Capítulo Cinco Parte 2

O Detetive
2 meses atrás


- No final do ano passado, eu fui designado para ajudar a divisão de narcóticos em um caso de tráfico de drogas - Cliff iniciou o relato, enquanto tirava do bolso um cantil portátil e o abria, despejando um pouco de uísque no café e oferecendo ao parceiro, que recusou prontamente -, mas, no processo de investigação, acabei esbarrando em um esquema de corrupção que envolvia políticos e policiais. O grande problema era que alguns desses policiais eram do nosso departamento, e eu fiquei em um grande dilema moral, que no fim me levou a entregar todos eles.

- Os policiais envolvidos sofreram punições severas, uns foram transferidos, outros afastados, mas o pior foi ter que aguentar os que ficaram. Alguns apoiaram a minha decisão, mas outros começaram a me evitar e inclusive deixaram de me dar apoio policial em algumas ocasiões, mas por fim, esses foram transferidos também.

- Por isso o senhor pediu novatos recém formados - deduziu Patt, e Hoogan confirmou com a cabeça.

- Eu vou até o departamento ver se consigo pegar quem mexeu nos arquivos - o jovem disse, levantando-se -, nós vamos pegar esse filho da puta!

- Nossa, "Batman", onde o "Robin" está indo com tanta pressa? - Amber zombou, se aproximando.

- Foi fazer o trabalho dele - Cliff respondeu secamente -, e já que você está aqui, imagino que já fez o seu.

- Nossa, Cliff - ela levantou os braços simulando rendição -, eu já te pedi desculpas, não pedi? Aquilo foi apenas uma despedida de solteiro.

- Mas pelo tanto que isso te afeta - ela disse, com um tom sensual, colando o corpo no dele -, eu acho que ainda pode rolar.

- Pois esse é o último aviso que te dou, doutora Dickinson - Ele respondeu, se esquivando e caminhando até a casa, sem olhar para ela -, não me faça ter que pedir a sua transferência, seria péssimo perder uma profissional brilhante como você.

- Tudo bem, Detetive Hoogan - Amber respondeu, visivelmente irritada, antes de segui-lo -, apenas trabalho então.

- O assassino usou uma lâmina longa e fina, possivelmente um punhal - ela disse, enquanto mostrava o ferimento na nuca, perto da orelha -, e pode-se dizer que o golpe foi cirúrgico. Esse ponto próximo da orelha, é o único ponto onde é possível perfurar o crânio sem muito esforço, e onde um golpe profundo mata imediatamente.

- Pelo modo como o corpo estava disposto - ela continuou -, a vítima abriu a porta para o agressor, e se virou antes de ser golpeado. O assassino então virou o corpo, e usando um bisturi, extraiu os dois olhos, que certamente levou como troféu, assim como fez com as pregas vocais da vítima anterior.

- E eu imagino que o bilhete tenha algo a ver com olhos - ele concluiu, e ela balançou a cabeça positivamente, enquanto lhe entregava o envelope.

Desta vez, tanto seu nome no envelope, quanto a frase do bilhete, estavam escritos com uma caligrafia diferente dos anteriores. A frase escrita era: "olhei para os olhos negros do penhasco, e senti vontade de me jogar, para que ele podesse finalmente me ver como eu sou". Leu e releu várias vezes, mas aquelas palavras não lhe diziam absolutamente nada, então ele apenas guardou o envelope, e se despedindo da equipe de perícia, que ainda faria uma varredura no local, seguiu para a central.

Primeiro, Sabrina Atkins, dezoito anos, tinha oito quando foi salva em 2012, seu primeiro grande caso resolvido na carreira. Ele recapitulava, falando sozinho e em voz alta, enquanto dirigia. Era uma técnica que usava para se manter focado nos casos. E agora, Ryan Irons, vinte e seis anos, tinha dezoito quando ele o salvou em 2014, o segundo grande caso.

Ele recebeu honrarias públicas depois de resolver o caso dos garotos de programa. Na época dizia para todos que não precisava de medalhas para cumprir o seu dever, e sequer apareceu na cerimônia, mas no fundo, aquilo era incrível para o ego, e aos poucos, ele começou a se sentir o "super-detetive", imbatível. Não existiam casos sem solução para o incrível Cliff Hoogan, que agora não conseguia salvar nem seu próprio casamento.

- Porra, Cliff, é isso! - ele gritou, e bateu no volante. Comemorando o que parecia ser o primeiro furo nos planos do assassino, e pisou fundo no acelerador, tinha que formular melhor essa estratégia que surgiu em sua cabeça.

