One
@VênusMartinez
[Novembro, 2017]
As seis e meia da manhã o relógio tocou, os meus olhos se abriram em seguida e um suspiro escapou pelos meus lábios. Ter 18 anos não é lá um mar de rosas, em parte pode ser por não ter que ir para o colégio, mas, em outra parte você tem que ter "responsabilidades".
Levanto da cama, entro no banheiro e retiro as minhas peças de roupa. Ando até o chuveiro e deixo a água quente cair sobre meus ombros e costas. Me visto o mais rápido que posso, pois não quero me atrasar novamente para o trabalho. Prometi para a Sara que sempre chegaria no horário, e o meu "sempre" falhou três dias seguidos.
Corro pela calçada tropeçando na grama sintética e praguejo diversas vezes quando quase caio. Entro no meu carro, bato a porta e suspiro pesadamente:
Uniforme confere.
Celular carregado confere.
Bolsa com o necessário confere.
Documentos do carro confere.
Sorriso confere...
Dirijo pelas ruas movimentadas de Seattle tentando de alguma forma praticamente impossível fugir do trânsito. A música Happier do Marshmello toca na rádio e rapidamente minha mente começa a lembrar de Emma.
FLASHBACK ON
" I want to see you smile but
Know that means I'll have to leave"
__Vênus, essa vai ser a nossa música!
__Emma, todas às músicas que você ouve você diz que é a nossa música. -Emma estrala a língua no céu da boca com um sorriso maroto.
__Mas essa é a nossa música de todas às músicas!!!
FLASHBACK OFF
A adolescência é uma merda. Você sofre críticas e todos querem opinar na sua vida. É a fase onde todos os seus sentimentos são colocados em um balão inflável e você é obrigado a cuidar para que ninguém estore aquele balão. É a fase que você começa a conhecer a si própria, uma fase onde seu único medo é o futuro. Você estuda, da o seu sangue para tentar entender equações, porcentagens e histórias de quando nem existia. Mas, o único que você não consegue entender... É você mesmo. Você sofre por amor, sofre por baixa autoestima e é a época que você está mais proprício a ter depressão ou qualquer tipo de distúrbio. Sua opinião parece nunca valer de nada "você é jovem demais" pra tudo! Jovem demais pra amar e ser amado. Jovem demais pra entender. Você é sempre o errado, os mais velhos tem a experiência e você tem um coração partido sendo triturado por um "na sua idade eu já trabalhava e você aí nesse celular". Porra, em pensar que um dia eu quis ser adolescente.
__Vênus? - Sou trazida de volta a realidade com a Sara batendo com o dedo no vidro do meu carro.
__Ah, Oi Sara. Desculpa eu não te vi aí... Batendo no vidro do meu carro. -Faço uma careta.
__Desculpe. - Ela sorri com a língua entre os dentes e eu saio do carro. __É que você parecia estar tão longe... Aconteceu algo?
__Só estava pensando.
__Em que? - Eu detesto quando ela se mete na minha vida.
__Naquela deliciosa coxinha que eu rejeitei ontem por educação. - A garota de cabelos longos castanhos gargalha.
__Você não perdeu nada. Estava horrível! Eu nunca mais vou tentar fazer coxinha caseira na minha existência.
Andamos juntas para dentro da lanchonete em que trabalhávamos. Sean Burger's ficava no centro de Seattle, faz pouco tempo que comecei a trabalhar de caixa e a Sara trabalhava como garçonete a mais ou menos uns dois anos. A conheci aqui, da primeira vez que a vi ela estava com ketchup no uniforme e mostarda no cabelo, foi uma cena engraçada pois quando ela me estendeu a mão tinha maionese entre os dedos.
__Estão atrasadas dois minutos! - E como a vida de uma jovem não é fácil... O Sr. Bob um velho rabugento e dono da lanchonete só queria fazer tempestade em uma tampinha de garrafa pela milésima e não sei quanta vez.
__Bom dia! -Sara exclamou ao meu lado sorridente.
__Por que está toda sorridente senhorita Evans? Deveria estar arrumando as mesas e entregando pedidos!
__Farei isso...
__Sr. Bob... -Falei.
__Sr. Sean pra você, Vênus! - Ele me cortou.
__Desculpe é... Sr. Sean. Pegue leve com a Sara, a culpa foi toda minha por termos nos atrasado é... Quanto tempo o senhor falou mesmo?
