Capítulo Um: Lorde Voldemort Tem um Plano
NOTAS DA AUTORA
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Estava mais uma vez naquela mesma mansão. Ah, Sollaria sabia que era um sonho. Sabia que estava dormindo — afinal, a única vez em que estivera naquele local fora em um sonho. Um sonho curioso, para dizer o mínimo. Um sonho em que Peter Pettigrew adentrava uma mansão antiga e mal cuidada, cuja propriedade estendia-se por muitos e muitos hectares, contando, para o completo horror de Sollaria, com um cemitério familiar de lápides velhas e desgastadas.
Mas, desta vez, ela não estava exatamente olhando de longe. Ela se sentia parte daquilo, daquele local. Ela observou ao redor: a casa ficava em um morro com vista para um povoado, e algumas janelas pregadas, com telhas faltando e hera se espalhando livremente pela fachada, denunciavam que aquelas terras estavam abandonadas por pelo menos uma década.
A casa parecia em ruínas e desocupada. Um arrepio percorreu-lhe a espinha quando ela percebeu que seus pés caminhavam em direção à casa senhorial. Uma luz brilhava pela janela do primeiro andar.
Havia alguém na casa.
Ela se viu contornando a casa em direção aos fundos até chegar a uma porta semiescondida pela hera. Apanhou uma velha chave, enfiou-a na porta e abriu-a silenciosamente.
Entrou em uma cozinha cavernosa e escura e tateou até chegar ao corredor, que estava um pouquinho mais claro, e começou a subir as escadas.
No finzinho do corredor havia uma porta entreaberta de onde saía uma luz vacilante, que projetava uma longa nesga dourada no chão escuro. Ela foi se aproximando mais, o coração batendo forte. A alguns passos da entrada, conseguiu entrever uma faixa estreita do quarto adiante.
O fogo estava aceso na lareira.
Parou e escutou com atenção, porque uma voz masculina falava dentro do quarto; parecia tímida e temerosa.
Ela já ouvira aquela voz antes.
Era a voz de Peter Pettigrew.
– Sobrou um pouco na garrafa, milorde, se ainda tiver fome.
– Mais tarde – respondeu uma segunda voz. Esta também pertencia a um homem, mas era aguda e fria como uma rajada repentina de vento gélido. Alguma coisa na voz rouca daquela pessoa fez os cabelos na nuca de Sollaria se eriçarem, pois ela tinha suspeitas... suspeitas sobre a quem pertencia aquela voz. – Me leve mais para perto do fogo, Wormtail.
Ouviu-se um ruído seco de móveis sendo arrastados e, depois, a voz fria falou:
– Aonde foi Nagini?
– N... não sei, milorde – disse Wormtail. – Saiu para explorar a casa, acho...
Milorde.
Sollaria sentiu o estômago pesar, mas, mesmo assim, viu-se encostando o ouvido mais perto da porta para ouvir melhor.
– Você vai ordenhá-la antes de nos recolhermos, Wormtail – disse a segunda voz. – Vou precisar me alimentar durante a noite. A viagem me deu uma enorme canseira.
– Milorde, posso perguntar quanto tempo vamos ficar aqui?
– Uma semana – disse a voz fria. – Talvez mais. O lugar é razoavelmente confortável, e ainda não podemos dar seguimento ao plano. Seria tolice agir antes do fim da Copa Mundial de Quadribol.
– A... a Copa Mundial de Quadribol, milorde? – admirou-se Wormtail. – Me perdoe, mas... não compreendo... por que precisamos esperar o fim da Copa Mundial?
– Porque, seu tolo, neste exato momento estão chegando ao país bruxos do mundo inteiro e todos os bisbilhoteiros do Ministério da Magia estarão em campo, à procura de sinais de atividades incomuns, verificando identidades e tornando a verificá-las. Estarão obcecados com a segurança, tentando impedir que os trouxas percebam alguma coisa. Por isso vamos aguardar.
– Milorde continua decidido, então? – perguntou Pettigrew em voz baixa.
– Claro que estou decidido, Wormtail. – Agora havia um tom de ameaça em sua voz fria.
