Three
@VênusMartinez
Já eram aproximadamente 17:14 PM, quando decidi pegar o metrô na estação principal para Alki Beach. O mesmo estava bem movimentado pelo horário de pico. Fiquei observando tudo ao meu redor. Mas, mesmo assim meus pensamentos estavam longe. Kade, me vinha a memória toda vez em que eu fechava os olhos, minha mente trazia a tona tantas perguntas, e a maioria eu não tinha uma resposta.
Ainda estava em estado de choque pelo acidente que presenciei hoje mais cedo na frente do Starbucks. Eu não conseguia compreender como tinha saído viva e ilesa. Eu vi o carro vindo em alta velocidade em minha direção, eu estava parada no meio da rua sem se mexer. E quando eu esperava por um impacto profundo, outro carro desgovernado atravessou o farol vermelho e atingiu em cheio o veículo que vinha para cima de mim. Eu não definiria isso como sorte, na realidade, eu não conseguia encontrar uma explicação.
O metrô parou em uma estação, e por entre suas portas adentrou mais algumas pessoas se espremendo entre as outras para encontrar um lugar e seguir viagem. Por mim passou um senhor de idade, seus cabelos eram grisalhos e ele tinha uma feição cansada no rosto. Na sua mão havia uma rosa vermelha com uma beleza absurda, entre a rosa e sua mão trêmula havia um pequeno papel branco semi-amassado que com uma letra linda estava escrito "Para Many com amor Xx". Julguei que Many fosse sua esposa, já que no seu dedo anelar havia um anel surrado com o tempo. Me levantei instantâneamente e cedi meu lugar para ele. Com passos vagarosos ele caminhou até o lugar e se sentou agradecendo a mim com um sorriso marcado pelas linhas de expressões.
[...]
Quando cheguei em Alki Beach, caminhei pela areia da praia e me sentei sobre uma pedra alta e grande perto do mar. O vento enlaçava meus cabelos, e levemente a brisa tocava o meu rosto. A chuva havia dado trégua na parte da tarde em Seattle e agora o Sol estava se pondo sobre o horizonte. Cada vez mais se escondendo atrás do oceano, a medida em que se uniam como um beijo apaixonado. A praia estava deserta, e a cidade estava tão cheia. Quantas gerações ainda serão necessárias existir para que aprendam a apreciar às pequenas coisas?
Com o Sol se escondendo, uma brisa gelada vinha chegando. Os meus olhos estavam marejados e eu senti uma vontade absurda de chorar. Deixei que às lágrimas rolassem com um sorriso exposto nos meus lábios.
__Você sorri tão bonito. - Uma voz falou ao meu lado me fazendo rapidamente limpar as lágrimas, e encará-lo. Para minha surpresa, ou receio era Kade.
__Você por acaso está me seguindo? - Ele andou até onde eu estava e sem dizer nada se sentou ao meu lado. Encarou o Sol se pôr por alguns segundos e se virou para mim com um sorriso encantador.
__Eu não estou te seguindo. -Ele passou a mão pelo cabelo. Eu não conseguia parar de olhar para ele. __Não tenho culpa que você esteja em todo lugar que eu vá.
__Vai embora. - Implorei baixinho finalmente desviando o olhar e segurando as lágrimas que queriam escorrer novamente.
Só que dessa vez não era um choro de felicidade... Você já chorou do nada? Sem nenhum motivo?
__Eu não vou a lugar algum. - Kade me olhou. E a medida em que eu estava chorando na frente daquele estranho, os motivos vieram aparecendo, e eu percebi que tinha tantos motivos para chorar... Tanta coisa guardada aqui dentro, dentro de mim. Que eu me negava sentir. Ele me olhava atentamente e eu estava desesperada, porque estava chorando na frente de alguém que eu não conhecia.
__Dizem que um dia a dor some... -Tomei a fala entre soluços. Meu peito se contraía a cada lágrima. __E paramos de se importar... Dizem que um dia a gente simplesmente esquece. E o coração para de doer. - Kade suspirou. __Mas, afinal, quantas vidas levam para esse dia chegar?
__O coração nunca perde a memória. - Foi tudo o que ele disse. As lágrimas que no começo eram lentas e quase inexistentes, deram espaço a lágrimas desesperadoras, lágrimas contínuas e que davam a impressão de que nunca acabariam. Kade me envolveu em um abraço. Um abraço que não me fez esquecer a dor, mas que foi capaz de me fazer suportá-la.
__Eu conheci uma pessoa incrível... Mas, ela me destruiu... - Sussurrei soluçando.
__Que tipo de pessoa se torna tão incrível te destruindo? - Ele perguntou. __Só... Por favor não desista do amor. Apenas entenda que alguns irão te levar até o céu e outros ao inferno. Aprenda com cada um deles. Vênus, você é a única pessoa que vai estar ao seu lado a vida inteira. E tem a obrigação de se fazer feliz. Você é a única que pode fazer isso melhor que ninguém.
Todas às suas palavras me traziam algo que ninguém mais no mundo inteiro era capaz de me proporcionar... Elas me traziam esperança. E por mais que eu estivesse agora chorando ao lado de um desconhecido que sabia o meu nome, e de alguma forma me conhecia mais que a mim mesma, eu me sentia segura.
Ele me trazia de volta a vida.
__Eu lamento a perda de quem eu não sou mais. - Falei quase inaudível. __Eu vou ficar bem. Apenas vá.
Kade não disse nada, mas também não moveu um músculo. Ele ficou ali ao meu lado um bom tempo. Em silêncio. E naquele momento eu percebi que o silêncio dizia muito mais do que mil palavras jamais diriam.
Chuvas de Novembro
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