__DOIS! Dois minutos. - Revirei os olhos. __Se não irem agora para o vestiário colocarem os uniformes e começarem a trabalhar... Podem ir se despedindo do emprego! - O velho saí com a cara fechada, olho para Sara e ela retribui ao olhar suspirando.
__Vamos Vênus. A vida de Cinderela nos aguarda!
[...]
__Aqui está o seu troco senhora. Tenha uma boa tarde! - Falo e a senhora retribui sorrindo. Olho para a entrada da lanchonete e vejo Zac entrar indo em direção a Sara que estava atendendo uma mesa.
Sara se assusta com sua presença, eles trocam olhares e Zac sussurra algo no ouvido dela. Sara parece exitar um pouco, mas logo olha para mim e passa por Zac caminhando em minha direção.
__Vênus, amor da minha vida! Já lhe disse o quanto você está radiante hoje? Não? Ah, pois...
__Quem eu tenho que matar? - A corto segurando a risada. Eu conheço Sara, ela iria me pedir para atender os clientes enquanto ela saí pra fora para conversar com o branquelo azedo do Zac.
__Você pode por favorzinho atender os clientes enquanto eu tenho uma conversa com o Zac?
__Você tem... -Finjo olhar no relógio invisível no meu pulso. __Dois minutos!
__Pode deixar! -Ela gargalhada e sai puxando Zac para a saída. __Entendi a referência, Vênus! - Ela grita.
Saio do caixa e vou atender os clientes que ela deixou na mão. Eu tenho tudo sob controle até que...
__Senhorita Vênus, onde está a Sara? -Droga! Mil vezes droga!
__Bob... Quero dizer... Sr. Sean a... A Sara está no banheiro! Ela... Ela teve uma dor de barriga daquelas e não conseguiu aguentar. Mas eu tenho tudo sob controle! - Sorrio falsamente.
__Pois bem. Eu espero que sim. - Curto e grosso ele sai. Sinto o alívio e a melhora para respirar.
Olho para a entrada e vejo Sara caminhar até mim, dessa vez sem o Zac.
__Sara, por que demorou tanto? O Bob apareceu aqui para me assombrar e... - Paro de falar quando a vejo com uma feição triste e um hematoma roxo na bochecha. __Foi o Zac, né?
__O que?
__Sara, não minta para mim. O Zac te bateu de novo? - Ela balançou a cabeça vagarosamente fazendo sinal positivo. __Sara, por que você ainda insiste nele? Você deveria denuncia- lo e...
__NÃO! Vênus eu não posso fazer isso.
__Por que?
__Por que ele é meu namorado e...
__Porra Sara! Nem que fosse o Papa!
__Vênus, você não entende.
__Eu realmente não entendo, Sara. Não entendo como pode deixar ele mandar em você, controlar o seu jeito de ser, controlar o que você come, bebe, usa... Você deixa ele te machucar. Deixa ele te agredir fisicamente e verbalmente e ainda acha que tudo isso conta como amor. Você é uma mulher não um animal de estimação. - Sara chora e eu a abraço. Ela está tão vulnerável e confusa que eu juro que se o velho rabugento do Bob aparecer aqui reclamando eu o mando ir para o inferno.
[...]
Eu fiquei por último no trabalho para fechar a lanchonete. Caminhei até meu carro exausta e cambaleante pois meus pés doíam com a droga do salto que eu era obrigada a usar todo dia como parte do uniforme. Quando entrei no carro e fechei a porta foram exatos 3 segundos... 3 segundos para começar a chorar. O dia tinha sido cansativo, e com o resultado eu havia ganhado bolhas nos pés, dores nas costas, choro descontrolado e uma alma cansada.
As lágrimas caiam sem parar e os soluços eram tantos que eu mal conseguia me acalmar. Segurei com as duas mãos no volante tentando não me sentir insuficiente como sempre eu me sentia, girei a chave e o carro ligou, só era eu ali, eu e uma rua movimentada completamente cheia de pessoas que pouco se importavam com meu bem estar. O mundo está um pouco mais fodido a cada dia.
Eu estava sobrecarregada, queria gritar e sei que se gritasse o mundo inteiro ouviria. Onde estava a garota sorridente agora? Pra onde ela vai quando estou sozinha? Por que não consigo sorrir comigo mesma? Basta um sorriso. Um único sorriso, e todos acham que você está bem. Se meus olhos mostrassem a minha alma, todos ao me verem sorrir, chorariam comigo.