Seguiu-se uma pausa – e então Wormtail falou, as palavras saindo de sua boca em um atropelo, como se ele estivesse se obrigando a falar antes de perder a coragem.
– Poderia ser feito sem o Harry Potter, milorde.
Outra pausa, desta vez mais longa, e então...
Uma exclamação ficou presa em sua garganta, embora ela soubesse que ninguém poderia ouvi-la.
– Sem o Harry Potter? – sussurrou Voldemort. – Entendo...
– Milorde, não estou dizendo isso porque me preocupo com o garoto! – explicou Wormtail, a voz subindo esganiçada. – O garoto não significa nada para mim, nadinha! É só porque se usássemos outro bruxo ou bruxa, qualquer um, a coisa poderia ser feita muito mais rapidamente! Se o senhor me permitisse deixá-lo por algum tempo... o senhor sabe que posso me disfarçar com muita eficiência... eu voltaria em apenas dois dias com a pessoa necessária...
É claro que ele sabia se disfarçar com eficiência, pensou ela com nojo e amargura.
– Eu poderia usar outro bruxo – disse a segunda voz, baixinho –, é verdade...
– Milorde, faz sentido – disse Wormtail, parecendo muito mais aliviado –, pôr as mãos em Harry Potter seria tão difícil, ele está tão bem protegido...
Ela se viu agachando para espiar pelo buraco da fechadura, embora tudo que conseguisse ver era uma poltrona virada de costas para a porta.
– E então você se oferece para ir buscar um substituto? Estranho... talvez a tarefa de cuidar de mim tenha se tornado cansativa para você, Wormtail? A sugestão de abandonar o plano não seria apenas uma tentativa de me abandonar?
– Milorde! N... não tenho nenhum desejo de deixá-lo, absolutamente nenhum...
– Não minta para mim! – sibilou a segunda voz. – Sempre percebo, Wormtail! Você está arrependido de ter voltado para mim. Eu o horrorizo. Vejo você fazer careta quando olha para mim, sinto você estremecer quando me toca...
– Não! Minha devoção a milorde...
– Sua devoção não passa de covardia. Você não estaria aqui se tivesse aonde ir. Como posso sobreviver sem você, quando preciso que alguém me alimente a intervalos regulares? Quem vai ordenhar Nagini?
– Mas o senhor parece tão mais forte, milorde...
– Mentiroso – sussurrou a segunda voz. – Não estou mais forte e uns poucos dias sozinho seriam suficientes para me roubar a pouca saúde que recuperei com os seus cuidados desajeitados. Silêncio!
Wormtail, que estivera resmungando incoerentemente, calou-se na mesma hora. Durante alguns segundos, ela não ouviu nada exceto o crepitar do fogo. Então Voldemort recomeçou a falar, num sussurro que era quase um silvo.
– Tenho minhas razões para usar o garoto, como já lhe expliquei, e não vou usar mais ninguém. Esperei treze anos. Mais uns meses não me farão diferença. Quanto à proteção que rodeia o garoto, creio que o meu plano funcionará. É preciso apenas um pouco de coragem de sua parte, Wormtail, e você encontrará coragem, a menos que queira sentir o peso da cólera de Lorde Voldemort...
– Milorde, tenho que falar! – disse Wormtail, agora com pânico na voz. – Durante a nossa viagem repassei mentalmente o plano, milorde, o desaparecimento de Bertha Jorkins não passará despercebido por muito tempo, e se dermos seguimento a ele, se eu enfeitiçar...
Bertha Jorkins... Ela ouvira o pai comentar com a mãe, em um tom de lamento, o desaparecimento dessa mulher. Bem, agora ela sabia que não era exatamente um sumiço, mas não sabia como dizer isso ao pai sem contar todo o resto.
– Se? – murmurou a segunda voz. – Se? Se você der seguimento ao plano, Wormtail, o Ministério jamais precisará saber que mais alguém desapareceu. Você fará isso em surdina, sem confusão; eu bem gostaria de fazer isso pessoalmente, mas na minha condição atual... Vamos, Wormtail, mais um obstáculo vencido, e o caminho até Harry Potter estará livre. Não estou pedindo que você aja sozinho. Até lá, o meu fiel servo terá se reunido a nós...
