Capítulo Vinte e Dois: Os Preparativos para a Recepção dos Estrangeiros
NOTAS DA AUTORA
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As duas semanas seguintes de outubro transcorreram tão lentamente que todos pensavam que alguém estava enfeitiçando os relógios da Escola para que a hora não passasse.
As aulas particulares com Snape e Dumbledore estavam indo relativamente bem, mas os outros professores estavam pegando tão pesado que Sollaria temia ter um colapso.
O professor Binns mandava-os escrever ensaios semanais sobre o assunto dado em sala. O professor Flitwick lhes pedira que lessem mais três livros, em preparação para a aula de Feitiços Convocatórios, e naquele momento Sollaria respirou aliviada - já dominava aquele encantamento há séculos, então dispensou-se da leitura extra.
Agora, o professor Snape estava obrigando-os a pesquisar antídotos, e a turma só levou a sério porque ele insinuou que pretendia envenenar um deles antes do Natal para ver se o antídoto que encontrassem faria algum efeito.
- Isso aí não é abuso psicológico e moral? - perguntara Harry em uma tarde após Snape anunciar ao fim da aula que iria envenená-los na aula seguinte.
Hermione dera uma risada desgostosa.
- Sinceramente, Harry, como você não percebeu ainda que o Mundo Bruxo é extremamente medieval? Duvido que eles têm leis que amparam alunos e servidores que sofrem esses abusos, ou o professor Snape não estaria aqui agora.
Sollaria e Rony trocaram um olhar afetado, como faziam sempre que Harry ou Hermione (especialmente esta última) comparavam o mundo em que viviam com o mundo dos trouxas.
Quando chegaram ao Saguão de Entrada, viram-se impedidos de prosseguir pela aglomeração de alunos que havia ali, em torno de um grande aviso afixado ao pé da escadaria de mármore. Rony, o mais alto dos três, ficou nas pontas dos pés para ver por cima das cabeças à sua frente e ler o aviso em voz alta para os outros três.
TORNEIO TRIBRUXO
As delegações de Beauxbatons e Durmstrang chegarão às seis horas, sexta-feira, 30 de outubro.
- Graças a Deus - comentou Sollaria -, as aulas vão acabar uma hora antes.
- Genial! - exclamou Harry. - É Poções a última aula de sexta-feira! Snape não terá tempo de
envenenar todos nós!
Os alunos deverão guardar as mochilas e livros em seus dormitórios e se reunir na entrada do castelo para receber os nossos hóspedes antes da Festa de Boas-Vindas. É exigido também que apresentem-se devidamente vestidos para o evento.
É válido ressaltar a tradição secular e a boa convivência entre as Instituições, de modo que não será tolerada qualquer atitude que ofenda a ordem social e os bons costumes, muito menos os aspectos culturais de cada nação.
- Festas de Boas-Vindas? - Ouviram um garoto miudinho da Corvinal, provavelmente um primeiranista, dizer para uma menina de trancinhas que estava logo atrás dele. Sollaria observou que ele tinha um sotaque muito forte do norte da Inglaterra. - E ainda teremos o Banquete de Halloween no dia seguinte! Santo Deus, como eu amo essa Escola! Não tínhamos coisas assim na minha antiga escola.
- É daqui a uma semana! - mencionou Ernie MacMillan da Lufa-Lufa, saindo da aglomeração, os olhos brilhando. Ele acabou esbarrando em Sollaria por acidente, fazendo com que ela derrubasse a mochila que carregava em um só ombro. - Opa, desculpe, Potter... Será que Diggory sabe? Acho que vou avisar a ele...
- Diggory? - repetiu Rony, olhando imediatamente para Sollaria. - O que é que tem ele?
Harry também olhou para a irmã.
- Sei lá. - Sollaria deu de ombros, incomodada com a dedução deles.
Bem, era mentira, ela sabia muito bem que Cedric planejava se inscrever para o Torneio Tribruxo, mas não era uma notícia dela para contar.