Dirigi até a linha de trem. Meus olhos estavam inchados, vermelhos e meu coração batia descontroladamente dentro do meu peito. Fiquei dentro do carro exatos 45 minutos sem fazer absolutamente nada além de chorar e tentar de algum jeito e alguma forma calar a minha mente. Calar todos os meus demônios. Mas eu era apenas uma humana sem poderes algum. Apenas humana. É horrível chorar até que sua cabeça doa, até que o peito doa até que tudo doa. Fisicamente e psicológicamente.
Desci do carro e bati a porta. Caminhei até a linha do trem e com meus lábios tremendo me sentei nos trilhos abraçando meus joelhos. Olhei fixamente para uma placa posta bem ao lado dos trilhos que dizia "death is not the answer. Stay alive. You are loved"... A morte não é a resposta. Fique vivo. Você é amado. Fechei meus olhos e esperei. Esperei uma contagem de tempo que a qual eu não consegui contar. Só sei que demorou tanto que até o Sol foi embora trazendo uma noite chuvosa. A chuva em Seattle era normal no mês de Novembro, tão normal que não havia um dia sequer do mês que não chovesse. A chuva caía sobre mim, molhando meu cabelo e se misturava com às lágrimas em minha bochecha. Desejei que ela me trouxesse um pouco da realidade, que me deixasse sóbria de mim mesma. Mas isso não aconteceu.
Ouvi uma buzina automotiva e abri meus olhos, pela primeira vez na vida eu estive cara a cara com a morte. O trem vinha veloz, a cada vez que suas rodas de ferro giravam o meu coração dava um salto em meu peito, sua buzina na minha cabeça eram gritos, eu ouvia gritos internamente me dizendo para correr, mas eu estava petrificada, meus pés estavam grudados no solo, a atmosfera me puxava para baixo. Então essa foi uma das horas que eu desejei sumir, quis correr para longe. Mas a ansiedade sussurrou em minha mente como uma velha amiga "não importa para onde você vá, o que está sentindo irá com você também". Minha mente gritava, minha respiração gritava, meu coração gritava... Fechei os olhos e esperei tudo silenciar.
O silêncio veio, mas eu ainda sentia o vento bater contra meu rosto, ele parecia mais forte e gelado agora. Abri meus olhos e automaticamente eles encontraram os castanhos claros que iluminavam mais que o Sol em 100 dias no deserto, mais do que a estrela mais brilhante no céu mais escuro. Ele tinha perfeitos olhos castanhos mais profundos do que o azul de qualquer mar. Nos seus lábios vermelho vivo habitava uma maneira sacana de sorrir como quem não quer nada. Ele era de tirar o fôlego. Eu realmente perdi o fôlego quando prestei mais atenção ao meu redor ao invés do garoto desconhecido a minha frente. Eu estava no topo do Obelisco Espacial de Seattle, eu conseguia ver a cidade inteira, altura nunca foi meu forte e a confusão estava na minha cabeça.
Como vim parar aqui em cima? O que houve? Eu morri?
__Quem é você? Como eu vim parar aqui? Eu morri? - Meus lábios questionavam tudo o que se passava pela minha cabeça. Ele sorriu e meu corpo tremeu.
__Eu sou Kade, e você está bem viva.
__Não é possível... Eu... Eu vi o trem vindo. Eu não saí da frente! Eu...
__Eu sei. - Foi tudo que ele respondeu antes de caminhar até mim.
Fiquei com medo no começo mas quando ele me abraçou apertado foi como se o mundo parasse ali, foi como se a vida ao meu redor acabasse, foi como se os problemas, dores, mágoas, decepções e crises sumissem. Quando ele se afastou eu ainda permanecia imóvel.
__Você parece uma garota de outra época, sempre quis te dizer isso. Sabe... Como aquelas que aparecem em clipes de rock antigo. - Ele não disfarçou em demorar seus olhos em mim.
__Você não vê? Sou um poço de defeitos. Desculpa o caos, estou tentando ainda lidar comigo mesma... Estou sem motivos para continuar nisso. - Mal pensei no que falei, mas a resposta foi automática.
__Se você não tiver por quem continuar, continue por você mesma. O mundo é cruel, você não tem que ser. - Ele caminhou mais uma vez até mim. Se aproximou cautelosamente como se não quisesse me assustar, seu corpo estava perto demais e minha respiração desregulada, estremeci quando ouvi sua voz rouca dizer no meu ouvido... __ O mais importante de tudo é manter a calma e respirar fundo. Você sabe que é difícil, Vênus. Mas passa. - Antes que eu tivesse tempo para questionar como aquele estranho sabia meu nome, meus olhos pesaram e eu apaguei.
Chuvas de Novembro
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top