Sollaria sentiu um aperto no coração. Quem poderia ser o tal servo fiel a quem ele se referia?
– Eu sou um servo fiel – disse Wormtail, com um levíssimo traço de aborrecimento na voz.
– Wormtail, preciso de alguém com cérebro, alguém que nunca tenha vacilado em sua lealdade, e você, infelizmente, não satisfaz nenhum dos dois requisitos.
– Eu o encontrei – disse Wormtail, e agora decididamente havia irritação em sua voz. – Fui eu que o encontrei. Fui eu que lhe trouxe Bertha Jorkins.
Sollaria admirou brevemente a coragem de Pettigrew de ousar contradizer o amo.
– É verdade – disse Voldemort, parecendo achar graça. – Um lance de genialidade que eu nunca teria achado possível em você, Wormtail, embora, a verdade seja dita, você não fizesse ideia do quanto ela seria útil quando a pegou, não é?
– Eu... eu achei que ela poderia ser útil, milorde...
– Mentiroso – disse novamente Voldemort, a zombaria cruel mais acentuada do que nunca. – Mas não nego que a informação da mulher foi preciosa. Sem ela, eu nunca poderia ter traçado o nosso plano, e por isso você terá a sua recompensa, Wormtail. Vou deixá-lo realizar uma tarefa essencial para mim, uma que muitos seguidores meus dariam a mão direita para realizar...
– V... verdade, milorde! Qual...? – Wormtail parecia outra vez aterrorizado.
– Ah, Wormtail, você não quer que eu estrague a surpresa! Sua parte virá bem no finzinho... mas, prometo que você terá a honra de ser tão útil quanto Bertha Jorkins.
– O senhor... o senhor... – a voz de Wormtail saiu repentinamente rouca, como se sua boca tivesse ficado muito seca. – O senhor... vai... me matar, também?
Sollaria arregalou os olhos.
Pobre Bertha Jorkins... quem quer ela fosse, não merecia isso.
– Ora, Wormtail – disse suavemente Voldemort, a voz fria como gelo –, por que eu iria matá-lo? Matei Bertha porque precisei. Ela não servia para mais nada depois do meu interrogatório, completamente inútil. Em todo o caso, haveria perguntas embaraçosas se ela tivesse voltado ao Ministério com a notícia de que encontrara você nas férias. Seria melhor que bruxos fugitivos não esbarrassem em bruxas do Ministério da Magia em hotéis à beira de estradas...
Wormtail murmurou alguma coisa tão baixinho que ela não pôde ouvir, mas fez Voldemort rir – uma risada sem alegria, fria como a sua fala.
– Poderíamos ter alterado a memória dela? Mas os Feitiços da Memória podem ser desfeitos por um bruxo poderoso, como eu provei ao interrogá-la. Teria sido um insulto à memória da bruxa não usar as informações que ela me forneceu.
Sollaria obviamente ouvira muitas coisas a respeito do bruxo que matara os pais biológicos dela, e sabia o quão cruel ele poderia ser, mas nenhum relato jamais poderia se comparar ao que ela acabara de ouvir.
Pela forma que falava, frio e cruel, era perceptível que não havia um pingo de remorso em seu coração. Ele gostava daquilo.
Era um verdadeiro psicopata.
– Mais um feitiço... e com meu fiel servo em Hogwarts, se tudo acontecer conforme o plano... Harry Potter será praticamente meu, Wormtail. Está decidido. Não haverá mais discussões. Mas fique quieto... Acho que ouvi Nagini...
Um Comensal da Morte em Hogwarts?
Mas... quem?
Sollaria obrigou-se a voltar sua atenção à situação quando ouviu Voldemort sibilar coisas ininteligíveis. Estava falando em língua de cobra... por qual razão, ela não compreendia.
Foi quando ela ouviu um movimento às suas costas no corredor escuro. Virou-se para olhar e ficou paralisada de medo.
