio. Talvez não estivesse autorizado a aprofundar na questão.

Kurt esfregou o rosto com força e murmurou um palavrão abafado para o ar.

Faltava pouco para passarem do nível do térreo. Nervoso com o som de "PLIM" a cada andar, Kurt pensou que estava recebendo um tratamento de silêncio, até que ouviu:

— Sei que não tem motivo algum para confiar em mim — Ace disse, ainda sem olhar para ele, o rosto sempre reto para frente. — Mas, se eu fosse você, só agiria de acordo com o plano que me dessem. Se você simplesmente fizer o que for dito para fazer, eles te deixam em paz... ou o mais próximo disso.

Kurt o observou pelos últimos segundos quietos que tinham dentro do elevador, estudando suas palavras.

— Está falando de um lugar de experiência própria ou...? — Kurt questionou.

Por um instante, Ace olhou para baixo, o cabelo escorrido se intrometendo na frente do rosto.

— Talvez — foi sua última palavra antes das portas deslizarem abertas.

O barulho que encontrou fora do quarto antes nem se comparava com aquele ali agora: o de pneus cantando.

Eles saíram num estacionamento subterrâneo, onde a única luz, branca e fria, vinha de lâmpadas fluorescentes tubulares. Um brilho neon e borrado. Por entre pilastras de concreto, sem nenhuma placa indicando para reduzir, carros esportivos aceleravam, disparando de um canto a outro e derrapando em curvas perigosas. Kurt assistiu sem piscar às manobras inconsequentes que faziam as traseiras se chocarem nas quinas de concreto e as laterais rasparem até saírem cheias de arranhões.

Subindo por uma rampa em espiral, os carros aceleravam para os andares superiores do estacionamento. O barulho da borracha rangendo contra o cimento cru soava feito um conjunto de gritos.

— Aqui é o bunker, o playground da casa — Ace se aproximou para ser ouvido por cima do ruído.

Kurt olhou para cima atordoado, seguindo o movimento espiralado de três modelos japoneses que giravam pela rampa caracol até em cima.

— Todos esses carros... — Kurt começou, mas perdeu as palavras.

Pela visão panorâmica, Kurt foi capaz de enxergar as inúmeras vagas do estacionamento, ocupadas por incontáveis veículos. Todos escuros por tinta preta e películas de vidro ilegais. O mesmo exato padrão do carro que Monaco aparecia dirigindo nos rachas. Assim como a lógica da sequência dos quartos se repetindo nos outros andares, ele imaginou o número de veículos se multiplicando pelos outros níveis do estacionamento.

Uma frota inteira com dezenas de carros pretos. Tudo a serviço de uma cabeça só.

Era P.J. quem tinha tudo isso, ele se lembrou.

Com tantos carros e homens, P.J. não precisava dele como reforço de nada. Provavelmente só queria tê-lo, no sentido mais ganancioso da palavra. Feito um brinquedo colecionável.

— Você vai poder ter o seu de volta — Ace tentou responder a fala interrompida. Voltando a mente para o lugar, Kurt demorou para entender que ele estava falando do Camaro. O seu Camaro. — Mas não fala pra ninguém que eu disse isso. Só vai deixar as coisas mais difíceis pra você. Melhor agir como se não se importasse.

Kurt se recusava a enxergar alguma gentileza naqueles conselhos. Ace continuava sendo o cara que o seguiu e o filmou escondido. Os olhos diretos de P.J.

Sem ter mais para onde ir, ele seguiu o rapaz por entre os carros estacionados e o barulho dos que corriam. Alguns outros motoristas os observavam passar, mas seus comentários se perdiam nos ecos dos pneus. Ace não parou para falar com nenhum deles, então Kurt também não fez questão.

— Aqui é onde geralmente todos vêm para se conhecer, mas não de um jeito... amigável. É sobre se apresentar e conquistar um lugar na escala de respeito — Ace continuou explicando conforme se afastavam da algazarra, por um corredor mais parecido com um túnel, rumo a uma saída de emergência no topo de uma escadaria de concreto. — Os veteranos desafiam e os novatos tem que se provar. Mas você não vai precisar disso. P.J. já determinou que você já tem lugar com a gente.

A gente, Kurt considerou. Ace. Roman. Monaco. Carter. Eles tinham que estar brincando se achavam que iria se encaixar.

— De verdade, que lugar é esse? — Kurt deixou a questão escapar, estressado além da conta para encontrar um jeito de sair.

Ace olhou uma vez para ele por cima do ombro, depois uma vez para a câmera de segurança no alto da porta corta-fogo da saída de emergência, onde pararam.