- Por que vocês não perguntam diretamente para ele? Ele não é o meu namorado.
Rony fez uma careta e mostrou a língua para ela, ambos trocadando insultos até que Harry e Hermione fizessem com que se calassem imediatamente.
Os quatro se afastaram do quadro de avisos e entraram no Salão Principal, caminhando vagarosamente até a mesa da Grifinória.
- Talvez ele queira se inscrever para o Torneio - sugeriu Hermione com perspicácia. Ela trocou um olhar com Sollaria. - Já sabe o que vai vestir para a recepção?
Sollaria brincou com uma mecha de cabelo, distraída.
- Hum, não sei. Eles falaram que deveríamos apenas largar as coisas no quarto e voltar, não?
Hermione comprimiu os lábios, parecendo desapontada.
- É, tem razão. Mas acho que vou fazer algum penteado legal e colocar umas pulseiras, o que acha?
Sollaria olhou docemente para a amiga e apertou-lhe a mão com carinho.
- Você vai ficar linda, Hermione.
Atrás das duas, Rony e Harry fingiram ter ânsia de vômito.
- Por que vocês garotas estão tão preocupadas com isso? Não é como se os caras de Durmstrang ou Beauxbatons fossem dar alguma atenção para vocês. Quero dizer... Dizem que em Beauxbatons as garotas descendem de veelas.
Hermione ficou vermelha.
- Por que vocês garotos são tão imbecis? - rebateu a nascida-trouxa. - Não que eu lhe deva alguma satisfação, Ronald, mas não estou tentando chamar a atenção de ninguém, muito obrigada!
O garoto abriu a boca para dizer alguma coisa, mas Sollaria virou-se para ele e cutucou-o no peito com o dedo indicador.
- É melhor você sossegar, Rony, ou eu vou contar para todo mundo da sua paixonite por Viktor Krum!
E, voltando-se para Hermione, disse, em um tom muito mais suave:
- Não ligue para ele, Mione. Rony é um animal insensível na maior parte do tempo. O jeito é ignorá-lo até ele se tocar e calar a boca.
A afixação do aviso no Saguão de Entrada teve um efeito sensível nos moradores do castelo. Durante a semana seguinte, parecia haver apenas um assunto nas conversas, onde quer que Sollaria fosse: o Torneio Tribruxo.
O castelo estava sofrendo uma faxina mais do que rigorosa. Vários retratos encardidos tinham sido escovados para descontentamento dos retratados, que se sentavam encolhidos nas molduras, resmungando sombriamente e fazendo caretas ao apalpar os rostos vermelhos. As armaduras de repente brilhavam e mexiam sem ranger e Argus Filch, o zelador, estava agindo com tanta agressividade com os alunos que se esquecessem de limpar os sapatos que aterrorizou duas garotas do primeiro ano levando-as à histeria.
Outros funcionários também pareciam estranhamente tensos.
- Longbottom, tenha a bondade de não revelar que você não consegue sequer lançar um simples Feitiço de Troca diante de alguém de Durmstrang! - vociferou a professora Minerva ao fim de uma aula particularmente difícil, em que Neville acidentalmente transplantara as próprias orelhas para um cacto.
Quando todos se levantaram para ir embora, Neville parecera extremamente amuado e envergonhado.
"Não se preocupe, Neville", sussurrara Sollaria enquanto guardava o material na bolsa. "Isso não quer dizer nada."
Quando os alunos desceram (ou subiram, dependendo de onde ficavam suas Salas Comunais) para o café na manhã do dia trinta de outubro, descobriram que o Salão Principal fora ornamentado durante a noite. Grandes bandeiras de seda pendiam das paredes, cada uma representando uma casa de Hogwarts - a vermelha com um leão dourado da Grifinória, a azul com uma águia de bronze da Corvinal, a amarela com um texugo negro da Lufa-Lufa e a verde com uma serpente de prata da Sonserina. Por trás da mesa dos professores, a maior bandeira de todas tinha o brasão de Hogwarts: leão, águia, texugo e serpente unidos em torno de uma grande letra "H".