Alguma coisa deslizava em sua direção pelo chão escuro do corredor, e quando se aproximou da
nesga de luz, percebeu, com um choque de terror, que era uma cobra gigantesca, no mínimo, com três metros de comprimento. Ela passou por ele e desapareceu pela abertura do quarto.
Ainda paralisada de medo, percebeu que Voldemort voltara a falar em inglês.
– Nagini trouxe notícias interessantes, Wormtail.
Nagini era a cobra?, espantou-se ela.
– Ver... verdade, milorde? – respondeu o outro.
– Verdade. Segundo Nagini, tem um velho trouxa parado do lado de fora do quarto, escutando cada
palavra que dizemos.
Um velho trouxa...? Ela, é claro. Durante todo o tempo, observava a cena pelo ponto de vista dele. Provavelmente era o cuidador da propriedade.
Ela não teve a menor chance de se esconder, estava paralisada no local. Ouviu passos e, em seguida, a porta do quarto se escancarou.
Pettigrew parou diante dela, um sorriso estranho no rosto.
– Convide-o a entrar, Wormtail. Onde está a sua educação?
A voz fria vinha da poltrona. A cobra, por sua vez, se enroscara em um tapete podre diante da lareira, em uma medonha imitação de bichinho de estimação.
Pettigrew fez sinal para ela entrar. Engolindo em seco, ela compreendeu o que ia acontecer com o velho trouxa em seguida. Sem controle sobre o corpo dele, ela sentiu as pernas obrigando-a a cruzar o portal.
O fogo na lareira era a única fonte de luz no quarto; projetava sombras longas e aranhosas nas paredes. Ela sentiu os olhos fixarem o olhar nas costas da poltrona; Voldemort devia ser ainda menor do que Wormtail, pois não conseguia sequer ver a parte de trás de sua cabeça.
– Você ouviu tudo, trouxa? – perguntou a voz fria.
– Do que foi que o senhor me chamou? – Sollaria ouviu-se dizer, desafiando-o.
– Chamei-o de trouxa – disse a voz calmamente. – Isso quer dizer que você não é bruxo.
– Eu não sei o que o senhor quer dizer por trouxa – respondeu o trouxa, com a voz mais firme. – Só sei é que esta noite ouvi o suficiente para despertar o interesse da polícia, ah, isto eu ouvi. O senhor já matou uma vez e está planejando matar mais! E vou-lhe dizer outra coisa – acrescentou, numa súbita inspiração –, minha mulher sabe que estou aqui e se eu não voltar...
– Você não tem mulher – disse a voz fria, muito baixinho. – Ninguém sabe que você está aqui. Você não disse a ninguém que vinha. Não minta para Lorde Voldemort, trouxa, porque ele sabe... ele sempre sabe...
– É mesmo? – retrucou o velho com aspereza. – Lorde é? Ora, não tenho muito respeito pelos seus modos, milorde. Vire-se e me encare como homem, por que não faz isso?
– Mas eu não sou homem, trouxa – retrucou a voz fria, quase inaudível devido ao crepitar das chamas. – Sou muito, muito mais do que um homem. Mas... por que não? Vou encará-lo... Wormtail, venha virar minha poltrona.
O servo deu um gemido.
– Você me ouviu, Wormtail.
Lentamente, com o rosto contraído, como se preferisse fazer qualquer coisa a ter que se aproxima do seu senhor e do tapete em que se deitara a cobra, Pettigrew se adiantou e começou a girar a cadeira. A cobra ergueu a feia cabeça triangular e sibilou baixinho quando as pernas da poltrona se prenderam no tapete.
E, então, a poltrona ficou de frente para o velho e Sollaria viu quem — ou seria o que? — estava sentada nela. Ela abriu a boca e soltou um grito que não era dela. O homem trouxa gritou tão alto que a jovem bruxa nunca ouviu as palavras que Voldemort disse ao erguer a varinha, embora soubesse exatamente quais haviam sido. Houve um relâmpago de luz verde, e ficou escuro de repente.
A vários quilômetros dali, Sollaria Hyacinth Potter acordava assustada em seu quarto n'A Toca.
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