— Você vai ver. Mas lembra do que eu disse: você não pode correr e não tem para onde fugir. Não complique as coisas pra você nem pra mim.

E com um puxão das mãos magras acostumadas ao peso, a porta de ferro abriu passagem.

Kurt foi atingido por uma confusão de conversas, música e risos de comemoração. Os sons de roletas girando e de dados rolando predominavam numa cacofonia de BLINGS! e TINGS! e PINGS!, rodeado por incontáveis mesas de jogos, máquinas de caça-níquel e palcos de pole dance com shows simultâneos, ao longo de um imenso e luxuoso salão.

A ficha de Kurt caiu aos poucos.

Aquilo não era simplesmente um hotel; era um cassino.

Um lugar feito para a sorte, mas Kurt tinha sido moldado para o azar.

Ele foi arrastado por Ace por entre dançarinas fantasiadas de plumas, strippers musculosos de gravatas borboleta, jogadores barulhentos cheios de gestos para disfarçar trapaças, e negociantes varrendo mesas enquanto anunciavam as próximas apostas. Fichas e notas de dinheiros saltavam por todos os lados.

Foi a última peça necessária para saber onde estava. Ele subiu pelos andares de camarotes até uma das varandas para fumantes apenas para confirmar o que já se passava por sua mente. A área reservada era escondida por cortinas de teatro pesadas. Era um dos poucos acessos do cassino para o lado de fora. E a visão que Kurt encontrou lá fez seu coração apertar.

Era dia. Banhado pela luz febril que levantava ondas de calor da terra, Kurt reconheceu o mar de areia que temeu que não veria mais por um bom tempo.

Como imaginava, aquilo era Las Vegas. Estavam em Nevada.

Do outro lado daquela terra desértica, há alguns quilômetros de distância e com uma fronteira estadual entre eles — surpreendentemente perto, mas dolorosamente longe — estaria a Toca.

Por todo esse tempo, P.J. e seus homens sempre estiveram tão próximos. Na sua vida. Na sua casa. E também no deserto.

Sempre à espreita.

.

.

.

Uma das razões para ter demorado tanto a voltar a atualizar essa história é porque esse capítulo foi um dos mais difíceis de reescrever. É uma virada na história que já desagradou alguns leitores no passado, então eu fiquei super nervosa em tentar fazer melhor dessa vez, em ser pelo menos mais convincente, rs. Além disso... reescrever esse livro como um todo está sendo mais difícil do que eu pensava. Então por isso que muitas vezes eu agarro numas partes e demoro meses para sair. Mas saibam que estou sempre daqui tentando escrever a melhor versão que posso para oferecer essa história para vocês. ♡

Como disse lá no início do livro, essa é uma versão em andamento ainda, para testar coisas novas, explorar alguns escolhas diferentes e desenvolver a história melhor. Vocês literalmente estão acompanhando enquanto escrevo e contribuem muito com os comentários, para eu saber o que estão mais gostando e onde preciso continuar ajustando ainda. O interesse de vocês também me ajuda muito em questão de motivação para continuar tentando, porque olha... persistir é a parte mais difícil, pra ser sincera kk. Agradeço muito pelas mensagens que recebo enquanto estou ausente aqui, por me motivarem sempre. Dentro dos capítulos também, não deixem de dizer o que estão achando, tá bom? Uma palavrinha só muitas vezes já muda tudo pra mim. ♡

Por último, só queria anunciar que estou abrindo uma pesquisa entre os leitores de Colisão, para saber sobre o interesse de vocês sobre uma possível versão física do livro, quando ele for finalizado e lançado oficialmente. É um formulário com perguntas básicas sobre preços, brindes e financiamento. Só de responder, vocês já me ajudam a entender quantas pessoas se interessam e de quais formas posso tornar a ideia viável.

O link para o formulário está anexado no link externo aqui do Wattpad. Quem tiver dificuldade de encontrar, pode acessar também através do carrd da história. É só digitar no seu navegador e acessar: colisao.carrd.co (tem um botão no fim da página com link para o formulário).

No mais, muito obrigada a quem leu até aqui!

Os próximos 3 capítulos já estão prontos e revisados, então garanto que ao menos pelos próximos 3 domingos vai acontecer nossa atualização semanal de sempre (mas estarei trabalhando para continuar o fluxo constante também depois disso! Torçam por mim kk).

Então vejo vocês na semana que vem, no dia 25/08, com o capítulo 17 sem falta! Até lá ♡♡♡

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