Ginny e Sollaria decidiram se juntar aos irmãos à mesa da Grifinória para o café da manhã. Quando as duas se sentaram ao lado de Fred e George, no entanto, eles não pareciam querer falar com elas. Na verdade, haviam as dispensado secamente.
Harry, Rony e Hermione aproximaram-se e se sentaram ao redor deles, surpresos com a presença de Ginny.
- É chato, sim - sussurrou George sombriamente a Fred. - Mas se ele não quer falar conosco pessoalmente, temos que lhe mandar uma carta. Ou enfiá-la na mão dele, ele não pode ficar nos evitando pra sempre.
- Quem é que está evitando vocês? - perguntou Rony, curioso.
- Gostaria que fosse você - disse Fred, mostrando-se irritado com a interrupção.
- Que é que é chato? - perguntou Rony a George.
Antes que George pudesse responder alguma coisa muito grosseira, Ginny atravessou o diálogo e disse:
- Esqueça, Rony.
Como se para tentar desviar o assunto de uma iminente briga, Harry perguntou:
- Então, vocês já tiveram alguma ideia para o Torneio Tribruxo?
- Perguntei a McGonagall como é que os campeões são escolhidos mas ela não quis dizer - respondeu George com amargura. - Só me disse para calar a boca e continuar transformando o meu guaxinim.
- Fico imaginando quais vão ser as tarefas - comentou Rony pensativo. - Sabe, aposto que poderíamos dar conta, Harry e eu já fizemos coisas perigosas antes...
- Não na frente de uma banca de juízes, isso vocês não fizeram - disse Fred. - McGonagall disse que os campeões recebem pontos pela perfeição com que executam as tarefas.
- Quem são os juízes? - indagou Harry.
- Bem, os diretores das escolas participantes sempre fazem parte da banca - disse Hermione e todos a olharam surpresos -, porque os três ficaram feridos durante o torneio de 1792, quando um basilisco que os campeões deviam capturar saiu destruindo tudo.
Ela notou que todos a olhavam e disse, com o seu costumeiro ar de impaciência quando via que ninguém mais lera os mesmos livros que ela:
- Está tudo em "Hogwarts, uma História". Embora, é claro, esse livro não seja cem por cento confiável. "Uma História Revista de Hogwarts" seria um título mais preciso. Ou, então, "Uma História Seletiva e Muito Parcial de Hogwarts, que Aborda Brevemente os Aspectos Mais Desfavoráveis da Escola"...
- Do que é que você está falando? - perguntou Rony, e Harry e Sollaria trocaram um olhar, pois ambos pareciam já imaginar o que viria pela frente.
- Elfos domésticos! - disse Hermione em voz alta. - Nem uma vez, em mais de mil páginas, "Hogwarts, uma História" menciona que somos todos coniventes na opressão de centenas de escravos!
Imediatamente, todos os Weasley e Harry abaixaram a cabeça e concentraram-se em seus pratos. Era sempre assim: toda vez que Hermione vinha com uma nova obsessão, eles tentavam não dar ouvidos para que não tivessem que se envolver.
Sollaria tinha um pouco de pena da amiga nessas horas, pois ela sabia que Hermione estava certa em ficar indignada com as péssimas condições em que se encontravam os elfos domésticos. A questão era que a amiga não sabia como abordar o assunto e acabava ficando insuportável a ponto de estressar todos ao redor.
- Hermione, minha querida amiga - começou Sollaria com o máximo de cuidado. - Você sabe que eu concordo com você sobre tudo isso, não sabe?
Hermione pigarreou e cruzou os braços, aborrecida pela interrupção.
Todos os demais trocaram um olhar constrangido.
