Atores
Aviso: A história pode conter gatilhos relacionados à problemas familiares; descobrimento sexual; lgbtfobia e traição.
☆☆☆
Chapter Three.
Atores.
Daegu, 09 de agosto de 2017.
— Porra, Jeon, qual é o seu problema? — indagou Jimin, ajudando Jungkook a levantar do tatame — Parece que está no mundo da lua. — ditou grosseiro.
— Acho que estou cansado, só isso — respondeu tímido, já que não só Jimin, mas como seu professor e os outros companheiros de time, lhe encaravam confuso e curioso do porque o garoto de ouro do time estar tão avoado.
— Vá descansar, Jeon. Não temos tempo para falhas; a competição estadual já está se aproximando e até agora eu só vejo um bando de maricas derrubando uns aos outros de forma estúpida — disse o treinador, olhando de forma fixa para o adolescente, que se sentia extremamente intimidado diante do olhar julgador do mais velho — Se não for colaborar para o treino, Jeon, melhor se retirar e retornar no próximo.
Se ouvisse aquilo semanas atrás, com toda certeza bateria o pé no chão, insistindo que estava muitíssimo bem para continuar treinando, mas, naquele momento, a única coisa que Jeon conseguia pensar era em como estava agradecido pelo treinador lhe dispensar, assim poderia usar o resto do tempo de seu treino antes de voltar para casa, já que teria que estudar incansavelmente para o teste de amanhã, qual o garoto já deveria ter revisado dias antes. Sabia que era arriscado tirar notas baixas, poderia acabar sendo expulso do time por baixo desempenho escolar, mas não conseguia focar em nada além dos livros que residiam em sua mesa de cabeceira. Tais pareciam clamar para que o adolescente os abrisse, que desvendasse seus mistérios e, consequentemente, os de V.
— É, eu acho melhor descansar para o próximo treino. Estou sendo peso morto hoje — respondeu indiferente, fazendo Jimin arregalar os olhos para si em sinal de repreensão. Jungkook não ligou, apenas deu de costas como se não se importasse verdadeiramente com nada daquilo que seus colegas tanto ansiavam conquistar.
— Não me decepcione, Jeon — ditou grosseiramente o mais velho, fazendo com que o adolescente soltasse um riso baixo, apenas acenando minimamente com a cabeça e se retirando do grande salão, indo em direção ao vestuário masculino para finalmente se trocar.
— Se ele soubesse que eu sou a própria decepção não colocaria tanta esperança e expectativa em cima de mim — disse para si mesmo enquanto retirava suas roupas e as arrumava em sua bolsa — Já decepcionei muita gente. Uma pessoa a mais ou a menos já não faz mais tanta diferença assim — finalizou para si mesmo antes de entrar no box e se deliciar com um banho gelado. Sua cabeça estava a mil a dias, e isso não era culpa apenas dos manuscritos, mas sim de tudo que lhe rondava. Estava cansado da escola, dos treinos, de seus amigos e até mesmo de sua própria namorada. Não aguentava mais passar uma hora ao lado de todos que já sentia seus olhos quererem revirar em puro cansaço de ouvir tantas besteiras proferidas de forma contínua. Destarte que, conforme lia as pequenas anotações de V em seus livros, se convencia mais e mais de que era um gigantesco erro continuar insistindo em coisas que lhe faziam tão mal e iam contra seus ideias. Sabia que tal coisa era o certo a se fazer, mas ao mesmo tempo em que a vontade de jogar tudo para o alto se fazia cada dia mais presente, o medo de ser renegado era ainda maior. Não era tão corajoso igual V aparentava ser. Jeon era apenas um garoto que se moldou a vida inteira em busca de que pessoas gostassem de si.
Julgava tanto a namorada que acabava fazendo o mesmo que a loira inconscientemente.
Suspirou exausto, querendo ir para casa e dormir todo seu cansaço físico emocional. Decidiu que aquela era péssima opção diante de suas obrigações, não poderia se dar ao luxo de parar completamente sua vida para que terminasse a coleção de clássicos ou para que "dormisse" todos os problemas que rondavam sua vida, até porque, eram apenas livros. Eram livros e um rosto que Jungkook nunca conheceria profundamente.
