Cinzas de Tabaco
O sol atravessa as janelas com raios quentes, pintando a pele de Sarah, minha mãe, em um padrão de amarelo alaranjado e refletindo sobre sua palidez. Sarah parece aproveitar o calor agradável enquanto caminha com passos errantes ao radinho velho no parapeito da janela da cozinha. Com dedos finos e ásperos, ela liga o aparelho e imediatamente a voz sofisticada de Bill Withers preenche o lugar.
Então eu me permito soltar o primeiro suspiro puro da manhã.
— Bom dia, Sarah — eu disse, baixinho.
— Bom dia, filha — ela respondeu, sem olhar para mim.
Andamos ao redor da pequena cozinha em movimentos ordenados e já familiares para nós. Passo pelos mesmos ladrilhos, pego a mesma caneca com a asa quebrada — que ganhei ano passado em um dos sorteios da igreja —, preparo a mesma torrada e bebo o mesmo café, reconhecendo o murmúrio gostoso de Grandma's Hands tocando.
Na outra extremidade, Sarah pega o café e, então, acende um cigarro, acomodando-se na mesma poltrona da sala que ela fuma todas as manhãs.
Eu imediatamente torço o nariz quando ela bufa a fumaça com alívio, o cheiro insuportável demais para suportar. Mas eu não digo nada. Já aprendi que dizer alguma coisa nunca resolve, e agora que tenho dezesseis anos, me obrigo a ignorar.
O som do silêncio preenche meus ouvidos e logo ouço as batidas do meu coração preencherem meus ouvidos, em um ritmo vicioso de auto-piedade. É incômodo, aperta todas as minhas entranhas e já não sei dizer se a cacofonia é do ruído do rádio ou as minhas vozes internas.
— Filha, arrume o rádio, por favor.
Acontece que eram os ruídos do rádio — pelo menos, foi o que Sarah percebeu.
Com um suspiro, mexo nos botões até que a música volte a tocar — dessa vez é Ain't No Sunshine que volta. Sem ter mais o que fazer, encosto-me na janela e permito que o sol tente iluminar em mim as mesmas fontes coloridas que pintaram em Sarah, mas que não a rejuvenesceram.
Então eu fecho os olhos, me perco na música, no som, na letra, e é aí que cometo um erro tremendo.
Ain't no sunshine when she's gone
It's not warm when she's away
Meus olhos se enchem de lágrimas, queimam como o fogo do inferno, e segurá-lo em mim dói mais que a presença indiferente da mulher no cômodo ao lado.
Dói sentir que aquela música é para mim.
Me permito olhar mais uma vez para Sarah, e vejo nela um olhar perdido, não vazio, mas muito cheio de nada.
Percebi, com dez anos de idade, que minha mãe era uma mulher triste. Simplesmente aquele tipo de pessoa que tem essa melancolia, algo de quem ela é. Ela colocava música todos os dias para tocar, e sua única fonte de felicidade parecia ser quando ela estava ao redor de acordes, harmonia e som.
Ain't no sunshine when she's gone
And she's always gone too long
Anytime she goes away
Aos 14, eu percebi que eu não era a fonte de felicidade dela.
Agora, com 16, ela é Sarah, não minha mãe.
Ain't no sunshine when she's gone
And this house just ain't no home
Anytime she goes away
Me permito respirar fundo uma vez, o suficiente para me recompor. Não quero que ela pergunte se está tudo bem — para ela, sempre está. Observo o jardim através da janela, me perguntando quando aquelas flores perderam toda a cor. Quando deixou de ser aconchegante e passou a ser apenas mais uma parte da nossa casa.
Ain't no sunshine when she's gone
Only darkness everyday
Quando a música acaba, levando consigo memórias de quem eu sou, Sarah apaga o cigarro no cinzeiro e se levanta devagar. Ela deixa a caneca na pia, para eu lavar, e pega a bolsa no cabideiro. Seus movimentos são lentos, ordenados e exatamente os mesmos do dia anterior.
— Tô indo trabalhar, Flora, não se atrasa para a escola — ela disse, vasculhando a bolsa.
— Ok.
Ela praguejou baixinho. — Você viu minhas chaves?
— Não vi, não.
Estavam no chaveiro ao lado da porta.
— Ah, achei. Tchau. Te amo.
E então ela sai, sem esperar por uma resposta.
Me permito soltar o terceiro suspiro da manhã e, com ele, as lágrimas. Dessa vez elas caem como cascatas frias em meu rosto corado pelo sol, e sem ter mais para onde me amparar, sento-me na poltrona que Sarah estava.
Cubro os olhos com as mãos, como se aquilo fosse me proteger, e um soluço de angústia escapa da minha garganta. Ain't No Sunshine volta para a minha mente como a maldita trilha sonora do momento, vindo apenas para se assegurar de que eu realmente estava no precipício das minhas emoções.
Ain't no sunshine when she's gone
And this house just ain't no home
Quando ela ficou tão distante? Quando nos afastamos? Quando deixamos de nos importar?
Sarah me criou sozinha, mãe solteira, batalhadora, forte, tão... Independente. É essa independência que nos torna distantes? Que a torna sozinha?
Sinto falta da minha mãe, mas não sei onde ela está. Em um último resquício de pensamento sóbrio, pego um cigarro do maço de cigarros na mesinha e acendo nos meus lábios. Quero sentir como é se sentir como Sarah, saber como é contemplar o mundo através de seus olhos.
Mas eu engasgo com a fumaça e o que sinto é o vazio que sinto todos os dias desde os dez anos.
Apago o cigarro no cinzeiro, da mesma forma que ela fez alguns minutos atrás, e observo as cinzas que ela deixou no pratinho de cerâmica. De alguma forma, vejo padrões do passado, memórias. Nada mais senão uma marca de nossos dias anteriores, de quando ela ficou aqui e eu lá. Sozinhas em nossos próprios mundos distantes. Deixei a minha marca lá também, nos misturando em apenas uma coisa dolorosa.
Nossa única semelhança.
Não posso me atrasar para a escola, então me preparo para mais um dia. Me levanto, pego minha mochila, embalo a torrada que não comi no café da manhã, lavo as canecas e tiro minhas chaves do chaveiro ao lado da porta.
Ouvindo pela última vez a solidão e o vazio da nossa casa, deixo-a como minha mãe me deixou uma vez.
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