- Mas eu acho que talvez você... hum... talvez você não esteja lidando muito bem com a situação.
Hermione fechou ainda mais a cara.
- Do que você está falando?
Sollaria lembrou-se de algo sobre o qual Rony e Harry tinham reclamado ainda na semana anterior - de como Hermione estava sendo invasiva com todos, tentando fazer com que participassem ativamente do movimento, algo que Draco e Sollaria já haviam previsto que não aconteceria, e tentando incutir na cabeça de todos o quão absurda era a escravidão dos elfos domésticos e como ninguém fazia nada a respeito disso.
"Vocês têm consciência de que os seus lençóis são trocados, as lareiras, acesas, as salas de aula limpas e a comida preparada por um grupo de criaturas mágicas que não recebem salário e são escravizadas?", repetira Rony a Sollaria, irritado, quando ela perguntara que tipo de coisa Hermione estava falando por aí.
- Ela quer dizer que às vezes você é chata e inconveniente - replicou Rony enquanto mastigava um pedaço de omelete.
Ginny torceu o nariz.
- Quero dizer que em certos momentos você acaba... passando um pouquinho do limite. Talvez a coisa toda não esteja dando certo do jeito que você esperava porque não adianta tentar obrigar as pessoas a te ouvirem ou tentar fazer uma revolução sobre algo que nunca nem sequer foi pauta de discussão no Ministério.
Hermione estreitou os olhos e inclinou-se sobre a mesa.
- E como você acha que pode ajudar o movimento, Sollaria?
- Seguindo a sugestão de Malfoy, oras.
Hermione abriu a boca para protestar; George, no entanto, chegou para mais perto dela e perguntou:
- Escuta aqui, Mione, você já foi à cozinha?
- Não, claro que não - respondeu a garota secamente. - Nem posso imaginar que os alunos devam...
- Bom, nós já fomos - disse George, indicando Fred - várias vezes para afanar comida. E encontramos os elfos e eles estão felizes. Acham que têm o melhor emprego do mundo...
- É porque eles não têm instrução e sofrem lavagem cerebral! - começou Hermione acaloradamente, mas suas palavras seguintes foram abafadas pelo ruído de asas que vinha do alto anunciando a chegada das corujas com o correio.
Percebendo que aquela conversa não teria fim, Sollaria decidiu parar de prestar atenção e envolveu-se em uma conversa com Harry sobre o primo trouxa deles, o Dudley.
"Ele é muito chato... e mau. Todo o pouco que eu conseguia, ele fazia questão de roubar. Isso acontecia sempre, não importava com o que fosse. Ele não dava a mínima se ficasse doente por conta disso, desde que eu estivesse miserável."
Toda vez que Harry falava algo sobre a vida com os trouxas, o estômago de Sollaria se embrulhava. Sempre que ele contava alguma história sobre o passado dele, ou sobre a forma como eles o tratavam, Sollaria se sentia muito pequena. Sentia-se como nada, como um grão de areia no deserto. Sentia-se insignificante, suja... - como poderia reclamar ou encontrar-se em profunda tristeza por coisas tão rasas?
Às vezes, Sollaria desejava do fundo de seu coração que pudesse trocar de lugar com o irmão gêmeo, apenas para que ele não precisasse sentir tanta dor e tristeza ou viver com os traumas do passado.
Sollaria olhou para o outro lado para que Harry não pudesse ver que seus olhos já estavam se enchendo de lágrimas.
- Você vai ver, Harry - ela sussurrou, colocando a mão por cima da do irmão. - Vamos conseguir convencer Dumbledore a te deixar morar com Sirius e Remus, e então você vai poder fazer o que quiser, ser o que quiser... e o mais importante, vai ter toda a liberdade do mundo e também todo o amor e atenção que você merece.
- É o que eu mais quero, Sol. Mas eu não sei se vai ser possível. Eu não sou exatamente a pessoa mais sortuda do mundo.
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