Eram problemas e mistérios que Jeon nunca seria capaz de solucionar.
Logo saiu do box, se arrumando rapidamente e pegando o exemplar antigo de Dom Casmurro que residia no fundo de sua mochila. Mesmo cansado, sentou-se no chão do vestiário e prontamente retornou para o capítulo que lia mais cedo naquele dia. A narrativa de Machado de Assis conseguiu lhe prender desde a primeira frase, já que o livro lhe apresentava questões similares às de orgulho e preconceito. Eram lindos amores que não poderiam ser vividos devido a influência de outras pessoas.
"Mas a saudade é isto mesmo. É o passar e repassar das memórias antigas."
"Acho que até hoje, esta foi a maior verdade que eu já li. Saudade é sinônimo de ressentimento, é pensar nos "e se" que poderiam ter acontecido após mais insistência. Mesmo fingindo ser um garoto impotente, às vezes me pego refletindo sobre o que poderíamos ter sido se eu não tivesse abaixado a cabeça para ela. Ao mesmo tempo em que poderíamos acabar arranjando uma gigantesca briga devido aos meus mais sinceros sentimentos, também poderíamos ter dado certo. É improvável, eu sei. Mas não consigo deixar de fantasiar tudo aquilo que lograríamos ter caso eu insistisse mais um pouco e deixasse o medo de lado. Eu sempre fui um medroso estúpido; não é nada surpreendente eu fingir que nossa amizade nunca aconteceu devido minha gigantesca covardia."
Jungkook conhecia bem tal sensação. Aquilo era sufocante e torturante, fazendo com que a pessoa não deixasse de pensar em tudo que poderia acontecer em sua vida caso fosse mais insistente. Jeon, frequentemente, se pegava refletindo sobre todos os acontecimentos de sua vida. Pensava nos motivos por trás de sua decisão de entrar para o time de Taekwondo; de ser relativamente distante dos pais, e até mesmo sobre seus motivos para começar a ler. Acreditava que a vida era triste e monótona, mas não ao ponto de tais coisas fazerem influência nas atitudes e no cotidiano. Cada um decidia o que realmente queria, usar aquilo como desculpa era puro vitimismo para o adolescente. Diante disso, lidava com todas as suas escolhas, boas e ruins, de cabeça erguida, já que apenas o mesmo poderia escolher as coisas que rondavam sua vida.
Gostava muitíssimo da personalidade que V aparentava ter, mas odiou o completo eufemismo do outro adolescente. Se o mesmo gostava tanto quanto dizia do outro garoto, ele iria insistir, mesmo que o medo aflorasse em seu interior. Porém, o que Jungkook não entendia, era que nem todos eram tão confiantes ou privilegiados quanto si mesmo. Jeon podia ter o que queria, na hora que queria. Vivia em uma bolha onde o mesmo se achava extremamente excêntrico, quando na verdade era apenas um adolescente comum que vivia questões comuns que qualquer um passa durante tal fase.
Vivia uma fantasia que nunca ousou enxergar além.
"Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico a figuras do passado."
"Hoje eu o vi, e ele estava tão lindo quanto no ano anterior. Seu sorriso saliente sempre foi uma das características que mais me encantou, na verdade, ele é encantador por completo, ainda mais agora que deixou as madeixas crescerem. Seu jeito simples e humilde sempre me deixaram com certa inveja, já que eu nunca conseguiria ser igual a ele, mas isso não atrapalhava nem um pouco os momentos em que eu parava para admirá-lo às escondidas. Percebi hoje, no início de mais um ano letivo, que esse meu péssimo costume não ficou no passado, e eu sempre acabo olhando demais quando ele está com a namorada, imaginando como seria se eu estivesse no lugar dela. É uma completa vergonha, mas também um impulso irrefreável, onde eu não sei lidar, e talvez nem queira, com todas as memórias antigas que assolam meus dias, trazendo uma gigantesca melancolia que parece nunca ir embora. Que 2017 seja diferente dos demais anos e eu finalmente consiga deixar todas essas lembranças para trás."
