Rose, a desconhecida



   Depois de beberem o liquido doce e espesso preparado por Seline, esta constatou que ambos deveriam estar bastante cansados, e que era altura de dormir.

   Sendo assim, Jack desejou a ambas um "boa noite" e caminhou para fora da cozinha, desaparecendo no longo corredor.

-Eu sei que tudo isto deve ser muito confuso para ti querida, e acredito que, assim como Jack, também precises de descansar. Esta mansão tem demasiados quartos para a quantidade de pessoas que aqui vivem. Vem comigo. Vou levar-te ao teu novo quarto.-e dito isto, a mulher começou a caminhar pelo corredor, com Rose em seu alcanço. Subiram três lances de escadas, até chegaram a um corredor parecido com o anterior, mas, desta vez com, no mínimo, cinco portas de madeira escura. Seline percorreu o corredor, sem fazer barulho, até à última porta, no fundo do corredor.

  Abriu-a e deixou espaço para que Rose entrasse.

  O quarto não era muito grande, mas era mais do que o suficiente para a pequena jovem de cabelos escuros rebeldes, que com algum receio, adentrou a divisão, olhando ao redor. Um armário bonito, com detalhes dourados, embutido na parede, uma cama de casal de madeira trabalhada, colocada em frente a uma ampla janela, com vista para o jardim, chão, também de madeira envernizada e paredes de tijolo cinzento. Tudo era bastante belo e antigo. Rose estava fascinada.

  Depois da mulher perceber que a rapariga estava "instalada", fechou a porta desejando-lhe bons sonhos.

  Estava sozinha novamente.

  Deitou-se na cama e por incrível que pareça, adormeceu instantaneamente. Ao que parece, morrer cansa.

  Acordou no dia seguinte um pouco sobressaltada. Por breves momentos, esquecera-se de tudo o que se tinha passado antes de fechar os olhos, neste novo "mundo", onde fazia agora parte de um grupo de mortos fora da lei, que tinham formado uma espécie de clube para se protegerem das injustiças, que até na vida após a morte se faziam sentir.

  Saiu lentamente da cama, calçou as sabrinas brancas que usava (apenas agora se tinha dado conta das suas vestes: um vestido branco com mangas delicadas que desciam até aos cotovelos e umas sabrinas, também brancas, bastante simples) e olhou pela janela.

  Lá fora estava um dia cinzento. A luz fraca e melancólica, mal chegava para iluminar, com nitidez, todos os cantos da divisão. Rose não pretendia sair do quarto tão cedo. Num mundo completamente desconhecido, onde se encontrava sozinha, numa mansão cheia de gente morta e desconhecida, a última coisa que pretendia era deslizar pela porta e dar de caras com algo com que não estava familiarizada. Devido a estes factores, voltou a deitar-se na cama, olhando para o teto, com a esperança de que Jackson O'Connor ou Seline Donavon aparecessem à porta, para chamá-la para a refeição.

  Passaram cerca de trinta minutos, quando uma batida na porta fez a rapariga se levantar um tanto assustada.

-Rose? -era Jack, pensou aliviada,

-Só um momento. -levantou-se da cama, ajustou o vestido e abriu a porta

- Vim ver se já estavas acordada... Estão todos lá embaixo, ansiosos por te conhecer!

  Ao ouvir isto, sentiu as suas bochechas quentes (deveriam estar bastante vermelhas de vergonha e ansiedade). Limpou a garganta e, de seguida, assentiu com a cabeça, saindo do quarto e fechando a porta atrás de si.

  Enquanto desciam as escadas, Rose percebeu, de imediato, o barulho de panelas e copos a tilintar e vozes eufóricas e energéticas. Não queria encarar as pessoas lá em baixo, mas tinha de ser. Mais tarde ou mais cedo teria de sair da sua zona de conforto, e encarar a sua nova realidade.

  Quando chegaram ao rés do chão, a menina parou, fazendo Jack parar, dois passos à sua frente.

- O que se passa? Porque paraste?

- Eu...eu não conheço ninguém...- disse ruborizando ainda mais,

- Ahh, entendo... - disse o rapaz com o cabelo desgrenhado e um sorriso provocador nos lábios - Não há nada a temer! Acredita em mim, são todos bem acolhedores, não há nada a recear!

  E então retomou o caminho, seguido por uma Rose envergonhada. Quando chegaram à cozinha, Jack abriu a porta, para dar de caras com um grupo de cerca de dez pessoas, com idades e características bastante diferentes, que os encararam com sorrisos maioritariamente bem dispostos, tirando um outro rapaz, também jovem, que se encontrava com um semblante carrancudo e fechado,  de cabeça baixa, por onde caiam cachos pretos familiares, à primeira vista, encostado a uma bancada, no canto da espaçosa divisão.

  Seline foi a primeira pessoa a dizer alguma coisa - Bom dia Rose! Bem vinda, novamente! Espero que tenhas conseguido dormir alguma coisa. - o resto da sala aguardava ansiosamente pela resposta, que foi dada segundos depois,

-Err, sim, sim, consegui dormir... - e foi quando a sua voz baixa soou, que as restantes pessoas se levantaram de onde estavam, para vir cumprimentá-la e desejar-lhe as boas vindas.

- Bem vinda jovem!- disse um senhor com idade por volta dos 40 anos, que apresentava uma voz grossa e estendia a mão para que Rose a apertasse.

- Chamo-me Bella Tudor! Muito prazer em conhecê-la! -disse uma menina pequenina, por volta dos seus 8 anos, com pelos cabelos loiros e grandes olhos azuis celeste.

  Jack, felizmente, continuava no seu alcanço, provavelmente por ter reparado no nervosismo da menina, que, como na noite anterior, não parava de bater com o pé no chão.

  Praticamente todos já a tinham vindo cumprimentar, excepto pelo rapaz carrancudo, que desaparecera subitamente, sem deixar rastos e sem sequer olhá-la nos olhos, quando finalmente, depois de todo aquele alvoroço, se sentaram, novamente, todos à mesa, incluindo Rose, que já comia uma peça de fruta que nunca vira em vida.

   Aparentemente, aquele mundo era muito similar à Terra. Havia céu e terra, haviam plantas, embora fossem um pouco estranhas, havia comida e casas e ruas e pessoas que, embora mortas, pareciam mais vivas que alguns vivos.

  Começava assim um novo capítulo.






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Espero que estejam a gostar! Não se esqueçam de votar e comentar sobre as vossas opiniões:) Até ao próximo capítulo:)

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