Capítulo Seis

O Assassino
1 mês atrás

A imprensa só falava de um assunto - o duelo entre um detetive da divisão de homicídios do departamento de polícia de Seattle e um serial killer que já tinha matado duas pessoas. Não só os jornais locais, mas a imprensa nacional e todos os veículos de mídia cobravam uma resolução do caso. Muitos diziam que estava na hora dos federais se envolverem, já que os detetives não estavam resolvendo. Os repórteres cobravam informações e atualizações, enquanto o Capitão Bernard Foster tentava administrar o ímpeto deles, dizendo que era sigilo para não atrapalhar as investigações.

Mais um mês havia se passado e na internet alguns comediantes brincavam, dizendo que estavam demorando para pegar o assassino, porque o único C.S.I que existia em Seattle, era uma empresa de construção. Diziam que o assassino estava dando um banho nos investigadores, e que já estavam esperando o próximo corpo aparecer. O detetive Hoogan teria que lidar com aquele inferno, ainda mais que, segundo o planejamento, já estava na hora de ir atrás do número três da lista de vítimas.

Norman Bishop, foi um sobrevivente do chamado Assassino do Seguro Social, que aterrorizou Seattle há sete anos. Recém aposentado aos sessenta e sete anos, Norman virou alvo do sociopata Phillip Allen, que entre 2013 e 2015 matou trinta e seis idosos em várias cidades do país, até começar a agir em Seattle. Clifford Hoogan foi designado para o caso, após o aparecimento do terceiro idoso morto em situações semelhantes. Todos eles eram recém-aposentados e moravam sozinhos e faziam consultas regulares com médicos do seguro social. As mortes aconteciam sempre após algumas semanas do deferimento da aposentadoria e de início eram tratadas como paradas cardiorrespiratórias, mas após o relato de alguns vizinhos e familiares sobre o histórico médico e as mudanças comportamentais das vítimas após iniciarem o processo de aposentadoria junto ao Seguro Social, foi feita a exumação dos corpos e detectou-se uma interação medicamentosa não recomendada pelos órgãos responsáveis pela saúde.

O Detetive constatou, através de investigações, que mais de trinta idosos tinham morrido em situações semelhantes por todo país, e em parceria com outros departamentos constatou que os remédios usados pelas vítimas haviam sido receitados pelo mesmo médico, e inclusive eram remédios fornecidos pelo governo. Investigando a lista de recém aposentados, Cliff encontrou o nome e endereço de Norman, que já estava fazendo uso dos remédios, já vinha desenvolvendo os sintomas e provavelmente morreria em algumas semanas, caso continuasse. Juntos, eles armaram uma armadilha para o médico responsável pelo atendimento aos idosos na clínica especializada do seguro social, e o pegaram em flagrante fornecendo os medicamentos modificados para o idoso.

Phillip Allen foi preso por Hoogan, e após o detetive mostrar para ele tudo o que já tinha descoberto, confessou todos os crimes. Segundo ele, muitos serviços essenciais perdiam investimentos enquanto milhões eram gastos com idosos que não produziam mais nada para o país, por isso, ele decidiu trabalhar no seguro social e fazer o que ele chamou de "serviço ao país". Os medicamentos que ele fornecia para os idosos continham um fitoterápico que, na dose em que estava, e misturado ao ácido acetilsalicílico e anti-inflamatórios provocavam, com o uso frequente, hemorragias e causavam o aumento da atividade cardíaca, bem como da pressão arterial. Em sua casa foi encontrado o laboratório onde ele fazia os remédios, e assim, o magnífico detetive Clifford Hoogan, da divisão de homicídios de Seattle, salvou mais uma vida e prendeu mais um psicopata.

Norman era mais uma presa fácil, parecia até que o destino estava conspirando para facilitar a missão - hackeando o computador dele, constatou que, mesmo aos setenta e quatro anos, ele visitava sites profissionais de BDSM, e interceptando uma conversa, marcou uma sessão na casa dele. O fetiche do velho facilitou toda a sua ação, sendo que por se tratar de BDSM, ele não estranhou a máscara, as luvas e a mochila onde levava suas "ferramentas". Chegou a ter vontade de rir ao ver a sua cara de pervertido enquanto o amarrava em sua cama, sem saber que jamais se levantaria dali outra vez, mas se conteve e antes de matá-lo, resolveu dar uma olhada no bilhete que preparou para o Detetive com a frase: "Aproximei-me do Penhasco o suficiente para tocá-lo, e quando percebi já estava em queda livre, sem ter onde me agarrar."

- Eu poderia escrever poesias - pensou, e novamente precisou se conter para não explodir em gargalhadas. Aquela frase não era por acaso, Bishop foi uma das poucas pessoas das quais o detetive salvou, que continuou mantendo contato após todos esses anos. Ele era amigo do pai de Laura, e foi ele quem apresentou o casal, sendo que volta e meia, participavam de confraternizações juntos.

- A aproximação de Cliff o salvou, mas também o matou! Irônico, trágico e poético, se fosse um livro, poderia se tornar um Best-Seller - disse, colocando o cartão no envelope que tinha o nome do detetive.

Se aproximando da vítima, que esperava ansiosamente pelo castigo, amarrada, amordaçada e vendada em sua cama, cravou-lhe lateralmente uma adaga fina e longa em sua axila esquerda, com a destreza de quem sabe exatamente onde estão os ossos torácicos, perfurando o coração precisamente e causando uma morte rápida e tecnicamente indolor.

Antes de ir embora, precisava deixar a sua marca, já que tinha inventado de levar um souvenir em cada crime. Desta vez, só o bisturi não seria suficiente para fazer a extração, então foi até a bolsa e pegou uma serra cirúrgica adaptada, que usou para serrar ambas as mãos do cadáver, na altura dos pulsos, que por estarem amarrados para o alto na cabeceira da cama, não espirraram tanto sangue, uma vez que o coração já havia parado de bombear há alguns minutos. O corpo só seria encontrado no dia seguinte, que era dia de faxina, e era diarista que iria presenciar aquela grotesca cena, que provavelmente iria traumatizá-la pelo resto da vida.

- Você ainda está contribuindo para o giro da economia - disse ironicamente para seu reflexo no espelho, enquanto guardava as ferramentas na bolsa -, a diarista irá pagar vários terapeutas e remédios pelos próximos anos. Deve se aposentar, mas será apenas a troca de um aposentado por outro.

Guardando também os seus troféus em um recipiente próprio para conservá-los, deixou o envelope sobre o corpo e seguiu tranquilamente até o carro, sendo que desta vez não se preocupou nem se alguém estava olhando, afinal, o veículo não era seu, vestia uma fantasia com a qual sequer dava para precisar sua altura ou o seu gênero, e a última conversa de Norman no computador levaria a polícia até o site de BDSM. Nem se encontrassem rastros da sua invasão, poderiam rastrear, já que usava sempre códigos temporários e IPs falsos.

Tinha separado a música perfeita para aquela ocasião, para comemorar mais um trabalho bem feito, celebrando o seu sarcasmo e sua loucura, como se dissesse que estava escrevendo o destino, preparando a trilha sonora certa para cada momento. Conectando um pen-drive no painel do som automotivo, deu a partida no carro, enquanto a música se iniciava lentamente, até que gritou junto com o cantor a parte da música que dizia: "Mantenha as suas malditas mãos fora!", e seguiu seu caminho, curtindo seu sucesso enquanto ouvia e cantava aquela música que falava sobre destruir vidas sem remorso.

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