Leu atentamente a anotação, dando-se conta rapidamente de que o livro havia sido lido no início daquele ano pelo ex dono. Já era agosto, praticamente já estavam no fim do ano, refletiu que talvez o garoto tivesse conseguido arranjar coragem e se declarar para seu amado naquela altura do campeonato; tal coisa fez um misto de sensações subir até seu âmago, coisa que rapidamente lhe enjoou, já que não sabia se sentia inveja ou sentia-se feliz pela possível conquista do garoto. V merecia aquilo, mas a tristeza junto à inveja consumia a mente de Jungkook, que não gostaria de pensar que teria de "dividir" o outro adolescente, mesmo que nem lhe conhecesse ou fosse íntimo do mesmo. V era seu confidente mais secreto, era com quem desabafava em segredo sobre como não existia amor em Daegu, muito menos na Coreia do Sul, e talvez até mesmo no mundo.
Não queria perder seu confidente para aquela sensação jamais sentida verdadeiramente por si. Jeon era um baita egoísta e odiaria perder V.
"O que se lê na cara dos dois é que, se a felicidade amorosa pode ser comparada à sorte, eles ganharam um bilhete da sorte pela sociedade."
"Toda vez que vejo os dois juntos, esboçando sorrisos que, para mim, são completamente falsos, meu estômago se revira em pura ânsia. Eles acham que enganam alguém com todas aquelas demonstrações mentirosas e repletas de um romantismo apático, quando, na verdade, todo mundo sabe que ela não sente nada por ele. Sei disso pois éramos amigos; ela é falsa, mentirosa e repugnante. Correu para os braços dele pois sabe bem que isso irá lhe favorecer em algum momento, mas também não me admira nada ela o trocar por alguém ainda melhor daqui um tempo. Eu a conheço, ela é tão fingida quanto ele ou até mesmo sobre. Todos nós somos uma mentira que tem como objetivo transparecer uma verdade absoluta. Mas no caso daquele relacionamento meia-boca, onde claramente todo aquele "amor" é fruto dos aplausos alheios, eu só posso dizer como eles são péssimos atores e não aproveitaram nem um pouco do bilhete premiado que a sociedade os deu devido ao relacionamento perfeito."
"Você só pode estar de brincadeira comigo!" Pensou o adolescente assim que acabou de ler a anotação. Parecia que V queria cutucar sua ferida mais íntima, já que só faltava citar seu nome e o de Stella para finalmente encaixar-se em seu contexto amoroso. Refletiu se era um verdadeiro ator, que encenava ao lado de Stella um filme ruim que nunca teria um bom final. Sentiu-se nauseado quando viu que aquela era uma das maiores verdades; nem ele e Stella se amavam, apenas se acostumaram com a comodidade de estar lado a lado e de receber elogios direcionados ao suposto relacionamento perfeito.
Talvez o melhor a se fazer era acabar com o namoro, tanto pelo seu bem quanto pelo o da loira, mas sentia-se triste por pensar que todos os seus esforços não valeram a pena, e que tudo que viveu até os dias atuais não passavam de mentiras. Queria mentir para si mesmo; queria acreditar que teria um lindo futuro ao lado da loira, onde iriam se mudar para Seul assim que a escola acabasse e finalmente poderiam construir suas vidas lado a lado. Queria mentir para si mas também sabia que aquele nunca foi um desejo seu, já que diversas vezes se pegava enjoado da adolescente e de suas manias. Queria terminar, mas o medo de ser julgado era ainda maior do que sua vontade de se ver livre da teia de mentiras e intrigas de Stella. Era possível aguentar a garota por mais algum tempo se ignorasse tudo que a mesma fazia e dizia, como estava fazendo nos últimos meses; só assim conseguiria suportar toda aquela situação que lhe rondava diariamente, porém, com as influências e os julgamentos de V, que quase sempre pareciam ser direcionados para si, desconfiava que talvez aquela paciência não duraria muito tempo, o que era totalmente contrário de seus planos iniciais.
Jeon não sabia lidar, mas sabia que uma hora acabaria estourando e aquilo não seria nada feliz, muito menos belo. Seria trágico, caótico e faria mal a muita gente. Seria ainda mais trágico do que o triângulo amoroso que protagonizava Dom Casmurro.
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LEIA RUSH E GOSSIP BOY!
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