Mesmo que Patt não tenha achado os rastros de quem mexeu nos seus arquivos, ele precisava revisitá-los. Se havia um furo no plano do assassino, era aí que ele iria pegá-lo - aparentemente, o desgraçado estava matando as pessoas que ele salvou, na ordem em que ele resolveu os casos, então ele precisava antecipar a próxima vítima e ficar de olho. Porém, tinha que tomar cuidado, não podia contar essa estratégia para muitas pessoas, afinal havia o risco do assassino ser alguém de dentro da polícia. Tinha que dar cada passo agora com o máximo de cautela.

- Patt, na minha sala, agora! - ele disse, assim que entrou no escritório.

- Olha, Cliff...

- Depois você fala, cara - Cliff interrompeu, seguindo até sua sala sem olhar para trás -, precisamos discutir algo.

- O desgraçado se acha esperto demais, e vamos pegá-lo na sua própria arrogância - ele começou, assim que o jovem entrou e fechou a porta -, se ele está matando na sequência dos meus casos precisamos olhar os arquivos e ver quem será a próxima vítima. Assim podemos encontrá-la antes e preparar uma armadilha.

- Pois era sobre isso que eu queria te falar - Patt disse, com a expressão desanimada -, não tem nada sobre os seus casos no sistema, e as pastas sumiram do arquivo físico. É como se nunca tivessem existido.

- FILHO DA PUTA! - Hoogan explodiu, e pegando uma placa de honra ao mérito que tinha em sua mesa, a arremessou violentamente contra a parede, fazendo-a se partir em dezenas de pedaços - O desgraçado se antecipou mais uma vez!

- A gente encontrará outro jeito, cara - Patt gaguejou, assustado com o rompante de fúria do mais velho -, mas você precisa se acalmar.

- Essa merda só piora, Patt - ele resmungou em tom choroso, inclinando-se na cadeira confortável e levando as duas mãos ao rosto -, só fico aguardando agora a próxima notícia ruim.

- Nem precisa esperar muito, cara - o mais jovem disse -, olha quem está vindo pra cá, com cara de poucos amigos.

O Capitão Bernard Foster era um homem da política, e se preocupava principalmente com a imagem do departamento. Era sempre ele que organizava as solenidades de premiação, bem como agia junto à imprensa para evitar escândalos que poderiam prejudicar uma futura candidatura. Se ele estava ali, era porque o caso tinha vazado.

- Puta que pariu, Hoogan - o Capitão disse, assim que entrou na sala -, eu pensei que por envolver você, o caso ficaria em sigilo. Pelo visto você se casou e perdeu o jeito, toda a imprensa está sabendo dessa merda de assassino mandando bilhetes para você. Me diga que pelo menos já tem uma linha de investigação!

- Quer que eu me retire, senhor? - Patt gaguejou, constrangido.

- Fica quieto aí Patt - Ciff gritou para o parceiro, que parecia sequer estar respirando -, é bom o senhor estar aqui, Capitão, e com esse vazamento eu acabo de constatar que a dedução do detetive Martinez está correta.

- E qual seria essa dedução, Martinez? - Foster perguntou, virando-se para o jovem.

- Eu deduzi que quem está matando as pessoas que o Detetive Hoogan salvou, poderia ser alguém do departamento, ou alguém que tem acesso aos arquivos e pastas - começou Patt, mesmo ainda inseguro -, e ao checar o sistema, constatei que todos os dados referentes aos casos dele, foram removidos do sistema, assim como as pastas no arquivo físico.

- Puta que pariu - se alarmou o Capitão, vendo que era bem mais grave do que pensava -, e agora esse vazamento para a imprensa...

- Vamos fazer o seguinte: - ele continuou após uma pausa - vocês dois, somente vocês dois terão informações sobre o caso. Irei agora mesmo até a perícia dizer que só vocês dois podem ser informados sobre atualizações e resultados. Se vazar mais alguma coisa, ou serão vocês, ou serão eles, e cabeças irão começar a rolar. Estou entendido?

- Sim senhor! - Ambos responderam, antes do Capitão deixar a sala.

O assassino tinha deixado Cliff sem jogadas ao sumir com os arquivos. Pelas próximas semanas eles precisaram refazer os casos com base nas lembranças de Cliff. Ele se lembrava de muita coisa, mas muitos dos detalhes que importavam, não eram guardados na memória, por isso existiam os arquivos digitais e físicos. Ao mesmo tempo em que tentavam remontar o terceiro caso resolvido dele, para tentar identificar a potencial próxima vítima, eles tinham que lidar com a desconfiança de que algum colega de trabalho era ou estava ajudando o inimigo, e com a imprensa que não dava tréguas.

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